quarta-feira, 31 de maio de 2006

O RIO NÃO ESTÁ PARA PEIXE

A paulistana Laís Mussarra tem 19 anos, mora no Butantã, e escreve desde sempre. Trabalha numa empresa de informática na Avenida Paulista e estuda na Faculdade de Tecnologia do Estado de S. Paulo (Fatec). Perambulamos em Sampa no ano passado, depois que ela se tornou leitora e crítica assídua deste blog. Quando disse que via tanto futuro no brilho de seus olhos, Laís respondeu: "Eu também tenho muitas esperanças. Vou ser uma escritora e vou falar muito bem de você". Minha amiga decidiu abrir a gaveta para enviar a história seguinte.


Laís Mussarra

Um pouco adiante da várzea esquerda daquele rio, já adentrando na mata, Genário sentado sobre os calcanhares, amolava uma faca. Resmungava baixinho coisas que, de onde eu estava, não pude ouvir. Estação ruim aquela, em que os pássaros quase não voam, do verde da folha só sobra a estria vergada, de resto marrom. A manhã nascera rosada, agora já quase em seu fim, não mais. Dia seco de céu muito azul.

Colocando a faca na bainha levantou-se ligeiro, jogou a sacola nas costas e se dirigiu ao barquinho muito medíocre. Genário era homem já velho, de barba crescida escondendo as feições rudes de seu rosto; olhos grandes e redondos, e as mãos já apresentavam a gastura disforme de longos anos de pescaria: calo sobre calo. Pescador o era “desde piá” como costumava dizer, e orgulhava-se do ofício, o mesmo do pai, avô vida de histórias que os dedos não mais podiam contar.

O Sol a pino esquentava sua cabeleira e logo meteu o chapéu na cabeça; já no centro do rio jogou sua rede e pôs-se a, pacientemente, esperar o rebuliço dos peixes. Assim ficou, por uma, três, e na quarta hora e meia desistiu.

Na margem, agora transportava suas ferramentas, sua gastura, olhar comprido e peixe algum; com os pés atolados na lama, descansou as mãos na cintura. Olhou a vastidão. O vento resfria, mas parece que o dia não transpira, sempre a mesma visão. Sem muito alarde, vinha se aproximando um homem, cuja aparência nada diferia de Genário: roupa suja e cabelo emaranhado. Veio ao seu encontro e o saudou. Genário tirou o chapéu em cumprimento. Proseou rosto rente a rosto, baixo e discreto. Pude ouvir algo: “sujeito mole de corrida, sem faca ou pistola, deve para mim e mais uma dúzia; merece o merecido pois, além disso é ladrão de mulher, cá no meio do mato, quase o catei erguendo a barra de saia da minha dona, que vinha fazer oferenda no dia do Santo” dizia o homem, “ah! Não tarda a ver a casa do demônio, cabra safado” disse com raiva Genário, e dando uma quantia a ele, o homem saiu sem mais nada a recomendar.

Não hesitou em despender mais algumas horas, na beira do rio, para trabalhar em sua faca. O fez muito sério e compenetrado, sem pressa, como uma arte bela, que não vê tempo nem motivos para se parar. Já noitinha julgou boa hora aquela de ir embora, com a cesta vazia e a cabeça cheia foi-se. E foi no burburinho de fim de dia na vila, que Genário, recostado na parede de uma loja fechada viu sair do boteco, Tião. Jogou a ponta do cigarro fora e sabendo o caminho que o infeliz iria percorrer, segui-o até a ruela mais afastada do movimento habitual.

Tião cambaleava embriagado. Resmungava, ria, e certa hora, de tanto rir, agachou no chão tossindo feio. Ele estava coberto por uma sujeira grossa, de terra molhada que seca no corpo, e achando pouco, ainda no chão. Bebeu mais da garrafa que carregava. Levantou, apontou o dedo pro alto e ia proferir alguma frase vazia quando Genário o chamou. Prontamente virou-se para responder ao chamado, mas já estavam bem próximos um do outro e em um segundo sentiu a faca cravar-lhe certeira o coração. Arregalou muito os olhos, tanto que Genário pensou que iriam saltar em seu rosto. Vendo Tião já no chão, agarrado em seus pés, deu um chute a fim de ver seu rosto. O homem não mais podia gritar. Mais oito facadas, rasgando pele a todo canto do corpo. Isso não por maldade, mas porque Tião tinha “sangue ruim”, e como “vaso ruim é difícil de quebrar” quis certificar-se. . “Não mato ninguém pelas costas”.

Essa era a atividade secundária de Genário, e, se o rio não estivesse para peixe, primária.

14 comentários:

Mag disse...

Grande promessa! Texto bem afiado como a faca de Genário, o pescador.Salve menina!

Camila disse...

Acompanho nossa amiga Lais há muito tempo já... seu texto reflete o brilhantismo e alegria que está intrínseco em nossa artista!!! Parabéns Lala

Mariana disse...

Essa menina tem um grande futuro pela frente!
Laís, parabéns! que você possa sempre brilhar mocinha!
bjão

Saramar disse...

Altino, boa tarde.
Quando crescer, essa menina será um sucesso! Que belo conto!
Beijos

Mário disse...

Bom fecho, deixando vislumbrar o cenário amplo das relações de vida. Gostei.

Tiago Juruá disse...

Muito bom o texto. Com detalhes que nos fazem entrar realmente na história.
E a última frase fechou bem o texto.
Parabéns Laís. Sucesso.
Parabéns Altino por abrir espaço para esses talentos.
Abraço,

luciana disse...

Parabéns!!!! com certeza vc tem um futuro brilhante!!!

Luiz Prado disse...

Muito bom o conto, não pare nunca! Suspense, emoção, dá para ver a cara dos personagens!

::: Karenzinha! ::: disse...

Vc arrasa sempre, né Altino?

E a garota, escreve superbem.... maravilhosa! beijinhos para os dois....

Camila Novo disse...

A Laís dispensa comentários, ela esbanja grandeza em seus textos e seu modo de ver a vida!!! Desde de pequena tive a honra de dividir otimos momentos ao seu lado e muitos deles vendo a escrever suas incríveis histórias...

Juarez Nogueira disse...

Que a pena lhe seja leve. Bem vinda ao clube.

miguel disse...

eu sempre soube...sempre acreditei na tua visão do mundo....pena que esse mundo tão grande seja tanto interior como exterior porque se o exterior fosse bem mais pequeno eu ia querer entrar no teu mundo.....

miguel disse...

laís ??? vc sabe o que eu acho do que vc escreve....é sua alma reflectida de um mundo só seu....tanto que gostaria de o ter conhecido bem mais.....

Genário Peixoto disse...

Muito bem a Láis..queria saber, de onde surgiu o Genário.....