terça-feira, 16 de outubro de 2007

AC TEM MELHORES SALÁRIOS QUE SP

Mas o custo de vida é mais elevado

O Blue Bus, um dos sites mais visitados pelo povo da propaganda e marketing, além de jornalistas, destacou o seguinte comentário do leitor Richard Jakubaszko:


- Há um grande engano nesse raciocínio de 'salários melhores', seja no Acre ou mesmo no Brasil-Central, materia da Folha de ontem (aqui), assunto levantado no Blue Bus pelo leitor Pedro Mendes (aqui). Os salários até podem ser melhores, mas pouca coisa, e apenas em alguns segmentos, mas o custo de vida é mais alto do que em Sao Paulo ou Rio de Janeiro. Lá, o aluguel é mais barato, e a mao-de-obra (médicos, dentistas, diaristas, mecânicos etc), e os alimentos locais típicos. Mas os alimentos 'importados' do Sul e Sudeste, os industrializados, sao muito mais caros, pelo transporte e pela inclusao de mais atravessadores. Assim também roupas, eletro-domésticos, remédios, tudo é mais caro por lá. A classe média, lá no Acre, portanto, tem um custo de vida mais elevado do que em Sao Paulo.

◙ A questão gera polêmica. No município de Santa Rosa do Purus, por exemplo, o litro de gasolina custa R$ 8,00. Alguém sabe informar quanto custa o quilo de sal ou açúcar no alto Taraucá? Ou uma lata de leite ou óleo no alto Juruá? E o preço da pólvora? Em algumas localidades do Acre não basta ter dinheiro para que se possa comprar e medir o custo de vida. Ninguém tem despesa com aluguel de casa ou escola particular em Santa Rosa. Quem se der ao trabalho de pesquisar, vai constatar que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é a medida comparativa de riqueza, alfabetização, educação, esperança de vida, natalidade e outros fatores, era usado no Acre pelos petistas contra seus adversários políticos. Agora o IDH é considerado insuficiente e injusto pelos petistas. O governador Binho Marques está criando o IDH da Floresta. Portanto, sendo a relação com dinheiro tão diferente, como comparar?

CORUJA DO DIA


Nanquim e aquarela sobre papel (100 x 70 cm, 2007), do artista plástico Fernando França. Clique sobre a imagem.

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Destaque para um leitor anônimo:

- Leio sempre que a educação pública no Acre vai muito bem e até que os professores recebem os melhores salários do país. Por que os filhos do governador [Binho Marques, ex-secretário de Educação] e da maioria de seu pessoal de confiança estudam em escolas particulares?

◙ No ano passado, no Ceará, o empresário Atilano Ayres de Moura, foi candidato a deputado federal fazendo a defesa da obrigatoriedade de escolas públicas para filhos de políticos. Não foi eleito. Posteriormente, o senador Cristóvam Buarque criou um projeto de lei. Quem for eleito no País teria que pôr seus filhos em escolas públicas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

RANKING DA EDUCAÇÃO

Comentário do jornalista Luciano Martins Costa no programa Observatório da Imprensa no Rádio:

"A Folha gosta de rankings, e nem sempre sua metodologia justifica a notícia, mas desta vez o estudo sobre a situação dos professores parece bem fundamentado.

O jornal levou em conta o piso inicial de um professor estadual com licenciatura plena, ou seja, formado em curso superior, e também considerou as diferenças representadas pelas gratificações.

O levantamento mostra que, nos Estados onde os professores ganham mais, o aproveitamento dos alunos também tende a ser melhor.

Ponto para a Folha, que soube marcar a data com uma reportagem centrada no personagem do dia.

O lamentável é que, provavelmente, o interesse do jornal vai parar nesse levantamento. E mais um dia do Professor terá passado sem que a imprensa tenha criado a oportunidade para a valorização do magistério".

◙ Meu comentário: É surpreendente a crítica da Folha ao governador José Serra. Não costuma criticá-lo nem mesmo indiretamente. O jornal já tentou queimar Ciro Gomes e Aécio Neves, mas ainda poupa Serra. A próxima pode ser a ministra Dilma Rousseff, que seria a candidata de Lula para sucedê-lo.

ACRE É MANCHETE NA FOLHA

Professor de SP ganha 39% menos que do AC



Ranking dos salários de docentes da rede estadual em início de carreira traz SP, que tem o maior Orçamento entre os Estados, em 8º lugar

Se for levado em conta o custo de vida, a diferença entre São Paulo e Acre, que lidera a lista de melhores salários, aumenta para 60%

Daniela Tófoli

Os professores em início de carreira da rede estadual paulista recebem salário 39% menor do que os do Acre. Enquanto um docente com formação superior e piso inicial de São Paulo ganha R$ 8,05 por hora, o colega acreano recebe R$ 13,16. Se levado em conta que o custo de vida lá é menor, a diferença aumenta para 60%.


O ranking dos salários do país mostra que o Acre lidera a lista dos Estados que pagam melhor seus professores em início de carreira, seguido por Roraima, Tocantins, Alagoas e Mato Grosso. São Paulo vem em oitavo lugar, apesar de ter o maior Orçamento do país. Pernambuco tem o pior salário.

A remuneração acreana, porém, ainda não é a ideal para especialistas. "O baixo salário dos docentes é uma questão histórica no país. Basta ver o de outros países da América Latina, como Chile e Argentina, que são maiores", afirma Célio da Cunha, assessor especial da Unesco no Brasil. Para ele, o salário baixo é uma das explicações para a má qualidade do ensino. "Um salário justo motiva os professores."

O salário um pouco melhor no Acre começa a dar resultado. Prova disso pode ser a análise do Saeb (exame do MEC que avalia estudantes), divulgada em fevereiro. Na comparação entre 2003 e 2005, o Acre foi onde as médias dos alunos de 4ª série mais evoluíram. Em português, houve aumento de 13,8 pontos (de 156,2 para 170). Já São Paulo melhorou 1,1 ponto (de 176,8 para 177,9).

"Um docente bem pago trabalha melhor, sem dúvida", diz a professora da Faculdade de Educação da USP Lisandre Maria Castello Branco. Para ela, os governos continuam mais preocupados em melhorar a estrutura das escolas do que em investir no docente.

No Acre, os professores se organizaram para pressionar o governo, que criou um plano de carreira. "Houve também uma reorganização que tirou docentes de funções burocráticas e os colocou na sala de aula, permitindo melhor uso dos recursos", diz Mark Clark Assem de Carvalho, da Universidade Federal do Acre.

A maioria é formada no Estado e não há falta de docentes. Mas eles reclamam de salas lotadas.

Em São Paulo, a situação se agrava se levado em conta o custo de vida. Um professor que trabalha 120 horas por mês (30 por semana) tem salário de R$ 966 e consegue comprar 4,9 cestas básicas. Já o do Acre recebe R$ 1.580 e compra 12,6. Ou seja, a diferença do salário/ poder de compra chega a 60%.

Para comparação, a reportagem considerou a cesta básica de setembro. A paulista tinha 13 itens e custava R$ 194,34. A do Acre -com um item a mais, a carne de frango-, R$ 124,47.

A secretária de Educação da gestão José Serra (PSDB), Maria Helena Guimarães de Castro, não deu entrevista sobre o assunto. Sua assessoria pediu que fosse procurada a Secretaria de Gestão, responsável pelos salários dos docentes. Esta também não se pronunciou.

A única explicação dada pela Educação foi a de que, em São Paulo, os professores já iniciam a carreira recebendo gratificações. Mas no Acre, assim como em boa parte dos Estados, também é assim. Para calcular os salários por Estado, nenhuma gratificação foi contabilizada, pois a maioria pode ser cancelada e não é incorporada no cálculo da aposentadoria.

O levantamento considerou o piso inicial de um professor estadual com licenciatura plena (ensino superior). Conforme a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), 25% dos docentes do país estão em início de carreira. Em São Paulo, segundo a secretaria, são 26%.

Os salários foram fornecidos pela CNTE, e a reportagem procurou todos os Estados para checar as informações. Dezessete retornaram o contato. Quatro tinham dados diferentes (BA, PE, PR e SP), que foram corrigidos para o cálculo.

◙ Daniela Tófoli é repórter da Folha de S. Paulo

SUELLEN VERÇOSA


Sou a música da vida
O ritmo da dança
A brisa de verão
O canto dos pássaros
Um refúgio para as almas desoladas

Sou a mártir
A lua e a bruxa

Sou o contemplar das estrelas
O mais puro e infame desejo
A mais bela das rosas
O mais sanguinário pecado
A luz mais clara
O céu mais belo
O mais majestoso dos dias

A maior inspiração


◙ Destaque para o blog da poetisa acreana Suellen Verçosa, 19, estudante de biologia e jornalismo da Universidade Federal do Acre. Vai ser difícil os deputados estaduais competirem com blogs assim. Clique aqui.

O PAC NO ACRE

O governador Binho Marques (PT) conseguiu emplacar uma na seção de cartas da revista Veja da semana. Diz ele:

"Em relação à nota "Tem buraco na estrada" (da coluna Radar da edição 2 029 da revista VEJA), faz-se importante esclarecer que o Tribunal de Contas da União (TCU), no acordão mais recente sobre o asfaltamento da BR-364 no Acre, dá ciência ao Congresso Nacional que as questões apontadas "não exigem, até o momento, a paralisação da execução física, orçamentária e financeira" da obra. Quanto às observações apontadas na coluna, por serem de caráter eminentemente técnico, o TCU, órgão competente para avaliar e julgar o assunto, como já ocorreu em outras fiscalizações, determinou que mais elementos fossem juntados ao processo, o que está sendo feito no momento por profissionais habilitados. Outros itens já foram levantados, mas justificados e acatados pelo TCU. Temos certeza de que todas as observações indicadas serão devidamente esclarecidas. No mais, fique certo de que, para o nosso governo, é questão de honra e de vida que as obras aconteçam dentro da legalidade e, acima de tudo, para atender ao interesse público".

◙ Eis a nota do colunista Lauro Jardim na edição 2.029: "Se há algo que poucas vezes se viu na história deste país é um relatório como o que foi votado pelo TCU na semana passada. Ele descreve uma avalanche de irregularidades em obras do PAC no Acre. Estão todas lá, na construção do trecho da Rodovia BR-364, que liga as cidades de Sena Madureira e Cruzeiro do Sul. Quem quiser entender o que aconteceu nem precisa decifrar termos como "quantificação superestimada de volumes de escavação" ou "previsão antieconômica de utilização de motoscrapers". Basta saber que é maracutaia".

domingo, 14 de outubro de 2007

DO TEMPORÁRIO AO TEMERÁRIO

Eliane Cantanhêde

O senador Tião Viana (PT-AC), que acaba de ser empurrado para a presidência do Senado na dramática circunstância da licença-renúncia de Renan Calheiros, tem uma história respeitável. É desses médicos que põem a mão na massa, vão aos rincões, pesquisam as doenças transmissíveis que mais afetam pobres e miseráveis.

Na política, integra um tripé que mudou o Acre no fundamental, junto com seu irmão, Jorge Viana, engenheiro florestal que foi governador duas vezes, e Marina Silva, cabocla que concluiu faculdade e é ministra do Meio Ambiente.

Numa complexa aliança com procuradores, promotores, jornalistas, policiais, padres e ONGs, eles conseguiram derrotar o que parecia "inderrotável": um esquema que tinha um governador com "n" CPFs e um líder de votos para a Câmara que, entre otras cositas, serrava os adversários -vivos! O nosso velho conhecido Hildebrando Pascoal, cassado e preso.

Apesar desse perfil, ou justamente por causa dele, Tião Viana é conveniente para quebrar um galho, não para assumir a presidência para valer e tentar botar a casa em ordem pós prorrogação da CPMF. Ele é verde, meio inocente, e a tarefa é para maduros e nada inocentes.

Como José Sarney, que já foi presidente da República e do próprio Senado, tem apoio de Lula, é aliado de Renan, tem comando sobre o PMDB, é meio suprapartidário e... quer. Não é de hoje que Sarney faz o oposto dos meros mortais: quanto mais some, mais está articulando. E ele escapuliu para a Argentina.

A cadeira em disputa, porém, tem ejetado presidentes e ex-presidentes, como ACM, Jader e agora Renan. Sentar ali é correr risco, é entrar na linha de tiro. As investigações sobre Renan acabaram resvalando para seus irmãos e braços direitos, como Almeida Lima e Wellington Salgado, que são só coadjuvantes. O protagonista na política é Sarney. Ele sabe o que o espera?

◙ Eliane Cantanhêde é colunista da Folha de S. Paulo

sábado, 13 de outubro de 2007

COISA DE VAGABUNDO NA ASSEMBLÉIA


Quando Antonio Alves e eu passamos a publicar nossos blogs a partir do Acre, no começo de 2004, o melhor elogio que recebemos de algumas autoridades foi que a iniciativa era "coisa de vagabundo". Não era, mas a moda da vagabundagem ainda pega por aqui.

Leio no site da Assembléia Legislativa que assessores parlamentares estão sendo treinados para gerenciar o conteúdo dos blogs dos 24 nobres deputados estaduais.

A iniciativa é da Mesa Diretora com o propósito de dar mais transparência ao Poder Legislativo. O presidente da Casa, deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), disse que será uma experiência inovadora.

- A internet tem ocupado cada vez mais espaço na opinião pública, principalmente no Acre, onde a política tem debate intenso. É preciso que os parlamentares externem suas opiniões. Os blogs vão permitir que a comunidade saiba o que pensa cada deputado.

Que vai ser divertido, vai. Vale a pena reler o primeiro post do Toinho. No segundo, ele comenta sobre a exoneração do Txai Terri Aquino da função que ocupava na Funai, em Brasília. Clique aqui.

CHORO BANDIDO

De Edu Lobo e Chico Buarque (1985), para a peça "O corsário do rei", de Augusto Boal. No vídeo abaixo, Mauro Senise (sax alto), interpreta a canção, acompanhado de Itamar Assiere (piano), Paulo Russo (contrabaixo), Ivan Conti (bateria) e Gilson Peranzzetta (arranjo).



Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

R$ 8 BI PARA REDUZIR DESMATAMENTO

A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) apresentará na próxima semana uma emenda parlamentar de R$ 8 bilhões ao Orçamento Geral da União para gerar incentivos, como assistência técnica e compensação financeira, aos produtores rurais da Amazônia que consigam reduzir o índice de desmatamento em suas propriedades.

O aporte financeiro viria de uma previsão orçamentária indicada no relatório do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), que eleva em R$ 13,8 bilhões a previsão de receitas primárias brutas para o ano que vem. O relatório será votado no Congresso na próxima semana.

A deputada quer contemplar, ainda, programas mantidos pelo governo, como a contratação de fiscais ambientais, de incentivos para manejo sustentável e criação de unidades de conservação.
A proposta será levada às bancadas do Norte, para que seja defendida pela Comissão da Amazônia e pela Frente Parlamentar "Amazônia Para Sempre".

- O desmatamento é um dos problemas que o Brasil terá que enfrentar nas próximas décadas, durante as negocições mundiais para o controle do clima. Embora o país tenha reduzido pela metade o índice de devastação, há a necessidade de estimular os agricultores a plantar, produzir e sobreviver sem agressão ao meio ambinete e sem comprometer as futuras gerações - argumenta a deputada.

ENTREVISTA - TIÃO VIANA

Leandro Colon


O PT não esconde o desejo de ver Tião Viana (PT-AC) efetivado na Presidência do Senado. Após o afastamento de Renan Calheiros (PMDB-AL), o petista até já marcou reunião de líderes para discutir votações e promete tentar aprovar até dezembro a prorrogação da CPMF.

O senador conversou ontem com o Correio. Na entrevista, ele nega que, nesses 45 dias de interinidade, tentará se cacifar para conseguir apoio numa eventual renúncia de Renan ao cargo. “Pelo regimento, daqui a 45 dias, Renan estará de volta. Como vou tomar uma atitude golpista, insensata, ou oportunista para querer um espaço pessoal de poder?”, disse. “Eu quero te dizer que estou vacinado daquela doença da fogueira das vaidades e da mosca azul”, ressalta.

Primeiro vice-presidente do Senado, Viana minimiza a crise entre PT e PMDB. Diz que não teme uma retaliação peemedebista pela postura petista de cobrar a saída de Renan. “Essa crise gerou instabilidade em todas as bancadas”, afirmou.

O presidente interino do Senado ainda defende mudanças no regimento da Casa e busca um discurso de unidade, embora reafirme a todo momento que não tem intenção de ficar no cargo.
Nada de golpismo no Senado

Nada de golpismo no Senado
Presidente interino nega que vá se cacifar de olho numa eventual eleição para o comando da Casa

O senador Renan já disse a amigos que não acredita em retorno à Presidência. O senhor trabalha com a hipótese de passar dos 45 dias no cargo?
Olha, tenho o dever, na solução interina que estou, de ter muita responsabilidade política. Minha primeira missão é de lealdade com a instituição do Senado e os senadores, acima de qualquer interesse partidário ou pessoal envolvido nesta questão. Acho que devo ter plena ciência do meu limite da condição de interino. Legitimamente, quem deve ter qualquer pretensão além disso tem que reunir a maioria. Ou seja, se alguém tiver algum tipo de pretensão, que se apresente . Não darei um passo para subtrair o direito do senador Renan.

O senhor então descarta uma eventual candidatura para sucedê-lo, caso ele renuncie ao cargo?
Pelo regimento, daqui a 45 dias, o senador Renan estará de volta. Como vou tomar uma atitude golpista, insensata, ou oportunista para querer um espaço pessoal de poder?

Mesmo que tenha apoio consensual dos colegas de outros partidos e do PT?
Eu quero te dizer que estou vacinado daquela doença da fogueira das vaidades e da mosca azul.

Como ficou sabendo da licença de Renan?
Ele me ligou uma hora e meia antes da decisão. Disse que estava tomando aquele caminho. E externei a ele o mais elevado respeito.

Como o senhor avalia essa decisão?
Ele fez um gesto a favor do distensionamento, está permitindo que se busque a pacificação do ambiente político do Senado. Acho que nenhuma atitude de quem quer que seja, e principalmente minha, deverá ser para trazer qualquer tipo de conduta que venha tripudiar em cima da condição que ele está vivendo. Deveremos ser serenos e éticos no caso envolvendo o senador Renan Calheiros.

Renan e aliados criticam a postura do PT pela pressão a favor da licença dele do cargo. O senhor não teme uma retaliação por parte do PMDB?
Essa crise gerou instabilidade em todas as bancadas. O PMDB foi a maior expressão disso, desse juízo de valor da crise. E o PT, por sua natureza histórica, já vive opiniões fortes e, às vezes, não compatíveis com a maioria do núcleo partidário. Isso faz parte da vida do PT. Quem conhece o PT não se surpreende com esse tipo de comportamento. Agora, precisamos reduzir a disputa em defesa do interesse da instituição.

O PT está agora com as presidências da Câmara, do Senado e da República. Não é muito poder para um só partido?
Me sinto muito à vontade, porque exerci nesses 150 dias de crise a função de vice-presidente de inteira lealdade à função. Não fiz absolutamente nada do meu esforço para prejudicar Renan e nada para defendê-lo. Prefiro ver que a condição que o Senado vive é de interinidade. Terei 45 dias para cumprir normas regimentais, fazer a defesa justa da instituição. Quero romper o paradigma que estamos vivendo de que não podemos encontrar a ética entre a base do governo e a oposição.

A oposição sempre considerou Renan um aliado e porta-voz do governo no Senado. Como garantir que o senhor, do PT, não vai agir da mesma maneira?
Não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer no governo federal um extraordinário acerto nas políticas públicas, na área econômica, na política externa do Planalto. Agora, isso não vai me impedir de ter, como prioridade, a lealdade à instituição. É um ato de honra. É preciso dar transparência.

Qual será seu primeiro ato como presidente do Senado?
Convoquei uma reunião da Mesa para segunda-feira para refletir sobre a necessidade de pacificarmos o ambiente político na Casa. Isso é muito importante. É a primeira medida que os 81 senadores querem para que possamos preparar uma pauta de agenda legislativa, e, ao mesmo tempo, discutir pontos fundamentais que digam o interesse dos parlamentares. E marquei, para terça-feira, uma reunião de líderes, no horário de almoço, onde cada um pagará o seu, para fazermos uma reflexão partilhada sobre as relações políticas que devem nortear os trabalhos nessa interinidade. E refletir sobre a pauta que está atrasada, como um assunto importante que é a CPMF.

O governo espera que, com a saída do Renan, o Senado se acalme para a aprovação da CPMF. Integrante da base do governo, como o senhor vai se comportar no comando da Casa?
A CPMF é um assunto extremamente delicado para o governo, porque envolve uma reserva de R$ 38 bilhões. Isso tem que ser tratado com respeito, porque não foi um imposto criado no atual governo, tem décadas de existência. Isso precisa ser refletido à luz da responsabilidade política, com muita serenidade, responsabilidade, respeitando as diversas opiniões, mas entendendo que nós temos o dever de encaminhar o assunto dentro do processo legislativo, sem intimidar ninguém.

O governo quer aprovar a CPMF até dezembro. O senhor acha possível?
O Parlamento sabe dos prazos que tem. Sabemos que, se não votar em dezembro, implicará em prejuízo de bilhões para a sociedade brasileira, em investimentos na área social. Votaremos nos termos do regimento federal e cumprindo as responsabilidades de partidos e dirigentes políticos.

Com a licença, Renan espera ser absolvido nos demais processos. O senhor concorda?
Eu prefiro não antever nenhum tipo de cenário. Porque acho que o caso dele tem que ser conduzido à luz da imparcialidade e da ética. O assunto está no Conselho de Ética. Acho que o caminho vai ser o melhor, sem atitude passional.

Há um pedido de abertura de processo sobre as acusações de que Renan tentou espionar senadores. O senhor vai convocar a Mesa para analisá-lo?
Com certeza. Posso garantir que nenhum assunto ficará pendente sobre a Mesa. Porque trataremos todos itens sem atraso, nem antecipação.

O senhor defendia o fim da reunião da Mesa para analisar abertura de processos. Qual sua proposta?
O regimento diz que a Mesa deverá encaminhar toda representação ao Conselho de Ética. Ou seja, uma função homologatória. Eu acho que o Conselho de Ética precisa de uma revisão. Acho que o melhor seria uma eleição direta entre os 81 senadores, escolhendo cinco senadores para serem membros do Conselho por um mandato definido. E, a partir daí, toda e qualquer denúncia se encaminha ao Conselho, que julgará se é pertinente ou não. À Mesa caberá dar o tratamento secundário e encaminhar à Comissão de Constituição e Justiça e, depois, ao plenário. Isso daria racionalidade à denúncia.

Renan e Demostenes Torres bateram boca na última terça-feira. Um acusou o outro de transformar o Senado numa delegacia. O senhor concorda?
O ambiente não fazia bem à instituição. Na hora que tivermos um diagnóstico de que o Senado é inútil para a vida republicana será muito triste. Que sejamos capazes de virar imagem do Senado.

◙ Leandro Colon é da equipe do Correio Braziliense

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

FINAL FELIZ NO REINO DA FLORESTA

Assessoria de Binho Marques age rápido para impedir afastamento do antropólogo Terri Aquino da equipe de governo

Aníbal Diniz e Fábio Vaz, assessores especiais do governador Binho Marques, enviaram ao blog mensagens de esclarecimento em decorrência da repercussão do ato de exoneração do antropólogo Terri Vale de Aquino da Secretaria de Meio Meio Ambiente do Acre.

Aníbal Diniz diz:

"Caro Altino,

Felizmente, a história da demissão do antropólogo Terri Vale de Aquino não passou de um grande mal entendido. O Txai Terri continua fazendo parte da equipe de governo, tanto quanto eu, após a nomeação do Itaan Arruda para a Secretaria de Comunicação.

Fomos (eu e o Itaan) hoje ao aeroporto de Rio Branco falar com o Terri, e posso lhe garantir que a viagem dele para a Nicarágua aconteceu após ter a certeza de que continua fazendo parte da equipe do governador Binho Marques.

Mudanças de posição acontecem com absoluta normalidade, como em time de futebol. O Terri só muda de posição, mas continua jogando no time, como tem sido até aqui".

Fábio Vaz complementa:

"Altino,

Você sabe do respeito que tenho pelo Txa Terri Aquino e posso lhe afirmar que o episódio relatado por ele é recheado de diversos desencontros e interpretações precipitadas. Não estive no diálogo do Terri com o secretário Eufran Amaral, no entanto, posso fazer as seguintes observações:

1. O Terri não foi demitido e nem vai sair do governo. Ele será remanejado, como é normal na administração pública. Para isso, é necessário realizar um ato de exoneração para que ele possa ser nomeado em outra função. No caso, são dois atos do governo. Ele tomou conhecimento apenas do primeiro.

2. Acredito que todo mal entendido é decorrente da não realização da reunião, que ficou de minha responsabilidade, para tratar de novos desafios que ele poderia liderar para o governo.

3. Enfim, é uma pena que um ato desencontrado tenha gerado tanta repercussão com informações às vezes superdimensionadas em relação à realidade. De minha parte, assumo minha parcela de responsabilidade na geração do mal-estar. Espero que esta pequena nota possa ajudar a esclarecer o mal entendido, que não isenta os erros, mas também não permite mais falarmos em perseguição.

4. Quando o Terri voltar da Nicarágua, falarei com ele, como assim deveria ter ocorrido, e espero que o mesmo renove seu ânimo, que sempre foi um exemplo para todos nós".

PERSEGUIDOS NA FLORESTANIA

Txai Terri Valle de Aquino

Ontem, ainda bem cedo, fui surpreendido por um telefonema do gabinete da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) me convocando às pressas para “vir conversar com o novo secretário Eufran”. Fui imediatamente, cheio de esperança, pensando que finalmente iria discutir a proposta de estruturação da antiga Gerência de Etnozoneamento, hoje Divisão de Etnozoneamento, apresentada por mim recentemente, visando fazer avançar os trabalhos de mapeamento participativo em terras indígenas, especialmente daquelas que ainda não foram oficialmente reconhecidas no Estado. Depois de um bom “chá de cadeira”, finalmente fui recebido no final da manhã pelo secretário Eufran Amaral. Quando entrei em sua sala, ele já estava com um exemplar do Diário Oficial do Estado nas mãos, dizendo que eu havia sido demitido por ele, porque não tinha o perfil profissional adequado para fazer parte de sua nova equipe de trabalho.

Disse-me, em tom de queixa, que depois de esperar quase dez meses, finalmente havia sido nomeado, que precisava fazer “um choque de gestão” na Sema, não apenas me demitindo, mas a outros funcionários e técnicos. Disse, ainda, que não lhe levasse a mal, porque não tinha nada de pessoal contra mim, mas que tem o direito de trabalhar apenas com pessoas de sua confiança. E que tinha “carta branca" do governador para demitir quem julgasse necessário.

Ainda chocado com a notícia de minha demissão no Diário Oficial, pois o secretário não teve nem a consideração de me chamar para conversar antes, indaguei, respeitosamente, como iria ficar minha situação funcional no Governo do Estado, já que o governador Binho Marques, em ofício encaminhado à presidência da Funai, em 28 de fevereiro de 2007, havia solicitado a minha cessão para “exercer cargo em confiança" na Sema. Já se irritando com minha primeira pergunta, disse-me que não tinha mais nada a falar comigo, e que eu procurasse o Fábio Vaz, assessor especial do governador, e o Francisco Pinhanta, assessor indígena, que eles saberiam dizer aonde eu iria trabalhar no governo estadual. Sutilmente, deu a entender que não queria me ver mais na sua secretaria, tampouco perto dele, porque não era de sua confiança e não pertencia a seu grupo político.

Fiquei muito impressionado com a franqueza e a frieza do novo secretário de Meio Ambiente, que, no meu entender, estava contrariando decisão do governador do Estado. Para finalizar de vez a nossa conversa, ainda reclamou do Francisco Pinhenta, dizendo que tinha pago “um mico danado com a Danielle Mitterrand”, porque o assessor indígena havia dito, e não cumpriu com a agenda, que haveria uma performance cultural dos ashaninka na noite em que ex-primeira-dama francesa dormiu em Marechal Thaumaturgo, no Centro de Pesquisa Yorenka Ãtame. “A noite, na hora combinado, os índios se dispersaram, não apareceu ninguém e eu tive que pedir desculpas à madame Mitterrand, com ajuda de uma tradutora porque não sei falar bem o francês”, disse.

O que se passa no "governo da floresta"
Apressado em me mandar embora, pediu-me, mais uma vez, que me retirasse de seu gabinete, alegando falta de tempo e muito trabalho. Deixou sem respostas minhas últimas indagações: Mas secretário por que tanta pressa em me demitir? Por que não me chamou antes para conversar?

Extremamente constrangido, me retirei de seu gabinete e fui me sentar na Praça da Revolução, pensando no que fazer da vida. Foi quando a ficha caiu. Certamente fui demitido por ter proposto a reestruturação da antiga Gerência de Etnozoneamento, visando fazer avançar os processos cartográficos participativos em terras indígenas. Quem tiver alguma idéia sobre o assunto, que me ajude a entender o que se passa atualmente no "governo da floresta", porque acho que o Jorge Viana, que me convidou para trabalhar no Acre, jamais teria feito isso comigo.

Confesso que fiquei com saudade do ex-secretário Edegar de Deus, que sempre me tratou com respeito profissional e a quem prestei bons trabalhos tanto na elaboração do componente indígena do Zonemaneto Ecológico Econômico, do texto do GT Fundiário e das mais de 30 oficinas de etnomapeamento e etnozoneamento que participei em 16 terras indígenas do Acre nos quatro últimos anos.

Sempre que me deparo com uma situação como essa, me sinto perseguido profissionalmente, do mesmo modo como fui demitido de cargo de confiança na Funai pelo Diário Oficial da União. E me dá uma vontade danada de pegar o boné e ir embora para outro lugar, onde me tratem com mais respeito e dignidade humana.

E para completar minha perplexidade, à noite, quando cheguei em casa, meu filho Lucas Maná, estudante de biologia, veio me dizer que também havia sido demitido da mesma secretaria. Em relação ao meu filho, só tenho a dizer que não fui quem pediu a sua contratação, mas o irmão dele, o médico Thor Dantas, que presta relevante serviço na área de saúde, com apoio do senador Tião Viana. Mas, enquanto pai, fiquei preocupado com a situação do Lucas, que agora tem a família dele, me deu o primeiro neto e tem uma esposa para sustentar.

Nenhum pai quer ver seu filho marginalizado na sociedade. Também não quero que meu filho, um jovem estudante de biologia, seja um deles, nem perca o primeiro emprego por perseguição política ao pai. Ou que precise vender drogas para garantir a sobrevivência de sua família, como está acontecendo hoje com muitos jovens acreanos.

Hoje, dia 12 de outubro, viajarei para a Nicarágua. Vou participar de um seminário organizado pelo International Land Coalition (ILV), uma entidade ambientalista italiana, para falar justamente sobre as experiências de etnomapeamento e etnozoneamento realizadas em terras indígenas acreanas. Depois de minha exposição, vou ter que pedir desculpas aos presentes, porque não lhes avisei antecipadamente que fui demitido desse trabalho pelo novo secretário.

Para finalizar esse desabafo, gostaria de perguntar publicamente ao governador Binho Marques, amigo dos tempos difíceis da ditadura, se ele concorda com a atitude adotada por Eufran Amaral. Se o governador concorda, peço que me devolva à Funai, porque "a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação", como diz uma velha canção de Chico Buarque.

◙ Terri Valle de Aquino é antropólogo acreano

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

ELENIRA E O LEGADO DE CHICO MENDES


Assista no site Viva America ao vídeo de uma palestra de Cristina Narbona e Elenira Mendes, em Madri, sobre o legado do líder sindical e ecologista Chico Mendes. Elenira Mendes é presidente da Fundação Chico Mendes, que leva o nome do pai dela. Cristina Narbona, ministra de Meio Ambiente da Espanha. Clique aqui.

Eufran Amaral exonera Txai Terri Vale de Aquino
O jornalista Elson Martins avisa a quem interessar possa:

- Novamente encontrei, hoje, o antropólogo Txai Terri Vale de Aquino aflitíssimo. Desta vez, não pelo furto de seu computador (que aconteceu na semana passada), mas por inexplicável exoneração da Secretaria do Meio Ambiente do Estado. O novo secretário, Eufran Ferreira do Amaral, segundo informa o próprio Terri em seu desabafo, foi desrespeitoso e arrogante, para ficar só em dois adjetivos hoje comuns na tecnoburocracia oficial. Antes de viajar para a Nicarágua, onde fará uma palestra sobre seu trabalho recente, desenvolvido no Acre, o antropólogo, respeitado regional, nacional e internacionalmente, encarregou-me de passar este texto para publicação em seu blog. Sou solidário ao Txai Terri Aquino e acho que Eufran Amaral deve explicações à sociedade acreana.

◙ Meu comentário: No dia 23 de março foi publicado no Diário Oficial decreto do governador Binho Marques (leia aqui) nomeando o antropólogo Terri Vale de Aquino para exercer o cargo em comissão de gerente do etnozoneamento da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais. Ele é funcionário da Funai. Com a exoneração, dá até pra duvidar de supostas boas intenções de um secretário que descarta o compromisso e a competência de Terri Vale de Aquino, antropólogo que organizou o movimento dos povos indígenas do Acre, que por sua vez inspirou a organização dos seringueiros sob a liderança de Chico Mendes. A tecnoburocracia se revela cada dia mais cruel contra os que mais lutaram pela sociedade na história recente do Acre. Txai Terri é um exemplo. Enquanto isso, alguns salafrários são prestigiados nos salões corruptos.

Do sertanista José Carlos dos Reis Meirelles:

- Se o Acre tem hoje uma política diferenciada em relação ao meio ambiente, índios e moradores da floresta, muito disso se deve ao Txai Terri Vale de Aquino, meu cumpadre. A demissão dele mostra que quem o demitiu não conhece ou não lê, ou não se interessa pela história deste Estado. O Txai Terri faz parte dessa história. Fico trite em ver demitirem conhecimento, inteligência e reserva moral. Esse povo lê pouco, Altino. Não conhece história.

NÃO FIQUE CONFUSO. FIQUE COM DEUS

Leila Jalul

Meu caríssimo Moisés Diniz,

Tenho, no meu rol de admiração e simpatia, além do respeito, quatro camaradas da foice e do martelo: Márcio Batista, Edvaldo Magalhães, Vossa Excelência e a deputada federal Perpétua Almeida. De todos, apenas o Márcio Batista recebeu meu voto na última eleição. É o mais bem preparado de todos, nas questões doutrinárias, pelo menos. Edvaldo tem tido uma postura firme e atitudes bastante louváveis não só na condução da Assembléia Legislativa, mas noutras de alcance social.

Esse negócio de mudar fusos e parafusos, confusos e obtusos, é jogo de cartas marcadas e fatura paga. 100 ou 200 mil assinaturas são dispensáveis para a tomada de decisão. Podem servir de aval aos seus idealizadores, para outros fins. Apenas. Sem ofensas, sem ironias: esta defesa virou uma pereba braba na sua folha de serviços e nas suas ações parlamentares. O senhor está além disso, muito além.

As cartas foram jogadas na mesa de discussão bem antes de sua iniciativa, bem antes do senador Tião Viana encampá-la. Tudo começou com a firme decisão de retornar a censura ao país. Primeiro sob a forma de recomendação sutil às emissoras de televisão. Uma nota de rodapé: "recomendável para tal idade". Vi programas inteiros nas emissoras, principalmente no Roda Viva, salvo engano, e na Band, numa mesa redonda que acontece aos domingos. Também a Globo, através do Jô Soares, abordou o assunto.

O nobre deputado deve pensar que vivo apenas para assistir TV. Se assim pensar, está quase certo. Enquanto escrevo textos, enquanto monto livros infantis, enquanto escrevo meus próprios livros, ou leio os dos outros, tenho uma televisão ligada. Estou prestes a desenvolver um trabalho sobre os programas evangélicos e católicos que passam de madrugada. Esse vai me dar muito trabalho, pois exige gravações e muito cuidado na linguagem e na forma de abordar, de modo a não ferir os ditames legais. Chamar um pastor ou um padre de vagabundo, charlatão, enganador de fiéis ignorantes, sem ferir a liberdade religiosa, não é tarefa pequena.

Nas horas de relax, assisto as sessões do Senado. Aquilo está um circo. Mesmo assim, acredito que pode mudar. Tenho certeza, com a força da opinião pública, a mãozinha do Judiciário, e o bom senso de alguns parlamentares, ainda teremos um Senado que não nos envergonhe. É questão de tempo.

Voltando aos fusos, assisti ao encerramento da reunião de deputados e representantes das emissoras amazônicas. O acerto final foi pela mudança. Fuso horário único, do Oiapoque ao Chuí. As empresas dos Marinhos, a do Bispo, a do Senor Abravanel, a do Sr. Saad, ficam como estão. As afiliadas do norte que se enquadrem. E vão se enquadrar, direitinho. Afinal, não há dinheiro para a aquisição de filmes e produção de programas educativos locais. Tem que ter material disponível para as gravações dos programas tidos "impróprios e imorais". As fitas são caras. E mais, as repetidoras ficariam diminuídas perante as do sistema das parabólicas e em descompasso com as TVs por assinatura, que já dispõem de alguns canais abertos em seu elenco, a exemplo da Band, Record e Rede TV, sem contar com a Cultura e a Educativa.

Então reflita, meu caro Moisés, tudo que nos chega, vem de cima, inclusive os retrocessos. Nossa Eletronorte já dançou, nossa Embratel, idem. Isso falando do nosso Acre. Ainda somos uma fatia menor de votos, uma maior de analfabetos, lascados pelas doenças de origem hídrica, possuidores de uma rede de esgotos mínima, quadro político perneta por falta de vontade de apostar no crescimenbto de nossos irmãos, a partir das necessidades maiores. Reconhecimentos são devidos aos que não só resmungam, mas arregaçam as mangas para auxiliar o governo na batalha diária de viabilizar o Acre. Talvez nunca se consiga torná-lo o melhor lugar do mundo para morar, mas um lugar digno de viver. Isso já é muito.

Por último, gostaria muito que os Estados amazônicos, de culturas tão diversas, pudessem ser aproximados por iniciativa de seus representantes, não para formarem um bloco homogêneo, mas para discutirem questões comuns. Quem sabe, sairíamos da mesmice de, a cada quatro anos, entrar na briga de foice para definir quem vai ficar com a Suframa e com o Basa? Os deputados acreanos sabem o que faz o Inpa? E o Emílio Goeldi?

Meu caro Moisés Diniz, o nascer e o por-do-sol serão sempre momentos de encontrar com Deus. Independentemente de fusos e parafusos, Ele sempre há de nos irradiar. A iluminação vem de Deus. Não fique confuso. Fique com Deus.

USINA DE OLHARES

O Acre na cabeça e uma câmera na mão



O jornalista Rodrigo Savazoni está no Acre, a convite do cineasta Maurice Capovilla, conduzindo uma oficina sobre informação interativa num curso de cinema na Usina de Arte João Donato. Anda com uma turma a procura de saber quais os principais problemas de Rio Branco, a capital, quais as questões que hoje estão fora da mídia e que mereceriam atenção.

Eles querem saber, ainda, se existe um espaço público e, se não existe, se podemos contruí-lo. E Savazoni sabe que nada se compara à web para possibilitar a interação. Ele havia me convidado para auxiliar no que chama de "conformação de uma nova esfera pública acreana".


Não conheço Savazoni pessoalmente, mas outro dia me senti lisonjeado quando escreveu que meu blog é sua "única e permanente ponte jornalística com o Acre".

Gostaria de ter participado da oficina, mas estou tendo que passar uns dias em São Paulo. Confesso que nada tenho a reclamar, pois, acreditem, o ar que estão respirando no Acre está dezenas de vezes mais poluído que o de Sampa. Quem diria!

Bem, soube que Savazoni e sua turma debateram temas vitais para o Acre: informação pública, para além da notícia, e conceitos de jornalismo público.


- Veja, minha preocupação maior, com esse convite, é não sair daqui [ele mora em Brasília], do meu conhecimento centralizado e reduzido sobre a realidade do Brasil com respostas, mas com perguntas. E acho que quem tem algumas respostas e pode ajudar os estudantes a encontrá-las é você e não eu. Parto do princípio que o verdadeiro diálogo começa a partir dessa concepção - argumentava Savazoni.

Ele e sua turma montaram o blog coletivo Usina de Olhares, que permite a todos os estudantes iniciar a experiência de interagir por meio da web, inclusive submetendo previamente o que estão fazendo ao diálogo com os usuários, partindo do princípio que, geralmente, eles sabem muito mais do que nós.

Vale a pena conferir o que já conseguiram fazer. Estão até subindo conteúdo audiovisual para o blog, além de todas as propostas de documentários interativos, que têm Rio Branco como recorte.

Vale assinalar que Savazoni deixa as pessoas livres, para que possa emergir delas, a percepção delas, e, do olhar delas sobre a cidade, as propostas de pautas.
Trata-se de um excelente projeto a arejar o ambiente acreano. E, registre-se, conta com a positiva cumplicidade do governador Binho Marques.

E nao deixe de conhecer, ainda, o site de Rodrigo Savazoni, em busca de uma palavra justa no Acre. Clique aqui para conhecer suas primeiras impressões sobre essa terra positivamente estranha.

PRA TIRAR COCO

O QUE SOBRA NO SENADO

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

AINDA ESTOU CONFUSO

Moisés Diniz

Devo dizer que sinto uma inveja sadia dos belos textos do Toinho Alves e da Leila Jalul. Eles exalam a força da irreverência acreana, filha predileta das colocações insatisfeitas e dos tapiris "encrenqueiros", que ousavam se levantar contra o barracão.

Mas eles se levantavam sem sair do chão. Não pegavam em armas ou faziam rebelião. Colocavam barro e pilhas velhas dentro das pélas, como forma de combater o preço abusivo da estiva, o pagamento da “renda” e o valor degradante do suor e dos calos de suas mãos.

Era uma espécie de guerra de guerrilhas contra o barracão. E o dono da terra, dos rios e dos cipoais não sabiam como reagir. Assim escrevem, com beleza e maestria, os magos Toinho e Leila. Somente eles, com a sua teimosia e a sua irreverência, para me fazer voltar a escrever sobre fuso horário, um tema obtuso, sobre qual o povo não está nem aí.

Sobre esse tema, quero fazer uma promessa. Uma confissão.

Não vou lutar para mudar o horário em que canta o galo, nem o galo velho, o de briga, nem o pintinho que não sabe cantar. Não vou ajudar numa mudança que implique deixar a coruja piando mais cedo, só porque o piado é triste e sonoriza a ‘boca da noite’.

Não ajudarei a adiantar o canto do grilo, o pingo da chuva não pode cair mais cedo, tão pouco subir aos céus o mágico orvalho. Não vou mexer no beijo da adolescente, pois ela tem o seu horário para beijar, escondido, carente.

Não vou me intrometer no orgasmo da prostituta, nem mexer no vento da biruta, tampouco reduzir o tempo do porre, trocar o horário da pinga, na ginga da capoeira, na ladeira da Maternidade. Não vou calar o choro da criança que nasce.

Deus me livre de mexer no horário da homilia. Como vou controlar o horário da dor, do abraço, do cansaço e da hemorragia? Não vou induzir o caminho do vento, a fumaça, o fogo, a multa, não adiantarei nenhuma faixa da melodia.

Como é confuso esse negócio de fuso! Imagine se eu falasse de novela, violência vespertina, gravidez precoce, pornografia. Transação bancária, avião? Isso não! Eu vou é fazer do fuso uma poesia...

◙ Moisés Diniz é deputado estadual do PC do B