segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

DARLY ALVES DA SILVA - ENTREVISTA

"Chico Mendes foi um mártir e eu também"


A chuva fina do inverno amazônico teimava em cair ao meio-dia de quarta-feira sobre a fazenda Paraná, na BR-317, em Xapuri (AC). Do alto de seu cavalo, um mensageiro avisa que Darly Alves da Silva, 73, condenado a 19 anos de prisão como mandante do assassinato do líder sindical e ecologista Chico Mendes, atenderia ao Blog da Amazônia.

Meia hora depois, surge na linha do horizonte o vulto do homem que já foi o fugitivo da Justiça mais procurado do país. Ele caminha segurando um guarda-chuva negro. O céu nublado e a chuva fina conferem um ar lúgubre ao vulto franzino que se aproxima da casa.

Seus passos são cadenciados e firmes sobre o trecho úmido da verdejante pastagem de uma de suas três fazendas. Elas totalizam pouco mais de três mil hectares. Usando seu indefectível boné, camisa azul rasgada nas costas e uma calça com o zíper danificado, Darly Alves da Silva abre o portão da cerca que impede o acesso dos bois ao quintal da casa.

Saúda os presentes com um “boa tarde” e sobe firme a escada de tres degraus. Na varanda, mais protegido da chuva, retira de dentro da camisa um saco plástico com a Bíblia Sagrada dentro.

- Essa é a minha arma - avisa.

Mas o velho fazendeiro ainda parece acuado, como se não estivesse dentro de sua própria casa. Senta-se no banco de madeira e logo avisa que não dará entrevista.

Retira do bolso da camisa a carteira de presidiário, onde consta uma anotação logo nas primeiras páginas: “Término provável da pena: 22 de julho de 2015″.

Responde de modo gentil perguntas banais durante mais de três horas de conversa sobre o Acre, Chico Mendes, família, religião e até a respeito de outros implicados no complô que resultou no assassinato do homem mais famoso do Acre.

Quando a “fera” aparenta estar mais relaxada e falante, enfio a mão no bolso direito da capa de chuva. Tateio o mini-gravador, mas a operação se torna um desastre: aperto a tecla “play”em vez de “rec”. E o áudio de uma gravação me denuncia.

- Você está gravando. Avisei que não quero entrevista - fala com firmeza, enquanto tento me desculpar dizendo que apenas tateava o bolso em busca de um isqueiro.

Mais adiante, quando Darly Alves da Silva parece ainda mais relaxado, peço-lhe permissão para fazer uma pergunta incômoda. Ele autoriza.

- O que o sr. faria se pudesse voltar 20 anos no tempo?

- Águas passadas não movem moinho - responde secamente.

Sentado ao lado dele, curvo-me para abrir a mochila. Puxo o caderno de anotação e escrevo a resposta. Os olhos dele mudam de cor, encara-me sisudo, e vira-se para o outro lado do banco, onde está o radialista Raimari Cardoso, do blog Xapuri Agora, que ajudou-me a ter acesso ao recanto da família mais temida da região.

- Eu vim aqui atender a você, Raimari. Não sabia que você estava com um comparsa. Eu disse que não quero entrevista - afirma Darly, enquanto ameaça levantar-se para ir embora. Tive que me desculpar mais uma vez, repouso a mão sobre a coxa direita dele, fecho o caderno e o devolvo à mochila.

E haja mais tempo para a esgrima de mudar o rumo da prosa e outra vez deixar o dono da casa à vontade. Pergunto pelo livro que Darly tem intenção de publicar caso encontre alguém disposto a escrever sua biografia. Darly volta a se empolgar.

- Tenho esse sonho, sim. Preciso ganhar um dinheiro a mais. Eu acho que minha história vai interessar muito ao estrangeiro.

Darly também se entusiasma quando fala de sua nova arma, a Bíblia Sagrada. Ele ainda não foi batizado pelo fogo, mas está disposto a tratar disso logo. Quer cumprir a prisão domiciliar, obter a liberdade condicional e mudar de vez para Brasília. Ganhou gosto pelo lugar após o tempo que passou no presídio da Papuda.

- Eu quero minha salvação. Em Brasília, posso freqüentar todo dia a igreja “Deus é mistério”. É pentecostal. O pastor de lá era da “Deus é Amor” - explica.

Outro momento de empolgação e relaxamento é quando menciono o nome do ex-governador Jorge Viana, defensor de que a área da fazenda Paraná seja desapropriada e transformada em pólo-agroflorestal para assentamento de colonos.

- O Jorge Viana devia ser meu amigo, não é? Ele é bom. Mas eu acho melhor, gosto mais mesmo, é do irmão dele, o Tião Viana. Ele tem boas idéias - revela.

Em novembro, um filho de Darly, de 18 anos, matou a mulher mais jovem do pai dele dentro da fazenda Paraná. Enquanto repousava numa rede na varanda da casa, o jovem se aproximou e disparou um tiro de espingarda na nuca dela.

- Não perdôo ele de jeito nenhum. Se eu não estivesse com a mão sobre a Bíblia Sagrada, eu mesmo iria matar aquele covarde. O que ele fez foi uma covardia muito grande. Por causa desse crime, tem dias que eu me ajoelho e grito, implorando justiça a Deus - relata o fazendeiro com a voz embargada.

O celular toca. Do outro lado da linha, Elenira Mendes reclama que passei em Xapuri e não a procurei. Prometo voltar mais tarde. Ela quer saber aonde estou. Ao responder que estou entrevistando Darly, a filha de Chico Mendes, que tinha quatro anos quando viu o pai morrer tentando lhe dizer alguma coisa, sugere:

- O Darci [filho de Darly condenado a 19 anos de prisão com autor do tiro que matou Chico Mendes] prometeu que iria revelar os nomes dos demais mandantes quando o crime completasse 20 anos. Pergunta pro seu Darly quais eram os outros mandantes.

Peço mais uma vez permissão para fazer uma pergunta incômoda. Darly aceita e responde:

- Não lembro se o Darci prometeu isso. Eu perguntei muitas vezes a mesma coisa, mas ele sempre ficou calado. Eu dizia que poderia ser beneficiado se ele revelasse quem mandou matar o Chico Mendes, mas nada. O que posso dizer é que nunca paguei advogado pro Darci. Alguém pagou. Não sei se foi o falecido Gastão Mota, o falecido ex-prefeito Adalberto Aragão, coronel Chicão ou outro qualquer - afirma.

Quando estava perto de três horas de conversa, voltei a insistir com Darly em defesa da entrevista:

- Respeito que o senhor não queira ser entrevistado, mas quero ao menos provar que estive aqui tentando a entrevista. Aceita que eu grave o sr. justificando a sua recusa?

- Tudo bem, isso eu posso fazer. Sei que você está trabalhando. Com a gravação você pode mostrar pro chefe da sua revista que esteve comigo na fazenda Paraná e foi bem recebido.



Após 20 anos do assassinato de Chico Mendes, leia a entrevista com Darly Alves da Silva no Blog da Amazônia.

14 comentários:

Anônimo disse...

Esse escremento é tão burro que nao sabe que pra ser um mártir é preciso estar morto?
E morto por uma causa honrosa, nao pela fria vontade de matar o nosso Chico!
Tenho nojo desse cara, ele fede...

Nilton Brito de Amorim disse...

O que seria de Jesus sem o judas? cada um tem a sua contribuição. O nosso Jesus é o Chico. Basta ver o sucesso danado que ele fez no Acre quando Jorge Viana foi governador, começou com a via Chico Mendes. Agora a homenagem que o povo fez anda meio esquecido: bairro Chico Mendes, rua Chico Mendes na Conquista, Xapuri entregue as baratas.

Leandrius disse...

Para com uma idiotice dessas, comparar aquele tal Chico com Jesus, tudo bem que nosso unico e verdadeiro heroi morreu tem 100 anos, de la pra ca ficamos carente e aceitamos qualquer coisa, porem essa comparaçao passa do absurdo

Janu Schwab disse...

Acho que o Darly nunca bateu bem da caixa.

Nilton Brito de Amorim disse...

Calma Leandrius esqueci as aspas. Isso é ironia, não sou eu quem compara, muitos cultuam Chico como tal. E esse herói que morreu a 100 anos apenas defendeu seu seringal. Sorte dele ser herói, em contrapartida ele foi morto por um brasileiro na briga pelo poder. Leia Laélia Rodrigues: Cantos e encantos da floresta.

Cartunista Braga disse...

Cara, a "não entrevista" foi boa, mas essas fotos estão sensacionais. A primeira é a personificação do mal, a segunda mostra que o mal muitas vezes se esconde na figura de um bom velhinho, um sitiante humilde, de botinas que não pode fazer mal a seu ninguém. Parabéns!

Leandrius disse...

Defendendo seu seringal ou nao, Placido nos livrou dos Bolivianos, um militar exemplar, ja esse outro ai quem foi? quem era? Qual o beneficio que ele nos trouxe, ao contrario, investimentos deixaram de ser feitos por causa dele, lembra-se da Bordon ou da Fazenda Brahma?

Nilton disse...

Lembro sim. Há muitas pessoas que pegam o gancho e se promovem com os "ideais", porque a luta de Chico foi real, houve empates, ou seja, há muitas pessoas idealistas que se promovem as custas da luta de Chico. Essas pessoas não fazem nada além de discursar. Veja no AC24horas, o que vão fazer com o Darlir. Enquanto liberam cento e tantos condenados para o natal, dia 26 o pop star internacional Darlir volta para o regime fechado mesmo depois de 20 anos da morte de "Chico que ainda vive". O Acre é esquecido, ainda lembram do Acre quando lembram de Chico. O dono de serigais, Plácido de Castro, não significa nada para o mundo.

Anônimo disse...

Avisa para o Anônimo "SABICHÃO" que excremento é com "x". kkkkkk

Leandrius disse...

Placido nao significa nada pro mundo, e quem conheceu o verdadeiro chico, sabe que ele significa nada pro acre

Anônimo disse...

Esse olhar torto do Darly é um perigo, cuidado com quem olha desse modo, a vitíma pode ser você.

Maria Albanizia Aquino disse...

Bando de cambada filho da puta

Dudu borges melo disse...

Velho nojento...

laercio5412 disse...

Acho isso engraçado, todo bandido, assassino e cambada de ladrão começa a frequentar igreja e ler a biblia, por que hem???