quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

AQUELA ÁRVORE

Altino,

acho que foi no ano passado, quando o governo estava enfrentando um processo judicial pelo uso de sua logomarca, que o Aníbal [Diniz, secretário de Comunicação] me pediu um texto sobre o assunto. Afinal, como desenhista da árvore, eu poderia esclarecer as coisas e desmentir aquelas alegações malucas da oposição.

Daí escrevi o texto que segue abaixo. Tanta bobagem tem sido dita sobre esse desenho que às vezes chego a me arrepender de tê-lo cometido.


Abraço.

Antonio Alves

No início de 1999, quando assumimos o governo do Estado, começamos a debater a programação visual do governo, slogan, marca etc. Todo governo faz isso, cria uma marca para caracterizar sua proposta, marcar as características básicas de sua gestão. Se não houver abuso, se não forem desrespeitados os símbolos oficiais do Estado, então não vejo problema algum.

No nosso caso, era necessária a sinalização de uma nova orientação para o Acre, uma mudança de rumo na economia, na política e na sociedade. Além do completo desmantelamento da administração pública, do crime organizado, do sucateamento, da corrupção etc., havia um rumo totalmente inadequado na economia que atingia a própria identidade do estado. A floresta era considerada um empecilho e as comunidades que nela vivem eram tratadas com desprezo. O slogan, criado pelo Binho, “governo da floresta”, buscava inverter essa mentalidade e restabelecer uma identidade acreana. O governo apontava um novo rumo, onde o estado reencontrasse sua verdadeira natureza, valorizando sua história e seu patrimônio ambiental. Sendo corretamente usado, esse slogan teria um efeito educativo, didático, com efeito positivo na recuperação da auto-estima do povo acreano.

Precisávamos, entretanto, de uma marca visual. Experimentamos várias propostas, que desenhistas e publicitários nos sugeriam. Chegamos a promover uma espécie de concurso, informal, pedindo que os principais desenhistas e publicitários de Rio Branco fizessem suas propostas de marca visual para o governo. Vários deles fizeram, de graça, só na intenção de colaborar. Mas as propostas eram muito limitadas, pegavam apenas aspectos parciais da ação do governo, como programas sociais ou conceitos gerais de democracia e participação, mas não davam a marca de valorização da história e da identidade acreana que queríamos.

Então lembrei de um desenho que havia feito um ano antes, que poderia ser adequado. Uma árvore, com traços simples, como se fosse desenhada por uma criança. Lembro que um companheiro olhou o desenho e comentou: “mas isso é simplório”. Retruquei: “não é simplório, é simples”. A idéia era exatamente esta: ter um símbolo simples, básico, com o qual todos pudessem se identificar. A árvore é um símbolo da vida, no mundo inteiro. Mas é, ao mesmo tempo, um símbolo bem regional.

Fico revoltado com algumas bobagens que os políticos vivem dizendo sobre esse desenho. Tem gente que viu o formato de um “13”, com o tronco da árvore sendo o 1 e a copa o 3. Tem outros que dizem que a árvore representa o Jorge Viana, que é engenheiro florestal. Compreendo que os políticos, quando estão na oposição, fazem de tudo para “pegar no pé” de quem está no governo. Mas certas associações de idéias, francamente, são ridículas. Considero-me pessoalmente ofendido, como profissional, quando ouço ou leio essas bobagens.

Outra coisa que não entendo é chamarem aquela arvorezinha de “castanheira”. Nunca foi uma castanheira, nem parece. Quando estava experimentando, na criação da marca, cheguei a desenhar algumas castanheiras, que têm, de fato, um simbolismo muito forte. Mas no vale do Juruá não existem castanheiras, e isso deixaria metade do Estado fora do símbolo. Também experimentei colocar uns risquinhos no tronco da árvore, para ser uma seringueira. Mas aí ficava muito restrito e caracterizava uma proposta econômica muito restrita. Então aquela árvore é apenas uma árvore. Símbolo de uma orientação geral, uma proposta de governo bem regional, bem acreana. Ver nela algo além disso é procurar chifre em cabeça de cavalo.

O jornalista acreano Antonio Alves escreve no blog O Espírito da Coisa.

5 comentários:

Marcos Diniz disse...

Tudo bem que o Antonio Alves não pretendesse desenhar uma Castanheira por razões já esclarecidas e muito bem assimiladas, mas cá entre nós, até eu que não sou especialista em árvores, associo o desenho a uma Castanheira.

Ricardinho disse...

Poxa, eu era louco pra saber quem tinha inventado o slongan "Governo da Floresta", não imaginava que tinha sido o Binho.

Ivone Belem disse...

Altino,
O João Donato é simplesmente APAIXONADO pela marca do governo do Estado do Acre. Temos a arvorezinha espalhada pela casa toda, sob a forma de buttons, camiseta, impressos etc. Não pude deixar de me emocionar ao "ouvi-lo" esclarecer que é uma imagem simples e não simplória. Associei esta descrição à obra do João Donato, meu marido, conhecido pela simplicidade de suas composições. Há mais de dez anos ele tem, em sociedade com o irmão, Lysias Ênio, a Acre Editora Musical Ltda., nome que tomou emprestado da sua terra natal. A "Acre" nome tem corrido o mundo acompanhado das obras de sua autoria, na sua totalidade em parceria com os maiores compositores brasileiros. Há um ano, a Acre também é um selo musical. Pensei em falar com o Antônio Alves para obter uma marca tão simples e bela como a do governo da Floresta. Afinal, sobraram tantas... O que vc acha, Altino? Aproveito para parabenizar o Antônio pela linda marca; e você, mais uma vez, por manter o alto nível de informação sobre as coisas do Acre, por meio do seu blog. Vida longa para os acreanos, os brasileiros, os homens de bem!!!!!

Wellington pompeo disse...

Sr. Altino Machado, eu estava na platéia
do show "uma Glória acreana" e percebi o
quanto o João Donato gosta do Acre.
Ao final da sua estrondosa apresentação, sumiu... Não assistiu a apresentação do
grande conterrâneo Sergio Souto.
Não retornou nem para as homenagens a
Glória Perez já no final, e durante a apresentação do hino acreano.
Eu sou um mineiro que de
verdade ama o Acre e sua gente.
O resto, deixa prá lá...

2.007.000.000 de beijos pros acreanos.

Ivone Belém disse...

Altino e Wellington, naquela linda noite de homenagem, 18 de dezembro, o João Donato fez uma verdadeira maratona. Depois de participar da homenagem à Glória Perez (que começou às 15h, quando o Donato saiu de casa para a checagem de som), ele cumpriu mais dois compromissos: participou, ao lado de Wagner Tiso, Paulo Moura, Luiz Melodia, Luiz Alves, Robertinho Silva e outros músicos brasileiros, na Sala Cecília Meirelles, no Rio, de show beneficente. Transcrevo um trecho da notícia publicada no site Samba&Choro: "Batucadas Brasileiras" é o nome do projeto que o percussionista Robertinho Silva realiza com crianças carentes da rede pública do Rio. Dentro do projeto, há a "Orquestra de Percussão Robertinho Silva", cujos alunos se apresentam pela primeira vez nesta segunda (18) na sala Cecília Meireles, Lapa.
Depois do segundo show da noite, Donato ainda deu uma canja no show do seu filho Donatinho, no Mistura Fina.
Saímos do teatro do Sesi em disparada para a Lapa e da Lapa para a Lagoa.

No dia seguinte, recebemos um lindo telefonema da Glória Perez agradecendo à homenagem e pedindo que o Donato enviasse a nova música, apresentada em caráter inédito durante a homenagem. Vejam abaixo que linda a letra do Lysias Ênio, irmão e parceiro de Donato. Vou tentar mandar a música cantada pelo Donato.

um beijão e paz em 2007!

O CAMINHO DOS RIOS

(para Glória Perez)





João Donato e Lysias Ênio



Um dia escutei ao pé do barranco

Um lindo assobio

O vento soprando

O sol se deitou no berço vadio

Remando canoa no meu Rio Branco



Iara no rio

O boto na areia

No meio da mata

Matinta Perera



Purus, Juruá

Iacó, Iquiri,

O Tarauacá

Caminho dos rios



Um dia escutei ao pé o barranco

Em noite de lua

Iara cantando

Então me levou pro leito macio

Ficou a canção

Na boca do rio