segunda-feira, 19 de março de 2012

R. 14 E 15

José Augusto Fontes

Um garoto, uma criança, um homem não deveria chorar de fome, chorar por não ter o que fazer, como o menino-homem que por ali passou antes de ontem.

Queria trabalhar, vender um suor, dois esforços, alguns momentos da vida, para comprar o que comer, para apagar o choro dos irmãos, para pagar a taberna, para apagar a dor do rosto da mãe, até amanhã ou depois, até o preço seguinte do sorriso ausente.

Sem saber muito o que dizer ou calar, sem mínimo argumento para justificar, chocado por ficar surpreso, ouvi-o dizer que procurava um trabalho, qualquer serviço, braçal, ocasional, queria alguma coisa para chegar em casa, para comprar a comida, um dinheiro para pagar a fome.

Disse que sabia trabalhar, vi que não tinha jeito para chorar. Disse que tinha 14 e que devia 15. Era começo de outra noite, ele viveu 14 e devia 15.

Não sabia do pai. O padrasto não tinha trabalho, a mãe não tinha mais o que inventar, os irmão tinham fome, só sabiam chorar.

Tentou estudar, não deu para continuar. Chamava-se R. Sabia trabalhar e precisava logo. Devia e não tinha nada.

Precisava pagar 15. Não tinha gás, luz, amanhã. Não tinha medo, só precisava de um serviço, só chorou quando não estava sendo visto. Pensou que não estava, já acostumado com isto.

Chamava-se R. Até antes de algum ontem, viveu 14 e devia 15.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito acreano

Um comentário:

Pietra Dollamita disse...

Fico lembrando da "Decima quinta lembrança", e do rios que ainda dormem nos meus sonhos antigos.