segunda-feira, 31 de outubro de 2005

ALÉM DO MURO



Por Chagas Freitas

Em setembro de 1984, atravessei, pela primeira vez, já ao anoitecer, o temido Muro de Berlim. A sensação não foi de medo, mas de apreensão, ao ver que a passagem pelo Muro – a famosa “Check-Point Charlie – era protegida com ameaçadoras cercas de arame farpado.

Algum tempo depois, já familiarizado parcialmente com Berlim Oriental, iniciei os meus estudos da língua alemã, na parte ocidental da Cidade, em curso noturno, no Instituto Goethe. Assim fui criando coragem para descobrir a cidade de Berlim Oriental e pouco a pouco o mundo de suas artes.

Para minha felicidade, consegui alugar um apartamento na rua Leipziger, a partir da qual tinha fácil acesso às duas realidades, isto é, às duas Berlim, aos seus museus, óperas e teatros.

No tocante à arte moderna, via quase que só a arte oficialmente sancionada e protegida pelo Estado comunista, que era a da escola do Realismo Socialista, que não despertou, em mim, qualquer interesse.

Mas, certo dia, visitando a Galeria Rotunda, no Museu Antigo de Berlim Oriental, em companhia do artista brasileiro, meu amigo, Alex Flemming, descobri, quase escondida, uma linda paisagem do pintor Max Uhlig, que prontamente adquiri o que se constituiu na primeira obra do que viria a ser a minha futura coleção. Poucos dias após, na mesma galeria, comprei uma outra obra contemporânea alemã oriental, uma bela aquarela de Gerda Lepke.


Entusiasmado com a qualidade artística de minhas duas primeiras aquisições e à medida que ia aprofundando meus conhecimentos da língua alemã, meu entusiasmo e interesse por essa arte cresciam. Fui conhecendo outros artistas da Alemanha Oriental. Muitos deles me indicavam outros colegas, que passei a procurá-los, de modo que sempre que a sorte permitia, ia incorporando novas obras ao meu crescente acervo.


Depois de 7 anos na Alemanha, tinha já, inesperadamente, uma coleção surpreendentemente representativa do que melhor se produzia naquele país, em termos de arte contemporânea, nos anos de chumbo que antecederam a derrocada final do Muro de Berlim e, com ele, da ex-RDA.


Sou consciente da extraordinária oportunidade que me foi dada de descobrir essa arte então incompreendida e desprezada pelos meios oficiais alemães orientais num momento crucial da história alemã. Caso eu as tivesse descoberto poucos anos depois, já finda a RDA e reincorporada à Alemanha reunificada, não teria tido os meios para adquiri-las, tamanho o processo de valorização financeira e artística por que passaram essas obras.


Hoje, após tantos anos, ao ver expostas publicamente pela primeira vez tais obras num grande museu, logo aqui em Brasília, não poderia deixar de lembrar, com carinho daqueles caros amigos, que tanto me incentivaram para a formação desse acervo.


O primeiro deles foi o meu ex-chefe e mestre Embaixador Mário Calábria, que com sua paciência e conhecimento apurado tanto me ensinou sobre o fantástico mundo da arte alemã-oriental. Terei em relação a ele sempre uma eterna gratidão e grata lembrança.

O segundo é, sem dúvida, o meu querido amigo de todas as horas, Hans Lehmann*, que, infelizmente, nos deixou, prematuramente, em fevereiro deste ano e a quem postumamente dedico esta amostra.

Esta coleção é fruto da convivência com os bons amigos e das experiências inesquecíveis que tive na ex-RDA, sobretudo em Dresden, cidade à qual acorria em inúmeras visitas de fins de semana. Sei hoje que foram nos incontáveis passeios pelo Elba, por suas margens mágicas e poéticas que vivi, até agora, tão bons momentos de minha vida.

Agradeço à Caixa Econômica Federal, à Embaixada da Alemanha, ao Instituto Goethe do Rio de Janeiro, ao Goethe-Zentrum de Brasília e à Academia de Artes de Berlim e a todos que tornaram possível a realização dessa amostra, agora, no ano em que se comemoram os 15 anos da Reunificação alemã, e justamente na data da queda do Muro de Berlim, momento que vivi, pessoalmente, em toda a sua intensidade e emoção.

Termino essas palavras com a esperança de que o público brasiliense possa deixar-se tocar, assim como eu me deixei tocar há tantos anos, com essas obras maravilhosas. Elas provêm, é certo, de um país desaparecido, muitas vezes apontado como exemplo do fracasso, mas a força dessa arte demonstra que, a despeito de todas as dificuldades e da falta de liberdade, havia na RDA uma chama de criatividade, de força interior, que não se deixava calar.

*In Memorian (25/10/52 – 07/02/05)

Um comentário:

Sandro Cruz disse...

Excelente artigo, você está de parabéns, sou policial Militar do Paraná e graduado em História pela Universidade Paranaense-Unipar. Um abraço!