quinta-feira, 27 de abril de 2006

PRIMEIRA PAJÉ BRASILEIRA

O jornalista Silvestre Gorgulho, editor da Folha do Meio Ambiente, fez bom uso dos textos e fotos deste modesto blog sobre as pajés yawanawá. Foram quatro páginas na edição de abril, que costuma ser dedicada aos índios. Clique aqui para assistir a entrevista delas em vídeo.

- Os pajés encarnam a sabedoria de seu povo. Levados pela intuição e pelo conhecimento de seus ancestrais, os pajés são como uma noite estrelada: com milhares de olhos, eles fitam a natureza e cada angústia de seu povo. Eles eram sempre do sexo masculino. O Brasil acaba de apresentar ao mundo as duas primeiras pajés. São as índias acreanas Raimunda (foto) e Kátia Yawanawá - destaca o editor.


As Pajés Yawanawá


A primeira pajé brasileira Raimunda Yawanawá foi uma das cinco personalidades homenageadas este ano pelo Senado por ocasião do Dia Internacional da Mulher

Silvestre Gorgulho, de Brasília

Eles são curandeiros e os mensageiros dos poderes sobrenaturais. Eles encarnam a sabedoria de seu povo. Levados pela intuição e pelo conhecimento de seus ancestrais, os pajés são como uma noite esplendidamente estrelada: com milhares de olhos, eles fitam o mundo, fitam a natureza e fitam cada angústia de sua tribo. Médicos, sacerdotes e guias, os pajés são sempre o destaque de cada povo indígena. E com um detalhe. São sempre do sexo masculino. Bem, eram sempre do sexo masculino. Agora o Brasil acaba de apresentar ao mundo uma pajé. Aliás, duas. São as índias acreanas Raimunda Putani Yawanawá, 27 anos, e Kátia Yawanawá, 26 anos. A Pajé Raimunda Putani Yawanawa foi uma das cinco mulheres premiadas pelo Senado Federal, este ano, na 5a edição do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. Com a índia acreana, também foram premiadas Elizabeth Altina Teixeira (PB), Geraldina Pereira de Oliveira (PA), Jupyra Barbosa Ghedini (DF) e Rosmary Corrêa (SP).

Não foi fácil para Raimunda e Kátia Yawanawá vencerem a resistência dos sábios da tribo e ostentarem, hoje, o título de Pajé. As mulheres estão fora desta função."Precisei provar da vida de branco para entender a importância de minha cultura", diz Raimunda Putani Yawanawá, a primeira Pajé brasileira. Para acabar com esta tradição, Raimunda e Kátia Yawanawá passaram por uma provação. Ambas enfrentaram uma dura prova de resistência, ficando um ano isoladas na mata. Neste "No Limite" cultural, Raimunda e Kátia tinham que fazer abstinência sexual e comer apenas alimentos crus. De bebida, apenas uma especial à base de milho.

Vitoriosas nesta prova de resistência, as irmãs Yawanawá ficaram prontas para a nova missão. Pajés de sua tribo, agora elas são conselheiras, guardiãs da cultura, dos costumes e da sabedoria do seu povo.

E Raimunda Yawanawá explica, em português, para os brancos com a mesma docilidade com que fala na língua Yawanawá à sua gente: "Tive muita vontade de aprender, de estudar e de viver nossos usos e costumes. Era uma força que estava dentro de mim. Quero poder ajudar e a guiar o meu povo. A vida tem que ter um sentido, ter uma seqüência".

As irmãs Yawanawá sabem de suas responsabilidades quando fizeram o juramento ao Rare, planta sagrada de seu povo. "Hoje eu sei quem eu sou. Estou em paz. Minha língua, minha cultura são muito ricas e bonitas. Elas são nossa identidade. Sei da beleza e da força da natureza. Sinto a força do pensamento. Quando ele é firme, não existe nada impossível, nem nada superior ou inferior. Somos iguais nesta passagem pela vida. Cada um com sua função e o poder de seu querer, que deve ser usado sempre para o bem de todos", ensina a primeira Pajé brasileira.

Pajé Raimunda Yawnawá - ENTREVISTA

Por Altino Machado (*)

Segundo Laura Soriano Yawanawa, Kátia Hushahu e Raimunda Putani nasceram na Terra Indígena do Rio Gregório, no Acre, no sudoeste da Amazônia brasileira. Hushahu e Putani foram as únicas mulheres que tiveram coragem de fazer juramento ao Rare, a planta sagrada do povo Yawanawá, que inicia ao aprendizado do mundo espiritual do xamanismo. Elas juraram ao Rare e aos espíritos dos ancestrais que iriam dedicar suas vidas a aprender e a ajudar o povo yawanawá na sua ciência tradicional. Quando as duas foram iniciadas no conhecimento espiritual yawanawá, ninguém acreditava nelas, principalmente os homens da aldeia. Falavam que não existia mulher Pajé dentro da cultura yawanawa e que a atitude delas era contra a cultura de seu povo. Mas o velho e sábio Tuin Kuru falou:

- Isso não é verdade. Nosso conhecimento é espiritual e não tem nada a ver com o sexo, cor ou cheiro. Sendo homem ou mulher, todos podem aprender porque o nosso conhecimento é espiritual.



O momento mais difícil
Raimunda - Foi viver isoladamente. Ficamos um ano, precisamente nove meses, apenas na companhia do meu pai e do pajé Tata. A gente começou a tomar rapé e ele me dava muito porre. Uma vez cheguei a cair, a desmaiar mesmo. A pressão dele dá muita sede, causa falta de fôlego, o corpo adormece completamente e o coração fica a mil por hora. A gente não podia tomar água.

Sem tomar água
Raimunda - Até o momento a gente não toma água. Agora começamos a tomar água com limão. Tem que ser algo azedo, que não contenha doce. Isso é para que nossas palavras e nossas mãos fiquem sempre com poder. O doce corta o poder. É como se algo estivesse pegando fogo e alguém jogasse água. O fogo apaga. Dessa forma, o nosso pensamento, a nossa palavra, têm poder para o que a gente falar acontecer.

A prova da cobra
Raimunda - Logo após dois meses da dieta, quando mexemos com a planta sagrada, o Rare, meu pai trouxe a jibóia e nós tomamos o cuspe dela. Tomamos o cuspe e o conhecimento dela. A gente não sentiu medo.

Reação da tribo pela decisão de ser Pajé
Raimunda - Não existe na história do nosso povo que uma mulher tenha mexido na planta sagrada, o Rare. Nunca nenhuma mulher foi à luta para ser pajé. Quem sempre era pajé eram os homens. A mulher é sempre a dona de casa, faz a caiçuma, cria os filhos, está sempre do lado do esposo.

Pra gente ir para essa outra parte da nossa cultura, do nosso conhecimento, foi tipo quebrar um tabu. Por isso que levamos ao pé da letra o cumprimento da dieta. Muitos, quando fomos fazer a dieta, disseram que nós não aguentaríamos com o argumento de que mulheres têm muitos desejos. Está com um ano e dois meses que não temos relação com homem.

Rare, a planta sagrada
Kátia - O Rare é uma planta muito sagrada. A partir do momento que a gente come, a gente já planta ele dentro da gente. A partir desse momento, a gente já passa a ter o conhecimento e o poder do Rare. E o nosso espírito passa a ter o poder de curar uma doença, de fazer o que for. Podemos tocar numa pessoa e dizer para ela que vai ficar boa. As nossas palavras são muito sagradas. Ele é uma planta, mas é espírito. Ele também tem uma mulher. Sempre é uma mulher tanto nele quanto na jibóia.

Nos nossos sonhos é sempre uma mulher que traz o conhecimento. Ele é muito poderoso.

A gente não pode passar perto dele falando alguma coisa. Tem que passar devagar, de cabeça baixa. Se acontecer de tocar, tem que passar dois meses fazendo a mesma dieta que nós estamos fazendo. Ele, para nós, é como se fosse Deus. Acreditamos no que fazemos, no que sai da nossa boca.


Até ao pensarmos em alguma coisa, a gente já fez, já aconteceu. Basta a gente pensar com o coração. Ele também previne o que vai acontecer. Se uma pessoa chegar com pressentimento ruim, o nosso corpo já sente. Quem rebate isso aí é o rapé e o uni.


Humildade e sofrimento
Kátia - Para chegar aonde chegamos carregamos muita humildade em nossos corações. Acho que é um exemplo que podemos dar para o mundo, para o Brasil, deixando a mensagem de que tudo a gente consegue com sofrimento e humildade em nossos corações. E que isso é necessário para o engrandecimento do espírito. E também queremos pedir para trazer em nossos pensamentos coisas boas para o mundo. Quando estamos lá no mato, nós sopramos para cima, para o céu, para o sol que ilumina o mundo inteiro, e pedimos paz para esse mundo que é de muita violência e sofrimento.

Reação à notícia do prêmio?
Raimunda - Na verdade quem recebeu o prêmio é o povo yawanawá. Somos duas mensageiras. Viemos trazer a mensagem não apenas do nosso povo, mas de todo os povos indígenas. Para nós foi motivo de muita alegria, de muito respeito. O nosso povo agradece por vocês olharem pra gente com respeito, pois somos humanos, que temos pensamentos, corações, as coisas boas. Isso mostra que somos filhos do mesmo criador. Na verdade nós somos todos irmãos. Existe apenas a diferença física dos olhos, da cor, mas na verdade no coração e no pensamento somos iguais. Quando a gente vai para outra dimensão, vamos no mesmo caminho e lá vamos nos encontrar da mesma forma.


Laura, o Rare e o resgate cultural

Altino Machado (*)

Laura Soriano Yawanawa é índia de origem mexicana, das etnias mixteco e zapoteco, formada em antropologia e relações internacionais pelo Principio College de Ilinois (EUA) e assessora dos projetos sociais e econômicos do povo yawanawa. É casada com Joaquim Tashka, um dos líderes yawanawá. O Rare que ela cita é a raiz da planta mais sagrada para o povo yawanawá. Representa o Criador. É tão sagrada que mulheres e crianças não podem passar por perto. Apenas os pajés podem tocar a raiz do Rare. Ao tomar Rare, o espírito da cobra, que é o ser iluminado e de força espiritual, vem habitar no seu coração. A partir do momento que se faz juramento ao Rare a vida muda, sobretudo a forma de pensar. A pessoa renasce e acorda para o mundo espiritual, passando a encará-lo sob nova perspectiva.

(*) O jornalista Altino Machado é acreano e tem um blog chamado "Blog do Altino" http://altino.blogspot.com/. Trabalhou em Rio Branco, Goiânia, Brasília e Manaus durante os dez anos em que permaneceu como repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo. Hoje trabalha na Secom do Governo do Acre.

4 comentários:

Saramar disse...

Sem dúvida, sensacional! Elas, o jornalista, o blog e você. Todos merecedores da admiração mais completa.

Beijos

Angela Ursa disse...

Olá, Altino! Vim visitar seu blog por indicação de uma amiga, a Saramar. Parabéns pelo seu ótimo trabalho e por essa reportagem sobre a primeira pajé brasileira! Abraços da Angela Ursa

Joaquim Tashka disse...

Grande Altino,

Me dar muito gosto aqui do alto das montanhas de sangre de cristo que corta o Estado do Novo México (USA) até o México, onde estou atualmente perto da cidade de Santa Fé, onde estou há 4 dias num encontro de diversos líderes do mundo. Hoje ao ver seu blog para ver alguma notícia do Acre, eu e Laura vimos o seu blog noticiando novamente sobre Hushahu e Putani.
Parabens a você e a seu blog que de vez em quanto a gente dar aquele contribuiçãozinha.
Vou mandar uma nota com mais calma sobre as coisas boas que estamos fazendo aqui pelas terras do tio San.
Abraços e saudades desde Santa Fé - New Mexico
Tashka Yawanawa

Gervásia disse...

Oi Altino!
Parabéns pela reportagem.Gostei muito e principalmente por ser mulher e compartilhar desta luta pela igualdade.
Sou Pianista e compositora e componho musicas para ajudar na preservação do planeta e de tudo que é bom e digno para a nossa vida.
Um grande abraço.

Gê Arantes