segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

VEJA

A nota na qual critiquei a reportagem da revista Veja, onde a ministra Marina Silva é acusada de omissão na apuração de corrupção envolvendo crimes ambientais no Pará, foi enviada por mim à Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental. Os jornalistas Lúcio Flávio Pinto e Ney Gastal manifestaram-se de maneira inteligente e divergente. Vale a pena conferir:

CASSETA & PLANETA

Por Lúcio Flávio Pinto (*)

Confesso-lhe que não li a matéria ainda. Na situação em que me acho no momento, meu tempo ficou curto demais para a leitura. Procuro evitar dispersão.

Veja deixou de ser referência para mim. Não por discordar do que penso, mas pela forma de dizer que a revista adotou como regra. Seu jornalismo se amolecou. Não por ser irônico ou agressivo. Mas por maltratar os fatos e não respeitar a contradita dos que discordam do que diz ou são por ela criticados.

Que diferença em relação aos tempos de Mino Carta ou Elio Gaspari. Está faltando profissionalismo à revista, apreço à sua própria trajetória de 37 anos.

Por acaso, neste último número, que li durante uma rápida viagem, fiquei chocado com a mini-resenha (repleta de mega-adjetivos) sobre a biografia que Daniel Piza escreveu sobre Machado de Assis e a fotografia do Bussunda no lugar do Lula como ilustração a uma frase do presidente. Se é para ser Casseta & Planeta, que a revista mude de nome e seu humor seja mais apolíneo.

(*) Lúcio Flávio Pinto é jornalista e escritor paraense


MARINA NÃO PRECISA DISSO

Por Ney Gastal (*)

Tenho medo, quase pânico, da fé cega. Fé é fé, não admite o diálogo nem, muito menos, o contencioso. Quem tem fé não raciocina, acredita, apenas. E é capaz de tudo em nome de sua convicção absoluta. Nem Deus, que se existe é Deus, tem fé cega. Na Bíblia, vive testando o Homem, porque não acredita em sua criatura, e no correr da História não pára de aperfeiçoar a criação. Só o ser humano é capaz do exercício da fé cega, da destruição daquele que pensa diferente e da auto-imolação por sua fé. É algo que nos diferencia dos animais (para pior) e nos coloca em um lugar único da Natureza. É a crença que usa de nossa racionalidade para nos tornar mais limitados que os irracionais. E, o pior, todos estamos sujeitos a ataques deste mal, se não cuidarmos de lembrar sempre do exercício da dúvida e da tolerância.

Vejam o caso do texto em questão. Como sou antigo admirador da ambientalista Marina Silva, sua leitura me deixou profundamente irritado com "Veja". Tanto que me preparei para encaminhá-lo, divulgá-lo, enfim, participar da luta em defesa da ambientalista, hoje ministra, grosseiramente agredida e vilipendiada pelo repórter e pela revista. Isso é lá coisa que se faça? Criticar alguém no exercício do poder é uma coisa, ser grosseiro e injusto é outra.

E já estava pensando em meu manifesto, quando resolvi dar uma olhada no próprio texto da revista. Cadê a grosseria? Existem duas observações sobre a Ministra Marina.

Uma foi feita pelo deputado Sarney Filho, do PV do Maranhão, filho de José Sarney, aquele que esteve à favor de todos os governos do Brasil nas últimas décadas. "Sarneyzinho", como é chamado, declarou (e a revista transcreveu, entre aspas) que "a falta de reação da ministra Marina Silva é inconcebível", referindo-se às denúncias contidas na reportagem sobre corte ilegal de madeira. A revista complementou: "procurada pela reportagem, a ministra não se manifestou. Sua assessoria disse que ela estava em viagem, incomunicável, mas que aguarda os resultados dos processos disciplinares em curso no Ibama para tomar providências. A ministra parece ter sofrido uma recaída na letargia que acometeu a ela e a seu ministério e da qual parecia ter se recuperado, logo após a divulgação das primeiras denúncias de corrupção na Amazônia. Na ocasião, o governo iniciou uma faxina na área
ambiental." Só.

Isto é "grosseria"? Mais ainda, isto é "injustiça"? Ninguém ligado à área ambiental deixa de reconhecer a inação da ministra, o contraponto entre suas atividades antes de virar autoridade e depois. Algo muito parecido aconteceu com José Lutzenberger, que na Secretaria Nacional do Meio Ambiente (antecessora do Ministério) também decepcionou a gregos e troianos, e foi severamente criticado pelo que fez e pelo que deixou de fazer. O exercício do poder executivo por parte de ambientalistas parece não ser muito fácil, o que serve de justificativa aos que defendem que ONGs e seus militantes devem, sempre, se manter "não governamentais".

Muito pior foi dito e publicado, inclusive pela própria "Veja", sobre Lutzenberger. E muito bateram nele militantes "socioambientais" brasileiros, os mesmos que agora saem em defesa da Ministra. Por quê?

Talvez a resposta esteja na frase "será que ninguém vai protestar contra a grosseria do repórter e, principalmente, da revista que tudo tem feito para criar dificuldade para o governo e as lideranças mais expressivas do PT"? Para a parte fanática da militância do PT, aquela movida por fé cega, é o
partido que não pode ser contestado. É muito provável que se a Ministra fosse filiada a qualquer outro partido, mesmo que da coligação de governo, não receberia defesa tão exacerbada. E exagerada.

Marina, como Lutzenberger, é uma pessoa ótima, uma militante ambiental respeitável, dona de um currículo de lutas inatacável e de um passado exemplar. Mas, como Lutz, tropeçou nas limitações do exercício do poder. As críticas de "Veja", neste caso, são justas, além de educadas e contidas.
Elas apenas refletem o que reconhecemos todos e que é apontado até mesmo por aqueles que, parte do mesmo governo, desejam sua vaga para tentar fazer mais.

Langone, por exemplo, quer ser ministro por quê? Porque é muito menos ambientalista do que um político do meio ambiente, que se fez reconhecido como tal e que sabe se movimentar melhor nos meandros da burocracia executiva estatal, em busca de resultados práticos.

Marina é ótima, mas seu lugar é na militância ambiental ou, no máximo, no Legislativo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e ninguém que é bom numa deve ser, necessariamente, bom em outra. E a crítica, principalmente quando exercida dentro dos limites (o que aconteceu em "Veja"
desta vez, não é regra geral e não estou aqui defendendo a revista), deve ser ouvida e deglutida pelas figuras públicas.

Achar que o PT está acima de tudo, inclusive de receber críticas (ainda mais depois de tudo o que aconteceu no ano passado), é de uma arrogância inominável. Não dignifica a própria Marina que este tipo de argumento seja esgrimido em sua defesa.

Ela certamente não precisa disto.

(*) O jornalista Ney Gastal é ambientalista, presidente da Associação Brasileira para a Preservação Ambiental e diretor-executivo do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.

Um comentário:

Moisés Diniz disse...

Meu caro jornalista Ney Gastal,

A matéria de Veja, lida no conjunto, é ataque grosseiro e virulento sim. Apenas a foto de Marina e a respectiva legenda já são inconcebíbeis. Uma coisa é a agenda governamental de Marina, que merece ressalvas. Outra coisa é chamá-la de corrupta. Faltou separar aí...

Um abraço,

Dep. Moisés Diniz