terça-feira, 26 de dezembro de 2006

"FOLA TUBALÕES E SILIS"

Walmir Lopes

Hoje é Natal. Dia ensolarado, um convite ao lazer e ao ócio. E também, por motivos óbvios, à reflexão. Embora tenha decidido optar por aqueles, findei, de modo inusitado, nos braços desta. Recebi, aqui em Olinda, do meu filho João Guilherme, quatro aninhos, um presente, na forma de sabedoria inspiradora. Estávamos, eu e minha mulher Solange, decidindo aonde iríamos aproveitar o dia de feriado em família, quando nosso pequeno rebento adiantou-se e exigiu, com a característica insolência dos que sabem que mandam no pedaço:

- Quelo í à plaia, mas só pá bincá na aleia!

Traumatizado ainda pelo beliscão de um pequeno siri no dedão de um dos pezinhos algum tempo atrás e utilizando-se da existência de várias placas de advertência contra a presença de tubarões para embasar sua prudente decisão, reforçou enérgico:

- Painho, só na aleia, poque na água tem tubalão!

Ao tentar convencê-lo que não havia perigo em brincar na água, desde que fosse na beira, próximo à areia, lança mão de sua mini retórica e já meio irritado com minha insistência, sacudindo freneticamente os bracinhos abertos com as mãos espalmadas, em definitiva tentativa de convencimento:

- Paííínho, eu já disse que só na aleia, poque lá longe tem tubalão, mas na bêla tem muito silí, aí fica pió qui tubalão!

Convencidos eu a mãe por argumentos tão inquestionáveis, ficou consensualmente decidido que iríamos à praia, mas não entraríamos na água. E assim foi feito...

Já instalados num barzinho à beira-mar, observando o pequeno inimigo de Netuno a brincar na areia e refletindo entre uma e outra dose, sobre o que ouvira dele em casa acerca de tubarões e siris, não pude me furtar a conceber uma analogia entre os ilustres representantes da família dos esqualos e dos não menos respeitáveis familiares dos crustáceos e um grupo do cenário político nacional (que me perdoem aqueles, já que não tenho a menor intenção de ofende-los, até porque é quase nula, ou nula mesmo, a possibilidade de virem a ser confundidos com estes, haja vista que o habitat é bem diferente e o caráter deles, até prova em contrário, superior aos destes).

Isto posto, vamos ao raciocínio analógico: Através dos meios de comunicação vínhamos tomando conhecimento de atos predatório dos recursos públicos jamais expostos com tanta clareza ao público nacional, que em última análise é o maior interessado, embora não raro fique naquela posição de pai enganado que é o último a saber e ao qual não resta outra alternativa senão aceitar passivamente os fatos e os resultado posteriores, bons ou maus. As feridas antigas, agora expostas sem bandagens para escondê-las, vêm sendo sistematicamente tratadas pelos “médicos”, com os “ungüentos” necessários à sua cicatrização.

Observamos também que a mídia nacional focava sua lupa geralmente nos eventos ocorridos no poder central, enquanto as mídias regionais punham em relevo também as ocorrências de seu entorno, seja no plano estadual ou municipal, ficando o cidadão comum alijado do acesso às informações do que se passava nestes planos em outras regiões. Daí, por presunção, conclui-se que tais atos predatórios restritos aos planos mais próximos ao cidadão, ainda que de menor monta quando individualizados, nada ficavam a dever e até ultrapassavam, no somatório geral, o que ocorria nos andares superiores do poder.

Felizmente, devagar e sempre as coisas estão mudando. Acho bom, porque se não mudarem, eu serei o primeiro, de uma leva de muitos, que, de carona na sabedoria do meu pequeno guri, gritará a plenos pulmões:

- Fola com os tubalões, mas não esqueçam os silis!

O acreano Walmir Lopes é comerciante em Olinda (PE).

3 comentários:

Marcos Diniz disse...

Walmir Lopes, é um prazer ler seus brilhantes textos. A Leila arrumou um "oponente" de peso. É o castigo...

Leila disse...

Grande Marcos,

Vc tá vendo só a arapuca que montei para me capturar? O homem é bom de pena!
Estou muito feliz por ele ter caído na que eu e Altino armamos para ele. Caiu na nossa rede como um "mané besta"!
Imagine que talento estava perdido lá em Olinda, comendo agulha frita, tomando cerveja e vendendo serviços de informatização. Sobrinho do Padre José não puxa, herda!
Mas, apesar do castigo, estou muito feliz em poder ler a também conversar com essa figura.
Ganhamos todos os leitores e colaboradores do Altino.
Concorda?

"mané besta" é um lambari do litoral norte de São Paulo. É daqueles que pede para ser pescado!
Boas festa para vc e família!

Walmir de lima lopes disse...

Caro Marcos:

Agradeço sua bondade ao tentar me comparar a um “oponente” da Leila, embora apenas “por castigo”...
Você não tem idéia do bem que fez ao ego deste velho acreano. Suas palavras, certamente sinceras, não impedirão, contudo, que com a mesma sinceridade eu lhe retifique. Não pode o rude espinho, embora dividindo o mesmo ramo, ser “oponente” da generosa flor. Tampouco o servo, de sua majestosa rainha, ainda que compartilhando o mesmo palácio...
Mas a intenção valeu e ficamos por aqui com a promessa de continuar tentando fazer sempre o melhor para oferecer um lazer saudável a leitores gentis do seu naipe, objetivo maior de nossos rabiscos, embora no contexto de seu comentário, soasse melhor aos meus ouvidos a aplicação da palavra “aprendiz”...

Abraços