quinta-feira, 1 de maio de 2008

AYAHUASCA

Gilberto Gil recebe documento em defesa de
ritual como patrimônio cultural brasileiro



O ministro Gilberto Gil, da Cultura, recebeu ontem, no Centro de Iluminação Cirstã Luz Universal - Alto Santo, fundado pelo mestre Raimundo Irineu Serra em Rio Branco (AC), o documento (leia aqui) no qual representantes dos centros que integram os três troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras solicitam que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) instaure o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

O pedido está endossado pelo governador do Acre Binho Marques (PT), pelo deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), presidente da Assembléia Legislativa, além da deputada federal Perpétua Almeida (PC do B), articuladora do projeto de reconhecimento do uso ritual da ayahuasca.

Segundo o governador, "é muito fácil construir prédios, mas é muito difícil construir uma fortaleza cultural como esta".

- É a nossa reserva moral, a nossa fonte de sabedoria. Eu mesmo, em momentos de descrença, de não ter mais esperança no futuro, foi aqui que encontrei sabedoria e iluminação e muita crença no futuro. Perenizar essa sabedoria, essa cultura e essa iluminação é importante para o Acre. O Acre agradece. Mas eu tenho certeza que o Brasil vai agradecer, não só o Acre - afirmou Binho Marques.

Gilberto Gil espera que o Iphan, órgão do Ministério da Cultura, "examine com todo zelo, carinho e responsabilidade" a solicitação.

- Espero que nós possamos celebrar em breve o registro do ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira - disse o ministro.


Binho Marques, Gilberto Gil e assessores foram recebidos pela viúva de Irineu Serra, dona Peregrina Gomes Serra, dignatária do Ciclu-Alto Santo.


Perpétua Almeida e Edvaldo Magalhães com Peregrina Serra e seus familiares




V Í D E O S
Discursos do governador e do ministro.



Historiador Marcos Vinícius, presidente da Fundação Municipal de Cultura, faz a leitura de uma mensagem pessoal e do documento entregue ao ministro.



"Excelentíssimo Senhor
Gilberto Passos Gil Moreira
Ministro da Cultura da República Federativa do Brasil


Ayahuasca é um termo de origem Quéchua, que significa “vinho das almas”, e é utilizado para designar o chá feito pela cocção de duas plantas originárias da floresta amazônica: o cipó Jagube ou mariri (Banisteriopsis Caapi) e as folhas da Rainha ou Chacrona (Psychotria Viridis). Este chá serviu como base para o estabelecimento de diferentes tradições espirituais por comunidades indígenas em uma vasta região que compreende diversos paises amazônicos (Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, etc.), tradições mágico/culturais que se consolidaram na grande floresta amazônica durante os últimos dois mil anos, pelo menos, e exerceram influências importantes, inclusive sobre sociedades complexas da região andina, como a civilização Inca, por exemplo.

Mais recentemente, nos primeiros anos do século XX, na Amazônia Ocidental (atuais estados do Acre e de Rondônia, na fronteira com o Peru e a Bolívia), a formação da sociedade extrativista da borracha - que a exemplo dos povos indígenas amazônicos – tinha como marca fundamental uma enorme multiplicidade étnica e cultural, estabeleceu as condições necessárias para que a milenar tradição indígena da Ayahuasca fosse assimilada por brasileiros e desse origem a uma nova configuração religiosa, cultural e social. Assim, Raimundo Irineu Serra e Daniel Pereira Mattos (ambos negros maranhenses, descendentes de escravos) fundaram entre 1910 e 1945 uma doutrina religiosa que rebatizou a Ayahuasca com o nome de “Daime”. Algum tempo depois, na década de 60, o baiano José Gabriel da Costa formulou uma outra doutrina que passou a chamar a Ayahuasca de “Vegetal”.

Porém, mais importante do que apenas designar novos nomes, a atuação destes três mestres fundadores - Irineu, Daniel e Gabriel – estabeleceu as bases doutrinárias de uma nova tradição religiosa, sincreticamente brasileira e tipicamente amazônica, que possibilitou a formação de comunidades organizadas em torno do uso ritual da Ayahuasca e que passaram a ter importante papel (político, social e cultural) na própria formação da sociedade brasileira na Amazônia Ocidental.

O conhecimento espiritual destas doutrinas tem sido transmitido de geração a geração e mantido por diversas tradições culturais através de um sincretismo religioso caracteristicamente amazônico, o que implica numa relação essencialmente harmônica com a natureza e estabelece um sentimento de identidade e continuidade, garantindo assim o respeito à diversidade étnico-cultural e à criatividade humana.

Com isso as Doutrinas do Daime/Vegetal, como estabelecidas por seus mestres fundadores, tornaram-se partes indissociáveis da sociedade brasileira, podendo assim receber o reconhecimento como patrimônio cultural de nosso país.

Com base nas informações acima relacionadas podemos afirmar que a utilização ritual da Ayahuasca em doutrinas religiosas preenche os quesitos que a caracterizam como patrimônio imaterial, considerado como “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que comunidades ou grupos reconhecem como parte integrante do seu patrimônio cultural.”

Em atenção aos ditames da Resolução nº 1, de 3 de agosto de 2006, expedida pelo Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), os representantes responsáveis pelas Fundações Culturais do Estado do Acre e do Município de Rio Branco, a partir do diálogo com os centros que integram os três troncos fundadores das contemporâneas doutrinas Ayahuasqueiras, solicitam ao Senhor Ministro da Cultura que, através do Iphan, instaure o processo de reconhecimento do uso da Ayahuasca em rituais religiosos como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira.


Rio Branco, 30 de abril de 2008.


Daniel (Zen) Santana de Queiroz
Presidente da Fundação Elias Mansour
Estado do Acre

Marcos Vinicius Neves
Diretor-presidente da Fundação Garibaldi Brasil
Município de Rio Branco

Peregrina Gomes Serra
Centro de Iluminação Cristã Luz Universal-CICLU – Alto Santo

Francisco Hipólito de Araújo Neto
Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus – Fonte de Luz”

José Roberto da Silva Barbosa
Centro Espírita Beneficente União do Vegetal - UDV

Jair Facundes de Oliveira
Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - CICLU"


REPERCUSSÃO
Folha Online

G1

Gazeta do Sul

Terra

21 comentários:

Matthew Meyer disse...

Valeu, Altino. Interessante que o sr. Ministro chamou a bebida de "ayahuasca" e "vegetal" mas não de "Daime". E a dignatária da casa não aparece no vídeo, não sei por que. Obrigado pelo trabalho.

ALTINO MACHADO disse...

Caro, você conhece como é feita a distribuição dos batalhões feminino e masculino no salão. A dignatária estava, claro, no batalhão feminino, do outro lado do salão, na companhia da deputada Perpétua Almeida. Quisera eu tivesse uma equipe para filmar de todos os ângulos e posteriormente editar o material, para que todos apareçam como merecem. Mas você sabe que uso uma xeretinha digital. O fato do ministro não ter pronunciado a palavra "daime", creio, não se contrapõe à sensibilidade demonstrada por ele. Um forte abraço,

Julio Cesar Prudente da Silva disse...

Legal essa postura do PT e do governo, antes o Governo usava Xapuri e Chico Mendes, agora esta começando a usar o Daime e os Indios, tanto e que estão levando o Ministro a Marechal Thaumaturgo e não mais a Xapuri como antigamente, ainda bem que tem os Geoglifos para quando se saturarem do daime e dos indios.
tem assessores do governo que quando a casa cair vai mostrar a verdadeira cara. ai vai deixar de viver as custas de alguns nomes.

tarso.lima disse...

Esta atividade, que simboliza todo um movimento genuinamente acreano e amazônida, é o resgate da essência destes povos da floresta que não cansam em construir felicidade e harmonia, mesmo com as dignas e respeitosas diferenças.
O uso do chá em ritual religioso, trazido aos centros urbanos pelos Mestres Irineu, Daniel e Gabriel, faz parte dessa alma da floresta, o que considero ser um dos matizes da florestania.
A grande vitória do reconhecimento não tem dono, já que esse patrimônio é dos nossos ancestrais, e
é dos nossos contemporânes e será das novas gerações.
É a Força e a Luz, de forma mansa e sublime, irradiando seu esplendor.

Paulo de Tarso disse...

Esta atividade, que simboliza todo um movimento genuinamente acreano e amazônida, é o resgate da essência destes povos da floresta que não cansam em construir felicidade e harmonia, mesmo com as dignas e respeitosas diferenças.
O uso do chá em ritual religioso, trazido aos centros urbanos pelos Mestres Irineu, Daniel e Gabriel, faz parte dessa alma da floresta, o que considero ser um dos matizes da florestania.
A grande vitória do reconhecimento não tem dono, já que esse patrimônio é dos nossos ancestrais, e
é dos nossos contemporânes e será das novas gerações.
É a Força e a Luz, de forma mansa e sublime, irradiando seu esplendor.
Paulo de Tarso

Anônimo disse...

Caros amigos,
Fico muito feliz por ver essa iniciativa de alguns líderes daimistas. Por outro lado.. fico triste por mais uma vez desviarem um pouco da origem do Daime no Brasil. Comenta-se no texto acima de 03 (três) fundadores. Sendo que pode se dizer sim que foram três. Porém.. Em momento algum cita o nome de meu bisavô Antonio Costa e tio-avô André Costa. Tenho ciencia dessa história linda do Daime.. podem falarem e escreverem o que quiserem. Mas nunca poderão tirar esse rico conhecimento que tenho na alma, na mente. E que eu, bisneto de Antonio Costa tenho maior prazer e honra de tê-lo como o verdadeiro Fundador da Doutrina Daimista no Brasil.

Abraços a todos.

Sucesso, Luz e Felicidades!

Rachel disse...

É uma grande alegria ver um político brasileiro falando e pensando em termos espirituais e culturais.
Atitudes assim nos fazem manter acesa uma chama de esperança em nosso país.

Anônimo disse...

Parabéns Altino!
Viva o Santo Daime, Viva o Vegetal, Viva a Ayahuasca, Viva a água, folha e o cipó, Viva as Panelas, Viva o Fogo, Viva todos nós.
Acho que com essa grandiosa solenidade, todos enxergaram e viram a humildade da nossa Estrela Maior.
É muito importante valorizar-mos os fundadores destas doutrinas, mais vejo que o mais importante é praticar o que eles nos ensinaram.
Chega de idolatria e fanatismo.
O Mestre estar em cada um de nós, desde que sejamos irmãos.
Continue com esse belíssimo trabalho.

Anônimo disse...

Agradecemos de coração pelo presente que recebemos. Agora podemos viver dentro da Democracia Daimista.

Saulo disse...

Caro Altino,
Grato pelo material jornalístico. Sem seu blog não conseguiria informa-me melhor sobre como foi a cerimônia.

Sobre o evento, alegro-me ao ver o Alto Santo, a Barquinha e a UDV unidas. Creio que esse é o verdadeiro ensinamento pregado em cada uma dessas religiões. Um exemplo para todos os discípulos de todas as religiões do mundo.

Toinho Alves disse...

Ao bisneto do Antonio Costa: fiz uma sugestão de que os nomes dos irmãos Costa constassem no documento entregue ao Ministro. Faço essa inclusão todas as vezes que conto a história do Daime, é dever de justiça com os pioneiros fundadores do Círculo de Regeneração e Fé. A modificação que propus, entretanto, acabou não sendo incorporada ao documento, por algum atropelo involuntário, sei que não houve má-fé. Mas a pesquisa que o próprio IPHAN promoverá no processo de tombamento certamente incluirá os irmãos Costa na bela história da Ayahuasca.

NN disse...

Bonita cerimônia! Bonitas palavras, principalmente as do Binho, fortes, emocionadas. Boa Coisa. Sucesso, Paz e Bem. NN

Anônimo disse...

Embora não tenha nenhuma ligação, ainda, com o Daime, considerei uma bela postura de laicismo estatal e responsabilidade cultural do ministro Gil, ao submeter ao IPHAN o reconhecimento dessa cultura milenar, um dos símbolos da acreanidade.
Parabéns a todos os responsáveis por essa iniciativa. Walmir

Leandrius disse...

Devemos ter respeito por toda e qualquer religiao, as vezes concordamdos e outras discordarmos da filosofia de cada uma, concordo com Boris Casoi, que querer transformar o Daime e patrimonio cultural brasileiro, e um exagero enorme, como dizem nas girias "forçar a barra", nao tenho nada contra o Daime nem aos Daimistas, porem penso que temos coisas maiores e prioritarias para serem declaradas como patrimonio cultural brasileiro.

Anônimo disse...

Leandrius. É justo que você pense que há "coisas maiores e prioritárias para serem declaradas como patrimônio cultural brasileiro". Defina, portanto, suas prioridades, e vá à luta para que sejam reconhecidas e declaradas como tal. E já que você concorda com a opinião do Casoy, chame-o, "an passant", pra lhe dar uma forcinha na empreitada. Ah, outra coisa. Não confunda religião com patrimônio cultural. O Daime, antes de ser religião, é um patrimônio herdado de nossos ancestrais. Pelo menos dos meus ancestrais. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Saudações. Walmir.

Raul disse...

e o que você me diz do reconhecimento do acarajé e outros pratos típicos nacionais como patrimônio cultural?

é a mesma coisa, se o país não faz isso os outros patenteiam e ficam cobrando royaltis pelo que é parte de nossa cultura nacional

exemplo é o que aconteceu com o cupuaçu no Japão onde queriam patentear essa palavra "Cupuaçu", querendo obrigar o nosso país a pagar royaltis toda vez que citasse seu nome

portanto esse reconhecimento além de uma questão de segurança jurídica pros envolvidos é uma questão de segurança nacional

pense um pouco melhor e procure dar uma pesquisada melhor no assunto antes de criticar a ação dos outros principalmente de pessoas que estudam tanto como o pessoal do IPHAN.

Anônimo disse...

Errata. A grafia correta do termo francês é "en passant". Walmir

Anônimo disse...

Sei que as vezes fica difícil publicar falas de autoridades, mas se vc desse uma colher de chá pra nós e publicasse as palavras do Dr.Jair Facundes,ficaria muito satisfeito pois, fiquei maravilhado com tanta inteligência e simplicidade e ao mesmo tempo mostrando com muita ênfase a evolução do conhecimento. Parabéns Jair, Parabéns Altino.

ALTINO MACHADO disse...

Por várias razões optei por não reproduzir as belas manifestaçoes de todos quanto falaram em nome de seus respectivos centros. Aliás, se fosse para publicar tudo quanto foi bonito naquela noite, teria que ter filmado mais de quatro horas para reproduzir aqui. Lamento não pode atendê-lo.

Anônimo disse...

É verdade, mas de qualquer forma ficou o registro, e mais uma vez parabeni-lhe pela cobertura.

Guedes disse...

Parabéns Altino pela matéria,
Bonito de se ver, realmente.
Agora temos a real possibilidade de ver a nossa doutrina sair do órgão que controla drogas (CONAD) para o MinC, imagino.
Ouvi alguns comentários a respeito de comunidade que não teria sido convidada. Não vejo justificativa para tal, pelo que me consta as 3 linhas Raízes estavam representadas.