segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Tabaco faz bem


Concordo com todos aqueles que dizem que a indústria do fumo será reconhecida como o maior atentado à saúde pública em toda a história da humanidade. Mas isso não serve para quem desfruta do tabaco da mesma maneira que as populações tradicionais da Amazônia, sobretudo em rituais mágicos-religiosos.

Há seis anos deixei de consumir os torpedinhos da indústria do fumo e passei a usar o tabaco cultivado por índios e seringueiros do Acre e Rondônia.

Posso afirmar que agora fumo com qualidade: não sinto mais pigarro, perdi a compulsão pelo vício, posso passar dias sem fumar e tenho economizado algum dinheiro porque o tabaco é infinitamente mais barato e não é qualquer filador que aceita o aroma forte de um porronca picado.


Na semana passada, o jornalista Toinho Alves, também adepto da magia do tabaco natural, trouxe pedaços de um delicioso, do Vale do Juruá, que me motivou a escrever essa nota e tirar algumas fotos dessa tradição amazônica.

Outro amigo, o Braz Cunha, lá de Porto Velho (RO), também trouxe meio molhe (mói, dizem os caboclos da Amazônia) de um tabaco impermeabilizado com látex - geralmente são usados enviras e cipós variados para isso.


Sei que o antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias, amigo e aprecidor de tabaco natural, vai ler isso e sentirá vontade e saudade de quando fuma um com seus amigos índios.

Pois bem, entre um porronca e outro, anteontem, Toinho Alves contou-me a seguinte história:


- Contam que aconteceu quando os europeus chegaram à terra que, depois, chamariam de América. Um deles viu um índio caminhando na praia. O nativo trazia nas mãos uma cana-de-açúcar e algumas folhas de tabaco; na cabeça, ornamentos de ouro. O europeu apontou sua arma e abateu o índio com um tiro certeiro para roubar-lhe os objetos. Antes de morrer, porém, o índio teve tempo de lançar uma maldição. Olhou para o branco e disse: “A cana que me adoça a boca fará cair os teus dentes; o tabaco que me cura e faz viajar adoecerá tuas entranhas e teu peito; o ouro que me ornamenta a cabeça enlouquecerá tua mente”. Desde então, tem sido assim.

A partir do século XVI, o uso do tabaco disseminou-se pela Europa, introduzido por Jean Nicot, diplomata francês vindo de Portugal, com utilização até para curar as enxaquecas de Catarina de Médici, rainha da França. Suas folhas foram comercializadas sob a forma de fumo para cachimbo, rapé, tabaco para mascar e charuto.

No final do século XIX, iniciou-se a sua industrialização sob a forma de cigarro. Seu uso espalhou-se de forma epidêmica por todo o mundo a partir de meados do século XX, ajudado pelo desenvolvimento de técnicas avançadas de publicidade e marketing. A folha do tabaco, pela importância econômica do produto no Brasil, foi incorporada ao brasão da República.

O secretário de Floresta do Acre, Carlos Ovídio Duarte, me disse que está sendo feita uma sondagem do potencial da significativa produção de tabaco no Vale do Juruá. Tomara que dê certo.

As populações tradicionais podem melhorar suas condições de vida com o comércio de um tabaco de primeira qualidade. Não sei se as condições favorecem a produção de charuto por aqui, mas tenho certeza de que teremos porronca para competir em qualidade com qualver havana.


O tabaco, usado como os povos tradicionais da Amazônia usam, é medicinal. Faz bem pra saúde física e espiritual.

MIGANDO


O tabaco deve ser migado com uma faca bem afiada; quanto mais fino forem suas fatias, mais saboroso e fácil de confeccionar o cigarro. Faço isso sobre um cepo de cumaru-ferro.

É PRECISO AQUECER


Após ser migado, o tabaco deve ser aquecido numa panela, em fogo brando, até que haja a retração, causada por leve perda de sua umidade.

DESFILIBRADO


Após ser aquecido, o tabaco deve ser desfilibrado com as mãos e estará pronto para uso.

SABOR E MAGIA


Pronto, um porronca compete em sabor e magia com um havana da marca Montecristo, por exemplo.

13 comentários:

Mácia disse...

Até eu que não gosto de fumaça fiquei a sentir forte o cheiro desse tabaco. Combina com vinho?

Márcia disse...

Errei meu nome, pode? Culpa do vinho...

Mário disse...

Não Marcia / fumar tabaco só combina com câncer de laringe, de boca e de pulmão. A possibilidade de funcionar como medicina será por outro tipo de aplicação - que não sei qual , mas mesmo alguns conhecidos venenos funcionam como medicina se usados em doses mínimas e sob rígido controle.

Guilherme disse...

Não há incidencia de qualquer tipo de câncer entre os indios. Tabaco é medicina se fumado correto sim. Digo isso de experiência própria. Bom Marcia, não costumo misturar esse tabaco com bebida alguma, pois o alcool leva a outro estado de consciência, o que acaba "estragando" a meditação com o tabaco.
Há bons tabacos de corda aqui no sul também. Arapiraca e 7 cordas estão entre os mais apreciados pelos Guaranis.
gostei do artigo, um abraso
Guilherme

Luis Marcelo disse...

Artigo interesantíssimo, sobre todo nestes dias de total intolerancia com o tabaco. Eu, que fumo puros e cachimbo há bastante tempo, consumo muito os fumos de corda, especificamente o Arapiraca, de Alagoas.

Adorei o artigo. E se o senhor Altino me permite, gostaria de acrescentar um comentário sobre a técnica de preparação destes fumos: eu, uma vez cortada a corda com faca, desfio o tabaco (quando a minha nega não está em casa) no liquidificador, mas com o botão pulsador, para ir regulando o corte. Depois penero o fumo com a penera comum, a do macarrão; o fumo que passa pela penera (o mais fino) o utilizo para armar os meus cigarros, o outro, para fazer mixturas para cachimbo!!!!

Parabéns pelo blog!!!!!

LUCHO

luchopan@gmail.com

Terramel disse...

Excelente artigo! Eu que adoro fumar o meu cigarrinho de palha com meu fuminho goiano dou nota 10 :D

Abraços
do Terrinha

renovado disse...

kkkkkkkkkkkk quase morri de rir
eu era garoto com meus 16 anos
eu ia dormir na casa de meu tio, isso na bahia e la pelas dez da noite ia dormir na roça é claro se dorme cedo,
eu e as primas e primos cada um fazia um cigarrinho de fumo de rolo
como é conhecido
fazia o cigarrinho e fumava pra ficar bebado e dormir mais rapido.

Ìgneo Deorum disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ìgneo Deorum disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo A Lima disse...

TENHO DESTE TABACO MOI DO VALE DO JURUÁ, INTERESSADOS entrar em contato no email : paulolimaterra@gmail.com

Paulo A Lima disse...

TENHO DISPONÍVEL ESTE TABACO DO ALTO DO VALE DO JURUÁ-AC, Interessados entrar em contato no email: paulolimaterra@gmail.com

jose ricardo de souza disse...

Amigo,tenho interesse em comprar fumos para cachimbo,meu e-mail. Souza.jr2010@bol.com.br

Eduardo A F de Oliveira disse...

O fumo de corda está me ajudando a parar de fumar cigarros industrializados, já não sinto a louca necessidade que tinha, não fumo tragando, apenas pitando e me sinto muito bem sem a indústria tabagista, sou da cidade de São Paulo, tenho 33 anos e desde os 14 fumei o industrial. Faz apenas 1 mês que estou nessa experiência muito valorosa com o fumo Arapiraca, os índios sabem o que fazem.

Gratidão aos índios e ao Altino Machado.

Abraços!