segunda-feira, 11 de abril de 2005

MARGARIDA CAETANO


Ela é uma jornalista portuguesa, editora do jornal Destak, de Lisboa, mas desde o ano passado se tornou leitora assídua deste e do blog O Espírito da Coisa, do Antonio Alves. Margarida Caetano é dona do blog Meridianos & Paralelos

Ano passado, trabalhou como jornalista da equipe selecionada pela ONU e Fundação Nacional de Saúde para o acompanhamento do Projeto Índios Isolados da Amazônia, sendo a responsável pela cobertura de reportagem e organização dos respectivos conteúdos informativos.

Formada em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa e com pós-graduação em jornalismo, com tese na área da Comunicação nos Media, Margarida Caetano é uma das profissionais mais respeitadas em seu país.

Desde que conheceu a Amazônia, tem direcionado o trabalho dela para chamar a atenção da opinião pública portuguesa para a região. Tive a oportunidade de entrevistá-la hoje, via MSN Messenger. Vale a pena ler:

Continua leitora do blog? O que acha dele?
Você é meu jornalista preferido da floresta. Aliás, estou a cada post mais orgulhosa de você.

Você prometeu voltar à Amazônia, ao Acre especialmente, mas até agora não apareceu cá. Por quê?
Nem me fale. A vida está me retendo por aqui. Aceitei um trabalho, achei que fosse estar liberta, mas só me enrola cada dia mais. Isso me afasta de minha gente, do país que trago no coração. Cada amanhecer é uma dor de saudade, sabe?

Leio sempre seus comentários no blog do Toinho Alves e quase chego a sentir ciúme por comentar poucas vezes no meu.
Verdade? Mas saiba que sou imensamente orgulhosa de seu trabalho. Sempre acompanho com muita atenção. Sempre mesmo. Apenas que muitas vezes eu temo estar por fora dos assuntos e me meter feito loira bobinha que não sabe do que fala.

Compreendo.
Verdade. Muito lhe cito aqui, junto de minha equipe, como exemplo de jornalista nato, coisa de faro e atenção, certeiro na história e no ângulo.

Onde você trabalha atualmente?
No jornal Destak. Esse projeto me pegou de jeito, viu? Ele é o primeiro diário de informação gratuito no país. Sou a editora. De repente não soube como resistir a fazer notícias de graça, me amarrei nessa coisa de chegar às pessoas sem que elas paguem um tostão.

Estou conferindo o site do jornal. Ele tem uma versão impressa?
Sim. Alias, a versão on-line é que ainda está no começo. O jornal é distribuído todas as manhãs: na rua, no metrô, nos ônibus, nos pontos de maior afluência de gente.

É um jornal nesse formato, com essa qualidade gráfica, que vivemos a sonhar aqui. Vou jogar na loteria mais vezes. Destak é distribuído gratuitamente?
Eu sonho poder fazer algo igual aí: do seu lado, grande repórter. Sim, é distribuído gratuitamente. Tem quatro anos esse projeto. Entrei na fase em que a aceitação foi tamanha que ele passou de semanário a diário.

Mas é quase impossível realizar um projeto desse aqui. Não dispomos de capital financeiro para viabilizá-lo a menos que obtivéssemos a solidariedade internacional para comunicação sustentável na Amazônia.
Esse é o ponto por que me tenho batido aqui no jornal. Você tocou justo no ponto. É uma luta braba. Titânica, eu diria. Eu sempre alinho matérias caras ao povo que trago no coração. Nunca eu perco uma oportunidade para colocar as questões da florestania no Destak.

Qual tem sido a reação?
Não tem sido fácil. A administração me enche o saco.

Ela não tem noção da relevância do tema para os lisboetas?
Exatamente. Na manhã seguinte sempre falam a mesma imbecilidade: «Esse tema é tão distante! Ele interessa a poucas pessoas!» Na verdade eu teimo: sempre coloco o que quero na edição, mas me entristece profundamente ter que repetir o que já expliquei mil vezes. Aí, na manhã seguinte, eu faço meu melhor ar de "loira tonta e distraída" e falo: «Acha ruim? Pareceu-me muito importante.»

A quem pertence o Destak?
Pertence ao grupo Cofina, que é um dos 3 maiores daqui. É holding que tem várias publicações.

Qual a tiragem?
Você iria rir, tendo em conta a dimensão de continente de nosso Brasil brasileiro. Mas aqui para Portugal é muito: 100 mil exemplares diariamente. Por enquanto a gente só está chegando à zona da Grande Lisboa, o que inclui arredores: Cascais, Sintra, Almada, Sesimbra. Mas o maior diário de tiragem nacional, Correio da Manhã, também da Cofina, ele tira 80 mil exemplares.

Então o Destak tem tiragem superior.
Sim. Esse projeto está surpreendendo à todos. Em janeiro, uns suecos colocaram um concorrente no mercado. Chama Metro. Mas eu, sinceramente, achei muito legal, pois quanto mais jornais gratuitos, melhor. Acredito que esse é o caminho correto: ninguém deveria precisar pagar para ter direito à informação.

E quem financia jornais gratuitos?
A publicidade. No inicio eu aceitei meio desconfiada. Chamaram-me para pegar no projeto e converter em diário. Deram-me 10 dias para formar equipe, definir plano editorial, organizar a redação, fontes, enfim. Receei que logo começassem as pressões sobre a escrita para não ferir esse ou aquele anunciante, porque o jornal necessita deles pra sobreviver. Mas é pacífico: não há intromissões. Quando acontecem tentativas, enfrento e a administração se deixa convencer e não me alucina a cabeça.

Trabalhar sem intromissões comprometedoras é vital para o jornalismo.
Puxa! Mas eu sou orgulhosa de meus amigos do Acre. Você precisava ver. Tem amigos meus que sentem até ciúmes.

Para nós é importante saber que alguém, tão distante, tenha percepção da nossa ousadia em não calar.
Tenho muita vontade de escutar vocês, seguir vosso trabalho. É complicado tentar te explicar, mas tem um negócio, uma coisa de bem-querer, um afeto, uma coisa de me sentir muito próxima. Não consigo te explicar direito, na verdade... Recordo perfeitamente o quanto me deixou impressionada a primeira visita em seu blog e de Toinho Alves.

Por quê?
Não creio que as pessoas tenham noção do quanto esse espaço de liberdade de expressão é uma conquista de pulso e convicção no Brasil. Aqui as pessoas imaginam o Brasil das novelas da Globo, da Ivete Sangalo e da Daniela Mercury, entende? O País do Carnaval é para eles a terra de todas as liberdades adquiridas e consentidas. Eu vivo combatendo. Não que eu tenha a pretensão de conhecer melhor que ninguém essa sua terra só porque a amo do fundo da alma, mas é que na verdade eu palmilhei outros trilhos aí.

Quando lê o blog do Toinho ou o meu, não considera a carga excessivamente provinciana da maioria de nossas notas?
De jeito nenhum! E se te disser que defendo justamente que o jornalismo deve cada vez mais se aproximar da província, do bairro? Esse conceito de proximidade à realidade me interessa por demais. Essa atenção ao entorno, como forma de reflexão/intervenção. Vivo bradando que quero a rua nas páginas do jornal. Se pelo meio eu tiver que conceder uma página de "entretenimento" com uma garota de tombar para o lado, tudo bem. Acho legal que o pessoal que acorda cedo para trabalhar sonhe os 20 minutos da corrida do ônibus com uma garota poderosa, um gato bonito, mas me dá uma página mais para uma entrevista com uma pessoa interessante, por favor! Deixa-me criar uma página sobre a mulher. Quero mais um caderno porque preciso de uma seção para falar das coisas da terra, da água e da floresta.

O que é ou significa a Amazônia?
Faz-me a pergunta cuja resposta se grita no meu peito a cada minuto vivido aqui no Velho Reino. Outro dia tropecei no livro de fim de curso do colégio. Eu deveria ter uns quase 17 anos e tinha uma pergunta igual para todo o mundo, assim: “Onde você se imagina daqui a 10 anos?” Eu nem lembrava mais, mas na hora fui ler e lá estava escrito: «Dentro da floresta amazônica». Nada mais. Só assim. Na verdade a Amazônia sempre foi um chamado que eu escutava sem entender. Depois, crescendo, eu me pegava devorando cada pedacinho de notícia a seu respeito que aqui chegava. Na época de Chico Mendes, eu me lembro que gastava minhas mesadas comprando «O Globo», para poder saber a respeito. Não havia internet, nem jornal on-line. Custava uma fortuna porque era jornal importado. E sempre eu seguia tudo o que era a voz da floresta, muitas vezes sem entender. Um dia (e esse dia é melhor nem abordar, pois não saberia como te falar dele em poucas linhas) eu desemboco na floresta. Uma viagem súbita, inesperada, naquele momento. Quase nem sonhada, de tanto medo de viver desejando os impossíveis.

Qual lembrança da Amazônia ficou da viagem que realizou à região a trabalho?
Recordo que eram mais de 23 horas da noite, em Manaus. E, à semelhança desse cheiro único que me faria reconhecer de olhos fechados estar pisando em terras de Vera Cruz, e que sempre me assalta quando saio do "pássaro de ferro", teve esse odor inconfundível. Tinha alguém me esperando que soube que eu era a "Ana de Portugal", mesmo sem placa. E me recordo de me levar na Ponta Negra pra tomar algo fresco. Em todo o trajeto do carro eu não consegui escutar uma palavra. Só essa sensação me entrando: uma coisa de saber que estava me acercando enfim do meu lugar. É difícil exprimir essa coisa tremenda, confesso, muito difícil. Sabe quando você sente que está voltando à casa? Que te devolveram ao teu lugar? Assim foi esse meu chegar às portas da floresta. E a Amazônia foi galgando dentro de mim, a cada passo dado, a cada trilho vagueado, a cada pessoa que parava comigo numa esquina tomando tacacá, numa beira de porto, entre as sacas do mercado.

Agora seus amigos portugueses vão sentir mais ciúmes por causa de nossos blogs?
Tem horas que eu saio voando e falo: agora preciso ir sentar com meus amigos do Acre.

Qual é a sua opinião sobre o blog como mídia?
Olha, eu acompanho o movimento dos blogs portugueses atentamente, desde o comecinho da coisa. Aqui os jornalistas foram os primeiros a perceber o alcance dessa coisa que ninguém ousava tocar, que todo o mundo subestimava e taxava de diário para confissões de adolescentes. Na época, a situação política havia minado os meios de comunicação: a imprensa começara a se concentrar na mão de dois ou três holdings e a liberdade de expressão saiu muito penalizada, após a conquista que fizera desde a Revolução de Abril de 1974. Então as pessoas que reclamavam autonomia do pensar e da palavra, elas se refugiaram nos blogs, assinando com seu próprio nome. Mas de certa forma deslocaram o eixo do seu trabalho crítico das páginas dos jornais e dos ecrans da TV (ocupados sempre pelos mesmos comentadores de serviço) para a blogosfera. Em minha opinião, os blogs passaram a ser o lugar por excelência das tertúlias pensantes. E a coisa foi se afirmando ao ponto de ganhar a dianteira aos meios de comunicação tradicionais. Eu, em verdade, creio que a palavra deve ser volátil: atravessar paredes, furar os olhos, se lançar ao alto. Os blogs são uma espécie de imensa praça: larga e sem constrangimentos. Gosto de pensá-los assim. Gosto dessa coisa que desinquieta e faz quem visita falar.

Quanto tempo os acompanhou sem fazer comentário?
Demorei quase oito meses para um dia deixar meu primeiro comentário. E nessa madrugada eu disse: Ana, se rende! Mas mesmo nesse meu vaguear intruso e sem rastro, muito eles me interpelavam, me paravam, me incomodavam, me faziam pensar, me sugeriam pistas. Acho que um blog é uma arma poderosíssima. Os posts são caravelas largadas que ninguém supõe qual o limite à navegação. Agrada-me acreditar que sempre guardarão essa chama de incondicional liberdade. Gosto dessa coisa democrática que eles têm na medula: não precisar pagar pra ter um blog, não precisar ter um currículo, não requerer permissão. E gosto dessa malha infinda que eles abrem: desse mundo em rede que possibilitam, desse entrar por um e ir dar no outro para sair por aqueloutro. Viu quanta saudade eu tinha de uma madrugada com você? Não paro de falar.

Mas aqui ainda é cedo: 19h27. Agradeço pela entrevista.
Aqui a gente pulou para o horário de verão. Agora é 1h37 da madrugada. Eu que agradeço. Muito eu agradeço: sua amizade, o partilhar comigo seu trabalho pela floresta.

5 comentários:

Unknown disse...

Boa dica Altino o blog dela realmente é maravilhoso. Beijos e boa semana!

Anônimo disse...

É sempre bom contactar com pessoas que partilham da minha paixão pelo jornalismo. A Margarida é uma dessas pessoas e foi uma sorte que os nosso caminhos se cruzassem, quando ainda dou os meus primeiros passos na nobre função de informar.
Parabéns pela entrevista!

Anônimo disse...

Ela é o ser humano mais doce do mundo. Tem o coração mais amanteigado que alguma vez conheci. Toda ela é afecto, ternura e compreensão. E é sempre bom contactar com pessoas que partilham a minha paixão pela vida. Eles não sabem do que falam, como podem se poucas vezes param para ouvir os outros, se nunca andam em transportes públicos, se não conhecem os seus leitores. Ela é o equilíbrio, faz a ponte, pensa como nós. E cuida do Destak.

Anônimo disse...

Qualquer fragilidade nesta senhora, é mera aparência. Vadia, indisciplinada, independente, a reporter que enlouquece os planos do produtor mais organizado. Mas no final,a melhor história é sempre ela quem traz para a redacção. Tudo lhe é perdoado. Por mim continuo a lamentar que nos deixe. A televisão que se fazia no tempo da velha tribo sente falta de ti. Parabens pelo blog, Altino. Fiquei freguez. Beijos, Miúda Vadia! Sê feliz.

P.S - É a mulher menos chata do mundo:boa para viajar. Nunca chateia, nem tem mariquices que se dispensam em trabalho.

Anônimo disse...

:) Atento e inteligente olhar sobre a blogosfera nacional. Muito interessante a conversa, Altino. Um Braço.
Duarte Coimbra