domingo, 1 de maio de 2011

É LAMENTÁVEL E VERGONHOSO

Silvio Simione da Silva
Maria de Jesus Morais


Estamos vinculados à área de Geografia, na Universidade Federal do Acre, como professores com dedicação exclusiva, há aproximadamente 16 anos. Entramos aqui via aprovação em concurso, cuja banca era formada por professores com os quais não tínhamos nenhum vínculo. Até competimos entre nós e obtivemos a classificação de primeiro e segundo lugares, respectivamente. Por tudo isto, acreditamos que foi um processo de ampla lisura.

Porém, temos visto e vivido nos últimos 10 anos muitas situações que nos envergonham em decorrência das ações de bancas de concursos formadas por grupos de professores da área de Geografia. Nas conduções desses processos, por estes professores, a maioria se diz vinculada à Geografia Física, com exceções de alguns professores que estão afastados para pós-graduação, cargos no governo e ainda a competentíssima mestre Socorro Maia.

A realidade é que muitas vezes, em reuniões assistidas ou presididas pela chefia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (CFCH), têm sido marcados verdadeiros  “feudos” nesta área. Assim, articulam o “certame” de modo pouco confiável, a nosso ver, mas favorável à participação de seus amigos, ex-orientandos ou orientandos atuais.

Na verdade, isto é reforçado pelos editais que fazem distinção entre a “contratação/formação de banca”, e apenas a “formação de banca”; e ainda quando resguarda direito de decidir por área de contratação. O concurso é “apenas expectativas de vagas”; não basta ser aprovado, caberá à unidade acadêmica apontar quem deve ser contratado. 

Desse modo, o concurso passa a ser verdadeira “caixa-preta”, em que as bancas decidem, pela aprovação ou não, às vezes, “estrangulando” sonhos de vidas de muitos candidatos que se prepararam. Isso tem impedido a formação de um quadro docente mais qualificado para que a instituição possa dar passos mais largos. Resulta disso, por exemplo, a impossibilidade de implantação efetiva de pós-graduação na área.

Voltando ao fato, pode-se dizer que, sendo assim, cabe à unidade acadêmica, amparada amplamente nos itens que “regulamentam” o concurso, decidir pela contratação. Então, justifica-se uma área. Tendo maioria para decidir, decidem conforme a conveniência para o candidato preferido. Não se obedece critério de titulação, curricular ou mérito científico. Isso está acontecendo agora na Geografia.

Vejamos os fatos: no final do ano passado ocorreu um concurso para duas áreas: Geografia Física e Epistemologia da Geografia.

Para Epistemologia da Geografia o concurso seria para a “formação de banca”, conforme o edital. O processo transcorreu normal, com aprovação de dois candidatos mestres em Geografia e com experiência no ensino superior – pessoas vindas de outros estados, portanto desconhecidos daqui. Isso, embora que pelos currículos, notam-se a excelência dos candidatados. Dado este que atestamos, uma vez fizemos parte desta banca e não temos restrições em abri-las, se por acaso, for necessário.

Na área de Geografia Física, no primeiro momento, quando abriram as inscrições para mestres e doutores, apareceram vários candidatos acreanos e de diversos estados brasileiros. Muitos com experiências em práticas docentes e pesquisas em grandes universidades brasileiras. Todos ficaram reprovados.

O fato não é novidade, pois, nos últimos anos, pelo menos em três outros concursos, o “fenômeno” já havia acontecido. Quando abriu para graduados, então novos candidatos se inscreveram. Mesmo sendo em nível de graduação houve candidatos com mestrados, daqui e de outros estados. A maioria foi reprovada e foram aprovados apenas candidatos que possuem ou já possuíram vínculos de orientações ou amizades com membros do grupo de professores. O interessante é que, dos classificados aprovados, o único mestre ficou em terceiro lugar.

Assim, encerrou o certame. Foi, portanto, contratado de imediato um candidato da área de Geografia Física. Em abril de 2011 surgiu outra vaga para contratação. Embora as disciplinas da área de Epistemologia estivessem descobertas desde 2007, segundo informou o coordenador do curso, corporativamente, numa reunião da área com a chefia do CFCH, decidiu-se contratar o segundo classificado na área de Geografia Física e deixar a área de Epistemologia novamente descoberta.

Justificaram para tanto a maior carência de Geografia Física, fato que pode ser contestado, dado que é esta área que tem maior numero de professores em atividade. Cabe relembrar que também houve liberação pelo menos de um professor, desta área, para doutoramento sem indicar como seriam cobertas suas atividades, o que tem sido exigido para outros que não são tão próximo do referido grupo.

Para confirmar isto, no momento atual, foi aberto processo seletivo para vaga provisória na área de Epistemologia da Geografia. O curioso é que existe gente desse grupo que perpassou todos os certames (das bancas referidas) como membro de banca. Isso, numa prática de bancas, sempre reprovando candidatos que não se alinham a eles e aprovando candidatos com os perfis antes mencionados.

Seria isso mera coincidência? Isso me faz perguntar: será que é no Acre que produzimos o melhor nível de formação da Geografia Brasileira? Onde está a produção científica, destes que se acham acima do bem e do mal, para menosprezar candidatos daqui “não amigos” e do “restante” do Brasil?

Há, em tudo isso, parece-nos, manipulação pouco correta dos processos. Por muito tempo ficamos em silêncio, após discussões e desentendimentos internos, para não expor o nome da instituição e da Geografia. Mas ultimamente, vimos que a situação tende a piorar a cada dia. Não aceitamos que nossos nomes sejam expostos a este “mar de lama”.

Enfim, esta fama negativa sobre como ocorrem os concursos na Geografia da Universidade Federal do Acre já ultrapassou os limites dos muros da instituição. Já tem dimensão nacional. Para nós é lamentável, vergonhoso e nos causa ampla indignação.

Silvio Simione da Silva e Maria de Jesus Morais são professores do curso de Geografia, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre

18 comentários:

Hamilton disse...

E será que isso só ocorre no curso de Geografia?

Marcel Marques disse...

Pelo que dizem é assim em todas as outras pastas...

Roberto Feres disse...

A denuncia eh grave. Os bois tem nome?

Luciano disse...

Esse corporativismo tem que ser banido da nossa UFAC!

Chardes disse...

Lastimável e vergonhoso! O que se pode perceber é que a UFAC e seus “iluminado da sabedoria” sabem mais sobre apadrinhamento do que sobre Ciência. O Q.I. (Quem Indica) do candidato é mais significativo que a formação, segundo oque intendi, experiência e titulo não valem se não for avaliado por um “amigo do peito”. O que esperar de uma Instituição que valoriza tapinhas nas costas e apertos de mão calorosos? A minha dica para os candidatos a vagas nessa Instituição: faça amizade o quanto antes e aprenda a rir de piada sem graça, isso se quiser uma cadeira do lado dos “iluminados”. Parabéns professor Silvio Simione da Silva e professora Maria de Jesus Morais.

Regina Cavalcanti disse...

Vergonha! Isso é o suficiente para Processo Administrativo Disciplinar, Lei 8112.

4º BPM disse...

acho que o profº MSc Valtemir é um deles

Felipe disse...

Eu acho super errado a forma como ocorre os concursos públicos para professores, eles são extremamente subjetivos, principalmente na prova prática, pois é nesse momento que os professores da instituição tendem a privilegiar os seus cobaias puxa-sacos em detrimento daqueles que muitas vezes sobram conhecimento,na minha opinião deveria se encontrar uma forma mais objetiva de julgamento do certame, contratando por exemplo uma instituição de fora da universidade sem vinculo com a instituição com profissionais gabaritados, tipo a CESPE a ESAF ou a FCC, ai as coisas seriam mais corretas .....

Felipe disse...

EXistem alguns professores na universidade que se acham ou mesmo se consideram Deuses, acham que ter conhecimento de forma reta em um assunto os eleva para o topo da pirâmide, quando na verdade sabemos que muitos ao sair dessa reta não sabem nem pra onde caminhar, ter um titulo de doutorado, muitas vezes advém de pesquisas feitas apenas para encher a prateleira da biblioteca. Enquanto a universidade continuar investindo em pesquisas que estudam a velocidade do ar dentro de um cano de cerâmica e não se atentar que existe um mundo fora do circulo dela, alcançando o seu zé la da feira e a dona maria nossas vizinhas,ela como instituição nunca irá progredir e continuará cada vez mais distante da sociedade, quieta no seu mundo ....

Felipe disse...

Perdão por algumas metáforas utilizadas...

Cleilton disse...

É extremamente curioso o paradoxo formado na questão de como um graduado formado na UFAC pode ter mais conhecimento ou experiência que um Doutor, doutorando ou mestre. Isso por que, na maioria dos caso, quando se faz concurso para geografia física, quando é aberto para doutor/mestre, como na nossa cidade ainda faltam pessoas com esse perfil por não ser oferecido na nossa região, a banca não aprova ninguém. Mas, depois abre o concurso para graduado surge inesperadamente, quase sempre somente um candidato aprovado, que se for analisar foi estudante de iniciação científica subordinado com o próprio professor que o analisou e aprovou no concurso.

Rodrigo Frota disse...

A culpa dessa pouca vergonha é do Senhor Ignorante Coordenador JOSÉ ALVES.Vamos mata-los!

Maria disse...

Os doutores signatários dessa mensagem ao deixarem de "dar nomes aos bois", colocam todos os outros docentes da Ufac no "mar da lama" onde não querem entrar. Que é ética é essa afinal?

Andarilho disse...

PARABENS aos dois professores pela CORAGEM em denunciar isso.
Faz tempo que essa instituição perdeu a credibilidade. Esses fatos, narrados pelos dois professores, é só 'a ponta iceberg', a baixo tem mais coisas.

ALTINO MACHADO disse...

Excluído por mim sem querer, eis o comentário enviado por Ednéia:

"Parabéns aos professores, é nosso consolo!"

jonesdari disse...

Silvio e Maria de Jesus
Sabemos do que ocorre na Geografia da UFAC há muito tempo. O importante são atos como este, que denunciam o que virou “lei”. Não foi a primeira vez (mas esperamos que seja a última) que decisões colegiadas são desrespeitadas em nome de interesses pessoais, pois o “feudo” se sobrepõe à moral e à retidão. Passei 4 anos na UFAC, na Geografia. Na primeira reunião que participei um “colega” solicitava dez diárias de uma viagem que não havia feito; votei contra, e a “guerra” só acabou quatro anos depois, quando resolvi ir embora. O “colega” é um dos “citados” no artigo, e permanecerá na UFAC em nome dos bois que engorda em sua fazenda. Mas é preciso ir além: é hora de dizer e denunciar os nomes, se é que os nomes ainda são dignos de serem ditos.
Obrigado
Abraços fortes
Jones Dari Goettert – professor de Geografia da UFAC (2002-2006); professor de Geografia da UFGD (2006-).
Silvio e Maria de Jesus
Sabemos do que ocorre na Geografia da UFAC há muito tempo. O importante são atos como este, que denunciam o que virou “lei”. Não foi a primeira vez (mas esperamos que seja a última) que decisões colegiadas são desrespeitadas em nome de interesses pessoais, pois o “feudo” se sobrepõe à moral e à retidão. Passei 4 anos na UFAC, na Geografia. Na primeira reunião que participei um “colega” solicitava dez diárias de uma viagem que não havia feito; votei contra, e a “guerra” só acabou quatro anos depois, quando resolvi ir embora. O “colega” é um dos “citados” no artigo, e permanecerá na UFAC em nome dos bois que engorda em sua fazenda. Mas é preciso ir além: é hora de dizer e denunciar os nomes, se é que os nomes ainda são dignos de serem ditos.
Obrigado
Abraços fortes
Jones Dari Goettert – professor de Geografia da UFAC (2002-2006); professor de Geografia da UFGD (2006-).

Cesar Casella disse...

Também sou professor da UFAC, da área de Língua Portuguesa, em regime de 40 horas (postulando uma passagem a DE, que nunca ocorre...) e quero parabenizar os professores Silvio Simeoni e Maria de Jesus por apresentar um quadro que é idêntico ao que via na minha área. Temos lutado (eu e um grupo de professores imbuídos da vontade de mudança) e conseguido fazer concursos mais lidimos, mas conheço muitas histórias como a que narram os professores...

Francisca disse...

Estamos vivendo um holocausto a beira do abismo.Onde os interesses pessoais estão a frente dos interesses coletivo......

vamos jogar uma bomba na coordenação.......