quarta-feira, 30 de novembro de 2005

HUSHAHU E PUTANI



Por Laura Soriano Yawanawa

Kátia Hushahu e Raimunda Putani (foto) são duas mulheres jovens yawanawá -ambas têm 25 anos de idade- que nasceram na Terra Indígena do Rio Gregório, onde habita o seu povo, aqui no Acre, no sudoeste da Amazônia brasileira.

Hushahu e Putani foram as únicas mulheres que tiveram coragem de fazer juramento ao Rare, a planta sagrada do povo yawanawá, que inicia ao aprendizado do mundo espiritual do xamanismo.

Elas juraram ao Rare e aos espíritos dos ancestrais que iriam dedicar suas vidas a aprender e a ajudar o povo yawanawá na sua ciência tradicional.

Quando as duas foram iniciadas no conhecimento espiritual yawanawá, ninguém acreditava nelas, principalmente os homens da aldeia. Falavam que não existia mulher pajé dentro da cultura yawanawa e que a atitude delas era contra a cultura de seu povo.

Mas o velho e sábio Tuin Kuru falou:

– Isso não é verdade. Nosso conhecimento é espiritual e não tem nada a ver com o sexo, cor ou cheiro. Sendo homem ou mulher, todos podem podem aprender porque o nosso conhecimento é espiritual.

Putani e Hushahu, com pouco apoio da comunidade, se refugiaram no mais profundo da floresta com os pajés Tata e Yawarani e começarem o aprendizado. Passaram por provas muitos difíceis. Chegaram num determinado momento em que pensaram que fossem morrer.

Por nove meses não tomaram água tampouco comiam comida normal. Alimentavam-se de comidas muito leves e algum tipo de peixe muito pequeno, mas apenas uma vez por dia. Seu principal alimento espiritual era o uni (ayahuasca), a bebida sagrada do povo yawanawa, junto com o rume (rapé) inalado pelo nariz. Uni e rume são duas "medicinas" muito forte do conhecimento espiritual da cultura yawanawa.

Durante todo esse tempo Putani e Hushahu foram aprendendo coisas incríveis do mundo espiritual. Elas trouxeram de volta o canto de cura, desenhos incríveis, lindos e coloridos da magia do uni. Tiveram visões profundas e significativas para o povo yawanawa.

Ninguém, além dos dois velhos pajés Tata e Yawarani, conseguiu fazer até agora essa dieta que elas fizeram. Alguns membros da aldeia até que tentaram. Por falta de apoio da comunidade, acabaram desistindo e voltaram a cuidar de seus afazeres.

Agora podemos dizer que os velhos podem morrer em paz porque o povo yawanawá tem duas mulheres corajosas e jovens que seguem mantendo esse conhecimento que foi repassado para elas.

Hushahu e Putani seguem trabalhando arduamente para a preservação do conhecimento puro yawanawa. Elas agora ganharam o respeito de todos da aldeia, incluindo o respeito de todos os homens que não acreditavam nelas.

Elas agora fizeram uma promessa de falar apenas em Yawanawa. Isso é um ato muito simples, mas que está tendo grande efeito positivo na aldeia: todos agora preferem falar em yawanawa a não mais em português.

Putani e Hushahu são um grande exemplo para todas as mulheres indígenas e não indígnas. Elas estão traçando uma nova história para o povo yawanawa, onde a mulher é respeitada e escutada nas mesmas condições dos homens.

Nota do editor: Laura Soriano Yawanawa é índia de origem mexicana, das etnias mixteco e zapoteco, formada em antropologia e relações internacionais pelo Principio College de Ilinois (EUA) e assessora dos projetos sociais e econômicos do povo yawanawa. É casada com Joaquim Tashka, um dos líderes yawanawá. O Rare que ela cita é a raiz da planta mais sagrada para o povo yawanawá. Representa o Criador. É tão sagrada que mulheres e crianças não podem passar por perto. Apenas os pajés podem tocar a raiz do Rare. Ao tomar Rare, o espírito da cobra, que é o ser iluminado e de força espiritual, vem habitar no seu coração. A partir de momento que se faz juramento ao Rare a vida muda, sobretudo a forma de pensar. A pessoa renasce e acorda para o mundo espiritual, passando a encará-lo sob nova perspectiva. A dieta de Hushahu e Putani inclui um ano de abstinência sexual. Anteontem, na aldeia, a tribo realizou uma crimônia para comemorar 10 meses da dieta que as duas já cumpriram. Esse resgate cultural começou após a tribo expulsar os missionários evangélicos da organização americana Novas Tribos, em 1986, que tentaram impor a Bíblia traduzida em língua yawanawá.

Um comentário:

Gisela disse...

Essa história é muito linda. Tão linda como a imagem de Hushahu e Putani coroadas por sóis de penas. Leves asas sobre nós.