domingo, 13 de novembro de 2011

FAZENDO HORA

Antonio Alves 


Esta obscura página deste jornal de modestíssima circulação foi duplamente premiada com inesperada superexposição. Primeiro, o jornalista Altino Machado reproduziu em seu frequentadíssimo blog o artigo [leia] que publiquei aqui ontem. Poucas horas depois, o senador Aníbal Diniz comenta e contesta o artigo na tribuna do Senado Federal. A um e outro agradeço, honrado e sensibilizado.

Já disse ontem e repito, pra mim esse assunto de fuso horário está encerrado. O que quis foi comentar os resmungos birrentos de uma cambada de inconformados com a volta do horário antigo, decidida pelo povo acreano, e a minha surpresa de que as principais autoridades políticas do estado (e seu séquito de puxa-sacos, sim, também) estivessem repetindo e estimulando esses resmungos. Quis também chamar atenção para a importância de fatores sutis, “culturais”, nas decisões coletivas, muito além das obras, casa, comida, asfalto.

Mas o Aníbal (eu deveria chamar de “senador”, deveria mesmo) tem suas razões para insistir no assunto e vou colaborar com ele comentando os principais trechos de seu discurso. Primeiro, ele diz que não tem a intenção de contestar o resultado do referendo do ano passado, mas “simplesmente historiar um pouquinho”. Bem, Aníbal é historiador, pode se dar ao luxo de “historiar um pouquinho”. Quanto a mim, mero contador de histórias, tenho que contar, senão a história toda, pelo menos a parte que sei dela. E parece que as partes que lembro são justamente as que ficam de fora naquela que o historiador Aníbal conta.

Ele diz que “quando o Senador Tião Viana apresentou o seu Projeto, ele não fez a partir do nada, ele fez um estudo aprofundado a respeito da situação”. Bobagem. O estudo não teve nada de aprofundado, basta submeter o texto da assessoria técnica do Senado à análise de geógrafos –o que não foi feito- que o contestariam com facilidade. Segue a história: a lei “teve aprovação no Senado e, depois, sancionada pelo Presidente Lula. Depois disso, houve uma contestação: o Deputado Federal Flaviano Melo apresentou um pedido de referendo...”.

Peraí. Que o Flaviano (eu deveria chamar de “deputado”, ah, deveria) contestou apenas depois de aprovado o projeto, que ele até apoiava antes, isso todo mundo sabe. Mas várias pessoas, historiadores, geógrafos e este modesto contador de histórias que vos fala, já contestavam antes mesmo da lei ser aprovada e questionavam o autor do projeto. Tanto é assim, que Tião Viana garantiu que a mudança seria precedida de uma consulta à população, um plebiscito, cuja proposta chegou a apresentar no Senado e depois retirou.



Vou destacar e repetir, porque certas partes da história precisam ser contadas mais de uma vez: o Senador Tião Viana apresentou o projeto de uma votação popular antes que fosse feita a mudança do horário e depois retirou, na mesma semana em que as pressões da Rede Globo eram públicas e evidentes para que a mudança de horário fosse feita logo, sem demoras.

E aqui vale a pena perguntar: porque a pressão da Globo não aparece na história? Tudo começou com ela. Projetos de mudança nos horários da Amazônia circulavam há anos no Congresso Nacional, sem pressa. De repente, tudo se acelera porque o Ministério Público tinha obrigado a Globo a seguir o Estatuto da Criança e não exibir conteúdos impróprios para menores antes das 21 horas. A Globo, ao invés de mudar sua programação, preferiu mudar o horário do Acre.

Seguindo: essa conversa de que o referendo era uma “consulta popular” para que as pessoas “opinassem” a respeito é conversa fiada de político esperto. O referendo, forma de democracia direta prevista na Constituição, foi desrespeitado e diminuído pelos congressistas, reduzido a uma mera pesquisa de opinião. Mas foi um processo eleitoral, com campanha pública e resultado homologado pela Justiça.

Aníbal se enrola todo para contestar minha afirmação de que o povo soube distinguir entre os dois assuntos, política e horário. Vou desenhar: as urnas que salvaram Tião Viana e o PT de uma derrota eleitoral foram as do Alto Juruá, onde o horário velho ganhou com votações de 70 por cento ou mais. O único município onde o horário do Tião ganhou foi Acrelândia, justamente o município onde seu adversário Bocalon casa e batiza. Os eleitores de Tião Viana, em sua grande maioria, votaram contra o horário dele. Foi assim que votei: Tião pra governador e 77 no referendo do horário, por isso posso dizer, na boa, diante de todos os que pegaram as balsas do Bocalon e do horário: ganhei, cambada!

Mas o fim da história ainda não chegou. Para espichá-la, Aníbal precisa manter a idéia de que houve manipulação ou de que a decisão popular foi feita em “clima emocional”. Diz que está apenas alertando para os incômodos que passarão aqueles 44% que já “se adaptaram” ao novo horário e que, em nome deles, o assunto poderá ser objeto de “novas consultas”.

Eis aqui o fundamento de toda a história: em 2013, ano em que não tem emoções eleitorais e o fuso horário completa cem anos, Aníbal já antevê que alguma consulta voltará a ser feita. Quem será o senador que tomará a iniciativa de fazê-la, um ano antes de concorrer à reeleição, hem?

Pode convocar à vontade novas consultas, cambada. É perfeitamente legítimo e respeitoso. O que não é respeitoso, cambada, é fazer mudanças de modo autoritário, dois anos e meio depois perguntar a “opinião” do povo apenas porque foi obrigado a isso, levar mais de um ano para obedecer à decisão popular e ainda o fazer resmungando.

Bem, mas antes de uma nova “consulta” teremos de volta o antigo horário porque Aníbal diz que “muito provavelmente” a President“a” Dilma vai sancionar a lei agora aprovada (mais adiante, coloca na condicional: “se a Presidenta homologar imediatamente”...) e o ano de 2012 terá o horário que tivemos durante todo o século passado.

Como alguns dizem que em 2012 chegaremos ao fim dos tempos, há esperança de que essa pendenga se encerre de vez. Mesmo porque é certo que Deus não vai deixar entrar no céu a cambada que insistir em mudar Sua divina hora. E o diabo, certamente, não vai deixar entrar no inferno a outra cambada, que há de querer fazer referendo questionando o fogo, o enxofre e os castigos.

Antonio Alves escreve no Página 20 a coluna O Espírito da Coisa. 

Meu comentário: No vídeo acima, gravado no dia 15 de julho de 2008, entrevistei o então senador Tião Viana (PT-AC), após participarmos de reunião no escritório da CUT em Rio Branco (AC). Ele se comprometeu na ocasião a apresentar projeto de decreto legislativo para consultar a população sobre a mudança do fuso horário do Acre. Conforme relata Antonio Alves, o senador chegou a apresentar projeto de uma votação popular antes que fosse feita a mudança do horário e depois retirou. Após aprovada pelo Senado a Lei nº 11.662, de autoria de Tião Viana, a mesma foi sancionada pelo presidente Lula, em 24 de abril. Entrou em vigor em 23 de junho daquele ano. Evandro Ferreira, Antonio Alves e eu continuamos criticando o autoritarismo do processo. O deputado Flaviano Melo (PMDB-AC), que era defensor da mudança do fuso horário, apresentou o projeto de decreto legislativo para realização do referendo que nos devolverá em breve a hora antiga.

7 comentários:

Altemar disse...

Lá vou eu, rabugento, de novo:
Quem mandou mexer na porra do horário? Em 1884 decidiram que seria assim, 24 risquinhos que dividem a rotação da terra no período de um dia, e para quê? Para que um amigo(acrEano) em Fernando de Noronha ligue para mim dizendo "como está o por do sol ai? aqui está lindo" e eu dizer "pode parar de beber meu velho pois aqui ainda vai demorar muito".
Mas não, a Globo tinha que economizar algum!
Quanto ao A.D. lembro quando eu era menino velho lá na UFAC na área do RU onde tinha ping pong, sinuca, o DCE, xadrez, a Arlete, o João Veras. O Anibal jogava xadrez por lá e sempre, se bem me lembro, perdia todas pro Cláudio e a gente gostava, por que será?

joaomaci disse...

Muito bom o texto do Antônio Alves e a referência que o Altemar fez ao "A.D" também é muito pertinente. Aliás, na condição de cidadão acreano, acho que o excelentíssimo "A.D" deve acordar para o fato de que ele ocupa o cargo de Senador da República, por acaso representando o Acre, e voltar-se a resolução dos problemas (não preciso relata-los) deste Estado, em vez de usar de seu cargo para dedicar-se e aprimorar-se no xadrez, conforme pode ser visto neste link: http://www.senado.gov.br/noticias/tv/programaListaPadrao.asp?txt_titulo_menu=Resultado%20da%20pesquisa&IND_ACESSO=S&IND_PROGRAMA=&COD_PROGRAMA=&COD_MIDIA=115964&COD_VIDEO=110444&ORDEM=0&QUERY=Anibal%20Diniz&pagina=3

Altemar disse...

Só mais uma:
Em abril deste ano viajávamos na 12 corredor direito (sabe como é que é gordo né!) e o A.D. corredor esquerdo. A certa altura, insone, ele largou uma revista e abriu um Ipad (não lembro de ter visto a maçã mordida na capa) e ensaiou continuar uma partida em andamento. Infelizmente meu óculos não ajudou mas acredito que ele estava perdendo pois, ao perceber-me curiando, fechou a capa, tirou o piscinês, recostou-se e cerrou ozóio.
Pensei rindo: "Se tivesse ganhando deixaria eu assistir, abestado."

Voces devem estar pensando: o que que eu tava pastorando no Senador? Nada, só um sorriso, um aceno simpático, uma conversa urbana qualquer coisa do senador do meu estado, afinal não é todo dia que dividimos espaço tão proximamente de alguém que tem nossa (cidadãos que ele representa) outorga para decidir coisas nacionais. Nem tchum.
De qualquer forma, em respeito as instituições e ao nosso povo, continue contando com seu povo sr. Senador da República Federativa do Brasil.

Rodney Soares Bezerra disse...

Concordo 100% com relação ao autoritarismo que se destaca, na forma de conduzir a mudança de horário. Pessoalmente, sou contra o mesmo na forma atual de forma perene e assim, questiono:

Se é tão prejudicial para o estado, permanecer 3 horas a menos que Brasília, durante o período de verão, pq já não o adotaram anteriormente ou, a exemplo da Bahia esse ano, posto que o atraso foi detectado há tempos?

Com relação a mudança, o Acre não é melhor e nem pior do que os estados onde se usa a hora de verão, então, pode muito bem adaptar-se durante esse curto período. Ou não?

No que concerne a programação de TV, em cidades como Fortaleza, a programação está alterada, leia-se gravada, para o horário local e nem por isso se fez uma celeuma justificando que o Ceará encontra-se atrasado aos demais estados, portanto, senhores políticos, façam o favor de trabalhar para e pelo povo, ao invés de prolongar uma disputa baseada tão somente numa exaltação partidária e pelo visto, narcísica.

Julio Cesar disse...

Altino,

Que tal fazermos um referendo para ver se o Anibal Diniz deve continuar senador sem votos ou não. Jamais chamarei o Anibal de senador, ele representa uma legislação eleitoral atrasada imposta pela a burguesia que ele agora representa. Cá entre nós, o Anibal era o aluno mais chato da UFAC.

Je vois tout disse...

Viva o Povo, viva a democracia.

alisson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.