segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

PM MATOU ZEQUINHA

POR IRINEIDA NOBRE
 

Altino,

Escrevo para lembrar de uma tragédia revoltante ocorrida no lugar onde moro. Caso julgue pertinente, penso que pode ajudar a fazer alguma justiça.

O caso ocorreu na noite de sexta (1), bem em frente ao trecho do Calçadão da Gameleira, que foi inaugurado na manhã do sábado (2), no centro histórico de Rio Branco.

Um de meus vizinhos, José Lima Carneiro, 33, o "Zequinha", uma pessoa com problemas psiquiátricos, fazendo uso de medicação controlada, estava bebendo e quebrando pratos, travessas, copos, dentro de seu próprio apartamento.

Como de vez em quando cacos atravessavam a porta da frente, preocupados, alguns vizinhos telefonaram para a proprietária dos apartamentos que, por sua vez, chamou a polícia.

O "Zequinha" tentou se refugiar no quarto quando a Polícia Militar chegou, mas tomou dois dos quatro tiros que ouvi sendo disparados.

Os policiais chamaram o Samu e nos disseram que haviam contido "Zequinha" com o uso de uma arma imobilizadora.

Na verdade esqueceram de dizer que imobilizaram "Zequinha" para sempre.

Quando soubemos da morte de "Zequinha", ficamos chocados e tristes. Ainda estamos chocados e tristes, pois como vizinhos, vimos praticamente tudo e constatamos que nada do acontecido ali justifica o assassinato.


Fiquei ainda mais indignada quando a esposa do "Zequinha" me contou que, no "boletim de ocorrência", feito pelos policiais, consta que o marido dela foi morto sob a alegação de que estava mantendo a mulher com refém.

Não é verdade. Nem de longe é verdade.


A mulher havia saído de casa por volta do meio dia e não mais voltou naquela noite.

Aliás, voltou apenas no dia seguinte para constatar a tragédia e arrumar os pertences do morto. Tal notícia, conforme registrada no "boletim de ocorrência" pelos policiais militares, já foi divulgada nos jornais.

Eu me prontifiquei a depor contando o que de fato ocorreu, pois vi bastante coisa. Por sua vez, a viúva de "Zequinha" foi até à Defensoria Pública com meus dados e com a esperança de que se faça Justiça.

Pensei em você para nos ajudar nesta que, infelizmente, será uma difícil tarefa.


O "Zequinha" precisava de atendimento médico e foi morto covardemente. Isso não sai das nossas cabeças.

Veja o que pode fazer para ajudar a família e a sociedade acreana, que ganhará muito, caso a verdadeira Justiça seja feita.

Obrigada pela atenção. Fico à disposição para mais esclarecimentos.

Um abraço.

Irineida Nobre é gestora de políticas públicas na Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour


Atualização às 15h15

De um PM do Acre:

- Temos um lema: melhor ser julgado por 7 do que carregado por 4. E, se for pra chorar a mãe de alguém, que seja a do bandido.

5 comentários:

Lucas de Araújo Moura disse...

As forças militares tem um dilema grande: um passo para frente e dois para trás. Não sou dos que condenam a maioria pela a atitude incrédula de uma parte minoritária, até porque tenho amigos e convivo bem com gente que honra a camisa que veste. A denúncia e o relato aqui são gravíssimos, espero que os órgãos competentes já estejam fazendo o que todos esperamos.

sérgio de carvalho disse...

Depoimento e denuncia muito séria. Parabéns Irineida, vc que não se calou frente a este absurdo! Pelo seu relato, foi assassinato, não outra coisa! Espero que este crime não fique impune e macule a imagem dos bons policiais. Espero que esta famílai seja amparada. Nada justifica uma morte desta maneira. Houve negociação? Qual era o risco real?
Mais uma vez parabéns, como já dizia Luther King: " Temo mais o silêncio dos bons que o grito dos maus". Ainda bem que vc nãose calou!

Gleiciane disse...

"E, se for pra chorar a mãe de alguém, que seja a do bandido." O problema é que diante da truculência policial, cada vez mais comum, fica difícil saber quem é quem.

joaomaci disse...

É sobre este tipo de postura que tenho me referido (deste policial que fala sobre o choro da mãe do bandido). Não podemos generalizar. Conheço poucos policiais, mas sei que há equilíbrio emocional entre alguns.
O governo e a imprensa irresponsável, com esse negócio de super segurança pública, são pai e mãe dessa animosidade entre os policiais.
Em grande medida, a truculência policial deriva desse casamento horroroso. Uma das coisas mais perigosas que existem é quando os políticos, pressionados pela imprensa, decidem que vão "acabar com a bandidagem" e para isso resolvem "aumentar o efetivo". A partir desta ordem, se você é negro, seu veículo possui duas rodas e mora em bairros considerados perigosos, fique atento: dependendo da hora em que você circular próximo as áreas consideradas calmas, pode muito bem virar manchete de matéria sensacionalista encomendada pelo pessoal da segurança pública. As chamadas são do tipo: "policiais prendem homem que planejava assalto".
Quando chega o final do período uma autoridade da segurança pública chama a imprensa e apresenta uns gráficos indicando que as prisões aumentaram. Depois de um tempo, o ciclo recomeça.

Regina Cavalcanti disse...

Irineida, parabéns pela coragem! Atos como o seu, podem trazer mudanças para todos. Força!