sábado, 2 de fevereiro de 2008

MARINA NÃO ESTÁ SOZINHA

Diz nota da direção regional do PSB do Acre

"Os ataques que vem sofrendo a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, resultam de um conjunto de medidas e ações adotadas para estancar a sangria da região amazônica. Explicados a partir da “opinião da grande mídia nacional”, constituem objeto de pouco valor para os reais interessados na Amazônia. Para os socialistas do Acre é preciso que a sociedade tenha melhor percepção para transpor a cortina de fumaça que a mídia levanta quando trata do assunto.

1.Quem ataca a Marina, ataca a Amazônia.

“Já é possível dizer que o aumento do preço da soja, o avanço do gado na Amazônia e a derrubada de árvores para as siderúrgicas de ferro-gusa são as causas principais do desmatamento” (Ministra Marina Silva).

Vamos começar pelo posicionamento, ao nosso juízo acertado, da ministra Marina Silva: Os setores que avalizam o desmonte das estruturas de fiscalização e controle, os marcos jurídicos estabelecidos e as medidas proposta pelo MMA para deter o desmatamento, são os mesmo grupos e setores que conformam a “burguesia colonial”.

São segmentos da elite dominante refratários, que ainda estão ancoradas nas formas de exploração predatória e num capitalismo sem verniz civilizatório algum. Esses setores sociais, saudosos do trabalho escravo e das formas de apropriação predatória pelo capital, têm uma “agenda” pautada na exploração sem limites e na mercantilização deslavada não apenas dos nossos biomas, mas de todas as formas de vida, mesmo quando revestidos pelo verniz “neo desenvolvimentista” - palavra mágica que encanta inclusive setores progressistas da cena brasileira, via de regra descolados dos processos que configuram a formação da economia e da identidade amazônica.

Ainda hoje não dispõem de um projeto de nação que tenha a Amazônia como um lugar estratégico e nunca ultrapassou a engenhosidade das belas palavras, pactos, planos e estratégias. Um tipo de papelaria de intenções que nunca conseguiu dar conta da centralidade que a Amazônia e suas gentes devem ocupar num tipo e “modelo” de desenvolvimento que não assuma o “desenvolvimento” a partir da versão mercantil-predatória da “burguesia colonial”, seja a paulista ou a “amazónida”.

2. Burguesia colonial

A questão central deixa de ser a simples defesa de Marina Silva, muito embora tenhamos que fazê-lo visto que buscam desconstruir o que a ministra defende como estratégia de política para a Amazônia.

Para o PSB do Acre só tem sentido a defesa da Amazônia a partir do que somos:

Nossa Amazônia detém 60% de todo o território do Brasil;

Estamos sob 15% das reservas de água-doce do planeta, vivendo na maior floresta tropical, com biomas de extraordinária diversidade e ainda pouco pesquisados, salvo o que já sabem os abutres da biopirataria que tentam a qualquer custo expandir a selvageria do capitalismo no interior de nossas florestas, comunidades e povos;

Somos detentores de biodiversidade, culturas e povos ancestrais com seus saberes e modos de vida ricos e variados. Esses povos e comunidades também são alvo da gana de toda sorte de interesses, às vezes mascarados em “fundações e missões” de natureza oculta e duvidosa. São os modernos Pizarros que assolam a Amazônia continental com suas falas e “projetos de desenvolvimento sustentável”. Toda uma fraseologia que torna ainda mais difuso o inimigo principal.

O agro-negócio e sua lógica de expansão, que converte e mercantiliza a Amazônia em commodities, representa um duro desafio não apenas à soberania do país, mas instaura um desigual combate no próprio debate político no interior da esfera pública pelo modelo de ação das políticas públicas vigentes. Parte dos obstáculos encontrados pelos sujeitos que defendem as bandeiras de que “outro desenvolvimento é possível e necessário”, encontram no próprio Estado brasileiro as formas e representações que criam e sintetizam o caráter destrutivo que tantos vêm denunciando, notadamente e, ao seu modo e estilo, a própria ministra Marina. Nunca é demais lembrar que a bolada nas costas do bom combate tem surgido de dentro do próprio governo federal, de agências de desenvolvimento, incapazes de compreender a necessidade de outras lógicas para compreender, formular e integrar as políticas públicas do país para a Amazônia.

3. A Amazônia arde. Nós também

Marina Silva não está só. Ela tem uma constelação de aliados que nunca se converteram à falácia neoliberalizante. Marina não está isolada. Quem está isolado é o interesse canibalizante do capital e seus gerentes. Apesar disso, é forçoso reconhecer um acentuado grau de desarticulação política dos que, com e como a Marina Silva, defendem a Amazônia.

O argumento da ministra Marina Silva, inserido aqui, fornece com clareza a centralidade das lutas que precisam ser travadas, contra adversários e idéias reais. Marina nos faz uma convocação para lutas reais, convida-nos, a todos, pela criação de uma outra agenda para a Amazônia e o Brasil.

A este chamado, nós, os socialistas deste recanto do país, dizemos: presentes !

Diretório Regional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) do Acre"

2 comentários:

mjlima.ac disse...

A nota dos socialistas acreanos nos leva a duas linhas de reflexão.

A primeira diz respeito as lutas desenvolvidas pela ministra Marina Silva, a frente do ministério do meio ambiente do governo brasileiro. Até agora, uma luta que se desdobra no interior mesmo das estruturas de governo, num claro confronto contra muitos setores da administração pública federal os quais são controlados pelas forças reacionárias do país. Com um governo marcado pela presença de uma forte representação da burguesia financeira que, desde o governo tucano, tomou o controle das áreas de ação da política econômica governamental, o governo Lula é, antes de tudo, um governo de linhas fortemente burguesas, alinhadas com o pensamento liberal. A ministra tem experimentado, ao longo de sua gestão, sucessivas derrotas em seus esforços de estabelecer a prevalência do principio da transversalidade na definição da ação de governo: princípios de sustentabilidade ambiental passam ao largo das decisões das políticas econômicas em geral. No segundo governo petista, esse quadro se torna mais cristalizado, em função do quadro das alianças formulado pelo presidente Lula. Essa luta interna ao governo se refere ao caráter liberalizante que o governo do presidente Lula assumiu. O agr-negócio se articula a isso.

Quanto a este aspecto, o apoio dos socialistas acreanos a ministra é louvável. Não, meramente, pelo fato de apoiarem uma ministra acreana (pode ser até pos isso), mas, como um reconhecimento da amplitude e da importância da luta ambientalista na definição de uma agenda política contemporânea.

A segunda linha de reflexão tem a ver com algumas expressões contidas na nota de apoio que expressam uma posição que podemos dizer levam a uma confusão quanto às teses socialistas em geral.

Na nota aparece um conceito de “burguesia colonial”, para dizer o mínimo, esquisito. Afinal de que trataria tal expressão? Pelo que é possível deduzir, pretendem os “socialistas acreanos” se referir a um setor da burguesia que se comporta de forma “atrasada”, apoiada em velhas práticas. Como dizem na nota, “segmentos da elite dominante refratários, que ainda estão ancoradas nas formas de exploração predatória e num capitalismo sem verniz civilizador algum”, para, mais adiante, reafirmarem tal perspectiva analítica quando falam em “setores sociais, saudosos do trabalho escravo e das formas de apropriação predatória pelo capital”.

Simplificando o palavreado, o que estão pretendendo dizer, salvo melhor juízo, é que esse pessoal que opera a base produtiva regional se atrasou em relação ao capitalismo avançado, não predatório, não saudosista de velhas práticas.

Em primeiro lugar há uma certa confusão, por falta de maiores esclarecimentos, do sentido que teria para o movimento socialista o caráter civilizador do capitalismo. Deveriam considerar que vivemos sob a égide civilizadora disso que se denomina de época capitalista. Espera-se dessa fase o desenvolvimento das forças produtivas, formulações de uma situação de amadurecimento para a mudança revolucionária no sentido de novos tempos. Nada predeterminado, nada determinado com anterioridade. Isso, entretanto, em nada modifica o caráter coercitivo, predador, perdulário, da organização do mundo dos homens sob o capitalismo. O que a história nos mostra – daí deveríamos tirar as referências – que esquemas de “acumulação primitiva” acompanham os desdobramentos do regime capitalista de produção, independente, da fase do seu desenvolvimento. A “acumulação pela desapropriação” é uma realidade da atualidade capitalista, não algo de sua pré-história como alguns podem pensar que seja. Já sabemos que, desde um pouco mais de cem anos atrás, realidades como é a acreana correspondem a realidades postas pelo andamento do modo de produção capitalista e não realidades exóticas, marcadas de vida natural, como pretendem ou fazem crer algumas reflexões muito em voga na atualidade.

O que a nota denomina de “...’desenvolvimento’ a partir da versão mercantil-predatória da ‘burguesia colonial’” nada mais é do que realidade posta por relações capitalistas. Desde meados do século passado Marx já chamava a atenção para esse aspecto predatório do capitalismo, relativamente ao trabalho e aos recursos naturais.

As possibilidades de uma luta bem sucedida contra as ameaças que rondam a humanidade estão nas teses socialistas de superação do mundo do capital. O modelo de desenvolvimento capaz de incorporar as teses ambientais está dado nas possibilidades de construção do mundo socialista.

A luta ambiental é uma luta socialista na exata medida em que é uma luta anti-capitalista. Luta pela superação das relações sociais capitalistas.

Saudades do Acre disse...

Todo o economês e o politiquês utilizados pelos especialistas, se tornam inócuos na medida em que não há, por parte da grande maioria menos esclarecida, o devido preparo intelectual para interpretar e analisar definições, arrancando as proposições do campo meramente especulativo e transformando-as em algo prático, com resultados mais imediatos e efetivos como vetores de bem-estar geral, seja numa boa ou na marra.
Na verdade, na verdade, o que se vê são teorias de várias vertentes se contrapondo, num pseudo embate ideológico/político/econômico, que visa apenas e fundamentalmente a sucessão das elites no poder, sejam de esquerda, centro ou direita. Apenas variações de um mesmo tema. Não existe o povão de esquerda, nem de centro, nem de direita. Na realidade, o povão, sem educação e sem perspectivas, tá sempre por baixo. E faz tempo.