Ou piolho de preguiça
sábado, 16 de março de 2013
A REDE DE MARINA SILVA
POR FÁTIMA ALMEIDA
Sempre achei que não funcionaria bem essa junção entre Marina Silva, forjada em meio ao bem comportado PT do salão paroquial desta Rio Branco, com um partido ao qual são filiados usuários confessos de maconha, em campanha, inclusive, pela liberalização da mesma. Mas, a experiência demonstra que os partidos fundados por pessoas descontentes, isoladas, por maior credibilidade política que possuam, não adquirem fôlego.
Recordem que Leonel Brizola ao retornar do exílio encontrou o PTB, do qual se sentia possuidor, nas mãos de Ivete Vargas sentindo-se a mesma, provavelmente, herdeira política do tio, Getúlio, fundador dos dois grandes partidos das décadas anteriores à Ditadura Militar, o PSD e o PTB. Ora, carisma ou liderança são coisas que não se herdam, necessariamente, tanto é que Ivete Vargas desapareceu do cenário. Aqui mesmo não se realizou nenhum grande destino político entre os filhos de José Augusto de Araújo que foi um dos governadores mais empolgantes do nosso jovem Estado.
O primeiro choque de opiniões dentro do PT, no primeiro mandato de Lula, produziu a saída de Heloísa Helena, indignada com o modo como o então presdente e seus seguidores, mais tarde julgados pelo STF no caso do mensalão, tratavam os assuntos públicos numa negação implícita e explícita do programa e dos princípios do Partido dos Trabalhadores. O PSOL, partido fundado por ela, permanece muito pequeno para fazer face aos grandes desafios do momento, em especial.
Naquela ocasião, Marina Silva não seguiu a colega de partido, nem aderiu ao novo partido fundado. Mas, um belo dia, chegou também a sua vez de se contrapor aos modos do lulismo, saindo do partido e migrando para outro, com melhor desempenho na causa ambiental, sua bandeira. Não funcionou.
É preciso pensar sobre o que vem a ser um partido. Eu nunca tive paciência para ler programas de partidos políticos, mas parece claro que os ditos de esquerdas tendem, naturalmente, para a defesa do trabalho, ou seja, para os interesses da classe trabalhadora, os de direita para os interesses da classe patronal, e os de centro, tendendo ora para um lado, ora para outro.
Esse quadro simplificado de tendências políticas foi adequado até a primeira metade do século vinte como um desenvolvimento natural da revolução francesa e das revoluções liberais inglesas. Com o esfacelamento da união soviética e a guinada da China para o capitalismo, os partidos de esquerda ficaram, literalmente, órfãos, pois não mais receberam “ordens” dessas potências para planejar revoluções socialistas nos demais países, passando a apresentar um comportamento dúbio ou ambíguo, sem nunca mais dizerem a que vieram.
Nesse sentido, num primeiro momento, foi fundamental que os partidos apresentassem, por conseguinte, suas bases sociais, quais sejam, as distintas classes sociais dessas sociedades ocidentais, moldadas pelo sistema capitalista. No caso do Brasil, o PT surgiu para representar os interesses do trabalho. Hoje em dia, isso não é mais sequer cogitado. Os programas sociais de erradicação da miséria são necessários para a própria burguesia nacional que precisa de consumidores para as porcarias que ela fabrica. Daí, as críticas que vêm sendo feitas ao governo Dilma, por insistir numa política econômica que prioriza o consumo.
Além de tudo isso, a total falta de esperança por parte das massas que se sentem desprotegidas porque não existe segurança, saúde nem educação de qualidade, neste país, as tornam presas fáceis de pastores sem escrúpulos. Nesses casos, essas massas iludidas ocupam o lugar da “base social” a sustentar os partidos nanicos que existem por aí. Resumo da Ópera: a política brasileira está uma balbúrdia que dá para se ouvir em Marte.
O bipartidarismo é a tradição no nosso continente. O PSDB, uma cisão do PMDB oferece oposição a este grande partido que está coligado e governando com o PT, ambos apresentando-se como dois grandes blocos arrastando um sem fim de siglas pelos calcanhares, comprovando que na prática o que funciona mesmo é o bipartidarismo. No que tange às bases sociais não é possível fazer distinção alguma.
Nesse contexto, qual a base de sustentação do novo partido que surge sob a égide de Marina Silva? Terá o destino do PSOL? Afinal, os votos de uma são os mesmos números dos votos de outra, nas respectivas campanhas para a presidência da nossa Republica.
Fátima Almeida é historiadora
Sempre achei que não funcionaria bem essa junção entre Marina Silva, forjada em meio ao bem comportado PT do salão paroquial desta Rio Branco, com um partido ao qual são filiados usuários confessos de maconha, em campanha, inclusive, pela liberalização da mesma. Mas, a experiência demonstra que os partidos fundados por pessoas descontentes, isoladas, por maior credibilidade política que possuam, não adquirem fôlego.
Recordem que Leonel Brizola ao retornar do exílio encontrou o PTB, do qual se sentia possuidor, nas mãos de Ivete Vargas sentindo-se a mesma, provavelmente, herdeira política do tio, Getúlio, fundador dos dois grandes partidos das décadas anteriores à Ditadura Militar, o PSD e o PTB. Ora, carisma ou liderança são coisas que não se herdam, necessariamente, tanto é que Ivete Vargas desapareceu do cenário. Aqui mesmo não se realizou nenhum grande destino político entre os filhos de José Augusto de Araújo que foi um dos governadores mais empolgantes do nosso jovem Estado.
O primeiro choque de opiniões dentro do PT, no primeiro mandato de Lula, produziu a saída de Heloísa Helena, indignada com o modo como o então presdente e seus seguidores, mais tarde julgados pelo STF no caso do mensalão, tratavam os assuntos públicos numa negação implícita e explícita do programa e dos princípios do Partido dos Trabalhadores. O PSOL, partido fundado por ela, permanece muito pequeno para fazer face aos grandes desafios do momento, em especial.
Naquela ocasião, Marina Silva não seguiu a colega de partido, nem aderiu ao novo partido fundado. Mas, um belo dia, chegou também a sua vez de se contrapor aos modos do lulismo, saindo do partido e migrando para outro, com melhor desempenho na causa ambiental, sua bandeira. Não funcionou.
É preciso pensar sobre o que vem a ser um partido. Eu nunca tive paciência para ler programas de partidos políticos, mas parece claro que os ditos de esquerdas tendem, naturalmente, para a defesa do trabalho, ou seja, para os interesses da classe trabalhadora, os de direita para os interesses da classe patronal, e os de centro, tendendo ora para um lado, ora para outro.
Esse quadro simplificado de tendências políticas foi adequado até a primeira metade do século vinte como um desenvolvimento natural da revolução francesa e das revoluções liberais inglesas. Com o esfacelamento da união soviética e a guinada da China para o capitalismo, os partidos de esquerda ficaram, literalmente, órfãos, pois não mais receberam “ordens” dessas potências para planejar revoluções socialistas nos demais países, passando a apresentar um comportamento dúbio ou ambíguo, sem nunca mais dizerem a que vieram.
Nesse sentido, num primeiro momento, foi fundamental que os partidos apresentassem, por conseguinte, suas bases sociais, quais sejam, as distintas classes sociais dessas sociedades ocidentais, moldadas pelo sistema capitalista. No caso do Brasil, o PT surgiu para representar os interesses do trabalho. Hoje em dia, isso não é mais sequer cogitado. Os programas sociais de erradicação da miséria são necessários para a própria burguesia nacional que precisa de consumidores para as porcarias que ela fabrica. Daí, as críticas que vêm sendo feitas ao governo Dilma, por insistir numa política econômica que prioriza o consumo.
Além de tudo isso, a total falta de esperança por parte das massas que se sentem desprotegidas porque não existe segurança, saúde nem educação de qualidade, neste país, as tornam presas fáceis de pastores sem escrúpulos. Nesses casos, essas massas iludidas ocupam o lugar da “base social” a sustentar os partidos nanicos que existem por aí. Resumo da Ópera: a política brasileira está uma balbúrdia que dá para se ouvir em Marte.
O bipartidarismo é a tradição no nosso continente. O PSDB, uma cisão do PMDB oferece oposição a este grande partido que está coligado e governando com o PT, ambos apresentando-se como dois grandes blocos arrastando um sem fim de siglas pelos calcanhares, comprovando que na prática o que funciona mesmo é o bipartidarismo. No que tange às bases sociais não é possível fazer distinção alguma.
Nesse contexto, qual a base de sustentação do novo partido que surge sob a égide de Marina Silva? Terá o destino do PSOL? Afinal, os votos de uma são os mesmos números dos votos de outra, nas respectivas campanhas para a presidência da nossa Republica.
Fátima Almeida é historiadora
sexta-feira, 15 de março de 2013
NO ACRE, UMA BIBLIOTECA SEM LIVROS
O prédio de três andares cercado de vidro fumê, com 1,5 mil metros de área construída, se destaca pela sua arquitetura em meio às demais edificações no centro de Cruzeiro do Sul (AC). No prédio, já deveria estar funcionando a Biblioteca Pública Estadual, mas por enquanto, as salas continuam vazias. O governo informou que a inauguração da obra, que custou R$ 4,9 milhões, está dependendo da compra de móveis, equipamentos e acervo bibliográfico, que sequer foram licitados.
Sem exotismo, repórter Genival Moura, do G1, expõe um Acre real. Clique aqui e leia mais.
Meu comentário
Escola fechada por falta de água, biblioteca sem livros, carros da polícia sem sirene, giroflex e xadrez (leia) e eu a lembrar da declaração de Tom Zé, em setembro do ano passado:
- Rapaz, eu estive em Rio Branco! É indescritível. O Brasil tem braços pra leste e pra oeste. Nunca vi brasileiros tão brasileiros. Aquilo é uma espécie de futuro. As administrações têm alimentado o público com um largo programa cultural de artistas do Brasil e de fora, em diversas áreas. Biblioteca pra todo lado, crianças lendo, estudando, brincando. O Acre é um País do Primeiro Mundo. Se eu pudesse, moraria lá.
UMA VERGONHA
Inverno amazônico, Rio Acre cheio, aquifero debaixo da cidade, mas falta água potável até em escola pública. Foto de Hermington Franco mostra o portão da Escola de Ensino Infantil Alexandre dos Santos Leitão, no centro de Rio Branco, capital do Acre, considerado por alguns como o melhor lugar para se viver na Amazônia. Nesta sexta, a imprensa prefere dizer que temos equipamentos de última geração para captação de água.
quinta-feira, 14 de março de 2013
CRIME DA TELEXFREE CONTRA A ECONOMIA
Ministério da Fazenda diz que negócio da
organização sugere esquema de pirâmide financeira, o que é crime contra a
economia popular, e pede investigação da Polícia Federal e do Ministério
Público
Leia nota de esclarecimento sobre as atividades da TelexFree:
"A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (Seae/MF) vem a público prestar os seguintes esclarecimentos sobre as atividades da empresa Ympactus Comercial Ltda. ME, conhecida pelo nome fantasia de Telexfree:
1. As operações da referida empresa NÃO configuram captação antecipada de poupança popular, que é modalidade descrita no art. 7º da Lei nº 5.768/71 e cuja autorização e fiscalização competem à Seae/MF. Desta forma, NÃO cabe à Seae autorizar nem fiscalizar as atividades da Telexfree em território nacional.
2. A descrição das atividades econômicas principal e secundária da empresa não a autorizam praticar atividades de comércio.
3. Não foi comprovada a parceria entre a Telexfree e operadoras de telefonia móvel ou fixa, o que seria necessário para garantir a prestação do serviço de VoIP (voice over IP), conforme ofertado pela empresa.
4. Com base nas informações prestadas pela empresa, a Seae/MF concluiu que estão presentes indícios de duas possíveis irregularidades na relação comercial entre a Telexfree e os divulgadores membros da rede da organização: i. o estímulo à economia informal e ii. a exigência de exercício de duas atividades laborais (como divulgador e como comerciante) para o recebimento de apenas uma.
5. A oferta de ganhos altos e rápidos proporcionados principalmente pelo recrutamento de novos entrantes para a rede, o pagamento de comissões excessivas, acima das receitas advindas de vendas de bens reais e a não sustentabilidade do modelo de negócio desenvolvido pela organização sugerem um esquema de pirâmide financeira, o que é crime contra a economia popular, tipificado no inciso IX, art. 2º, da Lei 1.521/51.
Ante o exposto, a Seae/MF encaminhará suas conclusões sobre a questão, contidas na Nota Técnica nº 25 COGAP/SEAE/MF, e o Parecer PGFN/CAF nº 422/2013 ao Departamento de Polícia Federal e à 3ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, para que aqueles órgãos, caso entendam necessário, promovam as devidas investigações sobre o caso.
Secretaria de Acompanhamento Econômico
Ministério da Fazenda"
Leia nota de esclarecimento sobre as atividades da TelexFree:
"A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (Seae/MF) vem a público prestar os seguintes esclarecimentos sobre as atividades da empresa Ympactus Comercial Ltda. ME, conhecida pelo nome fantasia de Telexfree:
1. As operações da referida empresa NÃO configuram captação antecipada de poupança popular, que é modalidade descrita no art. 7º da Lei nº 5.768/71 e cuja autorização e fiscalização competem à Seae/MF. Desta forma, NÃO cabe à Seae autorizar nem fiscalizar as atividades da Telexfree em território nacional.
2. A descrição das atividades econômicas principal e secundária da empresa não a autorizam praticar atividades de comércio.
3. Não foi comprovada a parceria entre a Telexfree e operadoras de telefonia móvel ou fixa, o que seria necessário para garantir a prestação do serviço de VoIP (voice over IP), conforme ofertado pela empresa.
4. Com base nas informações prestadas pela empresa, a Seae/MF concluiu que estão presentes indícios de duas possíveis irregularidades na relação comercial entre a Telexfree e os divulgadores membros da rede da organização: i. o estímulo à economia informal e ii. a exigência de exercício de duas atividades laborais (como divulgador e como comerciante) para o recebimento de apenas uma.
5. A oferta de ganhos altos e rápidos proporcionados principalmente pelo recrutamento de novos entrantes para a rede, o pagamento de comissões excessivas, acima das receitas advindas de vendas de bens reais e a não sustentabilidade do modelo de negócio desenvolvido pela organização sugerem um esquema de pirâmide financeira, o que é crime contra a economia popular, tipificado no inciso IX, art. 2º, da Lei 1.521/51.
Ante o exposto, a Seae/MF encaminhará suas conclusões sobre a questão, contidas na Nota Técnica nº 25 COGAP/SEAE/MF, e o Parecer PGFN/CAF nº 422/2013 ao Departamento de Polícia Federal e à 3ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, para que aqueles órgãos, caso entendam necessário, promovam as devidas investigações sobre o caso.
Secretaria de Acompanhamento Econômico
Ministério da Fazenda"
quarta-feira, 13 de março de 2013
PAPA FRANCISCO É ARGENTINO
O Espírito Santo de Deus me atendeu em menos de 24 horas
Na noite de terça-feira escrevi no Twitter e no Facebook:
- Tomara que o novo papa seja argentino para que os brasileiros aprendam a amá-lo como a si mesmos.
O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é o novo papa da Igreja Católica.
Na noite de terça-feira escrevi no Twitter e no Facebook:
- Tomara que o novo papa seja argentino para que os brasileiros aprendam a amá-lo como a si mesmos.
O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é o novo papa da Igreja Católica.
DESISTO
Faz três dias que a cena incomoda: milhares de litros de água desperdiçados por causa de um cano estourado na travessa sem nome que existe atrás de minha casa.
Telefonei para todos os números disponíveis do Saerb (Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco).
Por último, apelei ao diretor do Saerb, Felismar Mesquita, que se recupera de cirurgia num hospital de Rio Branco.
Muito gentil, o diretor informou que todos os telefones do Saerb estão desativados.
Pediu para que fizesse contato com o serviço de atendimento no 0800-647-0195.
- O número discado não corresponde a um número de serviço ativo. Por favor consulte o serviço de informações - é a resposta.
Atualização às 14h05
Alguém do Saerb telefonou para saber o endereço, esclarecer que o problema no 0800 abrange os demais números, e prometer que o cano será vedado até o final do dia.
CARLOS COSTA, DIRETOR DA TELEXFREE
Caso consiga confiar no que ele diz, venda tudo o que possui e invista na TelexFree
terça-feira, 12 de março de 2013
Um acreano no comando da Telexfree
Sanderley Rodrigues de Vasconcelos, 41, acreano de Rio Branco, também conhecido como Sann ou San Rodrigues, é um dos homens no topo da pirâmide TelexFree. A empresa e divulgadores (veja) negam que faça parte da diretoria. Sanderley, San ou Sann Rodrigues, que se apresenta como empresário e jornalista, vive em Boston, nos Estados Unidos.
Casado, filho de Antônio Gomes de Vasconcelos Neto e Francisca Rodrigues de Mendonça, passou parte da infância em Xapuri e viveu no interior de São Paulo e no Espírito Santo.
- Conheci ele pequenininho, aqui em Xapuri, e jogávamos bola. Ele é filho de um seringalista conhecido pela alcunha de Porco, que foi assassinado na década de 1980, naquela série de assassinatos atribuídos a Darly e Alvarino Alves da Silva. O pai dele era um homem muito temido pelos seringueiros da região - recorda o radialista Raimari Cardoso.
Outro que lembra de Sanderley é o professor de economia Carlos Estevão Ferreira Castelo, da Universidade Federal do Acre.
- Por essa eu não esperava. Ele foi meu colega de infância em Xapuri.
Talvez isso possa explicar o fato de a empresa, que remunera por anúncios de VOIP (voz sobre IP) na internet, contar com mais de 12 mil divulgadores no Acre (veja), sendo, proporcionalmente, o Estado onde mais cresce.
Busquem no Google por Sanderley Rodrigues de Vasconcelos ou simplesmente Sann Rodrigues.
Atualização às 23h30
De Sanderley Vasconcelos em mensagem ao blog:
- Não faço parte do quadro societário nem da empresa Ympactus (Telexfree no Brasil) e nem da Telexfree Inc (Telexfree nos EUA). Apenas para clarificar: não estou no topo de nenhuma pirâmide e nem no comando. Minha intenção foi apenas mostrar a sede da empresa aqui nos Estados Unidos. Sou empresário nos segmentos de imóveis, comunicação, eventos e investimentos.
segunda-feira, 11 de março de 2013
TELEXFREE: O GOLPE DO SÉCULO
POR LUIS NASSIF
Nos próximos dias, provavelmente, o esquema de pirâmide da TelexFree será desbaratado e seus mentores detidos. É possível que seus bens (visíveis) sejam bloqueados. Mas terá sido em vão para mais de um milhão de pessoas que caíram no mais abrangente golpe financeiro da história do país. Apenas em 2012, o esquema movimentou R$ 300 milhões.
Durante semanas o Ministério Público ficou discutindo se o tema era da alçada federal ou estadual. A Polícia imersa em indagações se era crime contra a economia popular, portanto afeita à Polícia Civil, ou crime mais abrangente, de responsabilidade da Polícia Federal.
Enquanto pipocavam notícias de todo o país, de famílias vendendo até casa própria para aplicar no golpe, o Banco Central indagava-se se deveria entrar na parada, já que a TelexFree mexe com poupança popular mas não é uma instituição financeira. E a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) dizia que, só após provocada, faria alguma manifestação. Desde janeiro a Secretaria Nacional de Direito do Consumidor está perdida, analisando um produto que é auto-definível: basta analisar o modelo de vendas para saber se é golpe.
Na era da Internet, há necessidade de se montar procedimentos rápidos para evitar a explosão dos prejuízos populares. Para tal, é importante entender como foi montado o golpe
Os golpes clássicos com pirâmide
Os golpes com pirâmides são antigos e obedecem, quase sempre, à mesma lógica.
1. Escolhe-se um produto qualquer . E monta-se uma primeira lista de supostos vendedores com 10 nomes. Como o trapaceiro está iniciando o processo, provavelmente os 9 primeiros nomes da lista são clientes fantasmas, criados por ele.
2. As dez pessoas que receberam a lista, pagam o bônus para o primeiro da lista. Depois, montam uma nova lista, na qual o primeiro nome é excluído e a pessoa coloca o seu próprio nome no 10o lugar.
3. A nova lista é vendida para novas dez pessoas que pagam o primeiro da lista e montam novas listas, incluindo seu nome no 10o lugar. E o nome de quem vendeu para elas no 9o lugar.
4. Portanto, a primeira pessoa a quem a lista foi vendida terá que esperar nove rodadas, antes de começar a receber o retorno.
5. Quando chega sua vez, os primeiros compradores conseguem ganhar bom dinheiro, à custa dos que entraram depois. Cria-se a fantasia de que todos ficarão ricos. Ocorre que o crescimento da pirâmide é insustentável. Chegará uma hora em que não haverá mais incautos para adquirir a pirâmide e ela quebrará, deixando grande parte dos usuários no prejuízo bravo. Estudos estatísticos estimam que, em cada pirâmide, 88% dos participantes perderão dinheiro.
Leia mais no blog do Luis Nassif
Nos próximos dias, provavelmente, o esquema de pirâmide da TelexFree será desbaratado e seus mentores detidos. É possível que seus bens (visíveis) sejam bloqueados. Mas terá sido em vão para mais de um milhão de pessoas que caíram no mais abrangente golpe financeiro da história do país. Apenas em 2012, o esquema movimentou R$ 300 milhões.
Durante semanas o Ministério Público ficou discutindo se o tema era da alçada federal ou estadual. A Polícia imersa em indagações se era crime contra a economia popular, portanto afeita à Polícia Civil, ou crime mais abrangente, de responsabilidade da Polícia Federal.
Enquanto pipocavam notícias de todo o país, de famílias vendendo até casa própria para aplicar no golpe, o Banco Central indagava-se se deveria entrar na parada, já que a TelexFree mexe com poupança popular mas não é uma instituição financeira. E a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) dizia que, só após provocada, faria alguma manifestação. Desde janeiro a Secretaria Nacional de Direito do Consumidor está perdida, analisando um produto que é auto-definível: basta analisar o modelo de vendas para saber se é golpe.
Na era da Internet, há necessidade de se montar procedimentos rápidos para evitar a explosão dos prejuízos populares. Para tal, é importante entender como foi montado o golpe
Os golpes clássicos com pirâmide
Os golpes com pirâmides são antigos e obedecem, quase sempre, à mesma lógica.
1. Escolhe-se um produto qualquer . E monta-se uma primeira lista de supostos vendedores com 10 nomes. Como o trapaceiro está iniciando o processo, provavelmente os 9 primeiros nomes da lista são clientes fantasmas, criados por ele.
2. As dez pessoas que receberam a lista, pagam o bônus para o primeiro da lista. Depois, montam uma nova lista, na qual o primeiro nome é excluído e a pessoa coloca o seu próprio nome no 10o lugar.
3. A nova lista é vendida para novas dez pessoas que pagam o primeiro da lista e montam novas listas, incluindo seu nome no 10o lugar. E o nome de quem vendeu para elas no 9o lugar.
4. Portanto, a primeira pessoa a quem a lista foi vendida terá que esperar nove rodadas, antes de começar a receber o retorno.
5. Quando chega sua vez, os primeiros compradores conseguem ganhar bom dinheiro, à custa dos que entraram depois. Cria-se a fantasia de que todos ficarão ricos. Ocorre que o crescimento da pirâmide é insustentável. Chegará uma hora em que não haverá mais incautos para adquirir a pirâmide e ela quebrará, deixando grande parte dos usuários no prejuízo bravo. Estudos estatísticos estimam que, em cada pirâmide, 88% dos participantes perderão dinheiro.
Leia mais no blog do Luis Nassif
MARCO FELICIANO E A MALDIÇÃO DE CAM
POR JOZAFÁ BATISTA
A bíblia narra, em Gênesis 9:18-27, a maldição do patriarca Noé ao neto, Canaã. Noé foi flagrado bêbado e nu pelo filho, Cam, e, irritado, condenou o filho de Cam, Canaã, a ser escravo dos irmãos Cuxe, Mizraim e Pute e também dos tios Sem e Jafé.
Ainda segundo a bíblia, descendentes de Canaã se proliferaram em duas frentes: uma ocupou a região onde é hoje o Estado de Israel e outra foi para o sudeste da África. E é aqui onde a história fica interessante.
A escravidão, fenômeno antigo na história humana, ganhou força nas américas com a chegada dos europeus. A pilhagem dos recursos do novo continente enriqueceu as cortes europeias e exigiu que a igreja legitimasse o escravismo africano.
Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas, autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse na fuga de escravos.
O poder papal não justificava o fato político da escravidão com a narrativa bíblica sobre o desafortunado Canaã, embora as frentes missionárias nos países do Novo Mundo o fizessem. Uma carta do padre jesuíta Manuel da Nóbrega (1517-1570), por exemplo, afirma: “Por serdes descendentes de Can e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”.
Há uma dupla corruptela nesta narrativa. Primeiro: Noé amaldiçoou o neto, Canaã, e não o filho, Cam. Segundo: a maldição não foi hereditária, valendo apenas para Canaã.
A versão modificada do evento bíblico atravessou os séculos, confundindo inclusive alguns pesquisadores. Com a reforma protestante, a narrativa do genocídio hebreu à cidade de Canaã pelo general Josué, logo após a morte de Moisés, passou a ser atribuída à velha maldição. A escravidão de africanos, idem.
Atualizando a história, portanto: os descendentes de Cam que se estabeleceram no Oriente Médio foram assassinados para dar cumprimento à maldição (esta narrativa encontra-se no livro de Josué, na bíblia). O outro grupo, que ocupou partes da África, foi penalizado com o tráfico negreiro que devastou o continente.
É nesta versão que o pastor Marco Feliciano, hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, acredita e propaga. Como ele, muita gente está também convencida de que negros são o resultado de uma maldição, homossexuais são uma ameaça à família, sexo antes do casamento invoca a ira divina etc.
É outra questão, tema para outro artigo, mas a proliferação de crenças contrárias aos direitos humanos no âmbito religioso é um sintoma cristalino do preço que o Brasil paga, e vai pagar por alguns anos, da precarização do seu sistema educacional. Será necessário muito tempo, planejamento e investimentos para corrigir os estragos da agenda neoliberal que viabilizou, entre outras coisas, o protagonismo político de concepções fundamentalistas sobre a vida social. As forças que legitimaram Feliciano e seu eleitorado são as mesmas que, nos anos 80 e 90, levaram milhões ao desemprego e à miséria.
Há que se afirmar o básico, o caráter supra-religioso da democracia. Significa que democracia e religião podem conviver, mas a democracia não pode assimilar os valores morais de uma religião. Religiões abraâmicas têm enorme dificuldade de compreendê-lo, não foram criadas para isso. Não se consideram, por exemplo, opções de fé. Consideram-se, cada uma, verdades irrefutáveis com validade universal. Excetuadas as múltiplas interpretações pessoais, o indivíduo que professa outra crença é considerado, pelo religioso de ordem abraâmica, um condenado à danação eterna enquanto não se arrepender.
Este ponto de tensão, acentuado no caso do cristianismo pentecostal, não pode ser solucionado. Fazer com que os cristãos percebam que ele incentiva a exclusão, a miséria, a perda de direitos e outros problemas sociais, enquanto há recursos para combater tudo isso, é o grande desafio da geração atual. Não é muito difícil, para alguém racional, entender que é errado combater leis nacionais de controle da violência baseando-se na interpretação de uma religião, qualquer que seja.
Há momentos em que interpretações religiosas evidenciam a sua origem dedicada a dominar a consciência de povos inteiros em prol de um país conquistador qualquer.
Este é um desses momentos.
Por isso escrevi esse artigo.
Se você é cristão, pense nisso.
Do Blog do Jozafá
A bíblia narra, em Gênesis 9:18-27, a maldição do patriarca Noé ao neto, Canaã. Noé foi flagrado bêbado e nu pelo filho, Cam, e, irritado, condenou o filho de Cam, Canaã, a ser escravo dos irmãos Cuxe, Mizraim e Pute e também dos tios Sem e Jafé.
Ainda segundo a bíblia, descendentes de Canaã se proliferaram em duas frentes: uma ocupou a região onde é hoje o Estado de Israel e outra foi para o sudeste da África. E é aqui onde a história fica interessante.
A escravidão, fenômeno antigo na história humana, ganhou força nas américas com a chegada dos europeus. A pilhagem dos recursos do novo continente enriqueceu as cortes europeias e exigiu que a igreja legitimasse o escravismo africano.
Em 1452, o papa Nicolau V (1397-1455) emitiu a bula Dum Diversitas, autorizando os reis da Espanha e de Portugal a escravizarem não-cristãos. O papa mirava os povos do Oriente Médio, que resistiam ao evangelho e suas cruzadas, mas a medida beneficiou os traficantes negreiros a partir do século XV. Porém, desde 324 a igreja proibia, sob pena de excomunhão, que se ajudasse na fuga de escravos.
O poder papal não justificava o fato político da escravidão com a narrativa bíblica sobre o desafortunado Canaã, embora as frentes missionárias nos países do Novo Mundo o fizessem. Uma carta do padre jesuíta Manuel da Nóbrega (1517-1570), por exemplo, afirma: “Por serdes descendentes de Can e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”.
Há uma dupla corruptela nesta narrativa. Primeiro: Noé amaldiçoou o neto, Canaã, e não o filho, Cam. Segundo: a maldição não foi hereditária, valendo apenas para Canaã.
A versão modificada do evento bíblico atravessou os séculos, confundindo inclusive alguns pesquisadores. Com a reforma protestante, a narrativa do genocídio hebreu à cidade de Canaã pelo general Josué, logo após a morte de Moisés, passou a ser atribuída à velha maldição. A escravidão de africanos, idem.
Atualizando a história, portanto: os descendentes de Cam que se estabeleceram no Oriente Médio foram assassinados para dar cumprimento à maldição (esta narrativa encontra-se no livro de Josué, na bíblia). O outro grupo, que ocupou partes da África, foi penalizado com o tráfico negreiro que devastou o continente.
É nesta versão que o pastor Marco Feliciano, hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, acredita e propaga. Como ele, muita gente está também convencida de que negros são o resultado de uma maldição, homossexuais são uma ameaça à família, sexo antes do casamento invoca a ira divina etc.
É outra questão, tema para outro artigo, mas a proliferação de crenças contrárias aos direitos humanos no âmbito religioso é um sintoma cristalino do preço que o Brasil paga, e vai pagar por alguns anos, da precarização do seu sistema educacional. Será necessário muito tempo, planejamento e investimentos para corrigir os estragos da agenda neoliberal que viabilizou, entre outras coisas, o protagonismo político de concepções fundamentalistas sobre a vida social. As forças que legitimaram Feliciano e seu eleitorado são as mesmas que, nos anos 80 e 90, levaram milhões ao desemprego e à miséria.
Há que se afirmar o básico, o caráter supra-religioso da democracia. Significa que democracia e religião podem conviver, mas a democracia não pode assimilar os valores morais de uma religião. Religiões abraâmicas têm enorme dificuldade de compreendê-lo, não foram criadas para isso. Não se consideram, por exemplo, opções de fé. Consideram-se, cada uma, verdades irrefutáveis com validade universal. Excetuadas as múltiplas interpretações pessoais, o indivíduo que professa outra crença é considerado, pelo religioso de ordem abraâmica, um condenado à danação eterna enquanto não se arrepender.
Este ponto de tensão, acentuado no caso do cristianismo pentecostal, não pode ser solucionado. Fazer com que os cristãos percebam que ele incentiva a exclusão, a miséria, a perda de direitos e outros problemas sociais, enquanto há recursos para combater tudo isso, é o grande desafio da geração atual. Não é muito difícil, para alguém racional, entender que é errado combater leis nacionais de controle da violência baseando-se na interpretação de uma religião, qualquer que seja.
Há momentos em que interpretações religiosas evidenciam a sua origem dedicada a dominar a consciência de povos inteiros em prol de um país conquistador qualquer.
Este é um desses momentos.
Por isso escrevi esse artigo.
Se você é cristão, pense nisso.
Do Blog do Jozafá
sábado, 9 de março de 2013
TORRE TELEXFREE NO ACRE
Na frente da galeria do Barão da Torre, em Rio Branco
Com mais de 12 mil divulgadores, o Acre é, proporcionalmente, o Estado onde mais cresce a Telexfree, empresa que remunera por anúncios de VOIP (voz sobre IP) na internet.
Já existem, apenas em Rio Branco, 15 escritórios de cadastro e suporte da Telexfree, criados por seus divulgadores, no centro e na periferia da cidade.
Leia mais:
Telexfree: seja o “pato” (ou avestruz) do momento
Telexfree é fraude?
TelexFree: as lesmas contra as raposas cibernéticas
Ministério Público do Acre investiga Telexfree
O escritório com maior visibilidade e estrutura foi inaugurado há três semanas, em frente à Galeria Cunha, no centro da Rio Branco, e foi batizado de Torre Telexfree.
A galeria pertence ao ex-caminhoneiro Acyr Cunha, que se tornou um dos homens mais ricos do Acre como agiota.
Cunha é proprietário de outra torre bizarra construída nas proximidades do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco.
A torre possui heliponto que jamais foi homologado pela Aeronáutica por falhas técnicas.
O Barão da Torre, como gosta de ser chamado, é tão bizarro quanto a obra. O pé da torre, por exemplo, está reservado para ser o jazigo dele.
O projeto foi assinado pela arquiteta Marlúcia Cândida, atualmente primeira-dama do Acre.
A novidade da Torre Telexfree é que seu divulgador oferece parcelamento de adesão no cartão de crédito.
O negócio é tocado por Júnior Melo, 30, advogado, mais conhecido como Júnior Boca Cheia. Na eleição passada concorreu a vereador pelo PSB.
Ele era proprietário do restaurante Boca Cheia. Após a eleição, decidiu arriscar na Telexfree.
- Entrei em novembro, aderindo a um plano de R$ 2,8 mil. Queria dinheiro para pagar o consórcio do meu carro. A Telexfree atualmente paga todas as despesas de minha família. Fechei o restaurante porque a concorrência era grande e abri o escritório porque não sobrou nada para mim na gestão do novo prefeito de Rio Branco.
O Barão da Torre está por trás do negócio da Torre Telexfree?
- Não. A iniciativa é minha. Já fiz 20 cadastros. Sou apenas locatário do Acyr. Aliás, ele nem gostou do nome Torre Telexfree. Disse que Barão da Torre só existe um - responde Júnior Boca Cheia.
Com mais de 12 mil divulgadores, o Acre é, proporcionalmente, o Estado onde mais cresce a Telexfree, empresa que remunera por anúncios de VOIP (voz sobre IP) na internet.
Já existem, apenas em Rio Branco, 15 escritórios de cadastro e suporte da Telexfree, criados por seus divulgadores, no centro e na periferia da cidade.
Leia mais:
Telexfree: seja o “pato” (ou avestruz) do momento
Telexfree é fraude?
TelexFree: as lesmas contra as raposas cibernéticas
Ministério Público do Acre investiga Telexfree
O escritório com maior visibilidade e estrutura foi inaugurado há três semanas, em frente à Galeria Cunha, no centro da Rio Branco, e foi batizado de Torre Telexfree.
A galeria pertence ao ex-caminhoneiro Acyr Cunha, que se tornou um dos homens mais ricos do Acre como agiota.
Cunha é proprietário de outra torre bizarra construída nas proximidades do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco.
A torre possui heliponto que jamais foi homologado pela Aeronáutica por falhas técnicas.
O Barão da Torre, como gosta de ser chamado, é tão bizarro quanto a obra. O pé da torre, por exemplo, está reservado para ser o jazigo dele.
O projeto foi assinado pela arquiteta Marlúcia Cândida, atualmente primeira-dama do Acre.
A novidade da Torre Telexfree é que seu divulgador oferece parcelamento de adesão no cartão de crédito.
O negócio é tocado por Júnior Melo, 30, advogado, mais conhecido como Júnior Boca Cheia. Na eleição passada concorreu a vereador pelo PSB.
Ele era proprietário do restaurante Boca Cheia. Após a eleição, decidiu arriscar na Telexfree.
- Entrei em novembro, aderindo a um plano de R$ 2,8 mil. Queria dinheiro para pagar o consórcio do meu carro. A Telexfree atualmente paga todas as despesas de minha família. Fechei o restaurante porque a concorrência era grande e abri o escritório porque não sobrou nada para mim na gestão do novo prefeito de Rio Branco.
O Barão da Torre está por trás do negócio da Torre Telexfree?
- Não. A iniciativa é minha. Já fiz 20 cadastros. Sou apenas locatário do Acyr. Aliás, ele nem gostou do nome Torre Telexfree. Disse que Barão da Torre só existe um - responde Júnior Boca Cheia.
sexta-feira, 8 de março de 2013
UMA MULHER DE CORAGEM NO BRASIL
POR LEILA JALUL
Em 2007, em prestações suaves, mamãe comprou seu bilhete de passagem para o outro lado da vida, se é que ele existe. Abatida e preocupada, passei a ler e escrever com loucura. Fuga.
Os blogs ainda estavam na moda, na crista da onda, e foi através do sítio de Carlos Zamith, excelente juiz de direito amazonense, que ainda escreve o "Diário de um Juiz", que conheci o blog "Flavia, vivendo em coma", escrito por sua mãe Odele Souza.
Confesso que o drama vivido por Odele, por um tempo, desviou minha atenção. Saí do encegueiramento por minha mãe e passei a nutrir um sentimento de compaixão. Aliás, somente compaixão. Por mamãe, por Odele, por Flávia e, principalmente, por mim. Pensei em oferecer ajuda financeira as despesas. Só não ofereci pelo simples fato de também de ajuda eu precisar. Meu saldo bancário chegou muitas vezes ao vermelho sangrento. Mas não posso negar a vontade de.
Compaixão e ajuda financeira foram coisas que Odele jamais pediu. Em claras palavras rejeitava esses tipos de graciosidades. De piedade e cifras ela não precisava. Odele clamava por justiça contra o condomínio que, por irresponsabilidade, potencializou o sistema de limpeza da piscina, o que fez com que a sucção do ralo passasse a sugar 78% a mais do que deveria sugar, isto de acordo com perícia técnica realizada na piscina, por ordem judicial.
Aquele motor instalado na piscina de 95 cm de profundidade, onde Flavia nadava, era adequado para uma piscina de dimensões bem maiores. Superdimensionado para o tamanho daquela piscina, o motor causou uma sucção tão forte que cortou, em definitivo, a alegria e os passos da filha de Odele.
E foi assim que o “acidente” aconteceu. Flavia, aos dez anos de idade, teve os cabelos sugados pelo ralo da piscina. E o tipo de acidente que vitimou Flavia, continua, infelizmente, a matar pelo menos uma pessoa por ano no Brasil, onde as crianças são as maiores vítimas. Para mudar este quadro é que Odele se envolve dia a dia na luta por uma Projeto de Lei Federal de Segurança para as Piscinas do Brasil, com o objetivo de evitar que outras mães passem pela mesma dor que ela e que outras crianças não venham a ter o destino de Flavia.
Mamãe morreu aos 84 anos; a vida feliz de Flavia foi bruscamente interrompida aos dez. Em coma vigil, há quinze anos, sem direito a retorno. Bem cuidada por profissionais e pela mãe, Flavia é uma moça sadia, mas obviamente com as terríveis sequelas neurológicas deixadas por um acidente que poderia ter sido evitado, caso tivessem sido observados os cuidados com a segurança da piscina.
Odele exige dedicação de seus auxiliares. As pessoas que cuidam de Flavia precisam ser, além de profissionais competentes, pessoas carinhosas com sua filha. E há aqueles, felizmente, que com profissionalismo e carinho se dedicam à Flavia. O cabelereiro Ary vai uma vez por ano ajeitar o corte dos bonitos cabelos de Flavia. A mãe, respeitando o gosto da menina, mantém seus cabelos longos. As unhas de Flavia são pintadas e nelas coladas florzinhas, bem ao gosto das jovens de sua idade. Ao descer para o jardim para tomar sol, Flavia desce com as roupas combinando, pulseira, brincos e gargantilhas.
Desde o acidente, Flavia é atendida diariamente por fisioterapeutas e fonoaudiólogas. As consultas médicas quando possível, são feitas em casa. Quando não, são usados carros acessíveis que dão à Flavia maior comodidade no trajeto casa-hospital ou casa-consultas médicas.
Voltando ao blog, além de dinheiro e piedade, Odele recebeu ofertas de ajuda e um bom número de insultos. Propostas insinuantes de prática de eutanásia, milagres garantidos por fiéis de igrejas evangélicas e outras mais. Por sorte, o número de seguidores e amigos foi infinitamente maior. Houve dias de congestionamento na caixa de comentários. A história de Flavia atravessou fronteiras. Da Europa, principalmente, chegaram mensagens de conforto e solidariedade. E foi de Portugal que partiram caravelas de carinhos para a menina e para sua mãe. Fatyly, Isabel Filipe e Antônio Moreira, foram alguns amigos que perfilaram com Odele. Deste último, surgiu a ideia de preparar mensagens de voz para Flavia.
Esqueci de dizer que Flavia, pelo que observou Odele, tem a audição preservada e bastante aguçada. Odele descobriu isso ao perceber os sobressaltos de Flavia ao ouvir os latidos de Michele, a cadelinha da casa. E pela sutil mudança na expressão do rosto de Flavia, quando Odele lê as mensagens de Antônio. Flavia demonstra gostar e até esboça um leve sorriso ao ouvir a voz do amigo português. É que a voz de Antônio é sedosa e carregada de afeto com a menina a quem ele chama de Princesa. Vale a pena ouvir as palavras do bom professor português que ama a brasileirinha e a trata como a uma filha querida que está adormecida. Outras presenças infalíveis são a música ambiente e a leitura de textos juvenis.
Odele e as auxiliares de enfermagem se revezam para contar histórias para Flávia.
A grande imprensa descobriu o caso. E Odele, em busca de justiça, não deixou de mostrar as razões de sua luta. Mostrou, sim, mas preservando a imagem de Flavinha. Não deixou que filmassem sua menina de forma escancarada ou em close, como se diz, e nunca uma gravação de imagem foi permitida sem que Odele estivesse a postos, no controle de tudo.
Também nunca permitiu que lhe fizessem perguntas sobre sua vida pessoal com o argumento de que nenhum valor agregaria ao caso. Articulada, dona de uma serenidade invejável, Odele sabe portar-se diante das câmeras. Sabe dizer um sim e um não com a mesma naturalidade.
Foi Odele quem abriu o álbum de família e enviou as fotos que ilustram estas linhas - a minha modesta homenagem a dois belos exemplares do gênero feminino.
Faz algum tempo que, para não ficar repetitiva, Odele redirecienou o blog "Flavia, vivendo em coma". Continuar falando apenas de Flávia, pensou ela, não divulgaria sobre os cuidados que se deve ter com as crianças que utilizam piscinas, sejam elas públicas, sejam privadas. Ela sempre fez isso. Apenas acentuou e atentou mais para as necessidades de prevenção. E passou a noticiar muitos outros acidentes que aconteceram Brasil afora. E em outros países, também. A questão da má instalação de ralos deixou de ser o alvo central. Os cuidados com crianças e adolescentes viraram o foco. Também virou destaque a busca por uma legislação eficaz. O Brasil ainda não dispõe de regras básicas pertinentes.
Odele entrou na luta. Fez-se assessorar de técnicos de reconhecida competência e elaborou uma espécie de projeto para que, em Brasília, um deputado assumisse a paternidade e apresentasse em plenário uma proposta de lei para regular o uso de piscinas e o controle de técnicas na fabricação destas. Piscinas seguras e protegidas.
O deputado Darcísio Perondi comprou a sugestão mas o Projeto de Lei Federal de Segurança para as Piscinas do Brasil continua parado e sem qualquer atenção dos legisladores brasileiros, inclusive a do próprio autor. Uma lástima.
Na próxima semana, Odele estará representando o Brasil no Simpósio sobre Afogamentos, em Fort Lauderdale, Flórida. O evento acontecerá nos dias 13 a 15 de marco, na NDPA – National Drowning Prevention Alliance (Aliança Nacional de Prevenção de Afogamentos). Sua participação só será possível em função de assistência dos serviços home care, contratados para que a integridade de Flavia seja assegurada.
Neste março, quando se homenageia as mulheres, elegi Odele Souza, mãe de Flávia Belo de Souza, a mulher de coragem. A que não se permite deixar abater. A batalha de agora não é só por sua filha e sim pelos filhos de um país que não prioriza a atenção especial às suas crianças. O meu desejo é que não faltem forças para Odele, em cujas veias corre sangue nordestino. Dos bons.
Presto homenagens, ainda, a outras mulheres cuidadoras de seus entes queridos que, embora vivos, perderam a plenitude do viver.
"A vida sugada por um ralo de piscina", da jornalista Eliane Brum, é o melhor artigo sobre a luta de Odele por mais segurança nas piscinas do Brasil.
Leila Jalul é cronista acreana e mora no interior da Bahia
Em 2007, em prestações suaves, mamãe comprou seu bilhete de passagem para o outro lado da vida, se é que ele existe. Abatida e preocupada, passei a ler e escrever com loucura. Fuga.
Os blogs ainda estavam na moda, na crista da onda, e foi através do sítio de Carlos Zamith, excelente juiz de direito amazonense, que ainda escreve o "Diário de um Juiz", que conheci o blog "Flavia, vivendo em coma", escrito por sua mãe Odele Souza.
Confesso que o drama vivido por Odele, por um tempo, desviou minha atenção. Saí do encegueiramento por minha mãe e passei a nutrir um sentimento de compaixão. Aliás, somente compaixão. Por mamãe, por Odele, por Flávia e, principalmente, por mim. Pensei em oferecer ajuda financeira as despesas. Só não ofereci pelo simples fato de também de ajuda eu precisar. Meu saldo bancário chegou muitas vezes ao vermelho sangrento. Mas não posso negar a vontade de.
Compaixão e ajuda financeira foram coisas que Odele jamais pediu. Em claras palavras rejeitava esses tipos de graciosidades. De piedade e cifras ela não precisava. Odele clamava por justiça contra o condomínio que, por irresponsabilidade, potencializou o sistema de limpeza da piscina, o que fez com que a sucção do ralo passasse a sugar 78% a mais do que deveria sugar, isto de acordo com perícia técnica realizada na piscina, por ordem judicial.
Aquele motor instalado na piscina de 95 cm de profundidade, onde Flavia nadava, era adequado para uma piscina de dimensões bem maiores. Superdimensionado para o tamanho daquela piscina, o motor causou uma sucção tão forte que cortou, em definitivo, a alegria e os passos da filha de Odele.
E foi assim que o “acidente” aconteceu. Flavia, aos dez anos de idade, teve os cabelos sugados pelo ralo da piscina. E o tipo de acidente que vitimou Flavia, continua, infelizmente, a matar pelo menos uma pessoa por ano no Brasil, onde as crianças são as maiores vítimas. Para mudar este quadro é que Odele se envolve dia a dia na luta por uma Projeto de Lei Federal de Segurança para as Piscinas do Brasil, com o objetivo de evitar que outras mães passem pela mesma dor que ela e que outras crianças não venham a ter o destino de Flavia.
Mamãe morreu aos 84 anos; a vida feliz de Flavia foi bruscamente interrompida aos dez. Em coma vigil, há quinze anos, sem direito a retorno. Bem cuidada por profissionais e pela mãe, Flavia é uma moça sadia, mas obviamente com as terríveis sequelas neurológicas deixadas por um acidente que poderia ter sido evitado, caso tivessem sido observados os cuidados com a segurança da piscina.
Odele exige dedicação de seus auxiliares. As pessoas que cuidam de Flavia precisam ser, além de profissionais competentes, pessoas carinhosas com sua filha. E há aqueles, felizmente, que com profissionalismo e carinho se dedicam à Flavia. O cabelereiro Ary vai uma vez por ano ajeitar o corte dos bonitos cabelos de Flavia. A mãe, respeitando o gosto da menina, mantém seus cabelos longos. As unhas de Flavia são pintadas e nelas coladas florzinhas, bem ao gosto das jovens de sua idade. Ao descer para o jardim para tomar sol, Flavia desce com as roupas combinando, pulseira, brincos e gargantilhas.
Desde o acidente, Flavia é atendida diariamente por fisioterapeutas e fonoaudiólogas. As consultas médicas quando possível, são feitas em casa. Quando não, são usados carros acessíveis que dão à Flavia maior comodidade no trajeto casa-hospital ou casa-consultas médicas.
Voltando ao blog, além de dinheiro e piedade, Odele recebeu ofertas de ajuda e um bom número de insultos. Propostas insinuantes de prática de eutanásia, milagres garantidos por fiéis de igrejas evangélicas e outras mais. Por sorte, o número de seguidores e amigos foi infinitamente maior. Houve dias de congestionamento na caixa de comentários. A história de Flavia atravessou fronteiras. Da Europa, principalmente, chegaram mensagens de conforto e solidariedade. E foi de Portugal que partiram caravelas de carinhos para a menina e para sua mãe. Fatyly, Isabel Filipe e Antônio Moreira, foram alguns amigos que perfilaram com Odele. Deste último, surgiu a ideia de preparar mensagens de voz para Flavia.
Esqueci de dizer que Flavia, pelo que observou Odele, tem a audição preservada e bastante aguçada. Odele descobriu isso ao perceber os sobressaltos de Flavia ao ouvir os latidos de Michele, a cadelinha da casa. E pela sutil mudança na expressão do rosto de Flavia, quando Odele lê as mensagens de Antônio. Flavia demonstra gostar e até esboça um leve sorriso ao ouvir a voz do amigo português. É que a voz de Antônio é sedosa e carregada de afeto com a menina a quem ele chama de Princesa. Vale a pena ouvir as palavras do bom professor português que ama a brasileirinha e a trata como a uma filha querida que está adormecida. Outras presenças infalíveis são a música ambiente e a leitura de textos juvenis.
Odele e as auxiliares de enfermagem se revezam para contar histórias para Flávia.
A grande imprensa descobriu o caso. E Odele, em busca de justiça, não deixou de mostrar as razões de sua luta. Mostrou, sim, mas preservando a imagem de Flavinha. Não deixou que filmassem sua menina de forma escancarada ou em close, como se diz, e nunca uma gravação de imagem foi permitida sem que Odele estivesse a postos, no controle de tudo.
Também nunca permitiu que lhe fizessem perguntas sobre sua vida pessoal com o argumento de que nenhum valor agregaria ao caso. Articulada, dona de uma serenidade invejável, Odele sabe portar-se diante das câmeras. Sabe dizer um sim e um não com a mesma naturalidade.
Foi Odele quem abriu o álbum de família e enviou as fotos que ilustram estas linhas - a minha modesta homenagem a dois belos exemplares do gênero feminino.
Faz algum tempo que, para não ficar repetitiva, Odele redirecienou o blog "Flavia, vivendo em coma". Continuar falando apenas de Flávia, pensou ela, não divulgaria sobre os cuidados que se deve ter com as crianças que utilizam piscinas, sejam elas públicas, sejam privadas. Ela sempre fez isso. Apenas acentuou e atentou mais para as necessidades de prevenção. E passou a noticiar muitos outros acidentes que aconteceram Brasil afora. E em outros países, também. A questão da má instalação de ralos deixou de ser o alvo central. Os cuidados com crianças e adolescentes viraram o foco. Também virou destaque a busca por uma legislação eficaz. O Brasil ainda não dispõe de regras básicas pertinentes.
Odele entrou na luta. Fez-se assessorar de técnicos de reconhecida competência e elaborou uma espécie de projeto para que, em Brasília, um deputado assumisse a paternidade e apresentasse em plenário uma proposta de lei para regular o uso de piscinas e o controle de técnicas na fabricação destas. Piscinas seguras e protegidas.
O deputado Darcísio Perondi comprou a sugestão mas o Projeto de Lei Federal de Segurança para as Piscinas do Brasil continua parado e sem qualquer atenção dos legisladores brasileiros, inclusive a do próprio autor. Uma lástima.
Na próxima semana, Odele estará representando o Brasil no Simpósio sobre Afogamentos, em Fort Lauderdale, Flórida. O evento acontecerá nos dias 13 a 15 de marco, na NDPA – National Drowning Prevention Alliance (Aliança Nacional de Prevenção de Afogamentos). Sua participação só será possível em função de assistência dos serviços home care, contratados para que a integridade de Flavia seja assegurada.
Neste março, quando se homenageia as mulheres, elegi Odele Souza, mãe de Flávia Belo de Souza, a mulher de coragem. A que não se permite deixar abater. A batalha de agora não é só por sua filha e sim pelos filhos de um país que não prioriza a atenção especial às suas crianças. O meu desejo é que não faltem forças para Odele, em cujas veias corre sangue nordestino. Dos bons.
Presto homenagens, ainda, a outras mulheres cuidadoras de seus entes queridos que, embora vivos, perderam a plenitude do viver.
"A vida sugada por um ralo de piscina", da jornalista Eliane Brum, é o melhor artigo sobre a luta de Odele por mais segurança nas piscinas do Brasil.
Leila Jalul é cronista acreana e mora no interior da Bahia
NEM TODOS ESTAMOS LOUCOS
POR VALDECIR NICÁCIO
Meu caro Altino,
Eu estava indignado com a reação insana daquela população que tentou linchar aquele ser humano (veja) acusado de estuprar uma criança. Quando li o noticiário, me senti uma espécie de ser humano de segunda categoria.
Aquele homem com o rosto deformado de pancadas, agindo passivamente diante daquelas pessoas sedentas de sangue, enquanto os policiais (na frente das câmeras) pareciam dar proteção.
Naquele momento pensei: é a falência das instituições que faz com que as pessoas cometam atos bestiais acreditando que estão fazendo justiça.
Quero lembrá-lo que este é o segundo caso em pouco mais de um mês.
No caso anterior, o acusado de matar a mulher e enterrá-la dentro da própria casa também foi vítima do ataque de fúria de populares.
Obtiveram mais "sucesso" e conseguiram decepar uma das mãos do acusado e quase decepam a outra mão, além de causar-lhe grandes ferimentos nas costelas, cabeça, tronco e membros inferiores.
Em razão do meu trabalho, poucos dias depois fui visitá-lo no presídio e lá me impressionei, não só pelas condições físicas do infeliz, mas por ser perceptível o grau de comprometimento mental do acusado.
Saí de lá horrorizado e perguntando a mim: Quem é mais doido? Quem está mais doente? Ele, que cometeu a loucura de matar a própria namorada, ou aquelas pessoas que se dizem sãs e saudáveis e fizeram aquelas atrocidades com ele? Então concluí que todos estão doentes.
O mais chocante é ver alguns colegas seus da imprensa fazendo apologia e incentivando atitudes como estas. Existem "jornalistas" que sentem orgasmos múltiplos quando falam de casos assim.
É compreensível, embora inadmissível, que o cidadão comum, que vive com insegurança pairando sobre suas cabeças e totalmente descrentes da possibilidade das instituições darem respostas às suas angústias, tome atitudes insanas e extremas, como fazer justiça pelas próprias mãos. Mas quando vemos formadores de opinião incentivando e tirando proveito político e econômico de tais situações, chegamos a concluir que estamos todos loucos.
Que bom que nem tudo está perdido, pois ainda temos pessoas como você e eu que não perdemos o sentido da vida nem o conceito do que é ser humano. Portanto, contente-se, nem todos estamos loucos.
Valdecir Nicácio é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Essex - Inglaterra
Meu caro Altino,
Eu estava indignado com a reação insana daquela população que tentou linchar aquele ser humano (veja) acusado de estuprar uma criança. Quando li o noticiário, me senti uma espécie de ser humano de segunda categoria.
Aquele homem com o rosto deformado de pancadas, agindo passivamente diante daquelas pessoas sedentas de sangue, enquanto os policiais (na frente das câmeras) pareciam dar proteção.
Naquele momento pensei: é a falência das instituições que faz com que as pessoas cometam atos bestiais acreditando que estão fazendo justiça.
Quero lembrá-lo que este é o segundo caso em pouco mais de um mês.
No caso anterior, o acusado de matar a mulher e enterrá-la dentro da própria casa também foi vítima do ataque de fúria de populares.
Obtiveram mais "sucesso" e conseguiram decepar uma das mãos do acusado e quase decepam a outra mão, além de causar-lhe grandes ferimentos nas costelas, cabeça, tronco e membros inferiores.
Em razão do meu trabalho, poucos dias depois fui visitá-lo no presídio e lá me impressionei, não só pelas condições físicas do infeliz, mas por ser perceptível o grau de comprometimento mental do acusado.
Saí de lá horrorizado e perguntando a mim: Quem é mais doido? Quem está mais doente? Ele, que cometeu a loucura de matar a própria namorada, ou aquelas pessoas que se dizem sãs e saudáveis e fizeram aquelas atrocidades com ele? Então concluí que todos estão doentes.
O mais chocante é ver alguns colegas seus da imprensa fazendo apologia e incentivando atitudes como estas. Existem "jornalistas" que sentem orgasmos múltiplos quando falam de casos assim.
É compreensível, embora inadmissível, que o cidadão comum, que vive com insegurança pairando sobre suas cabeças e totalmente descrentes da possibilidade das instituições darem respostas às suas angústias, tome atitudes insanas e extremas, como fazer justiça pelas próprias mãos. Mas quando vemos formadores de opinião incentivando e tirando proveito político e econômico de tais situações, chegamos a concluir que estamos todos loucos.
Que bom que nem tudo está perdido, pois ainda temos pessoas como você e eu que não perdemos o sentido da vida nem o conceito do que é ser humano. Portanto, contente-se, nem todos estamos loucos.
Valdecir Nicácio é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Essex - Inglaterra
quinta-feira, 7 de março de 2013
E AGORA, JOSÉ?
José Célio de Souza Lucas, 38, desempregado, pai de família. Mais uma vítima da irresponsabilidade da polícia e dos urubus da imprensa.
Suspeito de ter estuprado uma criança de sete anos na periferia de Rio Branco, foi quase linchado e teve o nome e o rosto estampados nos últimos dois dias nos veículos de comunicação do Acre.
Depois do massacre moral, não foi reconhecido pela criança como o estuprador alardeado por moradores, polícia e imprensa.
Desabafo de José Célio de Souza Lucas aos urubus da imprensa, após ter sido declarado inocente pela polícia nesta manhã:
- Agora eu quero justiça. Quero fazer todos os procedimentos de meu direito. Sou uma pessoa do bem, não tenho nenhuma passagem pela polícia. A minha vida é só trabalho e quem me conhece sabe. Minha imagem vai ficar suja e eu não quero. Tenho filhas e não faria uma coisa dessas.
Até o prestigiado G1 (veja) embarcou na canoa furada.
CARLOS ALBERTO ALVES DE SOUZA
Censurado por 17 anos, historiador quebra silêncio sobre matança no Acre
O historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza, acaba de lançar em Rio Branco a revista Pontos de Educação. Durante 17 anos, ele enfrentou um processo que se revelou escandaloso na justiça estadual por causa do livro didático "História do Acre", editado em 1992 pela M.M. Paim.
Por força de uma decisão liminar da juíza Maria Cezarinete, atual desembargadora e vice-presidente do Tribunal de Justiça, quatro mil exemplares da obra foram apreendidos e o julgamento do mérito protelado por quase duas décadas.
O polêmico trecho do livro teve origem em reportagem deste blogueiro, publicada em 1983 na imprensa do Acre, dando conta que o coronel de barranco Mâncio Lima (1875-1950), tratado como herói pela história oficial, havia se valido de correrias -matança organizada de índios- e do trabalho escravo da etnia poyanáwa para transformar a fazenda Barão, no extremo-oeste do país, em modelo de prosperidade da economia regional.
A longa reportagem, com fotos e depoimentos dos indígenas, iniciava assim:
"O velho índio poyanáwa Alberto Itxubãe jamais esqueceu aquela madrudgada de 1913, quando assistiu sua tribo acordar em pânico, sob o fogo cruzado de aproximadamente 50 rifles de repetição, acionados pelos homens do coronel de barranco Mâncio Agostinho Lima. Os assaltantes, cada um munido de uma centena de balas, atiraram todos juntos e à vontade. O curumim Itxubãe, que tinha cinco anos de idade, foi um dos poucos a conseguir escapar com vida daquele genocídio em moda na época pela ocupação do Acre e da Amazônia. Aqueles atiradores cumpriram fielmente as ordens do coronel, para que fossem poupadas mulheres e crianças".
Dois filhos do coronel ajuizaram uma ação na 2ª Vara Cível de Rio Branco, os livros foram apreendidos e o autor teve que responder por crime de injúria, difamação e calúnia, além de um pedido de indenização milionária. O caso ganhou repercussão nacional, mobilizou a comunidade acadêmica, a Associação Nacional de História Oral e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
Quando o processo teve início, Andressa Cibele, filha do historiador, tinha apenas cinco anos de idade, a mesa idade do curumim poyanáwa. Andressa cresceu, se formou em direito e foi quem assumiu a defesa do pai no processo que só foi julgado pela juíza Ivete Tabalipa em março de 2010.
A juíza avaliou que o livro não causou danos à imagem de Mâncio Lima, pois há relatos que a história ocorreu da forma contada. Além disso, considerou o fato de que, antes mesmo da obra ser publicada, diversos outros meios de comunicação relataram a história no mesmo sentido da que foi mencionada no livro.
- Essa mesma história tem versões distintas, dependendo do lado que se encontra, mas o direito de informação pertence a todos. Não se pode esconder uma versão da história, e a versão do historiador tem lastro nos inúmeros relatos mencionados, que não destoam. É a história contada e recontada com riqueza de detalhes por diversas pessoas – escreveu Ivete Tabalipa, que julgou a ação improcedente, condenou os filhos de Mâncio Lima ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios e pediu desculpas ao réu pela lentidão da Justiça na resolução do caso.
Na semana passada, quando lançou a revista, o historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza quebrou o silêncio sobre o tormento que viveu durante 17 anos de censura.
Na semana passada, quando lançou a revista, o historiador Carlos Alberto Alves de Souza quebrou o silêncio sobre o tormento que viveu durante 17 anos de censura.
Você lutou 17 anos pelo direito de publicar um livro. Como foi isso?
Na verdade foram 17 anos que ficamos sem contato com uma obra fisicamente, que foi publicada com dificuldades. Na época, o Manoel Paim era o editor e teve muito prejuízo, eu tive prejuízo também financeiro, pois tinha que me defender juridicamente. Como aquilo era o primeiro processo conta a minha pessoa, fiquei muito assustado. Não sabia onde aquilo iria dar. Os livros foram apreendidos. Investimento financeiro do editor e meu investimento de pesquisa, deixando público sem acesso.
Foram quantos anos de pesquisa?
Uns 15 anos de pesquisa. O mais interessante é que esse processo teve divulgação nacional e local também. Por causa disso, as pessoas passaram a procurar mais o livro. O termo correria, por exemplo, que é muito antigo, já era usado por outros estudiosos. Era um termo que as escolas não davam muito valor. O antropólogo Terri Vale de Aquino também usou esse termo. Até você, Altino, quando escreveu a reportagem tendo como base o trabalho do antropólogo. Acho importante que, a partir do processo da apreensão do livro, o termo correria começou a ser usado na escola.
A matança organizada de índios na Amazônia, sobretudo no Acre.
Na verdade foi uma revelação do que realmente ocorreu com os índios. Os heróis acreanos, as classes dominantes, tinham também as mão sujas. A história não era assim tão bonitinha como contavam. O processo despertou para outros debates. Passei a ser conhecido nacionalmente porque a Folha S. Paulo deu uma ênfase, a imprensa local também deu, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Então ficamos sem a obra circulando, mas em compensação o debate foi muito grande acerca disso. A Justiça nunca teve uma audiência para discutir isso. Simplesmente o processo aconteceu, o livro foi apreendido e ninguém ouviu nenhuma das partes. Depois de 17 anos, uma juíza chamou para uma audiência pediu desculpas em nome da Justiça pela apreensão do livro. A minha filha, que na época em que o livro foi apreendido tinha cinco anos de idade, foi minha advogada. O livro foi liberado e isso foi uma vitoria também da Andressa Cibele. Ela foi advogada e a minha testemunha foi o indigenista Antonio Macedo.
O processo era muito hostil. Em algum momento você chegou a se arrepender do livro?
Era mesmo muito hostil. Passei a ser hostilizado por setores da sociedade, mas também passei a ser conhecido por outras pessoas, que perguntavam nas ruas: Cadê o processo? E o livro? Apesar de todas as pressões, o processo ficou 17 anos parado. Mas eu não me arrependo. Fui muito inocente na época. Jamais imaginei que seria alvo de um processo daquela natureza. Eu poderia ter utilizado outra forma mais sutil para amplificar a denúncia, pois a denúncia não é minha. Foi feita por outras pessoas, como o Terri Vale de Aquino. Os índios também falavam sobre isso, só que ninguém dava atenção. Acredito que o processo visava muito mais a possibilidade de uma reparação financeira do que reparar a honra do coronel. Era muito mais para tentar ganhar dinheiro. Mas não me arrependo. Nos livros que passei a escrever, as denúncias são apresentadas sem citar nomes, para ninguém me processar mais. Uso agora um contexto mais geral.
O grande foco do livro era a figura do herói cultural Mâncio Lima.
A história oficial trata seus heróis muito mal. Trata de heróis só no público, mas não conta a história dos seus heróis na vida privada. Na vida privada, político ou governador, por exemplo, tem seus problemas, desilusões, ataques de fúria, problemas conjugais. Os pretensos heróis não são tratados na vida privada, só na vida pública. E eu tratei, expus a vida privada de um herói sacralizado na história oficial. Depois eles mesmo admitiram em livro, que usei como prova.
O que dizia o livro dos familiares do coronel?
Que eles mataram o cacique Napoleão. Era uma confissão no livro que eles escreveram. Havia também relatos de outras atrocidades. Contra os indígenas, sempre acontecem atrocidades. Mas olhando para trás, acho que a obra deu uma contribuição muito grande. Eu não esperava que ela estivesse essa conotação, mas teve.
Qual conotação?
De política, de mudar uma estrutura de como a história era contada, como passou a ser contada a partir dali, principalmente a história indígena no Acre. Eu não esperava essa conotação que teve com o processo. Durante um tempo a historiografia brasileira escamoteou muita coisa sobre os índios. A história indígena quase sempre foi contada a partir da história dos brancos. As histórias reais quase não são contadas nos livros didáticos até hoje. Independente da questão financeira, estava ali uma visão de história. Quem na verdade fez isso foi o antropólogo Terri Vale de Aquino. Li as obras dele, as entrevistas que dava nos jornais. Ninguém queria ler ou entender o antropólogo. A obra dele merece ser estuda mais e mais. Nem sei se o Terri Aquino quer isso, pois ele é meio arredio. O meu livro não é tão importante. O mais importante é a obra do Terri Aquino, que é anterior ao livro, e ninguém deu atenção. Terri Aquino está aí, vivo. Ele traz uma perspectiva nova da antropologia. Não é aquela perspectiva descritiva, mas uma antropologia que expõe o modo de vida das pessoas, das contradições dos índios.
O que fez após a liberação do livro pela Justiça?
Quando a edição foi apreendida, lancei logo a outra edição sem usar as denúncias diretas contra o coronel Mâncio Lima. Usei outros termos para fugir de processos, o que aprendi com jornalista. Processos judicias atrasam a vida da gente. Eu não ia ficar tentando quebrar o muro com a cabeça, mas as denúncias continuaram sem citar nomes. Acrescentei outros capítulos sobre violência, sobre mulheres.
Quantas edições?
O livro já está na décima edição. Meu livro, apesar do governo do Acre não reconhecer, muito menos a Biblioteca da Floresta dá atenção, já vendeu mais de cem mil cópias. É o best-seller do Acre. Só perco para o escritor amazonense Márcio Souza aqui na Amazônia. Em todo canto tem meu livro. Se eu tirar mil cópias agora, vendo amanhã as mil cópias. Todas as edições estão esgotadas e estão me pedindo mais.
O historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza, acaba de lançar em Rio Branco a revista Pontos de Educação. Durante 17 anos, ele enfrentou um processo que se revelou escandaloso na justiça estadual por causa do livro didático "História do Acre", editado em 1992 pela M.M. Paim.
Por força de uma decisão liminar da juíza Maria Cezarinete, atual desembargadora e vice-presidente do Tribunal de Justiça, quatro mil exemplares da obra foram apreendidos e o julgamento do mérito protelado por quase duas décadas.
O polêmico trecho do livro teve origem em reportagem deste blogueiro, publicada em 1983 na imprensa do Acre, dando conta que o coronel de barranco Mâncio Lima (1875-1950), tratado como herói pela história oficial, havia se valido de correrias -matança organizada de índios- e do trabalho escravo da etnia poyanáwa para transformar a fazenda Barão, no extremo-oeste do país, em modelo de prosperidade da economia regional.
A longa reportagem, com fotos e depoimentos dos indígenas, iniciava assim:
"O velho índio poyanáwa Alberto Itxubãe jamais esqueceu aquela madrudgada de 1913, quando assistiu sua tribo acordar em pânico, sob o fogo cruzado de aproximadamente 50 rifles de repetição, acionados pelos homens do coronel de barranco Mâncio Agostinho Lima. Os assaltantes, cada um munido de uma centena de balas, atiraram todos juntos e à vontade. O curumim Itxubãe, que tinha cinco anos de idade, foi um dos poucos a conseguir escapar com vida daquele genocídio em moda na época pela ocupação do Acre e da Amazônia. Aqueles atiradores cumpriram fielmente as ordens do coronel, para que fossem poupadas mulheres e crianças".
Dois filhos do coronel ajuizaram uma ação na 2ª Vara Cível de Rio Branco, os livros foram apreendidos e o autor teve que responder por crime de injúria, difamação e calúnia, além de um pedido de indenização milionária. O caso ganhou repercussão nacional, mobilizou a comunidade acadêmica, a Associação Nacional de História Oral e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
Quando o processo teve início, Andressa Cibele, filha do historiador, tinha apenas cinco anos de idade, a mesa idade do curumim poyanáwa. Andressa cresceu, se formou em direito e foi quem assumiu a defesa do pai no processo que só foi julgado pela juíza Ivete Tabalipa em março de 2010.
A juíza avaliou que o livro não causou danos à imagem de Mâncio Lima, pois há relatos que a história ocorreu da forma contada. Além disso, considerou o fato de que, antes mesmo da obra ser publicada, diversos outros meios de comunicação relataram a história no mesmo sentido da que foi mencionada no livro.
- Essa mesma história tem versões distintas, dependendo do lado que se encontra, mas o direito de informação pertence a todos. Não se pode esconder uma versão da história, e a versão do historiador tem lastro nos inúmeros relatos mencionados, que não destoam. É a história contada e recontada com riqueza de detalhes por diversas pessoas – escreveu Ivete Tabalipa, que julgou a ação improcedente, condenou os filhos de Mâncio Lima ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios e pediu desculpas ao réu pela lentidão da Justiça na resolução do caso.
Na semana passada, quando lançou a revista, o historiador e professor Carlos Alberto Alves de Souza quebrou o silêncio sobre o tormento que viveu durante 17 anos de censura.
Na semana passada, quando lançou a revista, o historiador Carlos Alberto Alves de Souza quebrou o silêncio sobre o tormento que viveu durante 17 anos de censura.
Você lutou 17 anos pelo direito de publicar um livro. Como foi isso?
Na verdade foram 17 anos que ficamos sem contato com uma obra fisicamente, que foi publicada com dificuldades. Na época, o Manoel Paim era o editor e teve muito prejuízo, eu tive prejuízo também financeiro, pois tinha que me defender juridicamente. Como aquilo era o primeiro processo conta a minha pessoa, fiquei muito assustado. Não sabia onde aquilo iria dar. Os livros foram apreendidos. Investimento financeiro do editor e meu investimento de pesquisa, deixando público sem acesso.
Foram quantos anos de pesquisa?
Uns 15 anos de pesquisa. O mais interessante é que esse processo teve divulgação nacional e local também. Por causa disso, as pessoas passaram a procurar mais o livro. O termo correria, por exemplo, que é muito antigo, já era usado por outros estudiosos. Era um termo que as escolas não davam muito valor. O antropólogo Terri Vale de Aquino também usou esse termo. Até você, Altino, quando escreveu a reportagem tendo como base o trabalho do antropólogo. Acho importante que, a partir do processo da apreensão do livro, o termo correria começou a ser usado na escola.
A matança organizada de índios na Amazônia, sobretudo no Acre.
Na verdade foi uma revelação do que realmente ocorreu com os índios. Os heróis acreanos, as classes dominantes, tinham também as mão sujas. A história não era assim tão bonitinha como contavam. O processo despertou para outros debates. Passei a ser conhecido nacionalmente porque a Folha S. Paulo deu uma ênfase, a imprensa local também deu, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Então ficamos sem a obra circulando, mas em compensação o debate foi muito grande acerca disso. A Justiça nunca teve uma audiência para discutir isso. Simplesmente o processo aconteceu, o livro foi apreendido e ninguém ouviu nenhuma das partes. Depois de 17 anos, uma juíza chamou para uma audiência pediu desculpas em nome da Justiça pela apreensão do livro. A minha filha, que na época em que o livro foi apreendido tinha cinco anos de idade, foi minha advogada. O livro foi liberado e isso foi uma vitoria também da Andressa Cibele. Ela foi advogada e a minha testemunha foi o indigenista Antonio Macedo.
O processo era muito hostil. Em algum momento você chegou a se arrepender do livro?
Era mesmo muito hostil. Passei a ser hostilizado por setores da sociedade, mas também passei a ser conhecido por outras pessoas, que perguntavam nas ruas: Cadê o processo? E o livro? Apesar de todas as pressões, o processo ficou 17 anos parado. Mas eu não me arrependo. Fui muito inocente na época. Jamais imaginei que seria alvo de um processo daquela natureza. Eu poderia ter utilizado outra forma mais sutil para amplificar a denúncia, pois a denúncia não é minha. Foi feita por outras pessoas, como o Terri Vale de Aquino. Os índios também falavam sobre isso, só que ninguém dava atenção. Acredito que o processo visava muito mais a possibilidade de uma reparação financeira do que reparar a honra do coronel. Era muito mais para tentar ganhar dinheiro. Mas não me arrependo. Nos livros que passei a escrever, as denúncias são apresentadas sem citar nomes, para ninguém me processar mais. Uso agora um contexto mais geral.
O grande foco do livro era a figura do herói cultural Mâncio Lima.
A história oficial trata seus heróis muito mal. Trata de heróis só no público, mas não conta a história dos seus heróis na vida privada. Na vida privada, político ou governador, por exemplo, tem seus problemas, desilusões, ataques de fúria, problemas conjugais. Os pretensos heróis não são tratados na vida privada, só na vida pública. E eu tratei, expus a vida privada de um herói sacralizado na história oficial. Depois eles mesmo admitiram em livro, que usei como prova.
O que dizia o livro dos familiares do coronel?
Que eles mataram o cacique Napoleão. Era uma confissão no livro que eles escreveram. Havia também relatos de outras atrocidades. Contra os indígenas, sempre acontecem atrocidades. Mas olhando para trás, acho que a obra deu uma contribuição muito grande. Eu não esperava que ela estivesse essa conotação, mas teve.
Qual conotação?
De política, de mudar uma estrutura de como a história era contada, como passou a ser contada a partir dali, principalmente a história indígena no Acre. Eu não esperava essa conotação que teve com o processo. Durante um tempo a historiografia brasileira escamoteou muita coisa sobre os índios. A história indígena quase sempre foi contada a partir da história dos brancos. As histórias reais quase não são contadas nos livros didáticos até hoje. Independente da questão financeira, estava ali uma visão de história. Quem na verdade fez isso foi o antropólogo Terri Vale de Aquino. Li as obras dele, as entrevistas que dava nos jornais. Ninguém queria ler ou entender o antropólogo. A obra dele merece ser estuda mais e mais. Nem sei se o Terri Aquino quer isso, pois ele é meio arredio. O meu livro não é tão importante. O mais importante é a obra do Terri Aquino, que é anterior ao livro, e ninguém deu atenção. Terri Aquino está aí, vivo. Ele traz uma perspectiva nova da antropologia. Não é aquela perspectiva descritiva, mas uma antropologia que expõe o modo de vida das pessoas, das contradições dos índios.
O que fez após a liberação do livro pela Justiça?
Quando a edição foi apreendida, lancei logo a outra edição sem usar as denúncias diretas contra o coronel Mâncio Lima. Usei outros termos para fugir de processos, o que aprendi com jornalista. Processos judicias atrasam a vida da gente. Eu não ia ficar tentando quebrar o muro com a cabeça, mas as denúncias continuaram sem citar nomes. Acrescentei outros capítulos sobre violência, sobre mulheres.
Quantas edições?
O livro já está na décima edição. Meu livro, apesar do governo do Acre não reconhecer, muito menos a Biblioteca da Floresta dá atenção, já vendeu mais de cem mil cópias. É o best-seller do Acre. Só perco para o escritor amazonense Márcio Souza aqui na Amazônia. Em todo canto tem meu livro. Se eu tirar mil cópias agora, vendo amanhã as mil cópias. Todas as edições estão esgotadas e estão me pedindo mais.
quarta-feira, 6 de março de 2013
HORA DO PLANETA 2013
Rio Branco (AC) é a primeira grande cidade da região amazônica a aderir à Hora do Planeta 2013 - ato simbólico, promovido no mundo todo pela Rede WWF, no qual governos, empresas e a população demonstram a sua preocupação com o aquecimento global, apagando luzes durante sessenta minutos.
O município de Rio Branco enviou nesta quarta-feira (6) o termo de adesão assinado pelo prefeito Marcus Alexandre (PT) em que ele confirma quais ícones da cidade serão apagados.
Segundo o prefeito, a estátua de Plácido de Castro e o Monumento aos Heróis Desconhecidos, ambos na Praça da Revolução, a fachada da prefeitura e a sede de todas as secretarias municipais serão apagadas no sábado 23 de março, por sessenta minutos, entre 20h30 e 21h30.
No mês passado, a imprensa local noticiou que o Acre ficou em média 5,4 horas sem energia em 2012, de acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
As interrupções no fornecimento de energia totalizaram 65,82 horas, sendo pior do que em 2011, quando o Acre permaneceu 46,23 horas sem energia.
A Rede WWF assinala que o Acre é identificado com a luta pela sustentabilidade, tem 100% do território inserido na Amazônia e sofre diretamente qualquer impacto da ingerência humana na floresta.
Rio Branco é a terceira capital brasileira a aderir a Hora do Planeta 2013, junto com Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF).
O município de Rio Branco enviou nesta quarta-feira (6) o termo de adesão assinado pelo prefeito Marcus Alexandre (PT) em que ele confirma quais ícones da cidade serão apagados.
Segundo o prefeito, a estátua de Plácido de Castro e o Monumento aos Heróis Desconhecidos, ambos na Praça da Revolução, a fachada da prefeitura e a sede de todas as secretarias municipais serão apagadas no sábado 23 de março, por sessenta minutos, entre 20h30 e 21h30.
No mês passado, a imprensa local noticiou que o Acre ficou em média 5,4 horas sem energia em 2012, de acordo com dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
As interrupções no fornecimento de energia totalizaram 65,82 horas, sendo pior do que em 2011, quando o Acre permaneceu 46,23 horas sem energia.
A Rede WWF assinala que o Acre é identificado com a luta pela sustentabilidade, tem 100% do território inserido na Amazônia e sofre diretamente qualquer impacto da ingerência humana na floresta.
Rio Branco é a terceira capital brasileira a aderir a Hora do Planeta 2013, junto com Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF).
sexta-feira, 1 de março de 2013
HAUX
"Olho do cu de quem escreve ou fala sem saber"
Indígenas e não indígenas, quase todos new ages de dentro e fora do Acre, inventaram de usar o termo "haux" em tudo que dizem ou escrevem.
A meu pedido, a indigenista Libia Almeida obteve de Tuwe Hunikuin explicação para "haux":
- Os kaxinawá e os yawanawá usam o "haux" de forma diferente. Para nós, haux foi o primeiro som emitido pela jibóia, que é o ser do qual cosmologicamente se origina o povo huni kuin (Kaxinawa) e também é o ser que ensinou a medicina ao povo. O haux, há muitos anos atrás, era usado só pelo pajé ao iniciar e finalizar um canto ou trabalho de cura, como sendo uma saudação às pessoas e uma saudação à dimensão espiritual, usando a linguagem da jibóia. Com o tempo o "haux" se tornou um termo mais flexível e de uso comum, significando um cumprimento, uma saudação, uma confirmação ou um agradecimento.
Tuwe Hunikuin assinala que o povo yawanawá tradicionalmente não usa o termo haux no dia-a-dia, sendo uma palavra usada somente pelos pajés, ao final de trabalhos espirituais.
- Com o aumento do intercâmbio entre as diferentes etnias, os próprios yawanawá vem usando mais esse termo de forma flexível também. Está virando ou até mesmo já virou um ditado popular - acrescenta.
Indaguei a meu amigo Tashka Yawanawa sobre o significado de haux. Ele respondeu:
- É uma palavra sagrada para nosso povo e vem sendo banalizada pelos new ages. Falei sobre isso com o pajé Tatá, que tem 95 anos. Bem sério, Tatá falou: "Haux é puinki natu de quem fala sem saber o que é". Traduzindo: o olho do cu de quem escreve ou fala sem saber o que é. E morremos de rir os dois.
Indígenas e não indígenas, quase todos new ages de dentro e fora do Acre, inventaram de usar o termo "haux" em tudo que dizem ou escrevem.
A meu pedido, a indigenista Libia Almeida obteve de Tuwe Hunikuin explicação para "haux":
- Os kaxinawá e os yawanawá usam o "haux" de forma diferente. Para nós, haux foi o primeiro som emitido pela jibóia, que é o ser do qual cosmologicamente se origina o povo huni kuin (Kaxinawa) e também é o ser que ensinou a medicina ao povo. O haux, há muitos anos atrás, era usado só pelo pajé ao iniciar e finalizar um canto ou trabalho de cura, como sendo uma saudação às pessoas e uma saudação à dimensão espiritual, usando a linguagem da jibóia. Com o tempo o "haux" se tornou um termo mais flexível e de uso comum, significando um cumprimento, uma saudação, uma confirmação ou um agradecimento.
Tuwe Hunikuin assinala que o povo yawanawá tradicionalmente não usa o termo haux no dia-a-dia, sendo uma palavra usada somente pelos pajés, ao final de trabalhos espirituais.
- Com o aumento do intercâmbio entre as diferentes etnias, os próprios yawanawá vem usando mais esse termo de forma flexível também. Está virando ou até mesmo já virou um ditado popular - acrescenta.
Indaguei a meu amigo Tashka Yawanawa sobre o significado de haux. Ele respondeu:
- É uma palavra sagrada para nosso povo e vem sendo banalizada pelos new ages. Falei sobre isso com o pajé Tatá, que tem 95 anos. Bem sério, Tatá falou: "Haux é puinki natu de quem fala sem saber o que é". Traduzindo: o olho do cu de quem escreve ou fala sem saber o que é. E morremos de rir os dois.
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