terça-feira, 10 de abril de 2012

O FARSANTE E O SENADOR

POR LEILA JALUL

Uma das maiores diversões que tenho (pode parecer coisa de doido) é rir de mim mesma. Anarquista que sou, por vocação, desejo e fidelidade aos meus princípios, indico a todos os amigos e leitores que, pelo menos três vezes por semana, façam este exercício mental. Não dói, não desestrutura a psique e nem desgasta sua consciência. Rio estrondosamente, quer esteja só ou acompanhada. Vale testar.

Quando comecei a expor publicamente as “coisas” que escrevi no condado onde vivi, houve uma repercussão. Não tão grandiosa, mas houve. O sítio que me hospedava, por algum tempo, recebeu comentários (bons e ruins) um pouco além do limite do habitual. Nada estrondoso, quero esclarecer. Os índices do Ibope devem ser relativizados. Sempre. O novo, até por ser novidade, na pasmaceira da vida, desperta curiosidade. Depois, a exemplo do que acontece na vida, os clamores esmorecem. E morrem.

Um dia, sem quaisquer motivos que despertassem suspeitas, fui procurada pelo dono de um jornal. Queria autorização para republicar meus textos em seu diário. Com privilégios, diga-se. Em horário nobre, saliente-se.

De repente, não mais ligeiro que isso, passei a ter, aos domingos, um jornaleco fresquinho da silva colocado debaixo do portão principal da minha humilde tenda. Seria o sucesso atravessando meu caminho. É comum, pelo menos de minha parte e no povo da minha raça, desconfiar de esmolas grandes.

Num domingo, dias depois da publicação da crônica "À putanesca", fui  buscar o jornal. Por ter chovido na madrugada, o desgraçado estava minando água das letras e soltando tinta fedida e preta que manchou a cerâmica do piso. No problem, pensei. Mais tarde compro outro na banca do Preá. E assim fiz.

A matéria estava assim diagramada: no alto, o título. Abaixo do título, em preto e branco, a foto de Ava Gardner. Abaixo da foto, em legenda minúscula, estava meu nome. Aos caras-pálidas, aviso: nunca fui Ava Gardner. Meu nome é Leila Jalul.

Imaginem o meu constrangimento. Ava Gardner? Eu? Eu, Ava Gardner? A distância entre o sol e a terra não é tão menor. Fiquei fria. Quem trabalha ou trabalhou em jornal impresso sabe que qualquer erro, qualquer deslize, qualquer horror que apareça e caia nas mãos do leitor, jamais, em tempo algum, recai ou recaiu nas costas do editor, no “copidesqui” ou no entregador. Todas as merdas são da lavra do filho da puta do diagramador. Esse, sim, foi o verdadeiro culpado de, por uma única manhã de domingo, eu ter sido Ava Gardner. Safado. Cachorro.

No presente caso, meus leitores, nem o dono do jornal, nem o “copidescador”, menos o diagramador, sabiam nada de mim. Nem da Ava. Catzo. Eita, fuminho bom.

Nesse mesmo tempo, por intermédio de um amigo, fui procurada para várias entrevistas, em várias mídias. Anárquica e pequena sou, repito. E logo pensei: onde faltam frutas no balde, merda dá doce.

Lá saio eu, nos últimos suspiros de minha velha mãe, aos 83 anos, para estar com um jornalista que assessorava um político. À época (e hoje, ainda), discutia-se a perfuração de poços de petróleo e gás natural na Serra do Moa, o limite mais ocidental do País, onde, felizmente, só chegam os bravos e corajosos. É linda, muito linda, a Serra do Moa. Até pedras valiosas esconde. Não vale aqui discutir se isso é bom, se traz divisas e progresso. Vale, isso sim, perguntar: e o que é que eu tenho a ver com isso? O buraco é mais largo e mais profundo. Envolve, além da prospecção, estudos ambientais, antropológicos, sociológicos e étnicos. É a guerra entre o econômico e o social. Quem matará quem e quando. Quem salvará quem e quanto.

Voltando à entrevista, revelo: o tal jornalista chegou atrasado mais de uma hora. Não sabia ele que, enquanto esperei, minha mãe estava agoniada nas mãos de duas técnicas de enfermagem e sem calor de filha. Senta-se diante de mim o farsante. Antes de qualquer coisa, recebe um chamado telefônico do político. E diz, após encerrar a conversa:

- Receba um abraço do… Ele tem grande admiração por você.

Sim, asseverei, também tenho por ele. E não foi e nem é mentira. Tenho grande admiração. Não mais do que devo ter. Apesar de anarquista, por consciente, sei valorar pessoas e atos dessas mesmas pessoas. Com críticas, por certo.

Sem divagar, pergunta-me o entrevistador, já mais do meio dia, sem que pudesse servir o almoço de mamãe:

- O que acha da intenção do meu chefe em prospectar gás natural e petróleo na Serra do Moa?

Se alguém já engoliu uma bola de gude das grandes a seco, entenderá o que foi minha sensação diante da pergunta.

Despi-me da manta anarquista e procurei responder com a pureza de minha alma ignorante em matéria de perfurações para achar progresso fluídico e problemático. Entrei na conversa como se ouvisse música,  atravessasse pântanos e desabasse em lágrimas.

Numa construção hipotética, sem que nada soubesse sobre possíveis ações catastróficas e apoteóticas de sonhos ignóbeis de pensadores lunáticos que, a qualquer custo, poderiam matar vidas lúdicas do paradisíaco mundo amazônico, eu nada saberia dizer dessa intenção que não era minha. Em matéria de mexer com índios e culturas exóticas, sou apática e desnórtica.

E a entrevista? O que aconteceu com a entrevista? Não aconteceu nada. Baixei o pau do interlocutor fanático e prolixo. Nem almocei. Ele me dispensou como se fosse inválida para emitir uma avaliação profética que estava além de minhas afáveis avaliações em prol do impávido e colosso desejo do seu superior hierárquico.

Acontecesse hoje, estaria na mesma saia justa de ontem. Que furem poços. A dois mil metros de profundidade, pouco importa. Que matem índios, a dúzias, aos milhares que sejam. Cada um responderá por seus atos embora se pense que  a história engane. Por pouco tempo, engana bem. Até que, se espera, um índio descerá de uma estrela.

E o fim da entrevista? Saiu? Dá para mostrar? Não. Não saiu. Nem poderia. Num breve e-mail, mal engendrado e escrito, por sinal, um parágrafo que traçava um comparativo entre Leila Jalul e Leila Diniz. Pensava o escriba que me estava exaltando. Só pensava. Leila Diniz e Leila Jalul, afora a barriga da primeira Leila bufando para fora do biquíni, em Copacabana, poucas diferenças têm. Sempre fui além do meu tempo. Na beleza, não. Na cabeça, sim. Somos irmãs de tempo. Agora, por puro "babaovismo", me comparar com a beleza de Ava Gardner, confesso, é um despropósito.

Leila Jalul, cronista acreana, mora no interior da Bahia

4 comentários:

@MarcelFla disse...

Maravilhosa Leila em suas lembranças e superioridade sobre farsantes, como o caso em tela.

Altemar disse...

Quem é Ava Gardner?

Carlos disse...

Gosto muito das crônicas da Leila, expressam as idéias que eu gostaria de expressar, mas não sei as palavras. Parabéns!

Gloria Perez disse...

Você é boa demais, amiga!!!!!
Parabens por mais essa!
bjs