sexta-feira, 8 de maio de 2026

Alto Santo pede ao Iphan tombamento como Patrimônio Cultural Material do Brasil

Dona Peregrina Gomes Serra, viúva de Mestre Irineu e dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo, requereu oficialmente a abertura do processo federal de reconhecimento do sítio histórico onde se consolidou a matriz da doutrina do Daime

  Vista aérea do Sítio Histórico do Alto Santo. Foto: Sérgio Vale

Em gesto de inequívoca relevância para a memória religiosa, cultural e histórica da Amazônia brasileira, dona Peregrina Gomes Serra, viúva de Raimundo Irineu Serra (1892-1971), o Mestre Irineu, protocolou nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, requerimento (leia aqui) ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Acre para a abertura do processo de tombamento do Sítio Histórico do Alto Santo, em Rio Branco, como Patrimônio Cultural Material do Brasil.

O pedido, dirigido à superintendente do Iphan no Acre, Antônia Damasceno Barbosa, com cópia ao procurador da República Luidgi Merlo Paiva dos Santos, representa um dos mais importantes atos formais já empreendidos em defesa da preservação do território onde se estruturou a tradição espiritual fundada por Mestre Irineu, uma das expressões religiosas amazônicas de maior projeção histórica, antropológica e cultural no Brasil e no exterior.

Saiba mais: 

Pedido de Peregrina Gomes Serra ao Iphan

Anexo Técnico do Alto Santo 

Também participaram do ato, o promotor de Justiça, Alekine Lopes dos Santos, o presidente da Fundação de Cultura Elias Mansour, Matheus Gomes, e o secretário estadual de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho.

Na condição de dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo, dona Peregrina requer que o Iphan promova estudo técnico, avaliação patrimonial e eventual tombamento do conjunto histórico localizado no bairro Irineu Serra, onde Mestre Irineu fixou residência a partir de 1945 e consolidou o núcleo comunitário que deu forma institucional, ritual e territorial à Doutrina do Daime, fundada em 1930.

Antonia Damasceno, Alekine Santos, Peregrina Serra, Matheus Gomese Luidgi Merlo



O requerimento sustenta-se no artigo 216 da Constituição Federal, que reconhece como patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade nacional, bem como no Decreto-Lei nº 25, de 1937, marco jurídico do tombamento federal.

Mais do que um conjunto de edificações antigas, o Alto Santo é apresentado no documento como território cultural vivo, no qual memória, religiosidade, arquitetura, paisagem, floresta, organização comunitária e saberes tradicionais se entrelaçam em uma experiência singular da formação amazônica. O local já é reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural pelo Governo do Estado do Acre e pelo Município de Rio Branco, mas a dimensão nacional de sua importância justifica, segundo o pedido, a proteção no âmbito federal.

Entre os bens indicados para estudo e proteção estão a Casa do Mestre, hoje Memorial Raimundo Irineu Serra; a sede do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo; a Casa de Feitio; a cacimba escavada pelo próprio Mestre Irineu; o Cemitério Palmeiral; a Capela do Túmulo de Mestre Irineu; a Casa de Leôncio Gomes da Silva, transformada em memorial; e a residência de dona Peregrina Gomes Serra, espaço que há décadas acolhe visitantes, pesquisadores, autoridades e integrantes da irmandade.

O documento destaca ainda a íntima relação do sítio com a natureza. Situado em área elevada de Rio Branco e inserido na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, o Alto Santo preserva remanescentes florestais que integram a própria identidade espiritual e comunitária ali formada. A floresta, no caso, não aparece como mero entorno paisagístico, mas como parte constitutiva da história, da prática ritual e da visão de mundo legada por Mestre Irineu.

 

Madrinha Peregrina Gomes Serra, viuva do Mestre Irineu

 Sob a perspectiva histórica e antropológica, o pedido assinala que o Alto Santo resulta da confluência de matrizes indígenas, caboclas, nordestinas, cristãs e afrodescendentes, articuladas na formação de uma tradição religiosa amazônica original. Ao longo das décadas, essa experiência passou a despertar interesse de pesquisadores das áreas de antropologia, história, sociologia, medicina, ciência da religião e outros campos do conhecimento.


Ao requerer a abertura do processo de tombamento, dona Peregrina Gomes Serra dá forma institucional a uma reivindicação de profundo alcance coletivo: a salvaguarda do lugar de origem e consolidação de uma das mais expressivas tradições espirituais surgidas na Amazônia brasileira no século XX.

O pedido encaminhado ao Iphan é acompanhado de dossiê (leia aqui) com delimitação do Sítio Histórico, cronologia do Alto Santo, descrição arquitetônica dos bens, estudos, reportagens, publicações acadêmicas e acervo fotográfico e audiovisual destinado a subsidiar a análise técnica.

Caso acolhido, o processo poderá conduzir ao reconhecimento federal do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil, conferindo proteção institucional a um território que ultrapassa a dimensão local e se inscreve, de modo definitivo, na história cultural, religiosa e ambiental do país.

 


 O ato foi transmitido ao vivo pelo site AC 24 Horas e o vídeo está disponível no YouTube. Clique aqui e assista.


Fotos: Sérgio Vale

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Abaixo-assinado mobiliza apoio nacional ao tombamento do Alto Santo como patrimônio cultural do Brasil


 Um movimento de apoio à preservação do Sítio Histórico do Alto Santo, em Rio Branco (AC), articula a abertura de processo de tombamento em âmbito federal. A iniciativa (veja aqui) manifesta respaldo à dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal ⎯ Alto Santo, Peregrina Gomes Serra, e será formalmente encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os únicos bens tombados pelo Iphan no Acre são o Geoglifo Sítio Jacó Sá, em Rio Branco, e a Casa de Chico Mendes, em Xapuri.

O objetivo é assegurar o reconhecimento do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil, em razão de sua relevância religiosa, histórica, cultural, arquitetônica e antropológica para a Amazônia e para a formação da identidade nacional. Considerado o núcleo originário da doutrina do Daime, o território reúne um conjunto singular de edificações, espaços naturais e práticas tradicionais que expressam uma das mais emblemáticas formações espirituais da Amazônia no século XX.

O sítio reúne marcos históricos diretamente associados à trajetória do fundador e à formação da doutrina e da comunidade. Entre eles estão a antiga residência do casal, hoje Memorial Raimundo Irineu Serra; a sede do CICLU, onde se realizam os rituais; a Casa de Feitio, destinada ao preparo do Daime; a Cacimba (poço Amazonas) escavada pelo próprio Mestre; o Cemitério Palmeiral, onde repousam pioneiros da irmandade; a Capela do Túmulo, local de devoção e peregrinação, e a casa de Leôncio Gome da Silva, outro memorial.

Viúva do fundador da doutrina, dona Peregrina Serra é a guardiã de uma das mais singulares tradições religiosas da Amazônia brasileira. Em breve, ela formalizará pedido ao MPF e ao Iphan para que o Sítio Histórico do Alto Santo seja reconhecido como Patrimônio Cultural Material do Brasil.

O pedido será acompanhado por documentação técnica e acervo histórico que vai refletir o reconhecimento da comunidade local, de praticantes da doutrina e de estudiosos que identificam no Alto Santo um dos mais relevantes processos de formação religiosa da Amazônia.

Um dossiê já está pronto com farta documentação, inclusive teses e dissertações acadêmicas, fotos e vídeos. Um texto de 30 páginas, assinado por. dois jornalistas e um advogado do Alto Santo, descreve o sítio histório, o entorno, os monumentos, a caracterização dos bens e trata da dimensão coletiva, da legitimidade social e da integralidade do território cultural.

Faz parte da formalidade que o pedido esteja amplamente lastreado por abaixo-assinado. Neste caso, poderá ser subscrito por membros da comunidade do Alto Santo ⎯ incluindo familiares de Raimundo Irineu Serra e de Peregrina Gomes Serra ⎯, praticantes da doutrina de qualquer parte do país, moradores da Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, bem como personalidades e autoridades. Trata-se, portanto, de manifestação concreta de pertencimento, reconhecimento social e adesão coletiva à proposta de proteção patrimonial, conferindo-lhe elevada legitimidade social.

Localizado em área elevada de Rio Branco, no bairro Irineu Serra, o Alto Santo é o núcleo originário da doutrina do Daime, uma tradição espiritual amazônica, estruturada a partir de 1930 por Raimundo Irineu Serra (1892–1971), o Mestre Irineu. Foi ali que o líder religioso fixou residência e organizou a comunidade que daria origem a uma das mais expressivas experiências religiosas do século XX na região.

O pleito de dona Peregrina Serra encontra amparo na Constituição Federal e na legislação de proteção do patrimônio histórico. Mais do que um conjunto de edificações, o Alto Santo é apresentado como território cultural integrado, onde práticas religiosas, saberes tradicionais, formas de organização comunitária e relação simbólica com a floresta se entrelaçam.

A doutrina do Daime, ali consolidada, resulta da confluência de matrizes culturais diversas ⎯ do cristianismo popular às tradições indígenas e africanas ⎯, formando uma expressão espiritual original, hoje difundida no Brasil e no exterior.

Esses elementos não podem ser compreendidos isoladamente, pois formam um conjunto que articula arquitetura, paisagem, memória e prática ritual, constituindo uma paisagem cultural viva. A continuidade dessas práticas ⎯ mantidas há décadas no mesmo espaço ⎯ é apontada como um dos principais fatores que conferem autenticidade e relevância ao sítio.

Outro aspecto é a relação intrínseca entre cultura e natureza. Inserido na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, o Alto Santo preserva remanescentes de floresta essenciais à própria prática religiosa, que depende de espécies vegetais para a preparação da bebida sacramental. Essa interação entre ambiente natural e vida espiritual é considerada como elemento estruturante da identidade do lugar.

O reconhecimento do Alto Santo já ocorreu em âmbito estadual e municipal, sendo o sítio declarado como Patrimônio Histórico e Cultural. A projeção nacional e internacional da doutrina, bem como o crescente fluxo de visitantes e pesquisadores, justificam a ampliação da proteção para o nível federal.

A ausência de tombamento nacional pode expor o conjunto a pressões urbanísticas e intervenções inadequadas, comprometendo sua integridade. O reconhecimento pelo Iphan permitirá estabelecer diretrizes de preservação mais rigorosas e assegurar a proteção de seus atributos históricos, simbólicos e ambientais.

Clique aqui para ler o abaixo-assinado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Professora Letícia Mamed deixa sindicato cogitada para disputar reitoria da Universidade Federal do Acre

A professora Letícia Mamed divulgou na tarde desta segunda-feira, 19, nota de agradecimento e despedida ao encerrar o seu mandato na presidência da Associação de Docentes da Universidade Federal do Acre (ADufac), após quatro anos de gestão distribuídos em dois mandatos consecutivos (2022–2024 e 2024–2026). No ambiente da federal do Acre existe um movimento que tenta convencê-la a disputar a reitoria da Ufac no próximo pleito, agendado para ocorrer entre março e maio. Veja a nota divulgada pela professora.


 Com o entusiasmo de haver seguido a lição do mestre Florestan Fernandes, ao buscar consorciar a vida acadêmica com a prática política, e, assim, afastar-me da tendência ao pensamento abstrato, encerro, nesta data, meu mandato à frente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Acre (ADufac), Seção Sindical do ANDES-SN.

Ao longo de quatro anos, com dois mandatos consecutivos (2022–2024 e 2024–2026), espero ter contribuído, dentro dos limites das minhas possibilidades, para a defesa da categoria docente e para a afirmação dos princípios classistas que historicamente orientam a atuação de nossa entidade, cuja trajetória é marcada por vigor, coerência e compromisso social.

Sempre nutri profundo orgulho por integrar a ADufac e compor o ANDES-SN, o maior sindicato do setor público do Brasil e um dos maiores do mundo, cuja organização a partir da base, autonomia 
e independência constituem traços distintivos e o tornam uma entidade singular no cenário sindical.

Estar à frente da ADufac representou, sem dúvida, um grande desafio, sobretudo quando se considera que, ao longo dos seus  46 anos de existência, fui a segunda mulher a assumir essa responsabilidade. Ainda assim, enfrentei essa tarefa com elevado senso de comprometimento, humanidade e esperança, em um contexto adverso, marcado por um governo de extrema-direita que elegeu a educação, a universidade pública, as professoras e os professores como alvos prioritários de sua política.

[19/01/2026, 13:11:34] Letícia Mamed: Ao enfrentar os debates inadiáveis de seu tempo, tanto nas ruas quanto nos espaços universitários, a ADufac buscou, especialmente no período de retomada da presencialidade após a pandemia, estreitar o diálogo com suas filiadas e seus filiados, a fim de compreender, de forma mais próxima, suas demandas. Entre tantas questões, destacou-se, de modo recorrente, o processo de adoecimento docente, intensificado pela experiência do trabalho remoto, que resultou em sobrecarga e ampliação das jornadas de trabalho.

Nesse contexto, com uma atuação orientada pela luta coletiva e pela atenção permanente à sua base, a ADufac registrou crescimento no número de sindicalizações, contrariando uma tendência nacional e internacional de retração sindical. Houve, igualmente, ampliação do número de sindicalizados ativos e reequilíbrio da proporção entre docentes ativos e aposentados, considerando que, até então, a entidade apresentava um percentual significativamente superior de sindicalizados inativos. Proporcionalmente, por se tratar de uma seção sindical de pequeno a médio porte, trata-se de um resultado expressivo no cenário nacional.

Ciente de que há ainda muito a ser feito e de que os desafios permanecem imensos nesta sociedade do capital, registro que a nova diretoria da ADufac encontrará um sindicato fortalecido e preparado para os embates vindouros. Desejo, assim, que o grupo liderado pelo professor Gerson Albuquerque conte com o apoio de todas as frentes para dar continuidade à defesa intransigente da universidade pública, gratuita, autônoma, com financiamento público adequado, laica, democrática e socialmente referenciada.

Encerro, portanto, meu compromisso à frente da ADufac e passo  a dedicar-me à honrosa missão, igualmente legitimada pelo voto democrático, de exercer as funções de diretora regional e nacional do ANDES-SN.

Registro, por fim, um agradecimento especial às funcionárias Narjara dos Santos de Souza Costa, Marlise Maria de Oliveira e Sueli Ferreira de Freitas, bem como ao funcionário Marcelo Batista da Silva, cuja dedicação cotidiana torna possível a existência e o funcionamento da ADufac. Da mesma forma, em nome da professora Madge Porto Cruz e do professor João Silva Lima, estendo meus agradecimentos às docentes e aos docentes que integraram comigo as duas diretorias sob minha presidência.

Às centenas de professoras e professores que compõem nosso sindicato; às técnicas e aos técnicos, estudantes da Ufac; ao movimento estudantil, aos movimentos sociais, aos sindicatos e  aos partidos políticos parceiros, expresso minha sincera gratidão pela partilha, pelo diálogo e pelo aprendizado construídos ao longo desse percurso.

Tem sido uma honra caminhar ao lado das trabalhadoras e dos trabalhadores das cidades e das florestas da Amazônia acreana. Da força dessa experiência, firmada na escuta, no acolhimento e na solidariedade de classe, espero ter contribuído, na condição de presidenta, para a história da Adufac.

Saudações acadêmicas e sindicais.

Prof.ª Letícia Helena Mamed