sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ORA, HORA

Antonio Alves

Já disse em algum lugar que meu livro de memórias pode ter o título “Eu Avisei” ou algo parecido. Espanta-me que as maiores autoridades políticas do estado e seu séquito de puxa-sacos ainda estejam resmungando feito meninos birrentos com a volta do antigo horário acreano. O povo decidiu, cambada! Acabou-se, já era pra ter acatado a decisão há mais de um ano, ainda conseguiram enrolar esse tempo todo, agora chega!

Mas, enfim, nem vale a pena ficar brigando por isso, é assunto encerrado. Volto a ele e republico [abaixo], entretanto, o que escrevi há três anos e meio, quando o Senado adotou esse malfadado horário rondoniense que ainda está em vigor, porque nela tem algo -ao menos uma frase que me interessa reprisar.

Leia mais:

Senador Anibal Diniz contesta Antonio Alves

Acho que há algo que se pode aprender com todo esse episódio, se é que alguém ainda está interessado em aprender. É que os motivos e interesses “materiais”, que costumamos chamar de econômicos e sociais, não são os únicos e às vezes não são os mais importantes nas decisões coletivas.

Vou falar mais direta e claramente: quem dá (ou promete) casa, comida e rua asfaltada ao eleitor tem, obviamente, uma grande chance de ganhar a eleição. Mas não está garantido. Há coisas que a matemática política não pode calcular.

Não estou dizendo que essa questão do horário seja ou tenha sido decisiva nas eleições passadas ou futuras.

Acho uma bobagem essa acusação de que o povo foi “manipulado” (basta ver que o horário do Tião perdeu justamente nos lugares onde ele ganhou a eleição, ou seja, o povo distinguiu muitíssimo bem os dois assuntos).

O que quero falar não é sobre o assunto, o horário em si, mas sobre a atitude. Aprendi que o que fica em pé, o que permanece, o que deixamos para as futuras gerações, não é aquilo que fazemos, é aquilo que somos.

A obra que Tutankâmon deixou não foi a pirâmide, mas seu “estilo”. A obra de JK não foi Brasília, mas a ousadia de sonhar e fazer.

O que marca a vida de um povo é algo mais sutil, imaterial. “Cultura” é algo em cuja profundidade os engenheiros da política não conseguem penetrar.

E, querem saber? Já não lamento que sejam assim tão teimosamente insensíveis. Facilitam a percepção de que todo o sistema deve ser deixado para trás, que não temos nada a perder, de que podemos nos virar sozinhos.

E, por mim, tô satisfeito: ganhei mais esta.


FAVAS CONTADAS - sexta-feira, 18 de abril de 2008

Antonio Alves

Foi só escrever que o calor estava demais e pronto, bateu a friagem, democratizando a frescura e o clima de Brasília que agora impera em terras de Galvez. Bom pra mim, que precisava esfriar a cabeça. Ainda estou bastante contrariado com a decisão do Senado, de abolir o fuso horário acreano e anexar nosso estado ao horário pretendido pelos bancos, pela Globo, pelos políticos e seus seguidores que não orientam suas vidas pelo sol ou pela lua, mas pelas leis do mercado.

O prejuízo é inavaliável. Nenhum desses vitoriosos capitães do progresso consegue ter idéia do tamanho da cagada que fizeram porque não pensam em processos culturais e civilizatórios, mas em negócios. São aqueles que, como dizia Caetano Veloso nos idos de 70, “enxergam a década, mas não conseguem ver o minuto e o milênio”.

Pensei em armar-me de paciência e explicar, para estes senhores espertos e seus seguidores bobos, pela milésima oitava vez, os fundamentos de uma economia diferente do capitalismo ao qual eles se adaptam tão bem, uma cultura diferente da alienação urbanóide na qual estão mergulhados, uma utopia que pudesse salvá-los do vazio existencial ao qual o pragmatismo os condena.

Mas não adianta. Agora, são favas contadas. O presidente da República deles sancionará a lei “dentro de alguns dias”, como dizem em seus informes oficiais. Tenho, portanto, todas as horas do futuro para escrever minhas lamentações –pois não serão mais que isso.

Faço, por agora, apenas um aviso amigo. Ao desprezar a modesta opinião e a frágil resistência dos poucos que se manifestam contra essa desastrosa mudança, os vitoriosos defensores do novo confuso horário estão desligando a pouca sintonia que ainda mantinham com parcelas ao mesmo tempo elevadas e profundas da alma amazônica (que são minoritárias justamente por serem elevadas e profundas, pois a muito pouca gente é permitida maior distância no mergulho e no vôo).

Entendam como quiserem, ironizem à vontade. Sei o que estou dizendo.

E agora vou aproveitar um pouco a friagem, antes que acabe.

Antonio Alves é colunista do Página 20

Atualização: O senador Anibal Diniz (PT-AC) ocupou a tribuna na manhã desta sexta-feira (11) para se pronunciar mais uma vez contra o horário antigo do Acre e contestar o artigo do jornalista Antonio Alves. Clique aqui e leia.

16 comentários:

Francisco Nazaré disse...

Já que é uma questão cultural, temos que correr atrás da questão do Acreano ser escrito com "i". Não vou me acostumar nunca escrever acriano. Sou ACREANO!!!

alisson disse...
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Dantas disse...

oi! alguém tem alguma dúvida?

Pietra Dolamita disse...

Pois é, agora ter cultura é mama na teta gorda do Estado?
Estranho, esse povo cultural?
Mas, o legal é que o sol nasceu para todos independentemente do horário do Tião ou outro.
O legal que o judiciário se manisfestou.
O mais legal ainda é que se o horário mudou, ou voltou ao que era antes, é um premonição que eles irão embora do poder?

Janu Schwab disse...

O Toinho Alves é da parte dos que defendem com bons argumentos aquilo que lhe parece certo. Talvez por isso, quase nunca erre.

Li o discurso do Senador Aníbal Diniz. Ele ia bem, explanando os argumentos da outra parte, fazendo seu papel de esmiuçar o que também acha certo, etc, etc...

Mas aí, rapaz, como sempre, descamba pro mimimi acreano: pega um décimo do que o jornalista disse, tira do contexto e joga para platéia.

Não fizeram isso com o Daniel Zen e ele ficou como se tivesse chamado deputado de fascista? Eu, hein.

Ora, o jornalista Toinho Alves foi apenas direto ao ponto. E o fez usando a sua já conhecida verve irônica - que sempre festeve a serviço das causas e ideologias da nossa esquerda.

É isso mesmo: o povo decidiu, cambada! E eu, como partidário do novo horário, parte dos 44% do povo que votou diferente, me incluo nessa "cambada" de gente que acha ruim a volta para o horário antigo.

Quer dizer, acho um pouco ruim, mas não tão ruim. Cresci nessa faixa de hora, né? Pra mim, tanto faz. Já pra Globo, não sei...

Posso até estar na cambada do 55 - e tenho cá meus argumentos para tal. Mas no séquito de puxa-sacos, passo longe por pura inaptidão, ó. Por isso vim me embora. :)

Fátima Almeida disse...

Enquanto isso...Os correios elevaram os valores do SEDEX em cem por cento, alteraram os números do CEP de toda a cidade e seus próprios números de telefone não aparecem na lista telefônica naquela tal "Unica do Brasil", aquela que "é uma lista de verdade". Caso alguém queira ligar para reclamar ou confirmar esse aumento do SEDEX melhor desistir ou ir pessoalmente. Então é assim? Eles aumentam as postagens quando lhes dá na telha? Quanto ao Toinho quer mais é aparecer como se a batalha vencida fosse uma vitória dele. Mas, tudo bem. Só acho que se não fosse o Flaviano Melo não teria havido nem referendo. Mesmo o Toinho, assessor da Marina Silva não teria se mexido nem feito coisa alguma.

Zeneida Guimarães Carneiro disse...
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Zeneida Guimarães Carneiro disse...
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Eduardo Carneiro & Egina Carli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodney Soares Bezerra disse...

Os argumentos são muitos, mas que a hora verdadeira voltou, finalmente, voltou.
Essa história de que o acre ficará atrasado é balela. Em outras capitais também se vê programas gravados.
O que não se pode, é alterar a cultura de um povo, tendo por razões a dura face totalitária do capitalismo.
Viva a diferença do ACRE!

Renaldo disse...

A nossa verdadeira hora ainda não voltou, vai custar um pouco, mais vai voltar, queira ou não queira os VIANISTAS de plantão. Afinal, Altino cadê aquele Gilberto Braga, assessor do governo que ironizou daqueles que queriam o plebiscito para a questão da hora?, parece que os cem anos preconizado por ele não durou quatro!. VIVA O POVO ACREANO. Sem Recuar, Sem cair e sem temer.

Altemar disse...

Eu também sou acrEano.

Professor disse...

Eu não entendo: Quando votamos em cidadãos para nos representar em brasilia ou até mesmo aqui no Acre, eles(políticos) fazem o contrário. Ficam contra o povo.Todo voto que é pertinente em melhorar a vida da população, eles votam contrário. Não entendo. Agora, esse senador Anibal Diniz (PT-AC), ninguém votou nele.Você votaria nele?

Professor disse...

Não dá para entender.Votamos nos cidadãos para nos representar em qualquer esfera. Quando o cidadão chega no poder fica contra o o cidadão. Tudo que é de interesse do povo eles votam contra.Preciso de uma explicação. Agora, o senador Anibal Diniz não foi votado por ninguém. Você votaria nele?

Professor disse...

Não dá para entender. Quando votamos nos cidadãos para nos representar, ao chegarem no poder, seja ele em qualquer esfera, ficam contra o povo. Votando contra leis e projetos que venham beneficiar a população de certa forma.Agora, o senador Anibal Diniz não foi votado por ninguém, ele é apenas a extensão do pensamento do senador Jorge Viana e Tião Viana, não tem vida própria. Afinal, você votaria nele pra senador?

alisson disse...
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