quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O CÓDIGO DA DISCÓRDIA

Zuenir Ventura

Para quem, como eu, não sabe exatamente o que é mata ciliar e o que são módulos fiscais ou Áreas de Preservação Permanente, é difícil tomar posição nesse debate sobre o novo Código Florestal, aprovado no Senado por 59 votos a favor e 7 contra. Se Chico Mendes fosse vivo, ele serviria de referência, com seu bom-senso e realismo. Sem ele, restaria recorrer aos discípulos. Mas acontece que dois deles, talvez os mais importantes, estão em campos opostos na questão. Falo do senador Jorge Viana, relator do projeto, e da ex-senadora Marina Silva, rigorosa crítica do texto que em breve volta à Câmara para depois ir à sanção presidencial.

Conheci os dois em 1989, quando fui ao Acre para cobrir o assassinato do líder seringueiro, que inscreveu a Amazônia na agenda planetária. Pude constatar a integridade de ambos. Por isso, dividido, meu coração balança entre um e outra. Concordo quando ouço o ex-governador explicando seu esforço para evitar extremos, uma tendência herdada do próprio mestre, "que era um negociador que tentava conciliar a atividade rural com a atividade humana". Ele quer "dar tranquilidade aos que vivem na área rural produzindo para que nós, na cidade, possamos consumir". Mas tendo a apoiar a ex-Ministra do Meio Ambiente, quando adverte que a lei aprovada "reduz a proteção das Florestas, anistia desmatadores e, assim, ampliará a devastação". A sua esperança é o possível veto da presidente Dilma, que em campanha prometeu coibir o Desmatamento ilegal, um compromisso que, segundo Marina, foi assumido com todos os brasileiros.

Como sintoma, há a reação dos grupos interessados. Os ruralistas exultaram, como mostrou a imagem da senadora Kátia Abreu comemorando com seus correligionários o resultado. Ao contrário, sabe-se do protesto das organizações ambientalistas em Durban, onde 194 países reunidos debateram soluções para as Mudanças Climáticas. Elas pediram o veto presidencial e exibiram um painel luminoso na fachada do hotel do encontro com um basta: "Pare a motossera!" De que lado ficará Dilma? Dizem que ela está satisfeita com o novo Código. A ver.

A crônica "Meu tempo é curto" produziu efeitos conflitantes. Alguns viram nela uma boa desculpa para não cumprirem com suas obrigações diárias. Um leitor, porém, acusou a teoria da Ressonância de não ter sido comprovada. Ele acha que eu devia ter consultado especialistas. O curioso é que se irritou mais comigo do que com o físico alemão, o tal do Schumman, que afinal é o culpado de tudo. Em cinco linhas, me deu quatro puxões de orelha. Bem feito. Quem manda desperdiçar tempo falando da falta de tempo.

Um foi "estrangulado" e saiu desacordado, com um corte profundo na testa causado por uma cotovelada. O outro teve o braço quebrado. Duas brigas feias em boate? Não, esporte.

Zuenir Ventura é colunista do jornal O Globo

6 comentários:

I D A I L D O disse...

Estava passando na Av nacoes unidas, nas imediaçoes do Bairro Estaçao Experimental, observei e julguei como absurda, a tentativa de diminuir a sensaçao de insegurança nesse mes de dezembro, presente na cidade. Falo sobre o fato do comando da policia militar, em apenas dois meses de curso para formaçao de soldados daquela instituiçao, já ter disponibilizado fardamento ao alunos, escalando-os na ruas dos bairros da cidade. Sabe-se que tais alunos ainda nao tem preparaçao suficiente para estarem expostos em tal situaçao. Sabe-se também que um aluno, quase preparado (ao menos com seis meses de curso) deve estar acompanhado de um policial preparado, sendo que isso nao vem ocorrendo na cidade. Fico imaginando os problemas que isso pode acarretar, caso o assalto ocorrido no bairro bosque na ultima terça, fosse primeiramente atendido por esses alunos. Bom, melhor nao pensar. Meu julgamento é que problemas podem ser evitados quando cumpre-se o regimento militar.

Fátima Almeida disse...

Eu nunca consegui colocar Marina e Jorge na mesma posição como dois termos numa equação porque em toda análise acho por bem embasar os fatos segundo a relação de classes. Um, pertence a classe dos seringalistas que oportunamente fizeram suas camas e de seus descendentes através do jogo político num tempo ainda em que nem existia essa coisa de justiça nem tribunal eleitoral; outra, é de família de extrativistas de borracha. Os interesses eram antagônicos e complementares numa clara relação dialética. Por isso eu nunca consegui vê-los como iguais, mas, a própria Marina se sente igual ao Jorge, ela até o chama de "irmão". Enfim, afetos são uma coisa,a análise marxista é outra: o econômico é determinante em ultima instância. É sim, grandes amores e boas amizades vão para o espaço em razão do poder e do dinheiro. Por conta disso, penso eu, a Marina perde terreno no eleitorado acriano. Ela nunca se manifestou, por exemplo, com relação à forma arbitrária como os Vianna alteraram o fuso horário do Acre, mesmo estando seus amigos e até assessores tais como Altino e Toinho Alves mobilizados para fazer valer o resultado do referendum de outubro quando a maioria dos eleitores do Acre derrubaram a lei de Tião Vianna. Enfim, Marina precisaria, a meu ver, posso estar equivocada, rever aquela literatura marxista dos tempos em que cursou História na Universidade. Mas, fico pensar que Marina, da turma que vinha logo depois da minha, não foi aluna do Rômulo Garcia, nosso professor demitido pelo reitor em tempos de Ditadura. Às vezes, um único professor faz a diferença num curso inteiro.

joao disse...

Jorge Viana como discipulo de Chico Mendes, me poupe Zuenir. Tu tá mesmo por fora, né? Vot!!!

. disse...

Jorge discípulo desse tal de Francisco? Ao que me lembre JV na época era diretor da FUNTAC (nomeado pelo então governador Flaviano Melo), e no colégio eleitoral recepcionava no Acre o então candidato Paulo MAluf, estou certo ou errado?

Beneditino disse...

Senhor Zuenir,

Se tens apenas três referências para assuntos ambientais no Brasil, não imagino como podes ser colunista de "O Globo". Se tivesse tempo, listaria uma centena: todos cientistas.

Gregório D. Mendes disse...

Alguém, por favor, faça a biografia do Jorge.