segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A HISTÓRIA DE EMANUELA FIRMINO

Por RACHEL BOTELHO, da Folha de S. Paulo













Resumo

Emanuela Firmino tinha 15 anos quando o pai, Agilson Santos Firmino, e o irmão Uilder foram assassinados a mando do ex-deputado e ex-coronel da PM do Acre Hildebrando Pascoal, no que ficou conhecido como o crime da motosserra.

O crime ocorreu após a morte de Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando. O pai dela estava com o assassino de Itamar na hora do crime. Hildebrando foi condenado a 18 anos pela morte de Firmino há exatamente um ano.

Leia o depoimento de Emanuela, 29

"Meu pai estava montando um restaurante no interior do Acre para o pessoal que trabalhava com José Hugo na construção. Ele estava no local errado e na hora errada quando Hugo assassinou o irmão de Hildebrando. Depois disso, eu não o vi mais.

Dois homens chegaram em casa falando que ele estava preso, embriagado, e que precisava de um filho para fazer curativos.

Eles estavam sem a farda, mas mostraram a carteira de policial civil. Minha mãe decidiu ir com eles.

Depois de 15 minutos, voltaram sem ela para buscar um dos filhos. Eu queria ir, mas eles não deixaram por eu ser mulher. O Uilder, que tinha 13 anos, disse que iria.

Em seguida, minha mãe voltou, mas sem meu irmão. Isso era domingo à noite. Eu tinha 15 anos e amadureci naquele dia.

O corpo

Dois dias depois, saiu na rádio que tinham encontrado um corpo. Pensamos que era meu irmão, porque achávamos que meu pai tinha assassinado junto com o José Hugo e deixado a gente para pagar por tudo.

No caminho para o IML, ficamos com medo e decidimos ir para a casa de uma amiga. Lá, a televisão mostrou o corpo, e esse corpo era do meu pai.

Ver a pessoa que mais me amava na vida... Ele estava com um furo na cabeça. Mostrou o rosto, e falou que tinham serrado as pernas e os braços dele.

Procuramos a Secretaria de Segurança Pública, mas falaram que era para irmos embora com a roupa do corpo, porque não podiam fazer nada. Nós passamos uma semana escondidos, até que a família pagou para sairmos do Acre.

Na quinta-feira, apareceu o corpo de meu irmão, mas não vimos porque onde estávamos escondidos não tinha TV. Uma vizinha contou e a gente deduziu que era ele pelas roupas.

No julgamento, no ano passado, o juiz me mostrou as fotos. Doeu, sofri, mas foi melhor para ter certeza que meu irmão morreu e que foi para me salvar.

Indenização

Eu e meu irmão menor passamos a adolescência revoltados com meu pai. Se ele sabia que ia assassinar, deveria ter avisado para que a gente fugisse.

Passados 13 anos, no julgamento de Hildebrando descobrimos que ele não matou ninguém.

O Estado tem que dar uma pensão para minha mãe. Ela é extremamente deprimida e trabalha limpando chão e privada com quase 60 anos porque fizeram isso com a nossa família.

Quero que a ajudem e quero enterrar meu pai e meu irmão. Vou me sentir realizada quando acontecer isso.

"Semana no inferno"

Eu dizia que ia escrever um livro e o nome seria "Uma semana no inferno". Mas minha mãe tinha pavor de tudo.

No ano passado, o Ministério Público achou a gente. Antes, tínhamos ido à delegacia reconhecer fotos de policiais, mas eu não queira contato."

Após 14 anos, família enterra pai e filho hoje

Após 14 anos do crime da motosserra, a família de Agilson Santos Firmino e de seu filho Uilder poderá finalmente enterrá-los. A cerimônia deve ocorrer hoje.

O restos mortais das vítimas foram enviados sexta à cidade onde a viúva e os outros dois filhos de Firmino vivem desde que deixaram o Acre. Por segurança, o local não pode ser revelado.

A família recebeu os atestados de óbito dia 15. Para Emanuela Firmino, filha de Agilson, os papéis só foram expedidos após o jornalista Altino Machado [leia neste blog] cobrar as autoridades em seu blog.

"Expressei a vontade de receber as ossadas no julgamento de meu irmão, em novembro passado. Se não fosse o blog, os atestados não teriam saído", diz.

Segundo o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, José Henrique Corinto de Moura, a demora se deve à burocracia. "O Estado nunca se negou a enviar as ossadas, mas precisava da certidão de óbito. O processo acabou dia 14", disse.

O procurador-geral do Ministério Público do Acre, Sammy Lopes, estuda a possibilidade de indenização. "Quem cometeu o ato de brutalidade e o assassinato era agente do Estado." No julgamento de Hildebrando, a família teve pedido de indenização negado.

ATUALIZAÇÃO do blog: Destaco o comentário deixado por Emanuela:

- Realmente sabemos que foi o estado é por esse motivo que estou aguardando uma resposta do ministerio publico. hoje conseguimos enterra-los com dignidade é um misto de sensações ficamos felizes pois conseguimos e triste porque tudo isso poderia ser só um pesadelo que podemos acordar a qualquer momento.é mas infelizmente é a pura realidade,realidade essa que doi muito pois sinto falta dos dois e essa falta faz com que meu coração se intristeça cada vez mais e a saudade é tanta que não sei nem mensurar o tamanho dela.mas esta mesma saudade faz com que tenha força para lutar e dessa forma ja conseguimos enterra-los agora falta somente que o mesmo Estado que permitiu que isso acontecesse arque com todas as consequencias,pois não só duas vidas foram ceifadas e sim uma familia inteira.isso me faz recordar a ultima noite que estive com meu pai,ele me disse "lute por tudo que você quiser sempre sempre assim uma guerreira"e depois ao me deitar ele foi ao meu quarto enrolou meus pés e me perguntou "viu como é bom ter um pai?".é verdade como foi bom ter sido sua filha.agradeço a todos que de forma direta ou indiretamente nos ajudaram mas em especial quero agradecer a 3 pessoas:a meu pai,a meu irmão e a minha mãe que é uma heroina,uma guerreira dizer-la que nada seria sem ela. mãe te amo.

7 comentários:

Fernando disse...

Para quem não se lembra, o Estado naqueles tempos escuros ora OMISSO, ou melhor, mandava matar, prender e soltar tendo como cão de guarda o famoso coronel da PM. Quem matou o Pai e o Irmão Emanuela foi o ESTADO através de seus agentes públicos e portanto o Estado DEVE SIM uma idenização a esta família. Ainda mais depois que vimos que conseguiram tornar o chico mendes um anistiado sem ele nunca ter sido e dado a sua familia - QUE JÁ MAMA NAS TETAS DO GOVERNO - um idenização bem generosa.

O Sammy tem que fazer justica e justiça nesse caso é deferindo o pedido de idenização.

Fernando

emanuela disse...

realmente sabemos que foi o estado é por esse motivo que estou aguardando uma resposta do ministerio publico.
hoje conseguimos enterra-los com dignidade é um misto de sensações ficamos felizes pois conseguimos e triste porque tudo isso poderia ser só um pesadelo que podemos acordar a qualquer momento.é mas infelizmente é a pura realidade,realidade essa que doi muito pois sinto falta dos dois e essa falta faz com que meu coração se intristeça cada vez mais e a saudade é tanta que não sei nem mensurar o tamanho dela.mas esta mesma saudade faz com que tenha força para lutar e dessa forma ja conseguimos enterra-los agora falta somente que o mesmo Estado que permitiu que isso acontecesse arque com todas as consequencias,pois não só duas vidas foram ceifadas e sim uma familia inteira.isso me faz recordar a ultima noite que estive com meu pai,ele me disse "lute por tudo que você quiser sempre sempre assim uma guerreira"e depois ao me deitar ele foi ao meu quarto enrolou meus pés e me perguntou "viu como é bom ter um pai?".é verdade como foi bom ter sido sua filha.agradeço a todos que de forma direta ou indiretamente nos ajudaram mas em especial quero agradecer a 3 pessoas:a meu pai,a meu irmão e a minha mãe que é uma heroina,uma guerreira dizer-la que nada seria sem ela.mãe te amo.

rachel disse...

Altino, obrigada por reproduzir a matéria no blog. Sem vc, ela nem existiria. Um abraço. Rachel
PS - Por favor, corrija meu nome. É com CH ;)

ALTINO MACHADO disse...

Corrigido, Rachel. Viu como não oi de todo um CTRl + C? Parabéns pelo que você fez.

Odele Souza disse...

Aqui em São Paulo, li a matéria da Rachel Botelho na Folha. Que impressionante. E que revoltante. Parabéns Altino por ter cobrado das autoridades um posicionamento com relação a este caso. Emanuela, embora nenhum valor em dinheiro pague o sofrimento, uma indenização decente e sem mais demora é o mínimo que o Estado deve à sua mãe que a esta altura da vida precisa ter um pouco de descanso. E não é favor nenhum, não é ajuda,é OBRIGAÇÃO do Estado indenizar sua mãe. 14 anos esperando para enterrar seus entes queridos.14 anos para o desfecho de um crime que devastou a vida de uma família. Até quando neste nosso pais o cidadão comum vai ter que esperar para ver seus direitos minimamente respeitados!? Como não sentir vergonha de uma justiça assim?! É o que há tempos eu sinto pela justiça brasileira. VERGONHA!
Ãnimo Emanuela, e jamais desista de lutar por seus direitos.

rachel disse...

Obrigada, Altino. Como disse à Emanuela, me deu muita satisfação contar essa história tão trágica, porque tenho esperança de que ela possa ajudar a evitar casos semelhantes no futuro. Abraços!

emanuela disse...

ola altino,olha eu novamente em seu blog.estou aqui para mais uma vez refrescar a memoria das autoridades do acre,que ja se passaram 14 anos e precisamos correr contra o tempo em relação as indenizações ou pensão vitalicia que tambem foi cogitada por doutor sammi.esperamos que seja resolvido o mais breve possivel pois minha mãe precisa de descanso.estou ficando preocupada pois minha mãe depois do julgamento e depois da chegada das ossadas se encontra triste e doente,acredito que é como se agora ela achasse que cumpriu a missão dela mas ela tem que saber que a missão dela aqui esta apenas começando,saiba disto minha guerreira.sem falar na mãe de meu pai que esta entrevada numa cama e merece tambem respeito desta autoridades dai.sera que o brasil continuará sendo o país das injustiças?sera que mais pais de familia e crianças terão que morrer?cadê o amor ao proximo?sera que alguem ainda lembra dos 10 mandamentos?acho que não.vamos respeitar mais a dor dos outros,peço que respeitem a dor de uma mãe de familia que perdeu seu marido e seu filho por culpa de um país mal organizado,onde so protege quem tem dinheiro e esquece dos menos favorecidos.vamos repensar em nossas leis?e pensando nisto é que gostaria de pedir sua ajuda pois tenho vontade de criar um blog sobre as vitimas e seus familiares de violencia e tambem gostaria de fazer um abaixo-assinado para ser entregue aos deputados sobre mudança nas leis.o que acha?sou leiga no assunto por isso peço sua sugestão sobre este assunto.