quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

CHICO MENDES VIVE

Desde que deixou a secretaria da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, a antropóloga Mary Allegretti (foto) se tornou literalmente numa professora itinerante em universidades dos Estados Unidos, o que evidencia que o Brasil tem muito a ensinar, a qualquer país, sobre políticas públicas para o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente.

No ano passado, Mary Allegretti lecionou na Escola de Florestas da Universidade de Yale e depois no Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago. Atualmente, leciona na Universidade da Flórida, onde organizou recentemente um evento que possibilitou ao governador Jorge Viana expor o projeto de florestania, que tem estabelecido as políticas públicas pioneiras de sustentabilidade.

Mary Allegretti, que foi uma das principais aliadas da luta de Chico Mendes em defesa das florestas da Amazônia, está se preparando para passar uma nova temporada no Acre dando aula para alunos do ensino médio da Escola da Floresta.

Isso acontecerá a partir de março, quando a antropóloga, que foi contratada pelo Governo da Floresta, finalizar a proposta do programa piloto de conversão de dívida externa em investimentos no Acre. A proposta inicial já foi aprovada pelo ministro da Fazenda Antônio Palocci e apresentada ao Tesouro dos EUA em Washington por Jorge Viana.

A iniciativa pioneira pode abrir espaço para que outros estados brasileiros utilizem o mecanismo norte-americano de conversão de dívidas para obtenção de recursos para conservação de parques estaduais, proteção de populações indígenas, capacitação em manejo florestal, educação e comunicação comunitária. A proposta é aplicar no Acre 15 milhões de dólares da dívida nestas áreas nos próximos 15 anos.

Mary Allegretti recebe hoje, após 17 anos do assassinato do líder sindical e ecologista, o Prêmio Chico Mendes de Florestania na categoria "iniciativa de origem nacional ou internacional".

Leia a entrevista:

O que você anda fazendo para reconectar os povos da floresta?
No dia 17 de outubro de 2005 fez 20 anos da criação do Conselho Nacional dos Seringueiros. Exatamente nesse dia, foi quando dei a primeira aula no meu curso lá na Flórida sobre reservas extrativistas e Conselho Nacional dos Seringueiros. Foi uma coincidência e eu decidi criar uma rede de pesquisadores em reservas extrativistas. Em dois dias eu tinha vinte e tantos pesquisadores na rede. Eles estão na Áustria, Estados Unidos e no Brasil estudando reservas extrativistas em toda a Amazônia, mas não se comunicavam.

Quantas reservas existem hoje na Amazônia?
Existem 60 reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável estaduais e federais na Amazônia. São 18 milhões de hectares. A proposta das reservas extrativistas é um sucesso. As pessoas não estão se dando conta de que a gente fez uma revolução agrária e ambiental na Amazônia criando essas unidades. Temos 20 anos dessa proposta.

O que será feito agora?
Nós vamos fazer agora o balanço de todas as áreas, que é o arco da sustentabilidade. Ele sai do norte de Mato Grosso, passa pelo pantanal de Rondônia, entra no Acre, sobe pelo interior do Amazonas e vai dar lá no Curupu, no Maranhão. São reservas marinhas, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável. Não existe no planeta um país que tenha conseguido fazer o que a Amazônia fez.

Qual o papel desempenhado por Chico Mendes nisso?
Total. O Chico Mendes foi o grande idealizador da idéia de justiça social e proteção do meio-ambiente. Ele defendia as reservas extrativistas com uma convicção que considero a maior de todas. Acho que o Chico Mendes não poderia imaginar que, após 20 anos da idéia aprovada, a gente teria 60 áreas criadas e 18 milhões de hectares. Isso é uma coisa fantástica. Estou falando só na área ambiental. Agora vamos incluir os PAEs [Projetos de Assentamento Extrativistas], os PDSs [Plano de Desenvolvimento Sustentáveis], da irmão Doroty Stang, que também é parecido, além dos projetos de assentamento florestais, que o governador Jorge Viana começou a criar no Acre. Isso vai exigir uma conta que não fizemos ainda.

O que precisa ser feito agora?
Precisamos olhar para esse conjunto e fazer um balanço sobre o que significa ter essas unidades de conservação aqui na Amazônia. Essa rede de pesquisadores vai fazer isso.

Você consegue divisar como seria o Acre ou a Amazônia sem Chico Mendes?
Acho que a ironia é que o Chico Mendes tinha a consciência de que ele não podia fugir. Portanto, ele foi até às últimas consequências consciente de que estava se entregando a essa idéia e imaginando que isso poderia dar frutos. Ele tinha consciência disso. Chico Mendes não foi ingênuo. Ele sabia que o limite daquilo que ele queria estava dado, além do limite pessoal. As pessoas cercavam Chico Mendes. Ele teve oportunidade de sair, mas ele não quis sair. Todo mundo ofereceu passagens para ele e a família dele inteira, mas ele não quis. Acho que Chico Mendes tinha consciência de que não poderia fugir desse contexto e que alguma coisa iria continuar. Mas acho, ainda, que ele nunca podia imaginar que seria dessa maneira. Eu te digo hoje... Eu fico impressionada. O curso que estou dando na Flórida é Movimento Social e Políticas Públicas. O Chico é o centro do curso. Os alunos pedem: "conte-nos, quem era ele?" Você pode imaginar que numa universidade dos Estados Unidos, em 2005, alguém possa se dirigir a você para se manifestar admirado pelo fato de ter trabalhado com Chico Mendes? Uma professora visitante da Finlândia disse que foi para a Flórida porque soube que eu estava lá. E ela me pediu para contar a história.

Chico Mendes é um ícone da Amazônia.
Chico Mendes é um fenômeno que não pára. Sou antropóloga e tenho capacidade analítica de profissão. Tem alguma coisa fenomenal nesse processo, que é o fenômeno sociológico, antropológico e cultural, que é a mensagem do Chico. O ícone que ele representa não pára de crescer. Em todos os lugares do mundo existe alguém conectado. Achei marcante que nesta Semana Chico Mendes os jovens pela primeira vez subiram no palco e disseram assim: "Nós queremos criar o Conselho Nacional dos Seringueiros Jovem, queremos fazer parte da diretoria e queremos um programa específico para nós".

Quais os novos desafios?
Um é esse: compreender o alcance do modelo das reservas extrativistas. O outro é gerar um projeto de educação para os jovens da floresta. E acho que é necessário educação à distância.

E isso inclui a internet?
Sim, com certeza. O pessoal está conectado.

3 comentários:

Gisela disse...

Leio uma notícia da Reuters com a seguinte manchete: "Para Lula, país cresce apesar da lei ambiental". Fiquei pensando nesse "apesar". Puxa vida, Presidente, logo hoje o senhor vai dizer uma coisa dessas? (Altino, está muito legal a Semana Chico Mendes no blog. Vai postando, vai postando...)

Antônio Mello disse...

Hoje, data do assassinato de Chico Mendes, postei um comentário no meu blog indicando o seu como o local certo para quem quiser sabe mais sobre Chico e a Amazônia.
Abraços, AM

Diogo Soares disse...

Há algum tempo eu não entrava no blog, Altino. Devo dizer que fico muito contente quando entro aqui, assim como no blog do toinho, porque encontro o que dificilmente se acha na maioria dos impressos acreanos:textos bem escritos e boas entrevistas.
O resgate sobre o legado do chico e sua relação com a mary foi muito bem feito e veio bem à calhar.
Agora, quanto a esta entrevista com o silvio... sem eufemismos... do caralho! Vc fez perguntas que eu sempre tive vontade de fazer e cutucou as feridas da imprensa acreana. Não posso deixar de dizer que tb me surpreendi com a honestidade das respostas do silvio... honestidade que revela os sérios problemas enfrentados pela imprensa, pelos jornalistas e por que não dizer pelo nosso sistema democrático falho, tendencioso e mercadológico, quanto mais na distante província de Galvez, onde o sucumbir de todas as ideologias verborrágicas da academia ante ao imperativo poder da máquina pública são muito mais evidentes. Mais uma vez, parabéns pela entrevista.
Saudações poéticas.