sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O que não sabemos sobre o Acre?

POR JANU SCHWAB

Reprodução de obra de Lucie Schreiner

O Acre não existe. Tenho certeza que a cada vez que essa frase é proferida, um acreano inventa um novo xingamento. Matruspício, prizimâncio, viliquengo, escrafobúcio, tudo para colocar o interlocutor no seu devido lugar, pois quem é do Acre não costuma levar esse desaforo para casa em silêncio.

Poucos são aqueles que ao ouvir o nome “Acre” não soltam uma risadinha marota, seguida de perguntas que todo acreano odeia ouvir: Você anda de cipó? Você tem uma onça de estimação? Você já viu o Tarzan? Poucos são os acreanos que ouvem isso e não se enfurecem.

O Acre é terra de gente enjoada. Diga você que o Acre não existe e o acreano, além de um novo xingamento, desmonta a piada com todos os argumentos existentes no glossário do ufanismo brasileiro. Somos o pulmão do mundo, o único estado do Brasil que lutou para ser brasileiro, o melhor lugar para se viver da Amazônia etc.

Se você vai de avião, chegar ao Acre vai lhe custar uma nota preta e três horas de vôo partindo de Brasília. Rio Branco, a capital, costuma receber os visitantes com o típico sol de rachar moleira ou a típica chuva de encharcar a alma. Com sorte se pega sol e chuva no percurso do aeroporto até o centro. Essa dobradinha climática é responsável pela umidade relativa do ar beirando os noventa por cento e pela sensação de sauna que faz você suar bicas não importa a hora.

Sombra, aliás, costuma faltar. Apesar de estar onde está, as cidades do Acre sofrem com a falta de árvores. É irônico, pois ao longo horizonte se vê o mar verde de mais de trinta mil espécie que compõe a flora amazônica, enquanto as ruas e calçadas seguem nuas. O acreano de hoje até gosta da floresta, mas de longe.

Cearenses e potiguares formam o grosso da gente do Acre, que insiste em grafar-se acreano ao invés do ortograficamente correto, acriano. É sério! Como todo retirante do Nordeste, os que foram dar no Acre, vieram fugidos da seca e atraídos pela ladainha do ouro branco, como era conhecido o látex durante o ciclo da borracha. Os nordestinos viraram seringueiros.

Anos atrás, se você queria depreciar alguém, o chamava de seringueiro. “E essa roupa mulambenta, aí, doido? Tá parecendo um seringueiro”, ouvia-se. Hoje, décadas de ostracismo depois, o seringueiro é chamado de soldado da borracha, condecorado com medalha e agraciado com uma pensãozinha.

Sim, temos índios. E de todas as cores. Jaminawa, Kaxinawá, Kulina, Yawanawá, Apurinã, entre outros. Mas sírios e libaneses, paulistas, paranaenses, catarinas e gaúchos também compõem a ascendência do acreano e trouxeram com eles kibes, kaftas, o dom do comércio, a pecuária e até um CTG – ah, esses gaúchos!

O acreano, que trata todo mundo por “maninho”, quando quer se divertir, ouve e dança forró, arrocha, rock’n’roll e um pouquinho de carimbó – se você ainda não ouviu Los Porongas, Filomedusa, Rebeca Bá & Os Fridas, Caldo de Piaba, devia.  O sertanejo universitário impera. O brega também. Os mais velhos vão à Saudosa Maloca, tradicional casa pé-de-valsa que põe todo mundo para dançar ao som de Rubens & Etinildo, a dupla de cantores que já é um clássico da noite.

Os mais jovens vão a baladas com nomes pomposos. Loft, Studio Bar, Posh, Le Napoleon e Facebook. Sim, um empresário de Brasiléia, cidadezinha colada na Bolívia, pegou emprestado nome e marca da rede social de Mark Zuckberg e batizou seu empreendimento – deu até no The Guardian.

O acreano menos favorecido não fica para trás no quesito diversão e se perde de quinta a domingo em bibocas com música ao vivo. O mais emblemático deles se chama Forró do Priquitim. O piseiro vara a madrugada e, para quem gosta, rende putarias mil.

No Acre tudo acaba em baixaria, uma receita de nome jocoso que combina cuscuz, carne moída, tomate, coentro e cebolinha picados, cobertos por um ou dois ovos estrelados. Em Rio Branco é comum sair das festas e bater no Mercado do Bosque, um apinhado mal ajambrado de quiosques que vende as comidas típicas da terrinha.

Come-se bem no Acre. E fica feio não experimentar os quitutes que enchem olhos e barrigas. Além da baixaria, você precisa experimentar o mingau de tapioca e banana-cumprida – negar essa delícia é uma ofensa pior do que dizer que o Acre não existe. Cuidado: não dá para recusar o quibe de arroz ou de macaxeira, adaptação da herança libanesa. Dizer que tacacá, sopa de tucupi, folhas de jambu e camarão seco, não combina com calor, beira a heresia.

Se você conhece o Alex Atala já ouviu falar do Tucupi. Todo acreano diz que o caldo da mandioca feito no Acre, mais picante, é muito melhor do que a receita do Pará – considerada sem graça. Polêmica. Mas quando o assunto é a farinha, não tem boca: a de Cruzeiro do Sul, segunda cidade mais populosa do estado, é a melhor. Pergunte ao Rodrigo Oliveira, do Esquina do Mocotó, restaurante de São Paulo, ele é fã declarado.

É em Cruzeiro do Sul que se descobre a Serra do Divisor, paisagem montanhosa destoante do restante do Acre, onde os morrotes são cortados por rios sinuosos que escondem cachoeiras e poços de reajustar o fôlego perdido do visitante pela viagem. Qualquer busca na Internet pelo lugar vai esfregar na sua cara fotos estupendas. A região é tida como mágica.

Mas mágica mesmo é nova relação do acreano com os vizinhos andinos. Distante algumas boas horas de carro, o Peru, mais precisamente Cuzco, é atualmente o destino turístico preferido de quem mora no Acre. É curioso ver os acreanos, acostumados com um calor de encharcar o buço, extasiados (e congelados) com a neve das cordilheiras.

Para quem não vê problema em botar o pé na estrada, comer um pouco de poeira, ser cozido por um verão eterno ou engolido por chuvas torrenciais e fugir do lugar comum quando o assunto é turismo, o Acre é um ótimo lugar para ir. Quem escolhe conhecer o estado não sai incólume. É impossível não compreender um pouco mais sobre o Brasil depois de pisar naquelas terras.

O Acre é lindo. Toda vez que essa frase é dita por um forasteiro, o acreano, desconfiado de nascença, abre um sorriso. E cata todos os adjetivos positivos existentes no vocabulário para ajudar a definir quem rompe preconceitos e enxerga as belezas de um terra sofrida, mas cheia de si. De todos não há coisa melhor do que ser chamado de “acreano de coração”.

P.S: mesmo sendo considerada incorreta pelo Novo Acordo Ortográfico da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a grafia do gentílico “acreano” com e, contra a “acriano” com i, é defendida até hoje como uma causa cívica e cultural pelo povo do Acre. Portanto, quem nasce, vive ou ama o Acre é acreano. E fim de papo.

Janu Schwab é o filho do Everaldo Maia, neto da Zilma e do Júlio, lá da Praça da Catedral. Nasceu em Porto Alegre, mas mudou-se com a família para o Acre. Publicitário, mora em São Paulo.

Nota do blog

Curadora de um projeto autoral chamado “O Brasil com S”, Mayra Fonseca, indicado por Paulo Silva Junior, autor de “O Acre existe”,  convidou-me para escrever sobre o Acre. Fiz bem em não aceitar e indicar Janu Schwab. O projeto de Mayra investiga a pluraridade da identidade brasileira e pretende estimular o autoconhecimento do país. Trabalham com temas de pesquisa e curadoria, quinzenalmente. Os temas são sempre lugares ou elementos culturais brasileiros.  Para cada tema, um especialista é convidado (historiador, jornalista, sociólogo...) para a produção de um texto simples e informal que responda o que “O Brasil com S” não sabe sobre o tema. O convite era para escrever a partir do tema "O que não sabemos sobre o Acre". O prazo era de três dias e Mayra acrescentava:

- É simples. Um texto de uma ou duas páginas, informal e inspirador, que mostre aspectos positivos de cultura e cotidiano do Acre que os brasileiros merecem (e deveriam) saber. É de teu interesse? Você consegue nessa data?

Por causa da preguiça, que a gente apelida de falta de tempo, tomei a decisão mais acertada da vida ao repassar o convite para Janu Schwab. Clique aqui para conhecer o projeto “O Brasil com S”, que também tem uma página no Facebook.

10 comentários:

Êidina Queiroz disse...

Oi Altino Machado, gostei muito do texto, do jeito como o Janu Schwab escreve. Sou acreana, sai com 4 anos para morar em Porto Velho, mas voltava nas férias, uma vez que minhas tias e avos ficaram em Rio Branco. Já adolescente, vim para o Rio de Janeiro, quando ouvi pela primeira vez o insulto de que tinha vindo da selva e como boa acreana respondi em cima da bucha: eu vim da mata, a selva é aqui, pelo o que estou vendo e aprendendo... abraço fraterno.

Thalles Vinícius disse...

Que texto belo, bem escrito, e com a cara do Acre.

Meus parabéns,Janu Schwab.

Abraços

Itaan Arruda disse...

Altino, você é um excelente jornalista. Escreve como poucos. Mas, ainda bem que você passou a bola para o Janu para atender a demanda do "Brasil com S". Muito bom o texto dele. Vai escrever bem lá na caixa prego! Só não concordo (e não entro na polêmica incentivada pelo paço) a respeito do debate gramatical em torno da palavra "acriano". O correto é acriano com "i" e pronto! rsrs
Do amigo Itaan

Terra disse...

Eu sou é Acreano com "e" com e pronto!

Juarez Nogueira disse...

Ótimo, Altino, o texto do Janu. O a.C.re é mesmo mais seiva do que selva e muita gente boa aí merece mais que uma declaração de amor. Falar nisso, não tem MST aí não? Tanta terra para ocupar...

Juarez Nogueira disse...

Ótimo, Altino, o texto do Janu. O a.C.re é mesmo muito mais seiva do que selva e muita gente boa aí merece mais que uma declaração de amor. Falar nisso, em amor, tem MST aí?...

Altemar disse...

Obrigado acrEanos Altino e Janu.

Asguimaraes Guimaraes disse...

Prezado, sr. Altino Machado,

Sou um paraense entusiasta dos rincões da "nossa" Amazônia, e assim, "navegando" pela Internet, "caçando" notícias sobre a cheia do rio Madeira, que, infelizmente, isolou o Estado do Acre, deparei-me com o seu "blog", e li o texto, assinado por Janu Schwab, que descreve - com pena de ouro - o, digamos, dia-a-dia do acreano (com "e", obviamente). A sua forma de escrever me lembrou um antigo artigo, entitulado "O Acre... ou "O Brasil que o Brasil não queria!"", publicado no "site "O Boletim" em 11/01/2007e assinado por Dora Beltrão, o qual eu guardei no meu PC. Abaixo, envio uma cópia do citado artigo.
Um abraço deste seu amigo paraense,
Ademir Guimarães


O Acre... ou "O Brasil que o Brasil não queria!"

A rica história do Acre é uma ode ao heroísmo do “povo da floresta”: o povo amazônico! E o amor à Pátria Brasileira aflora magistralmente na alma do povo acreano.
O Estado do Acre, um dos mais bonitos adornos da Amazônia, mesmo estigmatizado com o epíteto “o Brasil que o Brasil não queria”, superou os obstáculos, venceu os invasores e se amalgamou como exemplo de amor à nossa soberania. Visitar o Acre é, sem dúvida, fazer parte dessa história de glórias.

O Acre teve um honroso passado, e é berço de grandes expoentes de civismo, da cultura e das ciências médicas, e que hoje orgulham o nosso Brasil. Como exemplo, podem ser citados Jarbas Gonçalves Passarinho, “Chico” Mendes, Jorge Hadad (ex-Prefeito de Xapuri), Dr. Adib Jatene, etc. Todos nascidos na cidade de Xapuri.

Durante os chamados “Ciclos da Borracha” o Acre atraiu muitos compatriotas, que arriscavam a própria vida na intenção de encontrar a riqueza fácil que os milhares de árvores da “hevea brasiliensis” (a seringueira) poderiam proporcionar, e das quais o Acre ainda continua rico. Perpetuaram-se na nossa história como os “Soldados da Borracha”, e deixaram plantada naquela terra, ao mesmo tempo hostil e dadivosa, a sua semente, os seus descendentes, os nossos heróicos irmãos acreanos. Só isto já faz do Acre um celeiro da história contemporânea do Brasil.

A cidade de Rio Branco é a capital do Estado do Acre. Situa-se às margens do rio “Acre” e é a maior e mais populosa cidade do Estado. Rio Branco e Xapuri são as mais antigas cidades do Estado do Acre. Conta a história que, em 1882, ao pé de uma já imponente árvore (e que ainda hoje existe) chamada “Gameleira”, o desbravador nordestino Neutel Maia construiu um acampamento e lá fundou o “Seringal Volta da Empreza”, que deu inicio a um povoado também chamado de “Volta da Empreza” ou de “Porto Acre”, o qual logo se tornou mais desenvolvido que os demais povoados, pois nele se construíram vários comércios e porto para atender o abastecimento das inúmeras embarcações a vapor que navegavam no rio “Acre” transportando o então chamado “ouro negro”, a borracha “in natura”.
(CONTINUA NO PRÓXIMO COMENTÁRIO)

Asguimaraes Guimaraes disse...

(CONTINUAÇÃO DO COMENTÁRIO ANTERIOR)
Hoje a secular “Gameleira” ainda está em pé, com mais de 2,5m de diâmetro no tronco, e 30 m de altura. Esta árvore foi “testemunha” de duas batalhas da sangrenta “Revolução Acreana”, chefiada pelo gaúcho José Plácido de Castro.

No povoado de “Porto Acre” travaram-se violentos combates entre o bem armado exército boliviano que invadiu e tentou expulsar os nossos compatriotas e apoderar-se da região à força e os heróicos revolucionários acreanos que, apenas com poucas espingardas de caça e facões, defenderam com bravura e inigualável patriotismo as terras brasileiras da região e assim venceram a mais numerosa tropa boliviana, tornando o Acre parte do Brasil com a assinatura do “Tratado de Petrópolis” pelo Barão do Rio Branco, criando o antigo “Território do Acre” (hoje Estado do Acre) e mudando a denominação do povoado de “Volta da Empreza” (ou “Porto Acre”) para “Villa Rio Branco” que, ao afirmar-se como o mais próspero centro urbano do chamado “vale do ‘Acre’”, transformou-se na atual cidade de Rio Branco.

A cidade de Rio Branco disputa em hospitalidade, beleza e simpatia dos seus habitantes com os demais municípios acreanos, principalmente com Xapurí, outra importante e histórica cidade acreana, distante 188 km de Rio Branco, e que também foi palco da sangrenta revolução que uniu o Acre ao resto do Brasil.

Xapuri também vivenciou os mais recentes episódios da epopéia do seringueiro “Chico” Mendes, que foi assassinado em 1988, pela sua luta em prol da preservação da floresta contra os madeireiros que intentavam destruir a mata para retirada indiscriminada de madeiras nobres.

Atualmente os valorosos acreanos buscam no acesso ao mercado internacional outras vertentes para o desenvolvimento do seu Estado. Não tenho dúvidas que conseguirão, e o turismo sustentado será uma delas. Neste enfoque o Acre também está bem servido, pois tem o que o turista busca encontrar em qualquer roteiro que faça: tem uma bela história épica associada à uma riquíssima cultura e à uma culinária exótica e excelente. Tem floresta quase intocada e também lindas praias de águas cristalinas, que retrata a natureza amazônica em todo o seu esplendor, e que pode abrigar o ecoturismo, hoje “em alta” no mundo. Também a exploração racional das nobres e abundantes madeiras da floresta acreana poderá ser viável. Outra poderá ser o gás e o petróleo leve, que repousa intocado no subsolo acreano, esperando que o “companheiro” Evo Morales, que sabe da sua existência, intente vir explorá-lo, caso os brasileiros, de todos os Estados da Federação, “fechem os olhos” ao seu já comprovado atrevimento frente à “placidez” dos nossos governantes atuais. Talvez a história se repita!!! Agora só depende do “companheiro” Evo!!!

Acooordaaa Braaasiiilll!!

Dora Beltrão

Julinho disse...

Ótimo trabalho!