terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sobre o ebola no Brasil

POR  DEYSE VENTURA E LEONEL CAMPOS

A epidemia de ebola teve início nos primeiros meses de 2014 e foi declarada Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) em 8 de agosto. Sua disseminação é progressiva, com intensa transmissão em regiões de escassos recursos sanitários, nos países do Oeste da África (Serra Leoa, Libéria e Guiné) e com casos restritos ou iniciais na Nigéria e no Senegal. Segundo o boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS) do dia 8 de setembro, o número total de casos (entre confirmados, suspeitos e prováveis) hoje passa de quatro mil, dos quais a metade foi registrada nos últimos 21 dias. Conta-se mais de duas mil vítimas fatais, metade delas nas últimas 3 semanas.

Os esforços internacionais para conter a epidemia estão muito aquém do necessário, apesar dos frequentes alertas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que datam do início deste ano. A OMS faz recomendações precisas aos governos nacionais, que são tão tecnicamente corretas quanto impossíveis de realizar, simplesmente porque esbarram na ausência de sistemas públicos de saúde estruturados. Aqueles que alegremente defendem a privatização da saúde deveriam olhar para West Point, na Libéria, e para a evidência de que, nas palavras de Bruno Canard, “o mercado emerge quando o vírus sai de um país no qual o Ocidente gostaria que ele ficasse” (Le Monde, 13/08/2014). Ou seja, despreze o SUS, pague seu plano de saúde e o acione judicialmente quando ele se mostrar como é (inócuo e perverso), mas lembre que sua estratégia alimentará um outro mercado, secundário, o dos efeitos a longo prazo do colapso dos sistemas públicos de saúde.

O Ministério da Saúde e outros especialistas avaliam, com razão, que é baixo o risco da epidemia chegar ao Brasil. Não obstante, as ações de prevenção, estruturação e organização do sistema de saúde para conter e controlar a disseminação de tal surto devem ser postas em prática enquanto não temos o primeiro caso. O Brasil tem um plano de contingência atualizado. Nos hospitais de referência para acompanhamento e tratamento dos casos de ebola, está em curso a aquisição de materiais de proteção individual, além da organização de fluxos de atendimento, orientação e treinamento das equipes.

No dia de hoje, porém, fomos surpreendidos pelas declarações de agentes policiais e de autoridades do Acre, que sugerem abertamente providências ilegais no Brasil, como a quarentena, além de difundir equívocos intoleráveis como o de que o clima do Norte do Brasil é propenso à propagação da epidemia de ebola. Nunca é demais repetir que o ebola se transmite pelos fluidos corporais de uma pessoa sintomática. Ou seja, alguém que se encontra gravemente debilitado, com dores abdominais, febre hemorrágica, diarreia e vômito (Veja nota técnica).

Dizer à população que nosso clima é propenso à propagação de um terrível vírus constitui uma incitação direta à estigmatização dos migrantes africanos, que procura lançar-lhes a pecha de vetores da epidemia. Não é de hoje que os migrantes são percebidos pelas autoridades do Acre como um problema indesejado. Em lugar de tirar partido deste novo ciclo migratório da história contemporânea, explorar sua grande riqueza humana e fazer de nosso país uma referência internacional nesta matéria, o caminho escolhido pelos governantes, e não apenas do Acre, foi apresentar a dificuldade do Estado de cumprir suas obrigações mínimas como uma grave crise humanitária. Sempre é bom lembrar que não somos uma pequena ilha como Lampedusa (Itália): com menos de seis mil habitantes, ela chegou a acolher, num só momento, mais de cinquenta mil migrantes e refugiados. Na verdade, somos a sétima economia do mundo, com mais de 200 milhões de habitantes, recebendo poucos milhares de migrantes em algumas cidades.

Ninguém pode prever se o Brasil terá um caso de ebola. Por enquanto, nossos ebolas são a dengue (mais de quinhentos mil casos de janeiro a agosto de 2014), a esquistossomose, a malária, a leishmaniose, o mal de Chagas e outras doenças que não causam frisson e, ao menos por enquanto, não despertaram a xenofobia. Algumas destas enfermidades são consideradas doenças negligenciadas. Embora o nome seja autoexplicativo, não é demais destacar que as epidemias escolhidas para o que Ulrich Beck chama de “encenação do risco”, que também poderíamos chamar de lucrativo histrionismo das empresas de comunicação. As doenças que geram pânico merecem uma atenção vertiginosamente maior do que as “doenças de pobre”, que vão ceifando numerosas vidas diariamente, embora ignoradas, ou naturalizadas no noticiário nacional e local.

Em todo caso, vale a pena imaginar o que ocorrerá se o ebola chegar ao Brasil. A situação, para desgosto de muitos, será bem distinta da dos filmes de zumbi, e tantos outros nos quais Hollywood recorre aos mitos ancestrais em torno das epidemias para afirmar a capacidade dos Estados Unidos de salvar o mundo, e a necessidade absoluta de confiarmos neles.

Na prosaica realidade, uma pessoa apresentará os sintomas, que são graves. Não se disfarça o ebola. Esta pessoa será atendida por um profissional da saúde, e provavelmente ele é quem será exposto aos fluidos corporais do enfermo – talvez também algum parente próximo. Assim, os principais riscos objetivos desta agressiva doença atingem sobretudo os profissionais de saúde.

Parêntese sobre os profissionais da saúde: no Brasil, onde tanto se reivindica a importância da saúde e tanto se maltrata os trabalhadores que fazem dela uma realidade, é raro encontrar alguém sabedor de que jamais se matou, ou se deixou morrer, tantos trabalhadores da saúde, em conflitos armados ou em crises sanitárias mal administradas mundo afora. A hipocrisia angustiante em que vivemos não nos permite ver que, em nossa sociedade, não é a vida, mas é a vida de alguns, e a saúde de alguns, que importa. Banqueiros, empreiteiros, amantes do poder em geral, é a saúde deles que pauta o mundo.

Voltando ao ebola, a informação e a responsabilidade devem prevalecer sobre o medo. O Brasil tem todas as condições de tratar casos de ebola, porque eles são facilmente identificáveis e passíveis de acompanhamento. O ebola não é uma destas doenças acobertadas pela invisibilidade, a grande doença de nossa sociedade, o manto que sustenta o insustentável: alguns seres humanos valem mais do que outros.

A lição que tiramos de algo novo, inesperado e ameaçador da segurança sanitária e do bem-estar da população é uma lição já bem conhecida, propagada pelos estudiosos de saúde pública, em especial neste Brasil de extraordinários sanitaristas.

Como combater o ebola e outras epidemias? A receita salta aos olhos. De hora em hora, todo dia, a luta por boas condições sanitárias e econômicas, segurança alimentar, estabilidade política, combate sistemático e eficaz à violência, sistemas educacional e de saúde bem estruturados, respeito às liberdades individuais e direitos humanos fortalecidos. Ou seja: só um mundo sem desigualdades é um mundo preparado para uma grande ameaça.

Deisy Ventura é professora do Instituto de Relações Internacionais da USP

Leonel Campos é médico residente do Instituto de Infectologia Emílio Ribas

Artigo reproduzido do blog Saúde Global

Um comentário:

Rodrigo Medeiros disse...

Tenho mais medo da gripe do que do ebola!