quinta-feira, 30 de março de 2006

AMAZÔNIA IRRITA ESCRITOR

Um furo exclusivo para os leitores deste blog: o próximo livro de Ruy Castro vai misturar história e ficção e terá como cenário o Brasil Imperial. Segundo o escritor, D. Pedro I e o personagem de um romance que começa com a frase "Era no tempo do rei", serão os protagonistas da obra.

- É algo tão bom que nem posso falar o nome - tentou despistar o autor de Carmen,
a história da brasileira mais famosa do século XX, que morreu aos 46 anos, vítima de uma carreira meteórica.

O personagem principal do romance que começa com "Era no tempo do rei" é Leornado-Pataca, de "Memórias de um sargento de milícias", do escritor Manuel Antônio de Almeida, que nasceu no Rio em 1831, era formado em medicina, mas nunca exerceu a profissão porque era jornalista por excelência.

Ruy Castro passou o dia ontem em Rio Branco como palestrante de um evento prestigiado basicamente por universitários dos cursos de letras e jornalismo. Estava bem humorado e, do alto de sua notável carreira, deu dicas sobre como um jornalista ou biógrafo pode apurar bem os fatos e fazer boas entrevistas.

Ele contou, por exemplo, que costumava redigir até 500 perguntas para seus entrevistados quando trabalhava na revista Playboy. Considera contraproducente o uso de gravador durante as pesquisas que realiza para escrever obras como a história da Bossa Nova ou as biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda.

Após a palestra, Ruy Castro foi jantar no restaurante "O Paço", o mais frequentado de Rio Branco, no Parque da Maternidade. Ficou surpreso com a ausência de comida típica acreana no cardápio, mas acabou se contentando com um caldinho de tucupi com jambu e uma caldeirada de peixe (filhote).

Enquanto jantávamos, continuamos conversando sobre literatura e comunicação. Ele ficou interessado em saber como funciona um blog e confessou que tem vontade de criar um, mas acha que não dispõe de tempo para abastecê-lo diariamente.

Permanecia bem humorado e contou histórias e piadas enquanto tomava suco de cajá. Quando o garçom saiu para buscar a sobremesa (duas bolas de sorvete de cupuaçu), sugeri que fôssemos para o ambiente interno do restaurante, pois estava vazio e gostaria de fazer uma curta entrevista para o blog.

- Vamos em seguida, aí a gente aproveita para tomar café - ponderou Ruy Castro.

E assim foi feito. Percebi que a luz estava péssima. Ocupamos uma das mesas e pedimos logo o café. Quando peguei a máquina fotográfica, que também funciona como gravadora de vídeo, os olhos de coruja do escritor pareceram bem maiores.

- O que é isso? - ele perguntou.

- É uma câmera que faz fotos e também grava vídeo. Farei a entrevista em vídeo.

- Puta merda! Por essa nem o Glauber Rocha esperava - comentou.

Quando apontei a câmera e perguntei se podíamos começar a entrevista, notei que o semblante bem humorado de Ruy Castro já havia desabado. Amuado, o escritor cruzou os braços e seguiu dando respostas evasivas e lacônicas.


Mas não se conteve e até sorriu quando perguntei se perdemos a chance de um país melhor quando ele se formou em sociologia e recusou buscar o diploma.

- Não. Acho que o que garantiu um país melhor foi o fato de eu não ter ido busar o meu diploma. Teria sido um sociólogo medíocre, como vários aí que chegaram à presidência da República - disse, sorrindo pela primeira vez, enquanto pegava a xícara com café.

Ruy Castro disse que o Brasil precisa voltar a ser governado por pessoas que sabem fazer política: mineiros, nordestinos, nortistas, menos paulistas, que, segundo afirmou, não sabem fazer política.

Quando questionei se isso seria preconceito, explicou:

- É só a constatação do óbvio. Paulista fazendo política é Adhemar de Barros, Maluf, Quércia, Pita, Lula, Marta Suplicy, Serra, Alckmin. Você acha que essa gente sabe fazer política?

O escritor ficou contrariado mesmo foi quando quis saber como ele acompanha o apelo que tem a Amazônia, o perigo que a região corre.

- Sou muito alienado. Não sabia nem que a Amazônia está correndo perigo. Eu sei que cortam muitas árvores, mas crescem de novo. Não é isso?

Argumentei que perdemos biodiversidade com isso.

- Extamente. Eu acompanho de longe isso, lamento profundamente, mas não sou um ativista desse tipo de causa. Se eu viesse mais aqui, eu teria mais informação e teria mais capacidade até de atuar.

Perguntei se o tema não o interessava como escritor.

-Sem dúvida, mas a Groelândia também me interessa, mas não sei nem onde fica direito a biodiversidade da Groelândia, da Patagônia. Também é importante, mas eu não sei onde fica direito. Acho que você está entrevistando o cara errado.

Ruy Castro havia dito durante a palestra que quando elaborava as 500 perguntas para seus entrevistados na Playboy, complicava-os ao soltar as mais amenas no começo das entrevistas, reservando as mais picantes para o final.

Desde o começo da entrevista, o escritor parecia ter incorporado um caboclo rabugento da floresta, especialmente a partir das perguntas sobre a Amazônia. Seguimos conversando, quando ele tentou recuar.

-Essa entrevista vai ferrar minha reputação. Vai entrar no maldito blog e o país inteiro vai ver essa porra. Só porque decidi ser legal com ele. Aí ele me faz um monte de pergunta sem sentido, ouve um monte de respostas bobas e vai e bota no raio do blog dele e me fode. É isso o que ele quer.

O mais incrível é que Ruy Castro realmente bebeu apenas suco de cajá. Assista a trágica entrevista, sem cortes.

3 comentários:

Paula disse...

Mas Altino, o Ruy deve se achar...digamos, desprovido de beleza. Eu também não iria gostar de ser filmada nessas câmeras - a gente fica horrível! ;)

Bom, mas se concentre no lado bom. O povo do jornal onde trabalho morreu de vontade de entrevista-lo no lançamento de "Carmem" e nunca que conseguiu. Você, além do feito, ainda foi jantar com ele. É prestígio demais, homi. Sobremesa, cafezinho?! Ai, que inveja!!! Sem falar que você guarda uma relíquia aí. Já tenho até a idéia pra um título: "O dia em que eu consegui irritar Ruy Castro".

Pena somente o vídeo não ter aberto aqui em casa. Humpft!!!

Abraços!!!

Antônio Mello disse...

Entrevista não é merchandising.
Nem entrevistador é levantador de vôlei.
O seu blog, Altino, cumpre a função importantíssima de mostrar para o Brasil uma visão da Amazônia.
E o que os brasileiros pensam - ou, no caso, não pensam - dela.
Sou leitor.

Forte abraço

Márcia Corrêa disse...

Li a entrevista e vi o vídeo. Até agora não entendi o motivo da irritação do Ruy Castro com as suas perguntas. Mostrei à minha amiga Ana Girlene Oliveira, também jornalista, e ela ficou estupefacta com o tom desdenhoso com que ele se referiu às questões da Amazônia. Esse senhor estava num péssimo dia ou é mais um caso de estrelismo abalado. E a gente recebe tão bem essas criaturas. Estende tapete e oferece sorvete pro cara dizer que derrubam árvores, mas elas crescem depois ou que na Groelândia também tem biodiversidade e ele nem sabe onde fica. Tá claro que é mais um vaidoso em busca de afagos ao seu opulento ego.