quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Maior cheia em 100 anos do Rio Madeira pode deixar o Acre isolado do país

No distrito de Abunã, na confluência dos rios Madeira e Abunã, água cobre trecho da BR-364, que liga o Acre a Rondônia

Mais de 1,5 mil famílias já foram afetadas em Rio Branco (AC)  e Porto Velho (RO), por causa da cheia dos rios Acre e Madeira, que desde a segunda-feira (17) apresenta os maiores níveis registrados em séria histórica de 100 anos. Nos dois Estados, mais de 500 pessoas já foram retiradas de suas casas e conduzidas para abrigos improvisados pela Defesa Civil.

De acordo com dados da Agência Nacional de Águas, o Madeira, em Porto Velho, estava com 17,86 metros de profundidade às 15 horas desta quarta. Em Rio Branco, acima da cota de transbordamento, o Rio Acre estava com 14,97 metros de profundidade, de acordo com medição da Defesa Civil ao meio dia.

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A coordenadora de Operações do Centro Regional do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) de Porto Velho, Ana Strava, disse ao Blog da Amazônia que a expectativa é no sentido de a cota do Madeira oscilar entre 17,80m e 18m num “cenário pessimista”.

- Estamos no quinto dia sem chuva na Bacia do Madeira. Isso quer dizer que a chuva que caiu no dia 14 de fevereiro está escoando e depois disso poderemos ter o decréscimo do rio. Mas isso não é definitivo porque em março costuma chover na bacia – assinalou Ana Strava.

Em Rondônia, os municípios de Guajará Mirim e Nova Mamoré estão isolados por conta da interdição da BR-425. O fato mais grave envolve o abastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos.

No distrito de Jacy-Paraná, a lâmina de água continua sobre o asfalto da BR-364, que liga Rondônia ao Acre. Moradores da região chegaram realizar um protesto e bloquearam um trecho da rodovia por mais de 20 horas, mas a situação foi contornada na quarta com a intervenção da Polícia Rodoviária Federal.

No entendimento dos moradores de Jacy-Paraná, o alagamento da região é consequência da construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, cuja assessoria afirma que o empreendimento não tem ligação com o alagamento da região.

O Parque de Exposições, em Rio Branco, abriga atualmente 94 famílias. O governo estadual tem descartado a possibilidade de desabastecimento de combustíveis e alimentos em caso de fechamento da BR-364.

No distrito de Abunã (RO), a 280 quilômetros de Rio Branco, passagem obrigatória de quase tudo que entra ou sai do Acre via BR-364, não existe ponte. A travessia é feita com muita precariedade em balsas.

A Defesa Civil do Acre considera a situação delicada por causa do risco iminente de interdição da rodovia. As balsas operam com autonomia de até mais um metro de elevação das águas. Se esse limite for ultrapassado, o serviço de travessia será suspenso e o Acre passaria a enfrentar sérios problemas de abastecimento.

O risco de isolamento do Acre não é apenas por conta da balsa. Funcionários da balsa disseram que o rio pode subir mais que a travessia não seria interrompida. O problema mais grave é a rodovia alagada. Acima dos 40 cm atuais da lâmina de água, os caminhoneiros temem enfrentar a correnteza, principalmente com caminhões vazios.

De acordo com previsões climáticas do Sipam, o trimestre janeiro, fevereiro e março apresenta chuvas acima da média no Acre, norte de Rondônia e noroeste e norte de Mato Grosso, impactando diretamente as bacias do rios Madeira e Acre.

 - As cheias são consequência direta do escoamento das chuvas que também se apresentaram acima da média histórica na bacia do Rio Madre de Dios (Peru) e Mamoré (Bolívia) -  esclarece  Ana Strava. 


Nos rios Abunã e Madeira, travessia de balsa para entrar e sair do Acre

Um comentário:

Carlos Floresta disse...

A cheia do Madeira nos traz verdades inescapáveis. Vejamos:
a) O Acre talvez não seja o pior lugar da Amazônia pra se viver. Mas tá LONGE de ser o melhor;
b) A cheia de um rio pode nos matar de fome. Pode faltar comida. A não ser que nossa autossuficiência no plantio de macaxeira esteja assegurada pelo governo ufanista do Acre. Pelo histórico, penso que a macaxeira não dá pra todo mundo ;
c) A cheia de um rio pode nos levar a “cuidar mais da saúde”: por falta de gasolina, vamos todos admirar a cheia do rio no lombo das magrelas. É provável que surja a campanha: “troque seu carro por uma canoa”. Todo mundo vai achar lindo!
d) A cheia de um rio pode nos tirar o fornecimento de eletricidade. Poderemos ter noites mais contemplativas apreciando o céu. De chuva. Não vai dar pra comprar vela porque nada mais chegará por via terrestre (ou aquática?);
e) A cheia do Madeira prova, definitivamente, que apesar de todo autismo político e ufanismo doentio, o Acre não passa de um quarteirão no fundo do quintal do Brasil, cujos donos são uns... escolha você o adjetivo.
f) Fugir? Pra onde? Bolívia? Peru? Tudo alagado! Pela BR-364? Em baixo dágua!
A culpa disso tudo? É de um velho safado: o Rio Madeira.
E você, Seu Rio Madeira! Se prepare pra receber também uma nota de repúdio por mostrar e falar a verdade!