terça-feira, 30 de agosto de 2011

O DONO DO RIO

Deputado ganha R$ 1,8 milhão por mês com balsas no Madeira


Direto do Distrito de Abunã

O deputado Roberto Dorner (PP-MT), 63 anos, possui quatro outorgas de autorização concedidas pelo governo federal para explorar serviço de transporte de passageiros, veículos e cargas na navegação de travessia em três rodovias federais na Bacia Amazônica.

A outorga mais lucrativa do parlamentar, empresário, agricultor e pecuarista, é no Rio Madeira, no distrito de Abunã (RO), a 280 quilômetros de Rio Branco (AC), passagem obrigatória de quase tudo que entra ou sai via BR-364, a única que liga as demais regiões do País ao extremo-oeste brasileiro.

Há 23 anos, três balsas operam dia e noite na confluência dos rios Madeira e Abunã, onde o faturamento médio de Roberto Dorner é avaliado em R$ 60 mil por dia ou R$ 21,6 milhões ao ano. Até 1988, o transporte de passageiros, veículos e cargas no local era de responsabilidade do Exército.

Catarinense de Bom Retiro, Dorner assumiu como suplente o mandato em decorrência do licenciamento do deputado Pedro Henry. Ele é presidente do Sindicato Marítimo de Rondônia. No Mato Grosso, lidera o Grupo Roberto Dorner de Comunicação, que possui emissoras de TV em Sinop, Cuiabá e Rondonópolis.

As quatro outorgas para transporte de travessia, por tempo indeterminado e em regime de liberdade de preços, foram concedidas pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), ligada ao Ministério dos Transportes.

A Antaq chegou a autorizar Dorner, como empresário individual, a atuar no transporte de travessia no Rio Madeira, em Porto Velho (BR-319), no Rio Abunã (BR-364) e em Humaitá (BR-230), no Amazonas.

Desde o ano passado, o deputado usa também as empresas Amazônia Navegações Ltda., na milionária outorga na divisa do Acre com Rondônia, e a Rodonave Navegações Ltda, em outro trecho da Transamazônica, sobre o Rio Tapajós, nos municípios de Itaituba e Mirituba, ambos no Pará.

A mina do transporte de travessia no País abrange 130 operadores que trabalham em 89 pontos interestaduais, internacionais ou em diretrizes de rodovias federais.
Há vários anos a operação da empresa de Roberto Dorner no Rio Madeira tem gerado críticas e queixas de usuários em relação à falta de segurança, à cobrança de tarifas excessivas e à má qualidade dos serviços prestados.

A tabela do pedágio para travessia no distrito de Abunã isenta apenas pedestres e ciclistas. Os valores variam de R$ 3,80 (animais) a R$ 130,00 (carreta tremião de nove eixos, carregada). A travessia de cada automóvel pequeno custa R$ 19,00 e dos ônibus R$ 46,00.

O governo federal financia há mais de quatro décadas, no Acre, a construção da controversa BR-364, que liga Rio Branco, a capital, a Cruzeiro do Sul, no ponto mais ocidental do País.

Além disso, financiou a pavimentação da BR-317 até Assis Brasil, na fronteira com o Peru e a Bolívia. O trecho da rodovia no Acre foi batizado de Estrada do Pacífico, mas o Estado permanece praticamente isolado.

De Rio Branco a Cruzeiro do Sul, já foram construídas mais de 20 pontes pequenas, médias e grandes, que somam mais de três quilômetros de vão, mas a ponte sobre o Madeira não passa de projeto.

De seis em seis meses, no auge da estiagem amazônica, a travessia em balsas é prejudicada pela falta de água no Madeira. Longas filas de automóveis, ônibus e caminhões se formam com produtos e pessoas.

A Comissão de Viação e Transporte, da Câmara dos Deputados, chegou a aprovar por unanimidade, em 2008, uma emenda inicial de R$ 36 milhões para construção da ponte sobre o Madeira para atender o Acre e Rondônia. A ponte, cujo valor é estimado em R$ 500 milhões, teria mais de um quilômetros de extensão, mas o edital da obra foi cancelado em julho.

- Cancelaram o edital sob a alegação de que o projeto precisa de revisão do Tribunal de Contas da União e da revisão do nível do Madeira em decorrência da barragem das hidrelétricas que estão sendo construídas em Rondônia - comenta Marcos Alexandre, diretor do Departamento de Estradas e Rodagens do Acre.

Políticos, empresários e comerciantes, do Acre e Rondônia, passaram a acusar o deputado Roberto Dorner de operar nos bastidores contra a construção da ponte sobre o Madeira. O descontentamento ganhou força nos últimos dias por causa da intensidade da estiagem na região.

O Acre poderá a voltar a ficar isolado, como no ano passado, por causa da seca do Madeira. As balsas de Dorner, que fazem a travessia, já começaram a encalhar nos bancos de areia. A pressão é para que seja agilizada a abertura de canais de navegação com uso de dragas e acelerado o processo para a construção da ponte.

O diretor da Amazônia Navegações, Gerson Nava, disse que a responsabilidade pela abertura de canais de navegação no Madeira é do Ministério dos Transportes, mas que a empresa mesmo assim contratou máquinas para o serviço.

- O que está existindo é muita fantasia de político incompetente. Os políticos do Acre, por exemplo, preferem o discurso fácil quando dizem que a nossa empresa tenta inviabilizar a construção da ponte. Em Porto Velho, onde também temos outorga, existe uma ponte em construção, na BR-319, que liga a capital rondoniense a Humaitá, no Amazonas. A ponte em Abunã depende apenas de uma decisão do Ministério dos Transportes e nós não temos interferência nenhuma nisso - afirma Nava.

O senador Jorge Viana (PT-AC) ocupou a tribuna nesta terça-feira (29) para anunciar que o diretor técnico do Ministério dos Transportes, Pedro Brito, concorda com o afastamento imediato da empresa do deputado Roberto Dorner para melhorar a prestação do serviço no porto de Abunã.

- Não adianta insistir com a atual empresa. Ela tem, talvez, o melhor negócio do mundo. Algumas contas falam e, são números que o cálculo tem que ser empírico, mas quem conhece a realidade como nós conhecemos, fala em faturamento acima de um R$ 1 milhão por mês. Ela cobra o pedágio mais caro do país em troca de um serviço irregular e lento - afirmou.
Segundo Viana, existem interesses atuando dentro do governo para que se mantenha o serviço de balsas no Rio Madeira sob controle da iniciativa privada.

- Esses interesses adiam, como tem ocorrido nos últimos 10 anos, a construção da ponte. Ou seja, a BR-364 está ficando pronta, mas sequer é feita a licitação da ponte sobre o Madeira.

Coordenador da banda bancada federal do Acre, o senador petista Aníbal Diniz considera o
assunto de “extrema gravidade”, pois interesses econônimos e sociais do Estado estão sendo preteridos em benefício de uma empresa.

- Nós vamos atuar no sentido de convencer o Ministério dos Transportes a realizar, o mais rápido possível, a licitação para início da construção da ponte sobre o Madeira e também pedir uma solução paliativa neste verão amazônico. O nível da água baixou muito e o Acre começa a ter problemas de abastecimento.

A reportagem fez várias tentativas para ouvir o deputado Roberto Dorner. A assessoria dele se limitou a informar que o parlamentar está afastado das empresas e que não gosta de falar sobre o assunto porque costuma ser mal interpretado pela imprensa.

21 comentários:

Acy disse...

Sabe o que isso significa? Que não teremos ponte tão cedo... A influência deste homem é muito forte! E nós Acreanos somo pacatos de mais, aceitamos tudo... duvido se isso fosse lá no "Brasil", no Estado do Paraná, se o Povo não teria vóz... O nosso Acre a fome e a miséria se aflora cada vez mais e os políticos deste Estado não fazem nada por nós. Ave maria!

aurelio disse...

É um absurdo que mais de 700 mil pessoas viva a mercê dos interesses de um único empresário.

Janu Schwab disse...

Um belo exemplo de parceria público-privada.

Marcel Marques disse...

Acompanho o Janu.

PS: Ficou beeem melhor a leitura do blog com as letras mais escuras.

Eu disse...

Acy,

Creio que este nao seja um problema apenas do Estado do Acre. Sou paulista e posso garantir que em SP nao e diferente. Nosso povo brasileiro esta anestesiado, em coma. Da risada da propria desgraca. E uma vergonha. Olhe a tranquilidade deste individuo na foto. REVOLTANTEEEE! Nossos vizinhos como Chile, Colombia, Argentina, todos protestam, todos. Nao consigo entender porque o povo aceita essas coisas, inclusive nos! O que fazemos para mudar? Precisamos nos unir, todos os estados e dar um basta! Porem, para isso, precisamos vencer alguns probleminhas como preconceito e racismo entre as regioes! Infelizmente. Fico muito triste, pois gosto do Acre, e quero um pais melhor.

Estou Sabendo disse...

Quanto mais vejo isso acontecer, mais acho que esse País só se ajeita com PAREDÃO de fuzilamento.

Marcos disse...

Quem assinou as quatro outorgas de autorização??? Vocês sabem???

cplauto disse...

É isso aí Janu. Assim é a fábrica de camisinhas, a álcool verde, fábrica de laminados, os novos investimentos previstos para pcicultura, etc...
Público privado, nestes termos é o privado entrando com o ..... e o público entrando com o .... .

José Coutinho disse...

Ele é do PT?

Eduardo disse...

Alguém foi preterido no ra-cha-cha... Isto acontece faz tempo e ninguém nunca reclamou...

Acreucho disse...

Esse deve ser um dos "signatários" do requerimento para a construção da ponte sobre o Madeira... hehehehehehe... Ou vai mandar dinamitar depois de pronta!

. disse...

Se as concessoes foram feitas dentro da legalidade, não tem problema, tem que se parar com essa mania de criticar a riqueza alheia

Janu disse...

É isso aí, afinal, o cara lucra nos ajudando a manter o direito constitucional de ir e vir. E uma balsa é a mesma coisa que uma ponte, né, não?

Marcos disse...

Nobre blogueiro, acho que vosmecê enfiou o dedo na pereba do nobre deputado: dê uma olhada - http://www.rondoniagora.com/noticias/deputado-roberto-dorner-rebate-acusacoes-do-jornalista-altino-machado-no-blog-da-amazonia-2011-08-30.htm

Acy disse...

Janú,bom dia!
imagino que não sejas daquí do Acre, ou então você é muito rico e detesta viajar de carro. Já passei 36 horas esperando a vez para passar nesta balsa que afirma: "E uma balsa é a mesma coisa que uma ponte, né, não"? Me poupe com seus comentários. Você não sabe como os motoristas que precisam ganhar o seu sustento dirigindo seu caminhão para transportar o alimento dos acreanos...
Mas seu comentário pode ser também uma forma de criticar os nossos políticos do passado e os que hoje se dizem atuantes!

Acy disse...

Mas como o Deputado Roberto Dorner é humano!!! deixou os filhos administrando suas empresas para ser político em defesa do Povo! e em resposta ao Altino Machado, ele afirma que é só para ajudar a nação brasileira... Afff!!! http://www.rondoniagora.com/noticias/deputado-roberto-dorner-rebate-acusacoes-do-jornalista-altino-machado-no-blog-da-amazonia-2011-08-30.htm

Marcel Marques disse...

Acy companheiro, já ouviu falar de ironia?

tony disse...

Eu nao perdi eu tempo lendo os comentarios mas me digam ai .. oq tem demais o cara ganhar isso por mes? é roubando ou trabalhando? parem de encher o saco rapa .. o cara trabalha, investi e ganha ora .. ngn sabe ver ngn crescer!

ALTINO MACHADO disse...

tony, só não vale mentir dizendo que não perdeu tempo lendo os comentários.

tony disse...

Garanto que nao li viu!

Eduardo disse...

Meus caros, com todo o respeito aos comentaristas: a situação é essa há décadas porque o Estado se faz ausente (ou, quando se faz presente, é para se beneficiar das propinas das empreiteiras... para que uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes precisa de quatro pontes e uma pinguela (... tendo apenas UM hospital público que atende somente com 45 dias de antecedência...)?). Tracem paralelo com as milícias, com o tráfico no Rio de Janeiro, etc., etc., etc., onde o Estado é ausente e a bandidagem tomou conta. Não sou a favor do ilustre e para mim desconhecido político, mas a culpa não é dele. Se ele defende o pirão dele, quem não o faria? Há quase 50 anos o Acre passou a estado. Será que só agora adquiriu assentos no Congresso Nacional? Por que nunca alguém daqui moveu uma palha? Lembram da música “Geny e o Zepelim”, de Chico Buarque para a Ópera do Malandro? Tirem a balsa de lá, para ver uma coisa! Deixemos de hipocrisia. Ponto.