quarta-feira, 26 de março de 2008

RESPEITEM CHICO MENDES

Elenira Mendes

Sabemos que o meio acadêmico se constitui em ambiente ideal de questionamento dos padrões ditados pela sociedade. Todos que tiveram a oportunidade de cursar uma faculdade sabem do que estou falando, porém a liberdade de expressão no ambiente universitário jamais pode extrapolar o respeito ao indivíduo como pessoa detentora de padrões éticos e morais.

Podemos livremente questionar determinada ação de um individuo sem atingir mortalmente a sua honra, ou caluniar a sua índole. Podemos não concordar com os ideais de um grupo sem que haja animosidade e falta de caráter na crítica. Mas tudo isso só é possível se considerarmos que o sujeito que se expressa livremente seja alguém que detenha condições éticas, morais, emocionais e, acima de tudo, intelectuais para fazê-lo.

O conteúdo do blog Aldeia Sideral, sob a responsabilidade de alguns universitários do Iesacre, se revelou no mínimo degradante à memória das virtudes idealizadas em defesa da floresta por meu saudoso pai, o seringueiro Chico Mendes. É uma vergonha que no grupo esteja o estudante Francisco Costa, que já atua no mercado como repórter da TV Acre, emissora afiliada à Rede Globo. Como uma metralhadora anticultural, o grupo disparou uma rajada de inverdades acerca da figura de Chico Mendes, o que denota falta de equilíbrio intelectual ao publicá-las. Caso pretendam seguir a carreira jornalística, pelo tom que adotaram, deverão fazer parte do jornalismo marrom, sensacionalista e medíocre.

Como ficou provado pleno desconhecimento de tais universitários em relação à vida de Chico Mendes, recomendo que tenham a coragem de sair de suas salas de aula climatizadas, que abdiquem por algumas semanas das suas farras e visitem as comunidades seringueiras de Xapuri. Chico Mendes lutou para que o povo de sua terra tenha pleno domínio da verdade, visto que nos seringais não estava assegurado pelo poder público o direito fundamental à vida ou à dignidade de manutenção da vida.

Meu pai jamais direcionou sua luta àqueles que hoje e sempre estiveram ao lado dos ubres fartos do poder político. Se muitos dos amigos de luta dele estão no poder, isso decorre da verdade assumida democraticamente pelo voto da maioria. E também é a prova de que a ideologia de um mundo melhor, pregado por Chico Mendes, não era uma utopia, mas uma possibilidade real que podemos concretizar a cada dia.

Os estudantes de jornalismo do Iesacre, asseclas da imbecilidade dominante de certas classes, deveriam no mínimo aprender a respeitar a vida pessoal de figuras que na compreensão popular se concretizam como marcos de extrema significância. Chico Mendes é fator de sensibilização da continuação de um ideal, de uma realidade social mais digna a todos que estão à margem das políticas públicas.

Infelizmente, para universitários desse naipe, é bem mais prático acompanhar a disputa do Big Brother, saber a escalação dos times cariocas e paulistas, ou, ainda, folhear a ultima edição da revista masculina preferida, do que pesquisar de fato a vida de Chico Mendes.

É inconcebível que tenhamos ainda que suportar tamanha falta de conhecimento e de identidade cultural no contexto acreano a partir de jovens de uma universidade particular. Quiseram 15 segundos de fama afrontando a memória do movimento sindical, dos povos da floresta, ultrajando sobremaneira a figura do líder Chico Mendes.

Desnecessário relatar a importância que meu pai tem para lutas e conquistas que hoje beneficiam o povo do Acre. Mas quero ressaltar que os pretensos universitários deveriam aprender a analisar fatos históricos e não a deturpá-los.

Eles ofenderam à minha família e à memória do povo de Xapuri, que reconhece por direito o significado da luta de meu pai. Mas o que esperar de pessoas que certamente fazem parte de uma camada social que sempre se pautou por explorar a classe que Chico Mendes defendia?

Que a virtude da sabedoria desça sobre os universitários apedeutas e junto com ela o espírito da responsabilidade e da sensibilidade social.

Elenira Mendes é presidente do Instituto Chico Mendes.

13 comentários:

Leandrius disse...

To vendo que o blog andou revelando o verdadeiro Chico Mendes, aquele que muitos conheceram, porem foi totalmente modificado em sua essencia e aparencia para o mundo aplaudir e premiar... parabens aos estudantes... que todas as mascaras e farsas sejam derrubadas.

Siqueira disse...

Os blogs Acreanos andam agitados ultimamente...Os Leitores Agradecem!

Saudades do Acre disse...

Em respeito à memória de Chico Mendes e a todos os valores que essa memória representa, solidarizo-me com as palavras da Elenira, acrescentando, no entanto, que graças à posição firme do Altino, parece que os rapazes reconheceram a gravidade do gesto irresponsável, embora vindo a influenciar outras opiniões similares e imbecís.

Leandrius disse...

Opiniao imbecil tem quem defende um imbecil, certo? Defendo oque e bom para todos, nao defendo mentiras, farsas e falsos herois.

Jonas Amado Araújo disse...

Concordo com a Moça, quando defende Chico Mendes como seu Pai. Apenas como seu Pai. Nisso ela merece respeito de todos.

Mas como Chico Mendes - Defensor da Natureza e dos seringueiros, concordo com o Leandrius.

Acho a história do Chico Mendes obscura, aumentada. Mas respeito sua trajetória de vida e ideal.

Jonas Amado Araújo disse...

Altino, é impressao minha ou o Blog Aldeia Sideral sofreu um defacement por um admirador do Chico ?

Cartunista Braga disse...

Semana passada eu tive a honra de participar como ator, da reconstituição do assassinato do líder Chico Mendes, uma produção da rede Al Jazeera para um documentário sobre aquecimento global. Pergunta para os filhinhos da pauta: Porque um cachaceiro, preguiçoso teria adquirido respeito em todo o mundo, perturbado a vida de gente poderosa, ganhado aliados como a ONU, que lhe conferiu o prêmio Global 500 como defensor da ecologia e fora covardemente assassinado por fazendeiro corrupto? Quem é esse homem cuja vida e morte chamaram a atenção de uma emissora do porte da maior rede de notícias do mundo árabe, que alcança 250 milhões de pessoas de língua, religião e cultura totalmente diferentes das dele?

Leandrius disse...

Grande cartunista Braga, como disse o Chico que Al Jazeera e o mundo comprou foi o generico, aquele produzido pelas ongs, pela petralha e pelo Moacir (aquele que é bispo) e mais alguns aproveitadores

diego disse...

Senti-me de certa forma tbm atingido com a publicação de tais calúnias relacionadas ao grande herói seringueiro Chico Mendes. Sou Xapuriense de coração e sei da importância do lider Chico como revolucionário e grande ecologista que sempre lutou à favor dos povos da floresta e contra aqueles que se favorecíam com a exploração indevida e desordenada da floresta, tirando o seringueiro de suas terras... Creio que os colegas estudantes foram no mínimo irresponsáveis com tais comentários... Tbm creio que se o senhor que publicou comentários infames sobre Chico Mendes tivesse um pouquinho de amor ao Acre e à luta pela preservação do meio ambiente, bem como fontes exatas de pesquisa, tbm não tería se equivocado em tais comentários... Falsos Heróis? Quem seríam os verdadeiros? Fazendeiros e seringalistas? Vamos estudar mais sobre a nossa própria história!!!

Diego disse...

Aff... Difícil argumentar com quem não tem base histórica nenhuma...A difícil missão de defender a memória de Chico Mendes contra os "grandes fazendeiros" que fizeram do Acre, uma terra de conflitos muitas vezes usando argumentos que ferem o homem da floresta como ser humano que luta para sobreviver em um mundo tão injusto, onde o dinheiro fala mais alto e um "boi" vale mais do que a preservação da vida!!! (Nada contra os fazendeiros, e sim contra pessoas que se aproveitam de tudo para subirem na vida, degradando e destruíndo o meio ambiente) Continuo "batendo na mesma tecla": Vamos estudar um pouco mais... assim poderemos fazer comentários plausíveis e concretos, e não ofensas sem fundamento de pessoas que no mínimo são à favor de causas como o capitalismo sem escrúpulos que ocupava o Acre até o surgimento do líder seringueiro Chico Mendes!

Wesley Diogenes disse...

Lamentável isso bixo... O que se pode dizer de um povinhoo, que teve tudo sempre fácil, sempre pode comprar tudo e nunca pisou em uma floresta de verdade... mas fazer o que né?! alguns tentam crescer expondo idéias, outros tentam aparecer denegrindo a vida de outras pessoas, porque assim é sempre mais fácil, pega-se um gancho de alguém famoso e tenta aparecer, mostrar que é alguém inteligente ou um imbecil que tenta expor o que pensa de forma medíocre, é difícil promover alguma discussão saudável pra quem como elenira falou são ignorantes, o jeito é denegrir a honra das outras pessoas... Se acham que ele é um falso herói! Que ache isso com sua minoria e respeite quem acredita nisso... Já pensou se começássemos a falar que Jesus era uma cachaceiro safado, Acho que muitos iam se ofender por isso, né?
Poisée naum quero fazer comparação, estou apenas dando um exemploo...


Muito triste tudo isso...

mjlima.ac disse...

"O país que produziu alguns dos mitos olímpicos e dionisíacos do século XX – Pelé, Tom Jobim, Ayrton Senna, Ronaldo – criou também um herói trágico e transformou-o no proto-mártir da causa ecológica, um homem que precisou morrer para ser conhecido em sua pátria, ele que já era, como escreveu o New York Times, "um símbolo de todo o planeta"."
(Trecho de um artigo de Zuenir Ventura)

Cartunista Braga disse...

Para Elenira

Cara Elenira, o Chico que as pessoas denigrem e que você defende, não é o seu pai amoroso que acordava às três da manhã, tomava uma caneca de café, acompanhado de um belo naco de cuscuz e uma tapioca quentinha, carinhosamente preparados por sua mãe e saía, poronga na cabeça, estrada de seringa a dentro em busca daquelas coisas que todo mundo sonha.
Não, eles não se referem ao pai cuidadoso que te contava histórias e te ensinava coisas que só os pais sabem que são boas para os filhos.
Eles atacam é ao Chico Mendes, o guerreiro peito aberto, armado apenas com a língua, poderosa arma dos que querem transformar as coisas, mas que não é páreo para um projétil calibre doze no peito vulnerável.
Mahatma da Amazônia, que como este, silenciado à força e transformado em mito, como se sendo mito, pudesse ser silenciado.
Como se palavras em diminutivo pudessem mesmo diminuir o que representa o Chico Mendes, a força deste nome e do que só poderia ter acontecido se ele, o mito, não tivesse sido forjado a bala e derramado o sangue daquele seringueiro que tombou sobre seus pequenos braços.

“Triste do povo que precisa de heróis” Bertolt Brecht