quinta-feira, 12 de setembro de 2013

“Pecuária e exploração madeireira triplicaram no Acre em uma década”, diz pesquisador da Ufac

A editora da Universidade Federal do Acre (Ufac) lançou durante a semana, em Rio Branco, a segunda edição, em formato digital, do livro "(Des) envolvimento insustentável na Amazônia Ocidental", de autoria do professor e pesquisador Elder Andrade de Paula.

Resultado de uma tese de doutorado defendida em fevereiro de 2003 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o livro pode ser considerado um divisor de águas no debate regional sobre sustentabilidade.

A ideologia do desenvolvimento sustentável passou a ser confrontada no Acre de forma contundente com os “dados da realidade”, segundo o autor, "reveladores  da persistência estrutural de um estilo de desenvolvimento cronicamente insustentável".

O professor afirma que tem havido brutal reconcentração da propriedade das terras de domínio privado no Acre e que as linhas de crédito oficiais, bem como os programas de investimento mais expressivos no Estado, servem para mostrar como se articulam as economias que denomina de "marrom" e "verde" na espoliação da região.

- As duas atividades mais predatórias, pecuária extensiva de corte e exploração madeireira, triplicaram em apenas uma década. O rebanho bovino passou de 800 mil cabeças para 3 milhões e a exploração madeireira de 300 mil metros cúbicos por ano para mais de 1 milhão de metros cúbicos por ano. Somente nas áreas exploradas com os tais planos de manejo florestal sustentável foram mais de 755 mil metros cúbicos de madeira em tora – acrescenta Elder de Paula.

Terra de Marina Silva e do líder sindical e ambientalista Chico Mendes, assassinado em dezembro e 1988, o Acre ganhou projeção como uma espécie de laboratório do movimento socioambiental.  As políticas públicas nesse sentido foram batizadas de florestania, expressão usada para o objetivo de promover cidadania adaptada à floresta.

Para o professor, a florestania é interpretada como uma estratégia de legitimação da ideologia do desenvolvimento sustentável.

- O aparato de propaganda governamental  buscou imprimir uma marca regional a algo absolutamente estranho a ela – a ideologia do desenvolvimentos sustentável. Na atualidade seria mais apropriado usar a expressão florestaria, isto é, floresta para as serrarias – critica o pesquisador, que tem pós doutorado em Sociologia do Desenvolvimento pela Universidad Nacional Autónoma de México e coordena o núcleo de pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental, na Ufac.

Clique aqui  e veja entrevista exclusiva de Elder Andrade de Paula no Blog da Amazônia.

4 comentários:

joaomaci disse...

O estudo do professor Elder tem relevo em razão de desmascarar o engodo sob o título de desenvolvimento sustentável, largamente promovido no Acre por aqueles que se auto-proclamam "companheiros de Chico Mendes".
Mas o dueto formado pela exploração madeireira e a monopolização do território por pastagem para o gado, abertamente fomentado por créditos dos Bancos oficiais e por generosos benefícios fiscais, portanto com a flagrante anuência dos governantes, não é uma exclusividade do Acre. Esta combinação é extremamente perversa com as populações locais, e não estou falando somente daqueles que vivem no campo. Até porque estes estão cada vez mais escassos e os que aí permanecem são compelidos pelas políticas ambientais e econômicas (pelos incentivos fiscais)a se transformarem em auxiliares da acumulação dos capitais ligados às madeireiras e pecuaristas. A verdade (já mostrou o IBGE) é que a grande maioria da população da região está amontoada nas cidades. Formam bairros que segundo suas condições de infraestrutura mais parecem campos de refugiados. Na verdade, são mesmos refugiados. Refugiados do campo.
A exploração da terra e do trabalho prevalecem de maneira estarrecedora nesta parte da região da Amazônia Ocidental. Através de um arranjo no qual se cruzam políticos e fazendeiros (não raro são a mesma pessoa) a pecuária estabelecida na região da Ponta do Abunã, Estado do Acre e Sul do Amazonas graceja na forma de latifúndio ou pelo arrendamento de pequenas propriedades. Aqui estão situadas várias das propriedades constantes na Lista Suja do Trabalho Escravo, organizada pelo Ministério do Trabalho. Numa ação do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, ocorrida no município de Boca do Acre, 85% das ações são contra o fazendeiro considerado o maior empregador do município.

Igor Agapejev disse...

E por que isso seria ruim?

Altemar disse...

Fulge um astro na nossa bandeira que foi tinto do sangue de heróis, adoremos a estrela altaneira, o mais belo e o melhor dos faróis.

Carlos Floresta disse...

O Professor Elder Paula é uma das (poucas) vozes que rompem o cerco florestânico ou (floressatânico?) para revelar a realidade gritante dos fatos: a florestania é um engodo que destrói a floresta e torna uns poucos milionários.