sábado, 30 de março de 2013

A CÉSAR, O QUE É DE CÉSAR

POR LYSIAS ENIO



1930

Sobre colinas suaves de topos planos e encostas abruptas, Rio Branco situa-se às margens do Rio Acre, historicamente nas terras altas de seu lado esquerdo. No direito o relevo é baixo e plano, formado pela planície de inundação do rio.

Aqui e agora, vivem no Território para mais de 150 mil habitantes que se espalham pelos seringais e castanhais. Só no município de Rio Branco conta-se em 25 mil as almas, o restante da população divide-se pelos municípios. Juruá, com sede em Cruzeiro do Sul, Purus com sede em Sena Madureira, Xapuri com sede na cidade do mesmo nome, Tarauacá com sede em Seabra.

As comunicações quase que somente por via telegráfica em virtude das imensas distâncias e as dificuldades de transporte. O único meio para se chegar aos municípios acreanos é por via fluvial.

Da sede do governo à Cruzeiro do Sul gasta-se nada menos que três meses de viagem, ida e volta, via Manaus, além do esforço que se precisa despender. Dias longos sob o sol inclemente. Noites escuras com o infinito do céu encoberto pela mata.

Um comboio de chatas, gaiolas e catraias transportam em seu bojo os aviamentos necessários à economia da região num sobe e desce febril.

1935

Nas águas do Rio de Janeiro, o Tte. Cel. Lysias Rodrigues, da Aviação do Exército, comunica ao Interventor Federal, Martiniano do Prado, a intenção de voar até aos confins do extremo oeste e solicita informações sobre a possibilidade de um campo de aterrissagem.   

O governador reúne-se com dois de seus principais assessores.

— Precisamos ligar o Acre ao resto do mundo, pelo ar. O caminho dos rios é lento e sazonal. Onde podemos construir um campo de aviação?

Martiniano dirige-se ao seu Ajudante de Ordens.

— João, como se prepara, sem verba, um campo de aviação?

— Sem dinheiro, só caindo do céu.

O Interventor dá impressão de voltar de algum lugar distante.

— Vamos apelar para o civismo da população. Vamos lotear!

Bate na perna como se a ideia brotasse da mordida de pium, sem explicar pergunta ao ajudante de ordens:

— Quanto é que tem que ter esse campo para o avião pousar em segurança?

— Uma área de 600x40m.

— Perret, quantos lotes de 20x20 cabem aí dentro?

— Assim de cabeça, uns 300 – respondeu o chefe do serviço de demarcação da área.

— Então faz isso, divide no papel e numera. Vamos convocar o voluntariado e sortear o lote que compete a cada um promover a derrubada da mataria. Pode faltar dinheiro, mas sobra coragem ao povo da floresta.

Sem recursos financeiros para as comemorações do Dia 1º  de Maio, Martiniano resolve festejar fazendo a população trabalhar na construção do campo de aviação. Levando em consideração a topografia e a composição dos terrenos, a análise dos principais riscos geológicos comuns na região - deslizamentos de terra, solos expansíveis, enchentes e erosão acelerada, o escorregamento dos barrancos em movimentos lentos de rastejo, o local escolhido, as terras do Aprendizado Agrícola (hoje Bairro da Pista).

E lá se vão munidos de terçados, machados e foices, rumando para a área próxima ao álveo do rio Acre, acompanhados da banda de música sob o comando do cap. Jaci Medeiros.

São necessários quatro homens trabalhando uma jornada inteira para derrubar um só assacuzeiro na comemoração de mais um Dia do Trabalho.

*

Martiniano dorme satisfeito. A noite sossegada não dura muito. Na manhã seguinte recebe um telegrama de Lysias Rodrigues e convoca os encarregados da construção iniciada. 

— João, o campo não presta. Tá pequeno. Perret, aumenta pra 1000x50. - ordena, atendendo as medidas sugeridas por Lysias.

— A intenção é futuramente a linha do Correio Aéreo Militar se estender até Rio Branco, via Cuyabá, fazendo a ligação aérea do Território às demais unidades da Federação brasileira.


1936
 

A construção da pista se arrasta.

Na época invernosa os trabalhos de terraplanagem, executados por soldados da FPTA, sob a responsabilidade do major Pedro de Vasconcellos, são interrompidos por causa das chuvas.

— João, vai perguntar ao Vasconcellos se não dá pra continuar mesmo debaixo de chuva.

O Capitão bate continência e sai para atender ordem. Ainda não sabe, mas vai também cumprir um sonho, realizar um destino:

— A glória de, nas asas de um avião, dominar o espaço azul do Acre e partir, em demanda de outras terras, levando a notícia e a prova do nosso valor e do nosso progresso.

A fuga do condor

1936

— Temos boas novas – diz Martiniano ao tomar conhecimento que o Syndicato Condor havia apresentado na Câmara Federal projeto propondo ligar os Estados ao Território.

— Nada melhor do que aproveitar as cheias dos rios da região - afirma João -, especialmente o Acre, com volume de água que permite o pouso de um hidroavião.

— Perret, a Syncondor quer saber o comprimento dos estirões perto da capital assim como a orientação e direção dos ventos predominantes na época.

Antecipando-se à resposta do chefe da demarcação.

— Cuida disso. E tu, João, ficas encarregado da logística para colocação da gasolina e óleo nas diversas escalas. Só então darão início aos voos experimentais.

Martiniano dá impressão de voltar de algum lugar distante.

— Vou dar ao campo o nome do aviador que nele primeiro descer seu aparelho.

*

Que demora! O Interventor Federal indo ao encontro do desejo dos acreanos, que também faz parte da sua visão de patriota, comunica-se telegraficamente com os interessados no assunto dando parte a uns da medida, e a outros da oportunidade de adquirirem a primazia da conquista de novos horizontes.

O marketing parece não funcionar.

Decide ir ao Rio. Precisamente às 12h do dia 23 de fevereiro realiza-se em seu gabinete de trabalho, no Palácio Rio Branco, com a presença de todos os auxiliares da administração, a passagem do governo para o Tte. Cel. Fontenelle de Castro, comandante da FPTA, a quem competirá, em sua ausência, responder pelo expediente da Interventoria.

Às 13h, ele atravessa a Praça Juarez Távora onde se acha formada a Força prestando continências de estilo. Desce a ladeira em direção ao cais acompanhado pelo povo, com vivas e acenos de despedida, sobe a prancha para bordo do Benjamim, em companhia de seu Ajudante de Ordens.

O vapor sulca as águas do Acre com destino a Manaus.

— João – adverte -, não é uma viagem de rega-bofe.

De lá seguem por avião até o Rio de Janeiro. Chegam às 17h30 do dia 2 de março.

*

Conhecedor dos problemas e necessidades regionais, o Interventor expõe de viva voz, ao Governo e aos titulares de várias pastas ministeriais, os assuntos que interessam à administração territorial. Examina e discute a situação do Acre, as suas exíguas possibilidades pecuniárias, combinando meios e modos de solucionar os assuntos de mais alta relevância, o que não pode ser feito em communicações telegráficas, postais e na letra morta dos relatórios oficiais.

— O avião é necessário. Sem ele não há como resolver problemas de higiene, a reorganização e amparos dos hospitais, o fornecimento de remédios suficientes e apropriados à cura das moléstias regionais, notadamente o impaludismo.

Martiniano instrui o ajudante de ordens.

— Vamos falar com o pessoal da Panair e da Condor. Precisamos convencer o Lysias de uma vez por todas da importância da aviação para o Acre, que ainda tenho que tratar de outros assuntos.

Martiniano também cuidaria da instrução secundária e primária do Território, do reconhecimento official do Gymnasio e da Escola Normal.

Durante as reuniões, informações e orientações precisas sobre o local de pouso.

— O trecho do rio em frente da cidade não serve para aquatisagem por motivo de ser sua pequena extensão reta atravessada por um cabo condutor de energia elétrica, com altura de 46 m do solo.

Descrevem aos técnicos da Condor.

— O estirão do Bagé, à montante e próximo da cidade tem extensão de 3.200 m., e o rumo de 45 graus Sudeste. Velocidade média do rio Acre, quatro milhas por hora.

— Qual a largura e profundidade mínimas do estirão?

— Depende da época. Na cheia, profundidade mínima, seis metros e largura de oitenta.

— E os ventos dominantes.

— Durante os meses de fevereiro a abril é Noroeste-Sudeste, com velocidade média de 1,1m/seg., à tarde; calma pela manhã e leves brisas à noite.

— Existem corredeiras e pedras no montante da cidade?

— Não há pedras nem outros obstáculos no talweg do rio, porém, existem paus submersos.

*

Martiniano está animado.

O Cel. Lysias, posto à disposição do Min. da Justiça a fim de estudar in loco as possibilidades das linhas do correio aéreo militar chegar ao Acre, promete ligar os 3.415 km, do Rio de Janeiro a Rio Branco, em diagonal, via Mato Grosso, em três dias, pilotando avião durante 10 horas, para batizar o nosso campo de aviação.

A Condor promete, por volta de abril ou maio, realizar uma viagem experimental, obedecendo às seguintes etapas: São Paulo, Bauru, Araçatuba, Três Lagoas, Campo Grande, Corumbá, São Luis de Cáceres, Mato Grosso, Laranjeiras, Forte Príncipe da Beira, Vila

Murtinho, em Guajará Mirim, e finalmente Rio Branco.

A Panair, prolongar sua linha de Manaus pelas localidades marginais do Solimões, Purus e Acre, além dos Andes, unindo os oceanos Atlântico e Pacífico.
 

1936

Diário de Bordo do Taquary:

22/4 - Partimos de Corumbá com destino a São Luiz dos Cáceres, onde aquatizamos depois de duas horas de voo no estirão abaixo da cidade. Demoramos um dia em Cáceres obtendo informações sobre o percurso entre Cáceres e Mato Grosso, onde a Cia. pretende instalar uma estação de rádio para informações de meteorologia, provavelmente em Porto Esperidião.

24/4 - Saímos com destino a Mato Grosso, seguindo o rio Jahuru, encontrando a esquerda do rumo a Serra Aguapehy, com cerca de 1700m de altitude. O trajeto demorou 1 hora e 20 minutos.

25/4 - Seguimos para Forte Príncipe da Beira fazendo uma afluviagem intermediária em Rolim de Moura.

26/4 - Seguimos para Guajará Mirim, onde ficamos oito dias acolhidos pela empresa de navegação, colhendo informes sobre as condições necessárias para continuidade da jornada.

3/5 - Levantamos voo com destino a Porto Velho, fazendo uma afluviagem em Presidente Marques. Pernoitamos naquela cidade e no dia seguinte trocamos ideias sobre a linha projetada com o Prefeito Municipal e diretores da Madeira-Mamoré.

5/5 - Apesar de notícias de mal tempo no começo do dia, decolamos às 11 horas com destino a Rio Branco, onde após um voo de 2 h e meia...

Às 13h30 daquela terça-feira realiza-se o acalentado ideal. Descortina-se o horizonte cortado pelo Taquary desvirginando os ares do céu acreano em direção à cidade e depois, no estirão do Bagé, aquatiza e vai deslizando até o porto do Aprendizado Agrícola.

Após as manobras de atracação desembarcam da aeronave os Srs. Dr. Rederico Hoepken, técnico e engenheiro chefe da expedição, Guido Klenat, piloto mecânico e Durval Barros, rádiotelegrafista, que inscrevem na história da aviação do Acre os nomes dos seus arrojados pioneiros.

Os jornais enaltecem. Os poetas se exaltam. A três quartéis de século eram penetrados pela primeira vez os cursos d’água da região pela audácia do bandeirante nordestino, agora as asas velozes do avião desbravam os céus acreanos.

Aclamados pelo povo e recebidos no Palácio Rio Branco por Fontenele de Castro e autoridades, lá estão poeta Mario de Oliveira dando os votos de boas vindas aos ilustres visitantes.

O sonho é realidade. O avião chegou ao Acre!

Mas partiu logo.

Às primeiras horas da manhã do dia 9, a cidade se movimenta em grande animação do povo procurando chegar ao Aprendizado, para assistir a partida do Taquary. O mono motor decola, às 8h20 e, após fazer diversas evoluções sobre a cidade, voa com destino a Lábrea onde, segundo informações telegráficas, chega às 9:50h, para encontrar o Interventor que volta, só, da viagem ao Rio.

O milico da FPTA ficou na Cidade Maravilhosa.

Devido à impossibilidade de sua matrícula ser feita na Escola de Aviação Militar, é inscrito na Escola de Aviação Civil do Fluminense Iate Clube, do Rio.


O capitão Donato tem se esforçado bastante, fazendo crer que em breve será um aviador útil à sua terra natal, escreve Lysias Rodrigues ao amigo Interventor.

*

— Capitão Donato!– grita furioso, Lucena, seu instrutor militar.

— Pronto – responde, dando um passo a frente.

— O que é um parafuso?

— Uma acrobacia que consiste em fazer o avião estolar e guinar descrevendo uma espiral fechada em torno do eixo de descida, e depois voltar à posição de voo planado.

— Então, por que o senhor ao invés de voltar ao voo nivelado aplicou um hammerhead, pondo em risco a integridade do aparelho?

— Desculpe instrutor, como posso ter executado esta acrobacia se o senhor ainda não nos ensinou como se manobra.

Foi exatamente o que ele fez. Depois de sair do parafuso e levar o avião à posição horizontal, perdeu velocidade, parou no ar e guinou no eixo vertical, para só depois recuperar o voo planado.

João tinha deixado no céu rastros de audácia.

— O senhor sabe o que quer dizer hammerhead?

— Não, senhor!

— Pois é o que o senhor tem, seu ‘cabeça de prego’.


Nota do blog

Lysias Enio é poeta, autor de belas canções da música popular brasileira em parceria com o músico João Donato, irmão dele.
Ambos são filhos do coronel João Donato de Oliveira, o primeiro piloto acreano de avião. O texto acima é o trecho do capítulo IV do livro inédito "Pelo Avesso", onde o autor relata a história da aviação acreana e as peripécias do primeiro piloto acreano a sobrevoar, segundo costumar assinalar, "as flores do amor sobre a terra e no céu o arco-íris da Paz". Enviou o original e me concedeu liberdade para publicar trechos quando bem entender.

- Podes excluir trechos que julgares inadequado para o blog. Enfim, fica à vontade e usa teu critério, bom senso e competência. Fica frio e faz o que for melhor para conseguir apoio do Acre para publicar minhas memórias, pesquisas, fantasias e amor pela terra.

3 comentários:

Paulo Henrique disse...

AEROPORTO INTERNACIONAL CORONEL JOÃO DONATO DE OLIVEIRA

Este deveria ser o nome do nosso aeroporto!
A verdadeira valorização e resgate da memória de personagens que, com coragem e inteligência, moldaram e construiram este cantinho da América como Brasil.
Como dizia o célebre historiador português Alexandre Herculano: "Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra, dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam."

Lazaro Barbosa disse...

Altino, vai fundo! Investiga! Não usa meio termos, como aqueles que batem e assopram com mêdo das consequências. Concordo que valorizar essas história é o mesmo que dizer que os nossos "heróis" de hoje, não passam de garotos mimados. É por isso, Altino, que você faz a diferença no jornalismo atual.

Roberto Feres disse...

Interessante é a descrição precisa de processos como as Planícies de Inundação ou o Rastejo, que hoje o gunverno insiste em desconhecer...