domingo, 16 de janeiro de 2011

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO


"O Brasil era um país desesperado para ser moderno, então não havia, porque não podia haver, mais selvagens aqui. Outro fato curioso: em 1970 (portanto, 40 anos depois do diálogo de Lévi-Strauss com o embaixador), o censo indígena da Funai indicava, para o estado do Acre, a notável população de “zero indivíduo”. Oficialmente, não havia mais índios no Acre. Aí começam a abrir as estradas por lá, a derrubar a mata, a botar boi, e eis que começam a aparecer índios a atravancar a expansão dos pastos e a destruição da floresta. (Junto com índios, como se sabe, começaram também a aparecer os seringueiros, que se imaginava como mais outra “raça” em extinção. E bem que se tentou extingui-los naquela época – lembrem-se de Chico Mendes.) Ora, índios sempre houve lá no Acre, todo mundo no Acre sabia que eles estavam lá, mas eles não existiam em Brasília, ou melhor, para Brasília. Agora sabe-se e aceita-se que o estado do Acre abriga, atualmente, 14 povos indígenas, alguns de significativa expressão demográfica, como os Kaxinauá e os Kulina. O Acre é um estado profundamente indígena, dos pontos de vista cultural, histórico e demográfico. Na verdade, ele é hoje o principal exportador de práticas e símbolos indígenas (mais ou menos transformados) para o Brasil urbano atual".

Trecho da entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, reconhecido por ter renovado o pensamento antropológico. Leia mais na Revista Cult.

11 comentários:

Ativista d'Acre disse...

Altino,oportuníssima a Entrevista do
Antropólogo Eduardo Viveiros!Atual e
Instigante aquí para 'Nós Acreanos!'.
Governador Tião Viana,inicia governo,
DISCRIMINANDO NOSSOS POVOS INDÍGENAS!
Humilhante para Todas Nossas Etnias!
Os Parentes Indígenas 'Reivindicam a
CRIAÇÃO da SECRETARIA INDÍGENA...' e,
Não foram atendidos pelo Governo das
Florestas e Florestania!Ato contínuo,
Cria a Secretaria da Mulher!Pendura o
Edivaldo Magalhães na 'futura',ainda,
a 'ser criada Secretaria que depende tbém de Criação de Um Ministério da República...'
Reitero a Vergonha Institucional e
Humilhante com a qual os Governanos
'Ditos da Floresta x florestania '
VÊEM TRATANDO OS PARENTES INDÍGENAS
e Agora,RETORNAREI À LUTA!!!
Ecoarei nos longícuos teclados...
Vai doer e o Acre será 'passado à
limpo!!!'Já não estou sózinha...
Eu sou,Joana D'Arc Valente Santana

Rosangela Barros disse...

Li e adorei! Excelente entrevista!... Viveiro de Castro é maravilhoso, assim como suas teorias são fabulosas para serem lidas, porém jamais para serem tomadas como metodologia de trabalho em pesquisa de campo, assim como forma de orientação para qualquer política indígena!... E não tem nada de instigante para nenhum governante, pois seus métodos são de extrema importância para mapeamento e apropriação do conhecimento indígena... Se hoje a política indigenista no Brasil não favorece à realidade das Terras Indígenas, agradecemos aos antropólogos seguidores da linha de pensamento do Viveiro de Castro!...

Ao contrário do que diz a Ativista desconectada da realidade: o governador Tião Viana está agindo, em relação à questão indígena, diferentemente dos ex-governadores Jorge Viana e Arnóbio Marques, pois até houve uma mudança de Coordenador Indígena!... Agora o que está faltando é mais unidade no Movimento Indígena e menos intervenção dos organismos não-governamentais: estes sim se oportunizam da política governamental, desfavorecendo totalmente as necessidades da realidade indígena...

Voltando ao Viveiro de Castro.... Eu tenho preferência pelas teorias dos antropólogos africanistas franceses, pois eles são bem conhecidos porque já sabemos a quem servem, bem como para que serve seus métodos antropológicos, daí a gente consegue probabilizar os efeitos dos trabalhos de campo feito sob a luz dos seus instrumentos metodológicos... Mas como estamos falando sobre antropologia no Brasil, para mim Viveiro de Castro é um excêntrico etnógrafo e o melhor no Brasil, pois nos fornece muitos dados significativos a respeito da antropologia indígena brasileira: os verdadeiros renovadores -, não só do pensamento antropológico brasileiro, mas também da própria metodologia nas Ciências Sociais - são Roberto da Matta, Roque de Barros Laraia , estes sim deveriam fazer sucesso e serem mais conhecidos e lidos, tem outro também na mesma linha de pensamento é Francisco Moonen (nosso ilustre desconhecido)... Agora somente quem não conhece nada sobre as teorias antropológicas e o método utilizado por Viveiro de Castro pode acreditar que ele tenha renovado o pensamento antropológico brasileiro!... Infelizmente, o mundo está invertido: assim a inversão de valores nos obriga a acreditar na cultura da destruição e nos ensina a desprezar a cultura construtiva... Enfim: é bom sempre duvidar dos estímulos proporcionados pelo sistema mediático atual!...

Rosangela Barros disse...

Desculpem-me, esqueci um pequeno detalhe: drª. Joana D'Arc Valente Santana, a senhora existe mesmo?... Ou é apenas um nick para a instigação total dos acrianos?... Bem, caso a senhora exista, por favor, diga-me como posso entrar em contato com V. Exª, porque necessito urgentemente duma orientação sobre uns problemas de desrespeito aos meus direitos, pois já até busquei apoio nos Direitos Humanos Internacional por falta de profissionais local com competência para me orientar nos procedimentos de que necessito...

Ativista d'Acre disse...

Senhora Rosangela Barros,o meu Email:
joanadarcativistadh@gmail.com !!!
Sou Profissional Liberal,Autônoma e,
Só Atendo que Eu Quiser!Tem sido e
Vai Continuar assim.Se és Acreana já
deve 'conhecer' inúmeras instituções
daquí do Acre 'atauantes em Direitos
Humanos'.QUANTO AO QUE EU DISSE AQUÍ
NO POST, REITERO E REAFIRMO!!! Enfim,
de qualquer modo é isso...
Eu Sou,Joana D'Arc Valente santana

Fátima Almeida disse...

O descobridor dos povos indígenas do Acre foi Terri Vale de Aquino, em 1976, quando ele retornou ao Acre na qualidade de pesquisador em razão de seu mestrado na UnB. Ele foi obrigado a se esconder nas matas, certa vez, procurado pela Polícia Federal, naqueles tempos, a serviço dos interessados na invasão e devastação das terras indígenas. E desde então, junto com outros indigenistas e antropólogo passou a lutar pela defesa dos interesses dos povos indígenas. Deveria ser feito um Museu do Indio aqui em Rio Branco, reunindo inclusive toda a farta documentação daquele periodo. O governo Jorge Vianna mandou fazer a Casa Txai, em imovel alugado no centro da cidade com essa finalidade. O Governo Binho acabou com a casa Txai e o material foi realocado em outro imóvel alugado mais afastado do centro, onde ninguem vai...Os estudantes continuam estudando história em livros publicados em São Paulo, onde a questão indígena é tratada apenas nos capítulos relativos á colonização espanhola e portuguesa. Quando todo o material do Teri poderia ter sido tratado para gerar material didático-pedagógico para as escolas do Acre. Mas a visão de Binho marques sobre educação é cartorial. Por alguma arte do destino o PT feudal acreano deu o baronato da educação para ele, tanto é que Daniel Zen é "dele", daí ter sido indicado para Secretário de Educação.

Matthew Meyer disse...

Rosângela, já li alguns textos do Viveiros de Castro, entre eles o famoso sobre os "Pronomes cosmológicos", e não compreendo como suas teorias sequer poderiam ser "tomadas como metodologia de trabalho em pesquisa de campo". Realmente ele não fala quase nada sobre seus métodos no texto. Por acaso estamos trabalhando com sentidos diferentes de "métodos"?
Por que Roberto da Matta seria mais inovador? Isso tudo ficou muito difícil de entender no seu comentário.
E como é que Viveiros de Castro está ajudando a apropriar o conhecimento indígena?
Explique, por favor, estou ouvindo.

Rosangela Barros disse...

Primeiramente quero, caro Matthew Meyer, dizer-lhe que eu não conclui meus estudos antropológicos, exatamente pela academia brasileira não considerar a antropologia política como uma ramificação autônoma nas Ciências Sociais e a antropologia social é-nos pouco considerada (somente Roberto DaMatta tem autoridade para falar sobre antropologia social), por isso não posso lhe apresentar uma opinião formada com precisão entre DaMatta e Viveiro de Castro... Com isto, quero lhe afirmar: eu não tenho autoridade, muito menos leitura suficiente para lhe apresentar uma comparação precisa dos métodos utilizados pelos dois antropólogos em questão...

Por outro lado, é muito simples de perceber pela pouca leitura que eu tenho que DaMatta, em seus escritos, tem uma preocupação de apresentar um estudo etno-sociológico como resultado de seus trabalhos de campo... Ele não se limita em generalizar as observações de acordo com a antropologia culturalista estrutural de Viveiro de Castro... DaMatta sempre demonstra, em seus trabalhos antropológicos com os índios, uma preocupação no processo de marginalização econômica pela qual passa as sociedades indígenas diante da integração sócio-cultural...

Ao contrário, Viveiro de Castro, conforme eu já disse, apenas demonstra (nos resultados de seus trabalhos de campo) uma perfeita etnografia ao descrever o processo histórico das culturas indígenas, quando ele descreve a cultura, se apropria de todo o conhecimento e costumes do povo descrito... Bem, para falarmos da diferença entre os métodos utilizados pelos dois, temos que compreender a diferença entre a etnografia e a etnologia: a primeira se utiliza do método descritivo e a segunda, utiliza o método analítico... Pois bem, meu caro, caso você tenha alguma leitura dos dois e o mínimo de raciocínio lógico compreenderá minha tentativa de responder sua pergunta, caso não tenha conseguido me compreender, não será através deste espaço que chegaremos a um entendimento...

CONT...

Rosangela Barros disse...

Voltando à Antropologia Social do Roberto DaMatta temos este exemplo aí fornecido pela Fátima Almeida: o Terri é-nos um grande exemplo para a antropologia indígena... Agora perceba toda a perseguição passada por ele, simplesmente pelo seu envolvimento sócio-político... Acrescento que o Terri foi meu primeiro ídolo antropólogo e foi nele que me inspirei numa tentativa de mestrado... Tentarei lhe exemplificar, a seguir, com um pequeno trecho do resumo feito com o rascunho da minha tentativa de Dissertação de Mestrado... Neste trabalho, caro Matthew Meyer, tentei apresentar, através dos escritos do Terri o processo da conquista territorial, bem como a organização na dinâmica social das comunidades Kaxinawa no município do Jordão, estado do Acre, refletindo a especificidade cultural que se apresenta na estrutura sócio-política do referido povo, bem como as consequências com o processo de colonização do Acre e a inserção Kaxinawa na economia da borracha.

Através de alguns exemplos da história das relações entre Kaxinawa e civilizados, procuramos retratar as condições em que elas se processaram na região, bem como os impactos causados por essas influências externas, assim como o ensino Bilíngüe que tem como objetivo reestruturar a educação tradicional, visando desencadear um processo de restauração cultural desta comunidade; contribuindo, portanto, na manutenção da língua materna, na revitalização da história, na valorização e fortalecimento da cultura e identidade étnica do povo Kaxinawa.

O trabalho de pesquisa procurou apresentar o resultado de contato na história desta etnia, desde os tempos imemoriais até as atuais conquistas de Direitos: a compreensão reflete as questões indígenas como sendo mais uma fase da história de expropriação iniciada no passado com o período das Correrias, se aprimorando no período de Cativeiro, ainda firmando-se com o efeito do Capitalismo e as expansões extrativistas, bem como seu aprimoramento na linguagem da Globalização.

Imprimimos uma dinâmica no trabalho, onde consiste numa busca dos papeis e das máscaras sociais: focalizando a subordinação da subjetividade política que norteia a vida cotidiana Kaxinawa, diante das mudanças causadas pela inserção indígena na política pública, esta dissertação tem como metodologia a análise do processo de organização Kaxinawa do Jordão/AC, contemplado também o momento de reorganização da sociedade Kaxinawa com a criação da associação ASKARJ e a atual troca de coordenação, bem como uma avaliação dos Projetos ali desenvolvidos através da educação escolar. Além de refletir acerca das dificuldades que vem gerando mudanças na estrutura sócio-cultural e econômica do grupo. Apresentamos esse estudo – como possibilidade de análise dos resultados entre Kaxinawa e relação externa, além de contemplarmos as práticas e exercício das atividades exercidas ao longo dos vinte anos de conquista territorial descrito pelos trabalhos desenvolvidos pelo antropólogo Terri Vale de Aquino (desconsidere os erros, pois estou sem tempo e sem paciência para a Net)...

Enfim: não posso lhe indicar nenhuma leitura, pois meus materiais de estudo estão difíceis de ser encontrado, infelizmente tive minha casa assaltada recentemente e ainda está tudo uma desordem... Mas com os exemplos acima: o senhor pode refletir um pouco mais sobre o que eu falo de método na antropologia... Grata pela atenção!

Rosangela Barros disse...

Drª Joana D'Arc Valente Santana, obrigada pelo e-mail, entrei em contato!

Matthew Meyer disse...

Rosângela, sou eu que lhe agradeço pelo esforço de se explicar um pouco melhor.

Se entendi, o eixo principal de suas preocupações com essa antropologia do V de C é a questão de engajamento político.

Bom, V de C toma como herói Lévi-Strauss, que com certeza já foi alvo de críticas semelhantes.

(E entendi a sua referência aos africanistas ingleses nesse sentido: ignoravam--talvez por falta de opção--o contexto histórico e político, optando por uma descrição da cultura tradicional, muitas vezes já desaparecendo...o notório 'presente etnográfico'.)

Não vou defender V de C, só queria mesmo era ouvir suas queixas com mais precisão.

Txai Terri é um herói meu também. Também Mauro de Almeida. Também Txai Macedo.

Espero que você possa concluir o mestrado algun dia.

Cheers!

Rosangela Barros disse...

Ai, ai meu Deus!... Realmente, eu devo escrever muito mal: em nenhum momento, Matthew Meyer, eu quis desconsiderar este ou aquele antropólogo, pelo contrário: deixei bem claro que adoro ler ambos, porém só não concordo que V de C seja o renovador do pensamento antropológico brasileiro... Tanto etnografia como etnologia são métodos fundamentais na antropologia, acredito eu que: um depende do outro... Também entendo o porquê de Claude Lévi-Struss ter sido o herói do V de C, ele também foi meu herói: a principal Luz para eu compreender o estruturalismo, sem este escritor francês (e a Grandiosa antropóloga – minha Deusa Orientadora – Carmen Junqueira) eu nunca teria entendido tão bem o multiculturalismo (e hoje eu estaria para lá de “Marraquete”)!...

Outro detalhe: o antropólogo não necessita de ter pleno engajamento político para deixar seu legado contributivo para a humanidade (até discordo do engajamento político do estudioso: ou se faz Ciência ou se faz política)... No estudo da antropologia, meu caro, o Passado não deve ser considerado uma coisa morta: ele deve e pode nos ajudar a entender o homem atual, para que se faça entender o homem do Futuro e para isto não é necessariamente ser um Ativista Político!... Digo e repito: só não concordo que V de C seja renovador na antropologia brasileira!... No Dia em que no Brasil houver uma Cadeira de Antropologia Política: eis que eu vou achar o renovador do pensamento antropológico brasileiro!... Pois não?...

Tem mais: o Txai Terri não é mais meu Ídolo!... (continuo a respeitá-lo e amá-lo enquanto ser Humano)... Pergunte para Ele o quê ele fez com minha pessoa lá na Terra Indígena do Jordão, daí eu lhe direi o porquê dele não ser mais meu Herói!... Foi quando o Criador quase foi devorado pela Criatura!... Lol

PS.: Esqueci algo muito importante: e, eu não gosto dos africanistas ingleses, não!... Eu gosto é dos africanistas franceses, viu?...

Mais uma Vez: grata pela atenção!...