quinta-feira, 26 de outubro de 2006

ACRE INTERNACIONAL

Conferência traz à discussão questões relacionadas a fronteiras, territórios e conflitos entre os povos que vivem juntos

A 27ª Bienal de São Paulo realiza nos dias 10 e 11 de novembro o sexto e último seminário internacional, que encerra um ciclo de conferências em torno dos valores que guiam a produção artística contemporânea apresentada no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera, desde 7 de outubro. Organizado pelo co-curador José Roca, o seminário "Acre" traz para a Bienal a discussão sobre fronteiras, territórios e conflitos entre os povos que vivem juntos na mesma região. O presidente da Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, participarão da abertura do seminário, na sexta-feira (10 de novembro), às 19 horas.

O Acre, Estado brasileiro antes pertencente à Bolívia, foi adquirido pelo Brasil em 1904 e ocupado por seringueiros. Numa terra que serviu de empreendimento comercial, ocupação extrativista e fonte de riqueza biológica, a contestação está na origem de seu desenvolvimento, situando a história do território entre questões abarcadas pelos eixos conceituais desta 27ª Bienal.

"Dentro da reflexão de Roland Barthes acerca do viver junto, um dos tópicos mais analisados é o cuidado entre ritmos diferentes de vida, de modo que o singular não perca sua batida própria quando adere ao coletivo. No Acre, mesmo após o colapso do ciclo da borracha, podem ser ouvidas as lendas dos povos da floresta amazônica e a luta dos seringueiros contra a desfiguração da paisagem", explica a curadora-geral da 27ª Bienal, Lisette Lagnado.

Este universo está presente na 27ª Bienal em obras do artista acreano Hélio Melo e estrangeiros que fizeram residência em Rio Branco e áreas circundantes. A obra de Hélio Melo é apresentada como projeção da estética local ao lado do garimpo de três artistas residentes que trouxeram o Acre para dentro de suas obras: Alberto Baraya, Marjetica Potrc e Susan Turcot. O primeiro lembra a tautologia produtiva da região com sua árvore feita do látex extraído do tronco que serviu de modelo para a obra. Marjetica Potrc reflete sobre as soluções encontradas para levar educação e tecnologia aos pontos mais remotos da floresta. Susan Turcot pesa as diferenças entre a concepção indígena do mundo e a realidade da construção da Transamazônica em sua instalação.

"No contexto da 27ª Bienal, cujos principais temas incluem a possibilidade de convivência pacífica, em um mesmo território, de sociedades com 'ritmos internos' diferentes, o Acre pode ser considerado o lócus de preocupações tais como a busca de formas alternativas de comunidade e a construção de um espaço comum; justiça ambiental; estratégias de sobrevivência; inclusão do não-artista e do forasteiro como exemplos vitais do processo criativo; a questão das populações indígenas do Brasil; fronteiras políticas; isolamento e a tradição do pensamento; novas formas de coletividade; viagem e deslocamento como formas de conhecimento; a floresta e seus produtos como insumos do fazer artístico; autodidatismo e outros assuntos relacionados", explica o co-curador José Roca, que organiza o encontro "Acre".

Participam do seminário os conferencistas José Carlos Meirelles, David Harvey, Francisco Foot Hardman, Manuela Carneiro da Cunha, Jimmie Durham e Thierry de Duve. Conheça um pouco mais sobre os conferencistas e os temas do seminário "Acre":

José Carlos Meirelles
Indigenista da Fundação Nacional do Índio (Funai). Desde 1988, fixou-se na cabeceira do rio Envira, no Acre, onde reside. Sua conferência "Índios isolados e o direito à terra" aborda a legislação sobre a propriedade indígena e formas de contato com a população branca. A garantia do território de índios isolados não pode depender do contato desses grupos com a sociedade envolvente. Eles têm direito à terra e a permanecerem isolados, exercendo sua cultura independentemente do contato com outras culturas.

David Harvey
Professor de antropologia no programa de pós-graduação da City University de Nova York, onde vive. Sua conferência "Cosmopolitanismo e as geografias da liberdade" aborda como tratar princípios culturais, morais e éticos universais em tempos caracterizados por diferenças geográficas tão marcantes. Muitas vezes, ideais universais de liberdade e independência são ferramentas para exercer domínio sobre outros povos. O estudo de conceitos geográficos básicos tais como espaço, lugar e meio ambiente indica uma via de emancipação que permite a associação de aspirações e desejos particulares na construção de modos mais humanos de se viver num mundo globalizado.

Francisco Foot Hardman
Professor-titular de Literatura e Outras Produções Culturais do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua conferência "A fronteira amazônica como voragem da história: impasses de uma representação" literária aborda arquétipos da representação literária da Amazônia a partir de prosas ficcionais e não-ficcionais de autores como os colombianos José Eustasio Rivera e Alvaro Mutis e os brasileiros Inglês de Souza, Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Márcio Souza e Milton Hatoum. Serão examinados os respectivos contextos históricos e o argumento recorrente de que as fronteiras amazônicas constituem um território "à margem da história". Fronteira que é tomada, não só no sentido geográfico, mas também simbólico e histórico-literário.

Manuela Carneiro da Cunha
Antropóloga membro da Academia Brasileira de Ciências e professora da Universidade de Chicago, onde reside. Sua conferência "Conhecimento tradicional e conhecimento científico podem viver juntos? O exemplo do Acre" aborda o diálogo entre o conhecimento tradicional da região e a ciência ocidental contemporânea. Dois exemplos serão discutidos: o da recém-criada Universidade da Floresta e o caso do kampô, secreção de pele de uma perereca, cujo uso se difundiu a partir dos katukina e outros grupos indígenas do Acre.

Jimmie Durham
Escultor de origem Cherokee. Entre 1973 e 1980 foi organizador político no American Indian Movement. Reside em Roma. Durham fará, em "Uma situação intolerável", um breve relato sobre a situação da população indígena no Brasil, que é colonizada e tem negado seu direito de representação perante a lei. O artista proporá uma discussão permanente sobre a necessidade de ações internacionais contra essa condição intolerável.

Thierry de Duve
Historiador e teórico da arte contemporânea, professor da Universidade de Lille. Reside em Paris. Sua conferência "Será que a arte pode nos ensinar a viver junto?" aborda a percepção de comunidades políticas como obras de arte. A questão é saber se, na construção de comunidades políticas, as experiências inovadoras são vistas como modelos de criatividade artística, ou vice-versa. Sua fala tentará desfazer o nó filosófico perguntando qual deveria ser o status da comunidade estética perante a política.

Serviço:
ACRE – 6º SEMINÁRIO INTERNACIONAL DA 27ª BIENAL DE SÃO PAULO

Tema: Acre


Organização e mediação: José Roca, co-curador da 27ªBSP


Conferencistas: David Harvey, Francisco Foot Hardman, Jimmie Durham, José Carlos Meirelles, Manuela Carneiro da Cunha e Thierry de Duve


Dias: 10/11 e 11/11


Preço: R$ 52,00 e R$ 27,00 estudantes – para os dois dias


Local: Adutório da Fundação Bienal de São Paulo


Inscrições: Tel.: (11) 5576 7600 ramal 7678 (falar com Gabriela)

Um comentário:

Geraldo Mesquita Jr. disse...

Altino,
Interessante a realização do seminário aqui anunciado, tendo o Acre como foco. Lamento apenas que dentre os conferencistas não há ninguém da UFAC para oferecer e se apropriar de conhecimentos. Não sou xenófobo. Creio, apenas, que nós acreanos somos negligentes em face da nossa responsabilidade de formuladores e condutores dos nossos processos. Se minha agenda permitir irei ao seminário. Se não, tenho certeza que poderei colher informações aqui no teu blog. Aproveito o comentário para te informar que preciso indicar o nome de uma acreana ao Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, concedido anualmente no Senado àquelas que se destacaram em suas atividades. Penso em indicar o nome da Madrinha Peregrina, pela importância do seu papel histórico, cultural e religioso. Como você é da "casa", consulto sobre a possibilidade e conveniência de fazê-lo. Caso afirmativo, peço que me envie um breve histórico da atividade que ela preside juntamente com o curriculum da mesma. Tenho até 1º de novembro para fazer a indicação. Um abraço,
Geraldo Mesquita Jr.