domingo, 28 de maio de 2006

A VEZ DA EPOPÉIA ACREANA

Lilian Fernandes


Glória Perez vai contar a história de sua terra natal

em minissérie que estréia em janeiro na Rede Globo


Espanhol de coração brasileiro, Luiz Galvez Rodrigues de Aria descobriu, no final do século XIX, quando trabalhava como jornalista no Norte do país, que a Bolívia pretendia tomar definitivamente o Acre com o auxílio dos Estados Unidos. Botou a boca no trombone pela imprensa e, depois, partiu para o território, declarando-o Estado Independente: foi a primeira etapa da guerra de anexação. Esta aventura mirabolante, que contribuiu decisivamente para que o Brasil seja o que conhecemos hoje, será contada por Glória Perez na primeira fase de "Amazônia — De Galvez a Chico Mendes", próxima minissérie da Rede Globo, cuja estréia está prevista para janeiro de 2007. José Wilker interpretará Galvez. Giovanna Antonelli também está confirmada no elenco.


— Não há como separar a história da conquista do Acre do destino da Floresta Amazônica. Se a Amazônia ainda é nossa, é porque os brasileiros do Acre se rebelaram contra a ocupação da região pelo capital estrangeiro, para quem a Bolívia havia arrendado aquelas terras.

A diplomacia entrou em cena quando a guerra estava ganha — diz Glória Perez, que teve mais um motivo para tratar desse capítulo da afirmação da identidade nacional em especial.

— É a história da minha terra, e é uma história fascinante! Sempre pensei em escrevê-la.


Diferentemente da lenda que o presidente da Bolívia, Evo Morales, andou ressuscitando, o Acre não foi trocado por um cavalo, frisa Glória:

— O Acre foi trocado, sim, por muitas vidas. A guerra da conquista foi uma luta sangrenta. Imagine um exército seringueiro, armado de rifles e facas, enfrentando o exército formal da Bolívia, com os armamentos mais modernos!

A autora acreana migrou com a família para o Rio aos 16 anos, porque o pai queria que ela e seu irmão chegassem à faculdade e em seu estado não era possível ir além do ginásio (atual segundo segmento do ensino fundamental). No começo deste mês, Glória visitou a capital do Acre, Rio Branco, e a região do Vale do Juruá para tratar da minissérie. Viajou acompanhada de um grupo que incluía o diretor da trama, Marcos Schechtman, e o produtor Sérgio Madureira. Enquanto eles procuravam locações, ela conhecia pessoas e ouvia histórias.

— Tenho a equipe de pesquisadoras que me acompanha sempre ( Giovana Manfredi, Sandra Regina e Bianca Medeiros ) e estou em diálogo permanente com o pessoal do Acre, que tem sido essencial para a pesquisa — conta.

Glória mantém contato com Ilzamar, viúva de Chico Mendes, seringueiro assassinado em 1988 dentro de sua casa, em Xapuri, e de companheiros dele, como o primo Raimundão Mendes Barros. Seringueiros de outra safra, bem anterior à de Chico Mendes, também têm lhe contado histórias. Assim como jornalistas, historiadores e escritores acreanos. A autora baseia-se ainda em livros históricos e biografias. E dois romances lhe servem de referência: "O seringal" e "Terra caída". Os autores de ambos, respectivamente Miguel Ferrante e José Potyguara, são acreanos.

As gravações começarão em setembro, e a batalha para escalar o elenco já está em curso. "Amazônia — De Galvez a Chico Mendes", nome que ainda pode mudar, terá 52 capítulos divididos em três fases, que cobrirão um período de 100 anos. Elas serão divididas nos temas "Galvez", "Plácido de Castro" (militar gaúcho que comandou um exército de seringueiros e tomou definitivamente o Acre) e "Chico Mendes".

Além de aprender mais sobre a História do Brasil, os telespectadores poderão acompanhar grandes paixões. Quando se pergunta para a autora se haverá uma história de amor permeando a trama, a resposta é:

— Uma só, não. O que não falta é história de amor! A começar pela de Galvez.

Da Revista da TV, do jornal O Globo.

2 comentários:

Angela Ursa disse...

Olá, Altino! Essa minissérie vai valer a pena. Abraços! :))

Mário disse...

Bom mesmo é que o noticiário sobre a próximo obra global parece que escrito pelo "crioulo louco" autor do samba. E história regional vai sendo re-escrita, ou melhor, re-inventada.