domingo, 17 de junho de 2007

O AQUECIMENTO GLOBAL E O CAUÃ DO BALTAZAR

José Carlos dos Reis Meirelles



No alto rio Envira, onde vivo e me arvoro a defender povos isolados, sem autorização deles, atitude muito parecida com enxerimento, o rio, a mata e o clima ainda ditam as regras.

Tacanal pra milho se queima em maio, feijão peruano se planta em final de abril, caçada em lombo de terra no inverno, jitubarana gorda pega de anzol no verão, macaco preto gordo no mês de maio.

Rastejar anta é bom quando chove de madrugada e amanhece dia de sol, madeira pra casa só se corta na lua boa. Queixada engorda quando as outras caças começam a emagrecer, junho e julho, quando se danam a fuçar os igapós que secam e enchem a pança de minhoca e aruá.

Óleo de copaíba é bom de tirar quando as nuvens estão correndo quase no rumo do por-do-sol, mês de agosto. Taioca se mudando de manhã, chuva de tarde. Se chover no primeiro, chove o mês inteiro!

E a natureza comanda a vida, dando seus recados e alertas. Tracajá não risca praia quando a água tá suja. Boto entrando em igarapé, pode amarrar bem as canoas que vem repiquete grande. Macaxeira plantada na lua grande dá muita maniva e pouca batata.

Estas e outras milhares de regras que a gente vai aprendendo a observar e respeitar não deixam de ser um avançado sistema de previsão meteorológica, aprimorado pelos índios e caboclos da Amazônia durante séculos. E existem os especialistas no tempo em toda comunidade.

- Seu Baltazar, chove hoje?

Raimundo Baltazar, antigo trabalhador da frente Envira, era nosso meteorologista de plantão. Mas as mudanças bruscas do tempo nos últimos anos não se encaixavam mais nas antigas previsões.

Friagem num dia, sol quente noutro. Repiquete em mês de agosto, tracajá botando em praia molhada, praga de lagarta no roçado de macaxeira, mutamba florando em fevereiro!

Pobre Raimundo, acordado de madrugadazinha, de venta pra riba, cheirando o tempo e escutando os sons da mata pra adivinhar o enigma da previsão do tempo e pra responder, depois do bom dia, a pergunta de sempre:


- Seu Baltazar, chove hoje?

Todo mundo da mata conhece o cauã, gavião metido a feiticeiro que madrugada ou de tardezinha, se dana a cantar:

- Coam... coam, coam, coammmmmm!

Na verdade, aqui, nas cabeceiras do Envira, o pessoal chama o cauã de coãm. É assim mesmo, com "m" no fim e acento circunflexo no "a", embora por aqui ninguém tenha a mínima idéia dessas bestagens da língua portuguesa. Mas o Baltazar sabe muito bem que quando cauã canta em pau enfolhado é sinal de chuva e se canta em pau seco é verão.

Era uma tarde de um mês de junho que já tinha chovido, feito friagem e dado repiquete. Todos nós sentados no banco da mentira, aquela banco bem na beira do rio, onde no fim da tarde a gente se senta, troca sabedoria, mente, e, principalmente, aperta os nós da amizade, única maneira de viver nos altos rios. Quem já sentou nestes bancos sabe que, no finalzinho da tarde, quando a nambu-galinha apita, o silêncio toma conta.

Mal a nambu terminou de anunciar que é hora da turma do dia ir pro puleiro, e a da noite acordar, o cauã se danou:

- Coãm, Coãm, Coãm, Coãmmmm!

- Seu Baltazar, cauã está cantando em pau seco ou em pau enfolhado?

- Seu Mirelis, do jeito que o tempo anda, ele tá cantando em pau zaróio!

O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles, que fotagrafei num hospital em Rio Branco, quando foi flechado (leia aqui) no posto de fiscalização Xinane, às margens do rio Envira, na fronteira do Acre com o Peru, é leitor deste modesto blog. Na foto, Raimundo Nonato da Silva Baltazar é o quarto, em pé, da esquerda para a direita. Veja a mensagem que ele enviou nesta noite ao antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias:

- Boa noite! Caro amigo, das mezelas dos madeireiros você sabe melhor que eu. Mas tem outras maiores e esse tal de aquecimento global é brabo. Achei um texto que escrevi, que de outra perspectiva trata do tema. Se quiser mande pro blog do Altino. Fui mandar, mas deu gorgulho ou não sei bem mexer com este tal de blog.

Outra mensagem enviada ao blog pelo sertanista:

- Boa noite! Faz muito tempo que a gente não se vê. Coisas do isolamento voluntário deste eremita! Mas agora, de notebook, aprendendo as coisas da internet, vamos nos comunicando, principalmente agora que a calma e o sossego das fronteiras tá indo prás cucuias. Esta exploração de madeira do lado peruano tá criando uma confusão danada! Os parentes isolados estão mudando de lá prá cá e isso pode, ou já esta dando conflitos entre eles, pois são vários povos que usam um grande território, que encolhe do lado de lá. Enfim, toda vez que doer a gente grita, e teu blog é uma belo amplificador! Qualquer coisa ou informação, estamos a disposição. Grande abraço.

Um abraço fraternal a todos do Xinane, que se esforçam para proteger os índios isolados. Na alegria e na flechada é só enviar uma mensagem. O blog sempre serve. Clique na foto do alto para ver mais de perto Meirelles e seus companheiros.

4 comentários:

Toinho Alves disse...

Delícia de texto. Vida longa, Meirelles, grande alma!

E.F. disse...

Maravilhoso mesmo!

E.F.

Anônimo disse...

A gente tem a impressão de estar vendo a confusão que se abateu sobre o pobre do Baltazar.
Que texto bonito!
Leila Jalul

Anônimo disse...

Além da coragem de ser eremita, que texto lindo! Parabéns pela doação silenciosa aos isolados.