domingo, 26 de fevereiro de 2012

RIO BRANCO, UMA CIDADE DO BARULHO

José Carlos dos Reis Meirelles

Desconfio que, por ter morado na mata por quarenta anos, meus velhos ouvidos ficaram desacostumados a sons muito altos.

Os habitantes da mata, por dever de ofício, são discretos na emissão de sons, tirante os papagaios, araras e outros parentes de bico redondo nos barreiros. Mas também a algazarra não dura o dia todo.

Já aqui, em Rio Branco, os proprietários de alguns (e bote alguns nisso) carros resolveram transformá-los em boates ambulantes.

Não vai aqui nenhuma crítica ao gosto musical dos donos e nem o que ele carrega no porta-malas, que me parece, virou lugar de altos falantes potentes em vez de malas.

Daí o camarada sai pelas ruas da cidade, com o som ligado no máximo volume poluindo a cidade com aquele bummm, bummm, bummm que todos conhecem bem.

O fato, por princípio já é poluição sonora, aumenta o caos sonoro já inevitável das grandes cidades. Você está tirando seu sagrado cochilo, de dia ou de noite, e de repente acorda assustado com sua cama reverberando com o grave.

Não bastasse, em alguns bares desta cidade, estes cidadãos educados se reúnem para tomar uma cervejinha, sagrado direito do trabalhador brasileiro pra desenfastiar as agruras da vida. Abrem o porta-malas e ligam o som no último volume.

Se você deu azar de morar vizinho de um bar desses, sua vida, em casa, vai virar um inferno. O caso é que quando um dono de carro já  tomou a sua cerveja, paga a conta e vai embora, zoando pela cidade bummm, bummm, bummm...

Mas, imediatamente, outro freguês abre o porta-mala e bummm, bummm, bummm. E passa o dia, entra a noite e você não consegue descansar, dormir, assistir televisão, conversar, trabalhar e muito menos pensar, dentro da sua casa.

Mas creio que isso acontece por dois motivos: falta de educação é o primeiro. E permissão dos agentes de trânsito, o segundo.

Há poucos dias vi dois policiais militares em motos, com colete verde, que cuidam do trânsito, em frente ao Hospital de Base e um carro passando devagar, bummm, bummm, bummm.... Se pode em frente ao hospital, por que não pode  em frente à sua casa?

Mas, enfim, temos a cheia do Rio Acre, a polícia e as autoridades tem muito o que fazer. O velho Acre vai vazar, a vida vai voltar ao normal.

E a cidade vai continuar, dia e noite ouvindo o bummm, bummm, bummm! E eu, morador do bairro do Bosque, vizinho de um bar....

José Carlos dos Reis Meirelles é ex-engenheiro e ex-chefe da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai no Acre

3 comentários:

Roberto Feres disse...

Caro Meireles,
Um colega de trabalho abriu queixa contra um vizinho na semana passada, depois de muita perturbação.
Barulho é tratado como Perturbação do Sossego, Direito de Vizinhança ou mesmo Crime Ambiental. Para tanto não é necessário mensurar o ruido, mas tão somente demonstrar que ele existe e incomoda ou polui.
Há também os danos neurológicos causados pela exposição ao ruido e isso é tratado mais em normas de segurança do ambiente de trabalho.
O Conselho Nacional de Meio Ambiente, na Resolução 01/1990, usa como parâmetros e limites de ruido o que dispõe a norma NBR 10.152 da ABNT.
A verdade aparente é que os tais órgãos competentes para lidar com o problema não gostam muito de trabalhar à noite (quando o barulho incomoda mais), nem de lavrar ocorrências cuja expectativa de pena é remota e reduzida...
De qualquer maneira, sempre que necessário, posso disponibilizar um medidor de ruídos (decibelímetro) para quem quiser comprar briga contra os barulhentos da cidade.

Thiago Figueirêdo disse...

Prezado Meirelles,

A responsabilidade não é apenas dos agentes de trânsito, mas igualmente dos proprietários de bares que toleram e permitem essas arruaças. É o chamado risco do negócio. Afinal, toda atividade econômica deve respeitar a função social da propriedade e o meio ambiente, dentre outros princípios.

Sugiro que o senhor passe a levantar elementos que possam ajudá-lo em uma eventual ação judicial, tais como: ligações para o CIOSP e SEMEIA, verificar o horário de fechamento do bar, a utilização do passeio público para alocação de mesas e cadeiras.

Acre(anos) de História disse...

Belo artigo do senhor José Carlos dos Reis Meireles. E para corroborar com este artigo, vai aí um caso típico: existe uma "Mercearia Dois Irmãos" que nunca respeita qualquer norma ou lei ambiental, carros abrem seus porta-malas e liga o som em potência máxima. O local, onde residem várias pessoas idosas é na Rua João Donato esquina com a rua Antônio Monteiro, perto do antigo Clube do Internacional. O estabelecimento já está sendo processado, mas nem isso os intimada, pelo contrário, mais que nunca estão agindo ao arrepio da lei e da ordem. Se tiver duvida é só dá uma passada por lá a partir das quartas-feiras.