terça-feira, 30 de abril de 2013

Céu azul, mogno, lua e pássaro

Às 8h39 da manhã desta terça, na frente da casa

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Biblioteca da Floresta fechada para estudantes por "fatores climáticos"

Diretor Marcus Afonso contesta 


Cantada em verso e prosa pela propaganda do governo do Acre como "referência em pesquisas sobre a Amazônia", a Biblioteca da Floresta, em Rio Branco, está parcialmente fechada por causa de uma manutenção do aparelho condicionador de ar que já dura mais de cinco meses.

O blog recebeu mensagem e foto enviadas por alguém que faz parte de um grupo de estudantes para concursos, que pediu para que o nome seja omitido.

Veja a mensagem:

"Estávamos contentes por poder utilizar a sala de estudos da Biblioteca da Floresta, até quando começou o problema de aparelho de ar-condicionado em todo o prédio.

Ocorreu, por exemplo, de ficarmos com uma goteira dentro da sala de estudo, com um balde no meio da sala, fazendo aquele barulhinho gostoso que você pode imaginar.

Depois, desabou um pedaço do forro da sala de estudo. Após alguns dias, foi colocado um tampão provisório, e desde então os problemas estão aumentando.

A administração da biblioteca disponibilizou outro espaço na parte superior, mas, mesmo com toda determinação e vontade de estudar, ficava difícil, pois o calor era quase insuportável.

Os servidores reclamam discretamente, mas não podem fazer nada, pois sofrem do mesmo jeito e temem represálias caso a situação seja exposta publicamente.

Os problemas já duram mais de cinco meses e, por último, foi colocado um aviso na entrada, explicando que a biblioteca não está mais recebendo estudantes por falta de ar condicionado.

Um espaço tão bom sem poder ser usado por causa do ar-condionado?

Nos informam que que não existe previsão sobre quando o problema será solucionado porque ainda terão que realizar licitação. Mas neste caso, creio que a tal licitação seja dispensável, em razão do valor e da necessidade de urgência.

Espero que isso seja de interesse do seu blog, pois muita gente necessita da biblioteca. Todos nós já mandamos recados em vão para algumas pessoas ligadas ao governo do Acre, mas fica evidente que não existe interesse em resolver.

Estamos nos valendo agora de seu blog porque sabemos que o governador Tião Viana é um dos principais leitores.  Caso o problema não seja mesmo resolvido, ficará evidente que nosso voto não interessa a eles, pois não somos alienados."

Atualização às 14h41 - Diretor da Biblioteca da Floresta

"Amigo Altino, boa tarde!...

Inicialmente, a Biblioteca da Floresta NÃO está fechada.

Atendemos visitações para as atuais exposições, mantemos as atividades no Auditório e na Sala de Estudos. Desativamos, temporariamente (dia 17 deste mês - e não cinco meses) a Sala de Leitura e Multimídia, apenas, por conta do clima e segurança dos equipamentos.

Nossos usuários compreendem a situação.

Estamos, sim, providenciando a resolução do problema com o devido cuidado e atenção do Governador Tião Viana e da nossa Fundação de Cultura. Por sermos éticos, devemos seguir os caminhos normais e legais para a questão.

Agradecemos o entendimento de todos e esperamos reabrir integralmente tão logo possível.

Um abraço,

Marcos Afonso
Diretor da Biblioteca da Floresta"

domingo, 28 de abril de 2013

Marina e Caetano

Marina Silva assistiu ao show Abraçaço no Grande Teatro do Palácio das Artes, na noite de sábado (27), em Belo Horizonte. Caetano Veloso assinou ficha de apoio à criação da Rede Sustentabilidade e publicou a foto no Instagram.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fogo continua em área de proteção ambiental

Prefeitura roçou vegetação nas margens da estrada Raimundo Irineu Serra, que atravessa área de proteção ambiental em Rio Branco, não removeu biomassa e fogo se alastra no início do verão amazônico.


Do Chico ao Pop

Jornalista Giselle Lucena, autora do livro "Do Chico ao Pop: jornalismo e cultura no Acre", participa nesta sexta-feira, a partir de 19h30, n'O Casarão, no centro de Rio Branco, de sarau organizado para marcar o lançamento da obra.

Trata-se de uma síntese competente da efervescência do jornalismo e do movimento cultural no Acre, a partir da biografia do saudoso jornalista Chico Pop.

Leitura necessária para constatar que em plena ditadura militar o Acre era mais criativo, livre e divertido.

Clique aqui para ler nota de Sérgio de Carvalho sobre a obra.

Fogo castiga área verde mais importante do ambiente urbano de Rio Branco

POR ROBERTA GRAF



Diariamente, vêm pessoas à minha casa, como moradora, fundadora e conselheira da Área de Proteção Ambiental (APA) Raimundo Irineu Serra, e como gestora ambiental. Vêm para reclamar contra a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semeia), que a APA não está cumprindo minimamente seu papel. E eu preciso, fazer o que estão me pedindo, embora, como conselheira, já tenha mandado alguns ofícios sem nem obter ao menos resposta.

Mal o verão amazônico começou, já ocorreram três incêndios de grande porte na mata área . Muito bom para uma unidade de conservação ambiental, não? E nós estamos dentro da cidade e bem pertinho da sede da Semeia. Por que tanto abandono?

Solicito, em caráter de urgência, algum exame de perícia de fogo no local (sei que existem alguns peritos nisto aqui em Rio Branco) para tentar ver de onde o fogo começou e pensar em medidas para impedir novos incêndios. Vou tentar ver isto aqui no Ibama, mas é necessário que a Semeia solicite formalmente, e logo, pois a perícia tem que ir imediatamente após a queimada. Deve haver peritos no Instituto de Meio Ambiente do Acre e Corpo de Bombeiros - no Ibama creio que só existe um, que está viajando no momento.

Não sei porque os Bombeiros demoram tanto  para vir aqui dentro da cidade, apagar um fogo na beira da estrada. Ontem,  nossos brigadistas voluntários Irineu Cunha e Cleyton Cunha, os únicos que dispomos na APA, foram sozinhos com os equipamentos doados pelo Ibama apagar o fogo por volta das 23 horas. Isso não é possível continuar.

Ademais, volto a dizer que a nossa APA continua totalmente abandonada pelo órgão gestor, a Semeia. Tudo bem, sabemos: "tudo é difícil, falta dinheiro, isso e aquilo", mas tem limite. A APA já vai completar oito anos em junho. Até a primeira versão do Plano de Gestão ainda não foi oficializada. Aliás, apresentei uma densa análise a respeito cujo prazo era apertado (15 dias úteis logo junto ao Natal), há muito tempo (15 de janeiro) e nada de haver nem uma reunião de Conselho, nem ordinária, nem extraordinária, que até mereceria. Esta versão, inclusive (coisa que não fiz a análise) continha, ainda, numerosos erros de português, além dos erros e omissões técnicas (não muitos, mas alguns importantíssimos).

Da Semeia, Corpo de Bombeiros e demais órgãos envolvidos, precisamos de ação urgente e efetiva contra as queimadas e incêndios, e, claro, da comunidade: Associação de Moradores. Infelizmente, no Brasil, não dispomos de cultura de voluntariado, nem mesmo de ação comunitária organizada e na APA não fugimos à regra, ainda que sejamos, sim, um público unido por uma causa espiritualista - às vezes não parece. Somos engolidos pelo sistema capitalista escravizante como todo mundo.

Não aguentamos mais o lixo despejado na beira da nossa estrada diariamente, há muitos anos, em especial de couro e ossadas de boi, de algum açougue ou frigorífico. Não é possível que os órgãos ambientais não consigam pegar o infrator diário há mais de cinco anos. Como diz Antonio Alves, tem dia que nos sentimos até ameaçados por uma revolução de mais de uma centena de urubus no meio da estrada.

Não queremos aqueles loteamentos "Minha Casa Minha Vida" da Dilma no nosso entorno, precisamos nos mobilizar e ter força política para tentar impedí-lo. Este, além de trazer impactos ambientais seríssimos à área verde mais importante do ambiente urbano de Rio Branco, causará, sem dúvida, impactos sociais negativos como criminalidade (da qual, hoje ainda, graças a Deus, estamos praticamente livres) e sobrecarga nos já carentes serviços públicos.

É preciso com urgência embargar ou adequar os loteamentos recentes dentro da APA, todos clandestinos. Precisamos de tudo o mais: presença básica, efetiva e crescente da Semeia, melhoria do Conselho, adequação e implementação do Plano de Gestão. Precisamos que a APA saia do papel.

Roberta Graf  é engenheira florestal

Mais uma entrevista censurada no Acre por causa da exploração de petróleo e gás

POR OSWALDO SEVÁ
 


Por duas vezes, no último ano, fui procurado pelo repórter Duaine Rodrigues, de Rio Branco, para conceder entrevista sobre o avanço da prospecção de petróleo e gás na região - a primeira em fevereiro de 2012, com a promessa de que a entrevista seria publicada em A Tribuna. Não foi. Após aguardar dois meses, pedi ao jornalista Altino Machado a gentileza de publicar a entrevista no seu blog, o que aconteceu (leia) em junho. O repórter até agradeceu ter sido mantido "em sigilo" o nome dele, o que mostra que somos gente correta.

Na segunda vez, o mesmo repórter me procura, um ano depois, dizendo que a entrevista seria publicada no portal G1. Semanas depois, questionei a falta da publicação, e ele explicou que estavam aguardando as respostas oficiais aos quesitos que foram enviados pelo portal G1 à Agencia Nacional do Petróleo (ANP), que seriam apresentadas "em contraponto" às minhas respostas. Passados dois meses, pedi novamente esclarecimentos, e, há quatro dias, estou sem qualquer explicação.

Posso supor, até prova em contrário, que, nos dois casos, minhas respostas tiveram sim a função de "informar o outro lado", ou seja: os governos estaduais e políticos petistas que embarcaram cegamente nessa coisa do petróleo, e a própria ANP, que está promovendo a etapa de prospecção no Alto Juruá, Acre, e no Alto Javari, no Amazonas, sem nunca ter incluído oficialmente esses perímetros nos seus "leilões", que vão esse ano para a 11ª rodada, cada vez mais contestados e mal afamados.

Aqui está a minha segunda entrevista censurada no Acre, terrinha tão querida. Isso talvez possa clarear um pouco a cabeça dos leitores que ainda não se entregaram à visão inebriante do suposto dinheiro fácil do "ouro negro".  Talvez possamos dar uma pequena força àqueles que desconfiam das mentiras propagandeadas pela oligarquia que comanda quase tudo, detesta e persegue quem ainda pensa de modo independente.

Meu "site" (veja) andou um pouco desatualizado, por motivos de saúde do redator, mas continua interessante para quem ainda não conhece e para quem consultou há alguns meses e não retornou.

Nota do blog Arsenio Oswaldo Sevá Filho é professor dos cursos de doutorado em Ciências Sociais e em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Sevá informa que a entrevista a seguir foi concedida por e-mail em 16 e 19 de fevereiro de 2013.


Quais impactos podem sofrer as populações que vivem nas regiões onde estão sendo realizados os estudos?
 
Todas as pessoas residentes nas áreas onde são feitos sobrevoos, coletas de solo para análise e a exploração chamada de “sísmica” ficam sujeitas aos transtornos e aos eventos usuais dessa atividade em qualquer parte do mundo. Isso inclui desde assustar pessoas desprevenidas, espantar os animais e prejudicar a caça, a abertura de pontos de pouso de aeronaves e de picadas e estradas na selva, até os efeitos da “invasão” dos locais por operários e técnicos vindos de fora e que ali ficam por curtos períodos. Infelizmente, é uma indústria arrogante e que age sempre na pressa e frequentemente  ignorando os direitos dos moradores, ou seja, age na ilegalidade ou na sua franja.

Esta semana foi anunciado que encontraram sinais de hidrocarboneto perto de uma aldeia. Que tipo de consequências podem acontecer a partir dessa informação?

O “anúncio” feito, se podemos nos basear pela matéria do G1 de 13 de fevereiro é uma peça meramente publicitária e incoerente, não menciona nenhuma pessoa que tenha dito que encontrou indícios físicos da algum hidrocarboneto. Nas atividades da empresa Georadar é impossível obter indícios de óleo, pois são sobrevoos, coletas de material no solo e a chamada “sísmica”. Segundo a matéria, o coordenador da Funai é que afirmou que os índios Poianaua “colheram amostras de liquido oleoso” em poços abertos pela Petrobrás há 20 anos. Como assim ? o liquido estava na superfície? O poço não estava tampado?   “Índio colher amostra” já é em si algo estranho, e nesse caso, não tem nada a ver com a fase de prospecção atual feita pelo Georadar. A conseqüência dessa divulgação é uma só: é o próprio objetivo da divulgação, dar o tiro de partida para o assédio sobre os índios, visando fragilizá-los, flexibilizá-los, dividi-los, não somente os Poianaua mas todos os demais na região do Juruá, no Acre e no Amazonas. É a ponta de um novelo terrível, que seria a “liberação” das terras da União dentro dos perímetros indígenas e de unidades de conservação para a exploração econômica, do petróleo, de ouro, hidrelétrica, madeireira. Para isso, está sendo mexido no Código da Mineração e em todo o aparato legal para impor os tais “projetos estratégicos” do capitalismo no meio da selva.

Esse tipo de estudo já acontece na Amazônia desde a década de 70, pelo menos. O senhor acredita que o resultado pode chegar a representar futuramente um retorno comercial que compense os prejuízos causados pela prospecção?

Não tenho acesso aos dados para poder responder. A indústria petrolífera busca sempre hidrocarbonetos e informação sobre o subsolo; é isso que está sendo feito é para um trabalhoso mapa de informações sobre o subsolo da bacia sedimentar do Juruá, do lado brasileiro, pois do lado peruano a coisa já está bem mais avançada. Se um dia encontrarem óleo ou gás com qualidade e quantidade suficientes para a exploração comercial, aí a coisa muda de figura, pois tem que ser resolvido para onde e como esse material será despachado para processamento e posterior venda dos derivados. Basta acompanhar como foi em Urucu, no centro do Amazonas, desde a primeira grande descoberta, em 1986, para se ter uma ideia da complexidade e dos longos tempos de execução. O gasoduto para Manaus, com pouco mais de 600 km de extensão, somente ficou pronto, operacional, em 2010, 2011. E só foi feito porque existe um grande mercado consumidor que são as usinas termelétricas.  Se for encontrado material de interesse comercial no Alto Juruá, no Acre, qualquer forma de despacho, seja para Manaus, ou para o Peru, será muitas vezes mais cara e com mais consequências danosas do que em Urucu.

A região amazônica é um local apropriado para se fazer esse tipo de estudo geofísico?

Para essa indústria, qualquer local onde o subsolo tenha uma camada sedimentar que sepultou matéria orgânica de centenas de milhões atrás é um local “apropriado”. A região amazônica ainda não destruída deveria ter outras destinações, inclusive econômicas e sociais. Infelizmente, o que está sendo feito atualmente, com o apoio explícito e a própria indução dos governos, é para extrair dela o máximo possível de minérios, combustíveis, eletricidade, princípios ativos e patrimônio genético.

O senhor acha que essa ação pode motivar empresas estrangeiras a tentarem se beneficiar com os mesmos recursos (estudos geofísicos) e assim deixar os nativos ainda mais suscetíveis aos riscos?

Na indústria petrolífera, não há nacionais e estrangeiros, toda ela é uma indústria internacionalizada; os dados dos estudos valem muito e entre a fase atual, a entrega de dados para a agência reguladora ANP e a futura inclusão dessas áreas nas licitações, instala-se uma verdadeira guerra de bastidores sobre as características do subsolo da região. Não apenas os chamados nativos mas, insisto, toda a população residente na área e no entorno estarão sempre sob risco, mesmo que a empresa tenha capital de maioria brasileira.

Se quiser comentar algo que considere relevante e não tenha sido abordado em qualquer uma das perguntas acima, fique a vontade.  Aguardarei sua resposta de retorno.

A exploração de petróleo e gás em diversos pontos da Amazônia já é uma realidade, em geral conflitiva. Basta acompanhar os casos de Camisea, no leste do Peru, da região de Puccalpa e do rio Napo, também no Peru,  de  Sucumbios e do parque Yasuni, no Equador, vários casos, na Colombia. Os leitores interessados deveriam ver com cuidado o que está acontecendo justamente agora, na fronteira Brasil-Peru, próximo da Serra do Divisor, no Alto Juruá e no Alto Purus, com a "invasão' da floresta por empresas de todo o mundo que fazem prospecção após as rodadas de "leilões" feitas pelos governos entreguistas de Toledo e de Garcia no país vizinho; e a batalha da Federação Indígena para limitar e bloquear os estragos e os conflitos. O fato da Petrobras divulgar o caso de Urucu, no Amazonas, como uma "vitrine" e viver levando comitivas para visitas completamente guiadas e controladas não cancela as consequências intrínsecas da exploração, por exemplo, um enorme volume de água de formação do petróleo, oleosa e bastante contaminada,  que é em geral descartada na rede superficial de igarapés e lagos. Que eu saiba nunca foi feita qualquer investigação independente nem uma  perícia judicial nas dezenas de poços abertos durante os últimos 25 anos, a maioria ainda em funcionamento, e nos rios próximos da região de Urucu, para se saber a extensão dos danos e dos riscos. Mas a simples consulta  mais pormenorizada das fotos de satelite do sistema Google Earth mostra  muitos indícios de problemas.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

NUVEM


O ACRE É UMA ONG

Do vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), em defesa da punição aos petistas que apoiam a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

— O partido tem que ter uma posição unificada, respeitar a posição da maioria. Tem que expulsar o Jorge Viana e trocar o líder.

Para ele, o fato de Viana ser amigo de Marina não é justificativa:

— Aquele estado (Acre) está parecendo uma ONG. A Dilma levou uma surra lá (em 2010) por causa desse charminho dele.

Quem primeiro afirmou que "o Acre é uma ONG" foi a economista Maria da Conceição Tavares, que sofreu severas críticas dos petistas acreanos por tal, principalmente de Jorge Viana.

Do jornalista Silvio Martinello, dono do jornal A Gazeta, em carta aberta (leia) ao então governador Jorge Viana, em 24 de abril de 2001:

- O Acre, governador, também não é o Taleban ou qualquer outra república fundamentalista. O Acre é um Estado pequeno ainda, onde todo mundo conhece todo mundo. Como disse a economista Maria da Conceição Tavares, o Acre tem para o país a importância de uma ONG.


Leia mais no Globo.

MEU NOME É MA

O fim melancólico do PT



POR ANTONIO ALVES

Bem que os antigos diziam que não se deve deixar para amanhã as obrigações de hoje. Por isso preciso agora, em regime de urgência, saudar publicamente a entrada do jornalista Altino Machado na confraria dos cinqüentões, ocorrida há mais de um mês. Nessa idade costuma haver um ganho de qualidade no trabalho. Pois desejo que para o Altino ele venha sem perda na agilidade, para que permaneça sendo o gatilho mais rápido do Oeste. E que traga novas brisas de suavidade, na forma de poesia.

Aproveito a oportunidade para corrigir outro atraso. Comentei no blog do Altino a recusa de Jorge Viana em assinar a ficha de apoio ao registro da Rede Sustentabilidade, partido que está sendo criado por Marina Silva, Heloisa Helena e outros renomados ou anônimos militantes das causas socioambientais. Pois se comentei a recusa deveria ter reconhecido, sem atraso, que Jorge reviu sua posição de modo brilhante e convincente alguns dias depois. Não apenas assinou a lista como deu discurso no Senado e declarações à imprensa deixando claro seu respeito pela Rede, que considera um movimento legítimo de uma parcela importante da sociedade.

A política não tolera atrasos. As coisas andam com rapidez e agora estou curioso para ver como o senador Jorge Viana (PT-AC) vai enfrentar uma pressão inédita em sua vida política. Mas minha expectativa precisa relembrar o que houve nos últimos dias. Creio que todo mundo teve notícia do golpe que se armou no Congresso Nacional, mas para alguém que tenha se atrasado, como eu, vale repetir.

O Congresso parou tudo –varejo e atacado- para votar em “urgência urgentíssima” uma lei contra Marina Silva. Seu novo partido, a Rede Sustentabilidade, pode ficar sem acesso à verba de manutenção e quase sem tempo de propaganda em rádio e TV. Nas eleições de 2010, com o pequeno Partido Verde, Marina tinha um minuto e 23 segundos. Pela nova lei, seu tempo seria de 35 segundos e os deputados ainda acham muito: incluíram uma emenda que diminui para cerca de 11 segundos. É menos do que teve Enéas Carneiro que, com 15 segundos, ao menos podia dizer seu nome.

Embora menos prejudicados, outros partidos que querem lançar candidatos a Presidente (Aécio Neves e Eduardo Campos), são contra a nova lei, pois se a candidatura de Marina for inviabilizada é possível que o PT reeleja Dilma Roussef no primeiro turno. É por isso que os operadores do governo tiraram da cama os deputados para irem à noite votar o regime de urgência.

Foi vergonhoso o comportamento dos deputados governistas do Acre. A deputada Perpétua Almeida escapou na última hora, ausentando-se na sessão que aprovou o projeto, certamente aconselhada por seus camaradas do Acre, especialmente os deputados estaduais Eduardo Farias e Moisés Diniz, que haviam elogiado Marina e prometido, publicamente, ajudar a Rede na coleta de assinaturas. Já o petista Sibá Machado destacou-se na sessão, com salamaleques e demonstrações explícitas de puxa-saquismo para dar aos seus chefes a certeza de que não foi contaminado pelas idéias sustentabilistas nos quatro anos em que substituiu Marina na condição de senador-suplente.

A ordem da cúpula nacional para “garfar” Marina pegou o PT do Acre no contrapé. O governador Tião Viana assinou a lista da Rede, junto com o ex-prefeito Raimundo Angelim. O prefeito Marcos Alexandre já se preparava para fazer o mesmo. Os políticos do Acre, de diversos partidos, incluindo os que fazem parte da coligação liderada pelo PT, declaravam respeito pela conterrânea Marina Silva e saudavam seu partido como uma força renovadora na política brasileira. Não podia ser de outro modo. Afinal, há poucos meses, no segundo turno das eleições municipais, todos pediam o apoio de Marina para seu candidato.

Ressalte-se que o PT do Acre vive uma situação diferente, pois enfrenta a oposição do PMDB, ao contrário do comensalismo que acontece em âmbito nacional. É também visível que a intimidade dos irmãos Viana com Dilma e seu governo não é nem sombra daquela que tinham com Lula. Talvez isso lhes dê uma perspectiva diferente e uma pequena margem de autonomia.

Há dois dias, Jorge Viana fez pronunciamento em que disse discordar da tentativa de prejudicar Marina e a Rede “mudando as regras no meio do jogo”. Anunciou que vai tentar mudar o projeto aprovado na Câmara, propondo que só entre em vigor depois das eleições de 2014. Jorge ainda tentou salvar a pele do governo, dizendo que Dilma e Lula não são os autores da manobra feita pelos deputados.

Digo que tentou salvar a pele do governo porque o resultado pode ser o contrário do esperado. Há indícios de que a coleta de assinaturas para registro da Rede ficou mais fácil e mais rápida, em todo o Brasil, com o sentimento de solidariedade contra o golpe. A nova lei pode ser contestada e derrubada na Justiça. E mesmo que se mantenha, Marina pode continuar bem situada nas pesquisas a ponto de ganhar espaço no noticiário e ser convidada para os debates. Com uma boa campanha na internet e nas ruas... Olha o partido do Beppe Grilo na Itália como exemplo do que pode acontecer.

Mas veja como são as coisas: dois dias depois do discurso do Jorge Viana, saiu entrevista do seu correligionário Sibá Machado no jornal O Rio Branco. O senador acende uma vela no plano nacional e o deputado assopra na província. Diz que não vai assinar a lista de Marina e discorda dos companheiros que estão assinando. Que é do PT e não vai dar facilidades para a formação de outro partido. Trata o assunto no bico da chuteira.

A princípio, pensei que era um posicionamento para a política local. Sibá não tem chance de ser candidato a um cargo majoritário (senador, prefeito ou governador) nos próximos dez anos. Nem se importa com segundos turnos ou com alianças, quer garantir a faixa do eleitorado que pode renovar o mandato de deputado federal dele. Não é por acaso que, na mesma entrevista, diz que o mensalão nunca existiu e que era apenas uma trama da oposição para derrubar o Lula. Tá na dele, procura agradar aos que lhe acompanham à mesa.

Mas ontem percebi que o buraco é mais em cima. Soube de uma reunião no Senado, sem a presença de Jorge Viana, em que o PT fechou questão para aprovar a lei anti-Marina do jeito que saiu da Câmara e com a mesma urgência. O “núcleo duro” mandou recado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, não é assim que se diz? Parece que a valentia do Sibá, afinal, é dublagem de um rugido mais forte.

E agora, quem se atreve a manter alguma independência e votar de acordo com seus princípios? Suplicy tem condições pra isso. Jorge Viana terá? Por motivos estritamente pessoais, sem nenhuma ilusão política, apenas por gostar gratuitamente dele, torço para que Jorge mantenha sua posição. Nem penso, como ele deve pensar, no que lhe trará mais prejuízo, a autonomia ou o recuo. Simplesmente espero que ele fique firme.

Sinceramente, lamento o final melancólico do PT. Um dia desses revi um livro maravilhoso, “Cartografias do Desejo”, organizado por Sueli Rolnik, com as palestras e entrevistas do psicanalista francês Felix Guattari em sua visita ao Brasil no distante ano de 1982. O Partido dos Trabalhadores estava surgindo, Lula tinha sido candidato ao governo de São Paulo e os movimentos sociais alargavam seus horizontes na reconquista da democracia. Sonhávamos, naquele tempo. Éramos utópicos e idealistas. Recomendo que todos leiam, para lembrar.

São poucos os que ainda mantém seus sonhos, ideais, utopias e princípios. Como dizia Leminsky, é fácil ser poeta aos vinte, difícil é permanecer poeta aos cinqüenta. Mas alguns conseguem. É por isso que meu nome é Marina, mesmo que tenha –por falta de tempo- que dizer apenas a primeira sílaba, como tenho aprendido com os mineiros.

Antonio Alves é jornalista, fundador do PT, ex-secretário estadual de cultura, ex-petista e articulador da Rede Sustentabilidade

terça-feira, 23 de abril de 2013

MAIS UM CASO NA UFAC


Mensagem de Ladislau de Oliveira dos Santos, servidor público e estudante de direito da Uninorte:

"Fiz uma prova ontem na Universidade Federal do Acre (Ufac) para acesso às vagas residuais de direito. Um processo que tem irregularidades do inicio ao fim.

Ocorre que um candidato foi pego com cola e uso de aparelho eletrônico (smartphone), flagrante crime, e não foi tomada as providências normais pela Ufac.

O candidato continuou fazendo a prova normalmente, mesmo depois de ter sido recolhido a cola e, posteriormente, o celular.

Eu fui o responsável por avisar aos fiscais do que estava ocorrendo, nos dois momentos.

Temo que outras providências não sejam tomadas para solucionar o caso, e estou disposto a “botar a boca no trombone”.

Algumas irregularidades:

>> regras conflitantes, repassadas para os candidatos na hora da prova, por fiscais diferentes;

>> falta de detectores de metal, qualquer candidato poderia, querendo, dirigir-se aos banheiros e consultar via web;

>> ao ir ao banheiro, o fiscal se ausentou para outro bloco, retornando somente quando eu já ia me dirigindo para a sala de provas;

>> ao final da prova um dos fiscais me disse que “era dose”, mas deixou escapar que “ um novo certame seria somente em 2018” (não entendi o porque deste comentário dele);

>> editais publicados como o mesmo número, retirados do ar e corrigido vária vezes, inclusive nenhum dos editais publicados trazia regras sobre o uso de aparelhos eletrônicos no dia da prova, nem outras regras específicas para o dia da prova;

Enfim, a coisa é muito séria: estudar tanto para uma prova dissertativa e o certame ser tão frágil e mesmo irregular.

 É mais ou menos isto."

segunda-feira, 22 de abril de 2013

CONCURSO NA UFAC

Entre tantas outras, duas meras coincidências no concurso para professores da Universidade Federal do Acre. Um dos membros da banca avaliadora para a área de "História da Filosofia Antiga/História da Filosofia Medieval"  é o frei, professor e doutor Carlos Paula de Moraes. O candidato à única vaga, com a inscrição 1898, é o padre José Domingos Silva Ferreira. Ambos residem numa mesma casa da igreja católica. Também chama atenção que o antropólogo Jacó Cesar Piccoli participe de duas bancas de avaliação, para as quais ele não tem qualificação: psicologia e comunicação social. Como Piccoli pode integrar bancas de avaliação de áreas que não são a dele?

Veja nota de esclarecimento assinada pela professora Socorro Neri, pró-reitora de graduação da Universidade Federal do Acre, que não menciona o caso Jacó Piccoli.

"Prezado Altino,

Em atenção à denúncia envolvendo a participação do Prof. Dr. Carlos Paula de Moraes na Banca Examinadora de História da Filosofia Antiga/História da Filosofia Medieval, venho prestar os seguintes esclarecimentos:

1 – O professor Carlos Paula de Moraes ficou hospedado por 46 dias na “Casa do Clero”, residindo, nesse período, com vários sacerdotes da Diocese de Rio Branco, dentre eles, o padre José Domingos Silva Ferreira, um dos candidatos à vaga da área de concurso acima mencionada.

Sobre esse fato, é preciso reconhecer que ele, por si só, não configura relação de amizade íntima, que coloque a participação do Professor Carlos na referida banca sob suspeição.

2 – Para a Prova Escrita – 1ª fase do certame – o tema foi sorteado pela Comissão Geral do Concurso na presença dos candidatos, sem qualquer ingerência dos membros da Banca Examinadora; os candidatos preencheram suas provas apenas com seus números de inscrição e identidade, vedando qualquer identificação nominal.

3 - As provas foram corrigidas por cada um dos membros da Banca Examinadora, com base numa chave de correção, elaborada somente após a aplicação das provas, e cada membro atribuiu notas diferentes aos candidatos.

Nesse aspecto, é importante observar que a nota atribuída pelo Professor Carlos Paula de Moraes ao candidato José Domingos Silva Ferreira foi a menor dentre as três atribuídas pelos membros da Banca, conforme podemos verificar na relação das notas da Prova Escrita publicada no sítio eletrônico da Ufac.

Diante do exposto, parece-me claro que o fato de ter residido sob o mesmo teto com um dos candidatos, não caracteriza elemento suficiente para impedir a participação do Prof. Carlos Paula de Moraes na Banca Examinadora, menos ainda para suspeição dos procedimentos que vem sendo rigorosamente adotados por esta.

Um forte abraço!

Socorro Neri"
 

Meu comentário:

O professor Carlos Paula de Moraes é membro da Comissão de Ética da Universidade Federal do Acre. Leia mais em "Coisas da velha Ufac"

domingo, 21 de abril de 2013

OFIDISMO NO ACRE

Uma leitura necessária para profissionais de saúde




Mais uma relevante contribuição do professor Paulo Sérgio Bernarde, da Universidade Federal do Acre - Campus Floresta, de Cruzeiro do Sul, ao elaborar na internet uma página com orientação para diagnóstico dos acidentes ofídicos no Estado.

Trata-se de conteúdo gratuito, de interesse geral, cuja leitura é mesmo imprescindível para os profissionais da área de saúde.

Para que se tenha noção da iniciativa do pesquisador, vale a pena lembrar que uma estudante quase morreu há mais ou menos 15 dias, em Rio Branco, após ser picada por uma cobra venenosa num dos corredores da Ufac.

Paulo Bernarde enfatiza que os profissionais de saúde devem levar em consideração os sintomas apresentados na vítima para escolha do tipo de soro (ou de nenhum) e da quantidade de ampolas de acordo com a gravidade do acidente.

Clique aqui e leia sobre ofidismo no Acre. m

sábado, 20 de abril de 2013

O DESCOBRIMENTO DE BRASÍLIA

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE



À Dilma Rousseff, Presidenta da República
 

Senhora,
 

Posto que os caciques e outros dos nossos não encontraram Vossa Excelência no Palácio do Planalto quando ali foram pessoalmente dar-lhe notícia do achamento desta terra nova, não deixarei eu de contar-lhe como melhor puder, ainda que para o bem contar e falar seja eu o pior de todos indicado. Tome, porém, minha ignorância por boa vontade e creia por certo que, para aformosear ou afear, não escreverei aqui mais do que aquilo que me pareceu e o que vi nos telejornais, na mídia e nas redes sociais.

Senhora, há cinco séculos, o escrivão da frota Pero Vaz de Caminha, em carta ao rei de Portugal, D. Manuel, o Venturoso, noticiou que portugueses, navegando em caravelas, "descobriram" o Brasil em 22 de abril de 1500. "Foram recebidos com muito prazer e festa" pelos habitantes locais, "muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros".
 

Cinco séculos depois, autonomeado que fui escrivão dos povos originários, escrevo na primeira pessoal do plural para informar-lheque nós, 600 índios de 73 etnias, transportados por ônibus, desembarcamos na Câmara dos Deputados, em 16 de abril de 2013 e "descobrimos" Brasília, uma terra em que se mamando, tudo dá.
 

Não recebemos, porém, tratamento festivo, embora buscássemos contato pacífico com a tribo local dos deputados, formada exclusivamente por caciques que não caçam, não pescam, não plantam, mas comem em excesso.
 

Glutões, seus hábitos alimentares e sua ociosidade fazem com que acumulem gordura no abdômen. São gordos, roliços e enxundiosos, com barriga flácida e proeminente. Apesar do intenso calor, cobrem suas vergonhas com tecidos quase sempre escuros, usam tira de pano apertada no pescoço e escondem o chulé dentro de mini-canoa de couro, uma em cada pé.

Brado retumbante

Eles acham que tal aparência lhes dá respeitabilidade. Têm a cabeça raspada até por cima das orelhas. Quem não é careca usa nos cabelos tintura castanho-avermelhada de acaju ou tinta preta como as penas do jacamim, o que lhes dá um brilho metálico e, aos nossos olhos, uma aparência decrépita. Acontece que um deles, Francisco Escórcio Lima (PMDB/MA vixe, vixe) registrou nossa chegada não como "descobrimento", mas como "invasão". As imagens da TV Câmara gravaram seu brado retumbante:

- Os índios estão ali forçando para invadir o plenário. É uma situação em que todo mundo está com medo - gritava da tribuna, ofegante, Chiquinho Escórcio, pálido, encagaçado, se borrando todo, semeando o pânico.
 

E olhe, Senhora, que a situação devia estar mesmo periquitomena, pois Chiquinho Escórcio, um empresário de 65 anos, ex-PFL e ex-PP (vixe²), é um parlamentar aguerrido que não foge do pau. Ele está acostumado, no pequeno expediente, a fazer discursos eloquentes sobre temas de transcendental importância para os destinos do país, conforme as atas da Câmara, que registram tudo com palavras desenhadas no papel, já que aqueles oradores têm o pensamento cheio de esquecimento.

Consultamos o penúltimo discurso (27/04/2013), quando Chiquinho demonstrou coragem desassombrada e usou sua convincente oratória para anunciar ao Brasil e quiçá ao mundo a presença naquele momento, no plenário, da prefeita do município de Chapadinha (MA), Ducilene Belezinha.

Mas não ficou aí. Foi muito mais longe. O site da Câmara reproduz discurso anterior (05/11/2012) no qual, sem medo à represália, Chiquinho demonstra insatisfação com o desempenho do Vasco da Gama no Campeonato Brasileiro de Futebol. Copiamos da página dele no site da Câmara um breve trecho da sua fala esclarecedora e patriótica:

"O SR. FRANCISCO ESCÓRCIO (PMDB-MA. Sem revisão do orador): - O que está havendo com o nosso Vasco da Gama, Deputado Onofre? Nós temos que ajeitar isso. Não é possível! Temos que chamar Roberto Dinamite aqui e perguntar: "Roberto, o que está acontecendo?" Depois que lhe fizemos aquela homenagem toda, o Vasco da Gama caiu pelas tabelas. Vamos dar uma ajeitada naquele time, porque é o time de coração de quase todos nós que somos brasileiros".

Senhora, juramos que não estamos a inventar, queremos ver nossa mãe mortinha no inferno se mentimos. Nem sabemos quem é Onofre, nem Ducilene Belezinha no jogo do bicho. Sabemos que torcedores invejosos do Flamengo são incapazes de avaliar a relevância de tal discurso, assim como não dimensionam o valor de outra peça de oratória de Chiquinho em homenagem ao Dia do Dentista (22/10/2012). A retórica dele mataria de inveja o padre Antônio Vieira.

Vale a pena pagar um salário de deputado ao Chiquinho, um puta orador, cujo verbo inflamado está a serviço das grandes causas. São discursos históricos que deveriam ser impressos em cartilhas e ensinados nas escolas. Por isso, Chiquinho está cheio de comendas: medalhas da Câmara Municipal de Chapadinha, da Ordem dos Timbiras e do Mérito Sarney "for important services rendered to the Brazilian people", conforme anunciou o The Chapadinha Times, que destaca a contribuição por ele dada ao conceito de heroicidade.

Se gritar pega deputado

Quando nós, índios, entramos no plenário, o discurso de Chiquinho provocou debandada geral, corre-corre, fuga em massa, como quando os apaches, nos filmes americanos, atacam a cavalaria. Bastou gritar "pega deputado", não ficou um, meu irmão! Foi um Deus-nos-acuda, um pega-pra-capar, um barata-voa, que não foi sequer dificultado pela pança untuosa e obscena dos fugitivos. As imagens da TV Câmara correram mundo e nos foram enviadas por uma amiga equatoriana lá de Quito, sugerindo que escrevêssemos esta carta.

Nós, índios, que descobrimos Brasília, desarmados, portando apenas maracás, queríamos tão somente solicitar ao presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB/RN, vixe vixe) a não instalação da comissão que pretende travar, no Congresso, a demarcação das terras indígenas através da proposta de emenda constitucional. Temos consciência de que não podemos disputar com temas de vital importância como a crise do Vasco da Gama ou o desfile heróico da Ducilene Belezinha.

No entanto, como não existe nenhum índio deputado, nós fomos lá exercer democraticamente um direito de pressão. Com um cocar azul, uma das nossas, Sônia Guajajara, exigiu a revogação da proposta de emenda constitucional:

- Nós, povos indígenas, não vamos permitir que uma minoria da sociedade brasileira - esses ruralistas e grandes empresários - seja maior do que nossos territórios. Vamos lutar até o fim" - disse Sônia.

Com o auxílio de um tradutor, Raoni Metuktire, líder caiapó, soltou o verbo:

- Nunca vou aceitar desmatamento nas terras indígena, nunca vou aceitar a construção de usina na área indígena, nunca vou aceitar mineração dentro de nossas terras".

Obtivemos êxito momentâneo: a medida foi suspensa por seis meses. Resta perguntar: de quem fugiam os deputados?

- Na correria, alguns parlamentares tinham mais medo de suas consciências do que dos manifestantes "armados" com penas e maracás - escreveu a nossa ex-senadora Marina Silva, que presenciou as "cenas cômicas e tristes" e a reação à "invasão" indígena. Depois que os trabalhos foram suspensos, o deputado Alberto Lupion (DEM/PR - vixe²), agropecuarista e empresário, denunciou à TV Câmara:

- Nunca vi um desrespeito à democracia como vi hoje.

Embora tenha 61 anos, o deputado Lupion parece não ter visto o golpe militar de 1964, nem tomado conhecimento das torturas e assassinatos cometidos durante vinte anos no Brasil. Fundador e presidente da UDR no Paraná, em 1987, condecorado pelas Polícias Militares de vários estados como Alagoas, Rio de Janeiro e Brasília, Lupion, ele considera como legítimo o lobby do agronegócio, mas considera "desrespeito à democracia" pressões pacíficas de índios e trabalhadores rurais. Ignora que - a frase não é nossa - "todos brasileiros têm sangue índio. Os pobres, nas veias; os ricos, nas mãos".

Senhora, posto que a Certidão de Nascimento do Brasil, que foi a carta de   Caminha, termina solicitando a transferência do genro do autor da Ilha de São Tomé, queremos reafirmar esse lado sarney do caráter nacional. Assim, comunicamos que um sobrinho nosso conhecido pela alcunha de Pão Molhado trabalha como analista do Seguro Social na Agência da Previdência Social de Maués (AM). O filho dele, de três aninhos, o Biscoitinho Molhado, vive em Manaus, longe do pai, de cuja atenção carece. Peço, portanto, a V. Exa., que desloque o Pão Molhado para Manaus.

E se alonguei essa carta, me perdoe, porque o desejo que tinha de vos dizer tudo, me fez por assim pelo miúdo.

Embora o Governo Dilma tenha sido implacável com nós, índios, engavetando processos de demarcação para agradar a bancada ruralista, beijamos as mãos de Vossa Excelência na esperança de que elas assinem documentos que garantam o usufruto de nossas terras como manda a Constituição. Do contrário, advertimos que já descobrimos Brasília e o Palácio do Planalto. O referido é verdade e dou fé. Assinado: Taquiprati Vais No Caminho, autonomeado escrivão dos índios.

GOLPE

Charge do Miguel, Jornal do CommerciO

COISAS DA VELHA UFAC

Entre tantas outras, duas meras coincidências no concurso para professores da Universidade Federal do Acre.

Um dos membros da banca avaliadora para a área de "História da Filosofia Antiga/História da Filosofia Medieval"  é o frei, professor e doutor Carlos Paula de Moraes.

O candidato à única vaga, com a inscrição 1898, é o padre José Domingos Silva Ferreira.

Ambos residem numa mesma casa da igreja católica.

Também chama atenção que o antropólogo Jacó Cesar Piccoli participe de duas bancas de avaliação, para as quais ele não tem qualificação: psicologia e comunicação social.

Como Piccoli pode integrar bancas de avaliação de áreas que não são a dele?

Maracutaias na velha Ufac remontam aos tempos daquele jabuti de 8 milhões de anos que foi apresentado durante a semana.

Atualização às 9h28

Consultada, a professora Socorro Neri, pró-reitora de graduação da Universidade Federal do Acre (Ufac), respondeu a respeito das falhas que expus sobre o concurso para professores da instituição.

Veja a resposta:

"Altino, amigo, bom dia!

A resolução do Conselho Universitário (Consu) que disciplina o concurso, estabelece que os membros das bancas tem que ser da área específica do concurso ou de área afim, e proíbe que participem do certame se tiverem parentesco até 3º grau ou relação de amizade ou inimizade com candidato.

Essas duas condicionalidades constituíram motivo de impugnação dos membros das bancas pelos candidatos, em prazo aberto para isso.

Infelizmente, apenas três candidatos interpuseram recursos, sendo que dois deles foram deferidos e a composição das bancas modificadas. Um desses recursos deferidos tratava de relação de amizade, com situação semelhante à que você descreve. O outro recurso deferido dizia respeito a não inserção dos membros na área do concurso.

A nossa resolução, entretanto, ao respeitar o Regimento Geral da Universidade Federal do Acre, reproduz algo que tem se mostrado danoso à lisura dos certames, que é estabelecer que a competência para a indicação das bancas é das Assembleias de Centro.

Isso tem se mostrado danoso em razão da falta de cuidado na indicação de algumas bancas, como nas que você menciona e em outras, e pelo fato da decisão do Centro ser considerada, no âmbito da Ufac, como soberana e sem previsibilidade de revisão.

Esse aspecto - o da constituição das bancas - me parece vital e fonte de todas as críticas que estamos enfrentando. E, por isso, no que depender do meu empenho, será submetido à discussão do Consu.

Há, por parte de alguns setores da Ufac, uma visão equivocada de autonomia. E isso, aliado a interesses nada institucionais, tem levado à reprodução de práticas que maculam a imagem da Ufac e, assim, tornam ainda mais frágil a defesa da autonomia universitária.

Estou à disposição, amigo. Um abraço."

Atualização às 11h13 - PARA QUE FIQUE CLARO

- Eu não afirmei que falta lisura no concurso que, como pró-reitora de graduação, estou coordenando. Não tenho esse entendimento. O que afirmei é que todas as críticas que temos recebido dizem respeito a problemas na constituição de algumas bancas examinadoras, e que tais críticas expõem um problema sobre o qual, no meu ponto de vista, nosso Conselho Universitário precisa discutir. Num universo de 60 bancas e mais de 200 professores envolvidos, as críticas são pontuais e não podem colocar sob suspeição todo o esforço dispendido. Ademais, volto a lembrar que a composição das bancas foi publicada no dia 5 de abril e os candidatos tiveram até o dia 9 de abril para interpor recurso. Apenas três o fizeram - acrescenta a professora Socorro Neri.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

PETRÓLEO AMEAÇA ÍNDIOS ISOLADOS



Cinco anos após Terra Magazine publicar com exclusividade imagens dos índios de uma das quatro etnias isoladas que vivem na fronteira do Acre com o Peru, o indigenista Carlos Travassos, 33, chefe da Coordenação-Geral de Índios Isolados (CGII) da Fndação Nacional do Índio (Funai) avalia a política do governo em defesa das populações que são consideradas as mais vulneráveis do País.

A expansão da indústria petroleira na Amazônia Ocidental vem sendo apontada como uma grande ameaça aos povos indígenas, sobretudo os que vivem em isolamento. Organizações de defesa dos indígenas têm alertado o governo que a atividade petroleira ao sul da Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, atropelou direitos dos povos indígenas durante o processo de licenciamento.

No Acre, o trabalho de prospecção de petróleo e gás está bastante avançado. Nesta semana aconteceu a inclusão da Bacia do Acre no bloco de bacias que serão licitadas em outubro pela Agência Nacional do Petróleo.

- Não emito opinião, desde que fiquem suficientemente longe de regiões ocupadas por índios isolados. Não queremos que nenhuma destas populações possa ser atingida por um possível acidente ambiental. Não haveria multa possível nesta situação. Os povos indígenas isolados precisam de seus territórios intactos para poder viver e sobreviver - afirma o paulistano Carlos Travassos, filho de Luis Travassos, ex-presidente da UNE em 1968, que morreu em acidente de carro em 1982, após retornar do exílio.

Ainda no Acre, duas bases da Frente de Proteção Etnoambiental, que eram mantidas pela Funai, na fronteira com o Peru, para proteger os índios isolados, estão fechadas desde o ano passado, quando foram cercadas e invadidas por peruanos. A situação se agravou quando a Funai fez concurso público para "Auxiliar de Indigenismo", que é igual ao tradicional mateiro, um prático que conhece profundamente a floresta.

A Funai tinha no Acre, por exemplo, uma equipe com os melhores mateiros da região. O concurso foi muito mal feito. O edital sequer mencionava as condições de trabalho. A maioria dos que foram contratados no país tem curso superior, mas é totalmente analfabeta na mata, sem nenhuma ligação com índios, muito menos com os que vivem em isolamento.

Existem no Acre 16 pessoas contratadas para proteger os índios isolados, mas nenhuma no mato. Todas estão em Rio Branco, a capital do Estado. É impossível proteger isolados sem a proteção de seus territórios. Atualmente, as cabeceiras dos rios Envira, Douro e Tarauacá, ondes vivem os isolados, estão abandonadas, livres para a entrada de caçadores, pescadores e quem mais quiser. Não há controle. Ir par o mato, passar uma semana, voltar para Rio Branco e voltar ao mato depois de meses, como faz o pessoal que foi contratado pela Funai, não protege território nenhum.

No Dia do Índio, a entrevista com Carlos Travassos:

A divulgação das fotos de índios isolados do Acre contribuiu de alguma maneira para ajudar a protegê-los?

É difícil avaliar. Acredito que a divulgação impactante daquelas imagens trouxe à ciência da opinião pública que estes povos existem, e isso foi muito positivo. A reação da sociedade brasileira, mais do que da sociedade internacional, foi de preocupação com sua integridade e de respeito ao seu modo de vida. A sociedade internacional talvez tenha se impressionado mais, pelo exotismo das imagens.
Chegou a causar alguma preocupação?

A exposição daqueles índios isolados fotografados, com sua localização geográfica escancarada em sites socioambientais, nos trouxe muita preocupação. Acreditamos, e temos elementos para isso, que ainda há pessoas capazes de planejar, mandar e executar violências contra grupos indígenas. Qual a capacidade real de proteção destes territórios? E do controle do espaço aéreo? Será que um turista poderia querer olhar com os próprios olhos? Ou gente má intencionada? Teve-se de tomar uma série de medidas para evitar que isto ocorresse.

Por que duas bases da Frente de Proteção Etnoambiental, que existiam na fronteira do Acre com o Peru, estão fechadas?

As duas Bases de Proteção Etnoambiental estão sendo reativadas, mas realmente houve um período em que estes trabalhos tiveram de ser interrompidos. Na maioria dos casos, quando se constrói uma base de proteção, ela permite o desenvolvimento de trabalhos que são ininterruptos, ou seja, com uma presença permanente de vigilância, controle de acesso e fiscalização durante todo ano. Infelizmente, algumas vezes é preciso retroceder um passo, para que se possa avançar. Não foi fácil tomar esta decisão, mas um corte radical na instituição foi realizado nos contratos que tínhamos com o fornecimento de mão de obra terceirizada, como ocorreu em grande parte das instituições públicas. Por outro lado, o trabalho que lá se estabeleceu, foi fruto de mais de duas décadas da garra e dedicação de um grande sujeito, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles. Quando se perde uma pessoa como ele no comando de um trabalho tão específico e não há um substituto com o perfil semelhante,  a operacionalidade das coisas muda.

A Funai contratou uma equipe nova para cuidar de índios isolados. Trata-se de gente jovem, sem preparo?

A Funai realizou um concurso público especificamente para os trabalhos com os povos indígenas isolados e criou uma categoria denominada Auxiliar em Indigenismo. O cargo foi definido para ser preenchido por pessoas de nível fundamental. A expectativa era incorporar na instituição pessoas que já estavam habituadas a viver nestas regiões do interior dos Estados da Amazônia. Com certeza essa expectativa não foi atingida. Grande parte das pessoas que entraram pelo processo seletivo, não só tinham ensino médio e superior, como não tinham tido uma única experiência na Floresta Amazônica.

É verdade que eles reivindicam trabalhar apenas oito horas diárias?

O regime dos novos servidores é o regime dos servidores públicos federais. Realmente no edital foi apresentado um regime de 40 horas semanais, mas também foi indicado que suas atribuições seriam executadas na Floresta Amazônica, nos trabalhos de proteção a índios isolados, em expedições e tarefas afins. Seria muito esforço acreditar na possibilidade de que depois de oito horas de expedição em trabalhos de localização de índios isolados, fosse possível pegar um ônibus e voltar para casa. Acho, pessoalmente, que prestar um concurso com essa natureza, se trata de opção profissional.

Aquela estrutura, digamos, de barracão comunitário não existirá mais no país para proteger os isolados?

Eu não generalizaria que a estrutura empregada pelo velho Meirelles era uma estrutura de barracão. Conheço suficientemente o Meirelles para dizer de seu orgulho pelo trabalho que desenvolveu em nome da Funai e do Estado brasileiro.

O que está sendo concebido como novo para proteção dos isolados e envolvimento das populações do entorno nessa atividade de proteção?

A Funai percebeu ao longo dos anos que além das atividades de vigilância, controle de acesso e fiscalização, seria também necessário que se envolvesse as populações do entorno dos territórios dos índios isolados, fazendo delas multiplicadores para protegê-los e estar atento às condições de saúde na região, assim com aos impactos de exploração ambiental legal e ilegal que prejudiquem o meio ambiente.

É possível mesmo protegê-los apenas com algum tipo de monitoramento?

No caso dos povos que habitam o Estado do Acre, a resposta é não. É necessário o trabalho ostensivo de vigilância e fiscalização, assim como controlar o acesso a determinadas regiões.

Como você avalia expansão da indústria petroleira na Amazônia Ocidental?

Não emito opinião, desde que fiquem suficientemente longe de regiões ocupadas por índios isolados. Não queremos que nenhuma destas populações possa ser atingida por um possível acidente ambiental. Não haveria multa possível nesta situação. Os povos indígenas isolados precisam de seus territórios intactos para poder viver e sobreviver.

Organizações de defesa dos indígenas dizem que a atividade petroleira ao sul da Terra Indígena Vale do Javari atropelou direitos dos povos indígenas em processo de licenciamento. Você concorda?

Acredito que têm motivos para afirmar isso. Os trabalhos de pesquisas sísmicas realizados na região, mesmo fora dos limites da Terra Indígena Vale do Javari, ocorreram onde existem dois caminhos tradicionais dos povos Marubos nas calhas do rio Ituí e Curuça. As aldeias não foram avisadas previamente dos trabalhos a serem realizados. Além disso, há presença de índios isolados no sul da terra indígena, que desconhecem o que é um limite da demarcação oficial e mesmo que fosse improvável que estivessem percorrendo estes locais, seria prudente que a Funai fosse avisada da realização dos trabalhos para que enviássemos uma equipe à região. Por isso a Funai solicitou a suspensão ao Ibama da continuidade dos estudos sísmicos.

O trabalho de prospecção de petróleo e gás está bastante avançado no Acre.  Nesta semana aconteceu a inclusão da Bacia do Acre no bloco de bacias que serão licitadas pela Agência Nacional do Petróleo em outubro.  Como avalia isso?

Vejo com muita preocupação esta proximidade com a Terra Indígena Vale do Javari. Existe um histórico do período da ditadura militar de prospecção de petróleo no interior da Terra Indígena Vale do Javari que foi desastroso. Seria o retorno de um pesadelo para os povos  indígenas de lá, caso haja a pretensão de se explorar petróleo novamente. Os estudos realizados na região, que grande parte são públicos, apontam que a região de maior interesse comercial está no interior da terra indígena. A região é habitada por 16 povos de índios isolados, distribuídos em mais de uma centena de ocupações. No ano de 2012 e 2013 foram realizados sobrevôos rasantes em toda área para levantamentos aerofotogramétricos, sem haver a mínima consulta à Funai, ou aos povos contatados que lá habitam. Imagine o impacto sobre os povos isolados, que desconhecem o que é um avião.  Acredito piamente que o governo federal se atentará e terá grande sensibilidade para com os direitos dos povos indígenas isolados. Afinal são as populações mais vulneráveis de nosso país e temos o dever respeitá-los.

O que você considera como sendo o maior obstáculo para proteção dos povos que vivem em isolamento no país? Quantos são, onde estão?

Os obstáculos para a proteção dos povos indígenas isolados são muitos e são pesados. O primeiro grande desafio está presente na própria pergunta: quantos são, onde estão? A Funai, a partir do final dos anos 1980, reuniu sertanistas e indigenistas que trabalhavam ou haviam trabalhado em contatos com povos indígenas isolados, e após uma corajosa reflexão crítica sobre a política indigenista voltadas a estes povos, realizou uma virada de mesa. Assumiu uma posição muito madura de mudança de paradigma. Reconheceu que os contatos que foram estabelecidos entre o órgão indigenista oficial, ou outros setores da sociedade, e as populações indígenas isoladas causaram mortes e impactos fatais na reprodução física e cultural da maioria destes povos.

Foi um aprendizado sob muita dor?

Sim. Aprender com as práticas do passado para construir uma identidade institucional e definir uma visão de futuro, é um grande legado que as novas gerações de indigenistas têm que valorizar. A partir da década de 1990, a Funai cria o Departamento de Índios Isolados, após reunir o maior número de informações, registros e documentos que apontassem a presença de índios isolados no Brasil, também denominados de “índios bravos”, “índios hostis” ou “índios arredios”. Criou, na mesma década, o Sistema de Proteção ao Índio Isolado e estabeleceu que se reconhecesse o direito dos índios isolados em assim permanecerem, sem a necessidade de contatá-los, a menos que algum fator os colocasse em risco. Devemos crédito aos sertanistas e indigenistas que participaram deste momento, com especial destaque aos que estavam a frente, como os sertanistas Sidney Possuelo e Welligton Figueiredo.

Você está fugindo do que pode ser o maior obstáculo?

Não. O primeiro obstáculo para se proteger um determinado povo é conhecê-lo. Para isto deve-se possuir a capacidade de reunir toda e qualquer informação sobre a presença de povos indígenas isolados, deve-se estar aberto ao diálogo com as sociedades que vivem na floresta, com indígenas, com ribeirinhos e com órgãos governamentais que atuem na região, entre outros. Montado este banco de informações, que deve ser alimentado permanentemente, passa-se por um processo de qualificação destas informações, confrontando-as com dados etnohistóricos. Esta qualificação da informação pode trazer um resultado que traz para a Funai responsabilidades, pela simples ciência da possível presença de determinado povo em determinado local.

E o outro obstáculo?

Automaticamente, durante o processo a que me referi, um segundo estudo de informações deve ser realizado, focado na região destas informações. Levanta-se então se há ocupação de não indígenas, ou de povos indígenas com contato já estabelecidos nesta mesma região e estipula-se uma hierarquia de situações onde se estabelece prioridades para o aprofundamento dos trabalhos de localização geográfica e identificação destes povos, seguindo o princípio da precaução. Os trabalhos de localização geográfica são desenvolvidos para comprovação da existência de determinado grupo, e reconhecimento de seus territórios. Após estas etapas, o maior obstáculo passa ser garantir a proteção territorial, ou seja, a garantia da posse plena destes povos aos seus territórios.

De que maneira?

Por meio de atividades de vigilância, fiscalização, controle de acesso a estes territórios e principalmente com a sensibilização e a parceria das populações que vivem no entorno.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

PREFEITO TEM ASSESSOR MUAMBEIRO




Até parece que a situação financeira dos assessores do prefeito de Rio Branco, Marcus Alexandre (PT), não é boa.

Na tarde desta quinta-feira, por exemplo, Madson Willander, recorreu ao grupo "Venda Tudo Aqui Acre", no Facebook, para anunciar a venda de charutos cubanos.

Ele foi nomeado pelo prefeito, em 7 de março, para exercer cargo comissionado na Secretaria Municipal da Casa Civil, referência CC-3.

O prefeito assumiu e anunciou que sua equipe não contaria com domingos e feriados para descanso.

O que incomoda é o uso da rede de computadores da prefeitura, em horário de expediente, para venda de muamba, quando são utilizados recursos e patrimônio públicos, além do tempo do assessor, que deveria ser dedicado a coisas elevadas.

VEM AÍ UM NOVO CALADINHO


Um fato extraordinário em Rio Branco: no bairro Irineu Serra, onde moro, vivem cerca de 420 famílias, mas não existe nenhum estabelecimento que venda bebida alcoólica.

Não foi por força de lei que nunca existiu um bar. Gostaria que continuasse assim por conta das regras de ocupação que existem atualmente. Na verdade já são mais de 500 famílias no bairro.

Há mais de duas semanas, 80 famílias invadiram o Ramal do Tufic, na margem esquerda do igarapé São Francisco. Embora seja uma APA (Área de Proteção Ambiental), isso não é suficiente para sensibilizar as autoridades em alguma ação de desocupação ou enfrentamento do problema social que está posto.

Dia 30, às 15 horas, na Semeia (Horto Florestal), reunião de apresentação do Plano de
Gestão da Área de Proteção Ambiental (APA) Raimundo Irineu Serra, também conhecido como "plano de manejo". O Caladinho é um dos bairros mais violentos de Rio Banco.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

QUEREM DERRUBAR MARINA E A REDE

A manobra em curso no Congresso contra Marina Silva e a Rede Sustentabilidade tira o direito de novos partidos a tempo na TV e ao fundo partidário.

Dizem que é para “moralizar a legislação eleitoral”. O ardil, que aumenta as barreiras para criação de novos partidos, não foi usado contra o PSD de Gilberto Kassab, por exemplo, porque é da base do governo.

Por trás de tudo estão o ex-presidente Lula, o presidente do PT, Ruy Falcão, e a presidente Dilma Rousseff, além dos senadores Renan Calheiros e José Sarney, ambos do PMDB.

Na semana passada, a manobra contou com votos favoráveis de parlamentares do Acre a quem Marina Silva sempre manifestou apoio político.

A lista inclui até os deputados Sibá Machado (PT-AC), ex-suplente de Marina Silva no Senado, e Perpétua Almeida (PCdoB). Além deles, Antônia Lúcia (PSC) e Taumaturgo Lima (PT) . Quando Marina Silva vai se libertar de seus "companheiros" do Acre?

Leia mais no blog Acerto de Contas, de Pierre Lucena.

RALA E ROLA



O governo do Acre vai contratar laboratório para realizar "análises microbiológicas e de irritabilidade das mucosas repetidas" em preservativos masculinos da fábrica Natex, de Xapuri. O Diário Oficial desta quarta-feira traz aviso de licitação, na modalidade pregão eletrônico.

NÃO CONDIZ COM A VERDADE

"Mistura indigesta"

A saída da radialista e vereadora Eliane Sinhasique (PMDB)  da Gazeta FM rende mais um episódio nesta quarta-feira.

O secretário estadual de Comunicação, Leonildo Rosas, ontem, no Twitter, disse que "a saída da vereadora está sendo explorada de forma mentirosa e leviana".

Rosas acrescentou:

- Os proprietários deviam se pronunciar a bem da verdade.

Jornal A Gazeta, que estava calado, obedeceu. Prefiro ignorar o mérito da polêmica.

O que abalou meus nervos de aço foi a afirmação, em editorial, que a rádio e o jornal "fazem jornalismo, sem opções políticas e, sobretudo, partidárias".

O jornal, todos sabemos, foi montado com verba pública durante a gestão do governador Flaviano Melo (PMDB). O dinheiro para compra da impressora, por exemplo, foi transferido diretamente pelo extinto Banacre para conta de uma empresa de Goiânia.

A operação destrambelhada, denunciada pelo então senador Mário Maia (PMDB), resultou em escandaloso processo que quase custou a queda do governador, que manteve um primo como sócio proprietário do jornal.

Eis o editorial:

"O jornal A GAZETA e a rádio GAZETA FM 93 tem por princípio não confundir e misturar jornalismo com opções políticas e, sobretudo, partidárias. Foi em virtude desse princípio que se deu o afastamento da vereadora pelo PMDB, Eliane Sinhasique, do seu programa terceirizado “Programa da Eliane”, que ia ao ar pela rádio das 14 às 17h.

Trata-se de uma mistura indigesta que não dá certo por envolver e confrontar posições políticas partidarizadas e, por vezes, interesses pessoais com a imparcialidade e a obrigação que o jornalismo impõe de ouvir e expor os diversos lados de uma questão para que os leitores e ouvintes tirem suas conclusões.

Como a própria vereadora peemedebista expôs em sua despedida no microfone, a situação havia chegado ao ponto de se sentir desconfortável, como estava criando desconforto também para a direção da empresa. Tanto é que ela já havia acertado sua saída da emissora.

O jornal A GAZETA e a rádio GAZETA FM 93 fazem jornalismo, sem opções políticas e, sobretudo, partidárias. Ao longo desses 27 anos de sua história têm mantido e zelado por este princípio, independentemente de partidos políticos que governaram, estão governando ou virão a governar este Estado.

Nada, portanto, de anormal ou traumático em mais esta decisão. O princípio do bom jornalismo prevaleceu mais uma vez. Quaisquer outras versões ou especulações não condizem com a verdade."

BINHO MARQUES É GENTE


No corredor que separa o Teatro Hélio Melo do Memorial dos Autonomistas, atrás do Palácio Rio Branco, existe uma galeria com 13 quadros de ex-governadores do Acre.

Excetuando-se a foto de Jorge Viana, os demais governadores foram retratados pelo artista peruano Rivasplata. Curioso mesmo é que não consta o retrato do ex-governador Binho Marques.

No mais, o prédio está bastante avariado: buracos no piso de madeira do auditório, cadeiras quebradas, além de uma goteira na entrada, que inunda o piso.

terça-feira, 16 de abril de 2013

ATENÇÃO PESSOAL DA OPERAÇÃO DELIVERY

Vara da infância não pode julgar crimes sexuais

Varas da infância e da juventude não têm competência para processar e julgar crimes cometidos por adultos contra crianças e adolescentes. Esse é o entendimento da 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. A questão foi discutida em Habeas Corpus impetrado pela Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, alegando que esse juizado não possuía competência para julgar crimes sexuais em que crianças e adolescentes figuravam como vítimas.

No Rio Grande do Sul, a Lei Estadual 12.913/08 confere ao Conselho de Magistratura local o poder de, excepcionalmente, atribuir competências adicionais a esses juizados, entre elas, a de analisar crimes contra menores. Por essa razão, a 7ª Câmara Criminal do estado entendeu que o Tribunal de Justiça local não violou nenhum dispositivo legal ao atribuir à vara da infância um caso de estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A do Código Penal (CP).

Com base em precedentes da 3ª Seção (CC 94.767) e da 5ª Turma (HC 216.146 e RHC 30.241), a 6ª Turma concluiu que a atribuição concedida aos tribunais pela Constituição Federal, de disciplinar sua organização judiciária, não lhes dá autorização para revogar, ampliar ou modificar disposições sobre competência estabelecidas em lei federal.

Segundo o relator, ministro Sebastião Reis Júnior, disciplinar a organização judiciária é situação muito diferente de ampliar o rol de competência do juizado da infância e da juventude. Dessa forma, os ministros entenderam que o réu não estava mesmo sendo processado perante juízo competente.

Seguindo o voto do relator, a Turma não conheceu do Habeas Corpus por ser substitutivo de recurso ordinário, mas, por maioria de votos, concedeu a ordem de ofício para anular todas as decisões tomadas pela vara da infância e determinar o encaminhamento dos autos a um juízo criminal.

Do site Consultor Jurídico com informações da Assessoria de Imprensa do STJ.

NEM SANDUÍCHE FRIO


Roberto Vaz e eu - o dono do "site de  garagem" e o "blogueiro do mato", os mais acessados do Acre, em junho de 2005. Alguns gostariam de nos ver no banco dos réus.

No ano passado, ao ser abordado pelo repórter Luciano Tavares, do AC 24 Horas, o governador Tião Viana reagiu:

- É pro AC 24 Horas? Não falo. Pro AC 24 Horas não levo nem sanduíche frio na cadeia.

TIÃO VIANA INDUZIDO A ERRO

 

O governador do Acre, Tião Viana (PT), nomeou, no dia 5 de abril, Irailton Lima de Souza para o cargo de Diretor Executivo da Secretaria de Estado de Saúde, com efeito retroativo, a contar de 2 de janeiro de 2013.

O cargo era ocupado, desde 8 de abril de 2011, por Atahualpa Batista Ribeira, que foi exonerado no dia 31 de março de 2013.

Como o novo diretor não mantinha vínculo com a Secretaria de Saúde até o dia 5 de abril e sua nomeação se deu com efeito retroativo, isso implica em recebimento indevido nos meses de janeiro, fevereiro e março.

O governador foi induzido a erro ao assinar o decreto de nomeação do sociólogo Irailton Souza, que foi derrotado ao concorrer como candidato a vereador pelo PT, em Rio Branco, nas últimas eleições.

Caso haja equívoco do blog, espaço aberto para a devida contestação. Do contrário, que o erro seja reparado. Dois corpos não podem "ocupar" o mesmo soldo.

Atualização às 12h51 - Nota da secretária adjunta de Comunicação, Andréa Zílio:

- A Lei Complementar nº 247, de fevereiro de 2012, em seu art. 40, inciso VIII, disciplina que existem na estrutura administrativa do Estado 31 cargos de diretor executivo. Entretanto, nem todos estão ocupados. A nomeação do Irailton Lima, na Sesacre, é apenas um remanejamento dentro da estrutura administrativa do Estado, já que o mesmo tinha este cargo e estava lotado no Gabinete Civil. Algo perfeitamente legal e normal, já que estes cargos todos não estão dentro de Secretarias, autarquias ou Fundações específicas, mas fazem parte da estrutura do governo.

Decretos publicados no Diário Oficial

ESTADO DO ACRE
DECRETO Nº 5.492 DE 27 DE MARÇO DE 2013

O GOVERNADOR DO ESTADO DO ACRE, no uso da atribuição que lhe
confere o art. 78, inciso VI, da Constituição Estadual,

RESOLVE:

Art. 1º Exonerar ATAHUALPA BATISTA RIBERA, do cargo de Diretor
Executivo, na Secretaria de Estado de Saúde – SESACRE, nomeado
através do Decreto n° 1.605 de 8 de abril de 2011.

Art. 2° Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, com efeitos a contar de 31 de março de 2013.

Rio Branco-Acre, 27 de março de 2013, 125º da República, 111º do Tratado de Petrópolis e 52º do Estado do Acre.

Tião Viana
Governador do Estado do Acre

ESTADO DO ACRE
DECRETO Nº 5.576 DE 5 DE ABRIL DE 2013

O GOVERNADOR DO ESTADO DO ACRE, no uso da atribuição que lhe
confere o art. 78, inciso VI, da Constituição Estadual,

RESOLVE:

Art. 1º Nomear IRAILTON LIMA DE SOUZA, para exercer o cargo de
Diretor Executivo, na Secretaria de Estado de Saúde - SESACRE.

Art. 2° Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, com efeitos a contar de 2 de janeiro de 2013.

Rio Branco-Acre, 5 de abril de 2013, 125º da República, 111º do Tratado de Petrópolis e 52º do Estado do Acre.

Tião Viana
Governador do Estado do Acre

CARTEIRA DE MOTORISTA

Redação da Folha do Acre, 1984, governo Nabor Júnior. Capitão Monteiro, então diretor do Detran, após reunião com diretores do jornal, é apresentado aos repórteres pelo saudoso editor Pheyndews Evangelista de Carvalho.

O capitão bate palmas e pede silêncio:

- Pessoal, quem quer carteira de motorista?

Todos levantam o braço, exceto o futuro blogueiro.

Fé em Deus arregala os olhos e indaga:

- Não vai querer carteira de motorista, Altino?

- Não, Fé. Não tenho carro, não sei dirigir.

- E daí, rapaz? Aprende depois.

- Tudo bem. Aceito uma também.

Dois ou três dias depois, as carteiras foram entregues na redação do jornal. E foi assim que me tornei motorista autodidata.  O capitão Monteiro morreu em acidente de carro na Av. Getúlio Vargas, em Rio Branco. Não lembro o ano.

FALTA DO QUE FAZER

A imagem abaixo comprova a existência de um grupo fechado de assessores do governo do Acre, na rede social Facebook, de onde parte ordens diárias de servilismo e guerra contra quem ousa a crítica ou qualquer tipo de questionamento.

Comentário da professora Letícia Mamed:

- A "intelligentsia" do grupo que governa os tristes rumos do Acre torna-se ainda mais estúpida. Como sempre esquecem de estudar e observar a realidade, não sabem que controle social, incluindo mentes e corações, é algo que inexiste no mundo dos fatos. Entre tentativas e tropeços, de quebra, ainda revelam o que pensam e fazem do serviço público. 

FALTA MACONHA EM RIO BRANCO

Na véspera da "Marcha Contra o Crack", que acontece em Rio Branco nesta terça-feira, uma leitora muito conhecida na cidade pediu anonimato e escreveu ao blog nos seguintes termos:
 

- Boa tarde, querido. Tudo bem? A cidade está "escura" há quase um mês, sem cannabis. Está todo mundo no Rivotril, maninho. Enquanto isso, o "fubá mimoso" (cocaína) impera. É de chorar. A cannabis começou ficando cara, tipo um pito 10 contos. Agora, nem pro pito de 10 contos tem na cidade. Está todo mundo à flor da pele. Soube que em Porto Velho tem tanta que faz lama. Por isso não entendo a falta aqui. Tem gente querendo mudar pra Porto Velho se a coisa não clarear logo.
Consultado, um expert explicou:

- A maconha sumiu do mercado de Rio Branco por causa da cheia do Rio Acre. Quem consegue, encontra uma casquinha por 10 reais. A enchente teria destruído a plantação e o estoque nas áreas baixas da cidade. É o povo do sul reclamando do tomate e aqui da maconha.

ELIANE SINHASIQUE

Firmeza e emoção na despedida da Gazeta FM

segunda-feira, 15 de abril de 2013

GOVERNO CALA ELIANE SINHASIQUE NO RÁDIO

Pressionada pelo governo estadual, a jornalista Eliane Sinhasique, vereadora mais votada de Rio Branco pelo PMDB, se despediu nesta tarde de seus ouvintes na Gazeta FM, onde apresentava há 25 anos o programa de maior audiência da cidade. Há 18 anos, paga R$ 5,8 mil mensais por três horas diárias na programação da emissora.

- Para que você tenha ideia, quando o governador Tião Viana telefonava para avisar que visitaria a direção, no prédio onde funciona o jornal A Gazeta e a rádio, perguntava: "A Eliane está aí? Se estiver não vou". A situação se tornou insustentável para mim e para direção da emissora. Eleita vereadora, a "radialistazinha" passou a ser encarada como alguém que devia ser calada. Vou continuar terceirizando as três horas na emissora, mas, a partir de agora, será um programa água com açúcar, sem qualquer questionamento ou crítica. Compreendo a situação da direção, que possui uma empresa de comunicação num Estado onde o governo é usado para tentar controlar a vida de todos. A maioria dos empregados depende de contracheque e a iniciativa privada não tem força para manter veículos minimamente livres ou independentes. É lamentável, no Acre, que a política de convencimento tenha sido suplantada pelo cercearmento descarado. Isso apenas expõe a crise que vivemos no Estado, mas a vida continua.

O PT é burro demais

No governo de Jorge Viana, por exemplo, surgiu em Rio Branco o site Notícias da Hora. O radialista e editor Roberto Vaz era um dos sócios.

Inconformados com a linha editorial, que não era plenamente subserviente, o que fizeram o governo e os estrategistas de sua comunicação?

Convenceram um dos sócios a comprar a parte de Vaz. Custou R$ 150 mil. Com o dinheiro, Vaz abriu o AC 24 Horas, que logo se tornou o mais acessado do Acre, e o Notícias da Hora fechou desde então.

Vaz é sócio da Gazeta FM, embora não apite em nada, pois não contrata nem demite. Apenas recebe o pró-labore.

É mais ou menos o que vai acontecer com Eliane Sinhasique. Além de ganhar fermento para a pretensão de ser prefeita de Rio Branco, vai fazer o programa dela na rádio Boas Novas, da deputada Antonia Lúcia (PSC-AC).

- Não pensem que me tirando do ar da Gazeta FM vão me calar. Enquanto eles fecham uma porta, Deus abre um portão - disse em entrevista na Boas Novas.

Eliane Sinhasique se despediu no Facebook com a mensagem a seguir:

"Boa tarde meu povo!

Decisões precisavam ser tomadas.

Tomei.

Hoje será o ÚLTIMO PROGRAMA da Eliane Sinhasique na 93,3FM.

As 14 horas, de hoje,entro no ar para encerrar um ciclo de 25 anos na mesma emissora.

A situação estava desconfortável para mim e para a direção.

Não posso prejudicar a emissora e nem o jornal (com meus artigos veêmentes) que me deram tantas oportunidades e alegrias mas, também não posso permanecer no ar sem ser eu mesma, sem poder me expressar, sem poder dar voz e vez ao povo como eu fazia (sempre de forma respeitosa)...

Hoje sou vista não mais como uma "radialistazinha", mas como uma inimiga política do PT pelos meus posicionamentos coerentes com os meus princípios éticos, morais e partidários.

Como representante do povo, encontrarei outros caminhos, outras formas, para denunciar o que precisa ser denunciado e falar o que precisa ser falado.

Saio com meu coração partido mas com minha cabeça erguida.

Obrigada Sílvio, Obrigada Ivete Martinello. Sei que a questão não é pessoal e nossas relações comerciais permanecerão inalteradas."

domingo, 14 de abril de 2013

EM BUSCA DA BRASILEIA PROMETIDA

POR MARINA SILVA



Acompanho com atenção e preocupação as notícias da grande crise que atravessa a humanidade. Em toda parte há problemas: guerra, miséria, falência econômica e os desastres provocados pelas mudanças no clima. As sociedades mobilizam-se, buscam soluções, experimentam alternativas e cobram de seus governos ações e estratégias para viver nesta era de incertezas. Nesses movimentos e suas novas utopias procuro ancorar minhas esperanças.

Mas meu coração - devo confessar - voltou a ficar apertado com as notícias que chegaram de minha terra natal, onde, por estes dias, agravou-se uma situação que já dura dois anos. Na pequena cidade de Brasileia, no Acre, mais de mil imigrantes haitianos arrumam-se como podem num abrigo precário e sobrevivem com alimentos doados pelo governo estadual. São comoventes as imagens de sua pobreza e o olhar espantado de suas inúmeras crianças, lançadas numa vertiginosa mudança que não compreendem.

Mais dramática que a situação que encontram hoje em Brasileia é a memória do caminho que percorreram para chegar ali. Deixam sua pequena ilha natal em um barco que os leva até o Panamá. Daí seguem como podem, cruzando o Equador até chegar ao Peru, depois Bolívia. Atravessam florestas e montanhas, transportados como gado, clandestinos, explorados por traficantes de gente, vítimas de todo tipo de violência, expostos a doenças e acidentes, num caminho desconhecido que termina nas margens de um rio. Do outro lado está um país luminoso, uma terra de promessas, onde sonham refazer suas vidas e de suas famílias, devastadas por uma longa história de desgraças.

Não preciso descrever o Haiti, que conhecemos das notícias: uma ilha no Caribe em que uma população pobre, de origem majoritariamente africana, viveu por longos anos sob uma das ditaduras mais cruéis e tornou-se um símbolo mundial de miséria. Caetano Veloso, ao cantar a violência nos guetos e prisões brasileiras, denunciou a dubiedade que vivemos, em nossa sociedade cindida, na qual o Haiti é e não é aqui. Respiramos aliviados por não ter sido aqui o terrível terremoto que devastou a ilha e interrompeu milhares de vidas, entre elas a de nossa inesquecível Zilda Arns, que lá estava em sua missão de solidariedade. Seguiram-se as epidemias de doenças como a cólera e uma fome ainda maior, que a passageira e superficial solidariedade do mundo não consegue saciar. De tudo isso fogem os haitianos, em busca de um lugar não seja o Haiti.

É necessário, entretanto, que eu descreva Brasileia para um Brasil que não se conhece. Tantas vezes estive naquela pequena e agradável cidade, em companhia de Chico Mendes e outros companheiros de luta seringueira. Ali nasceram os "empates" contra o desmatamento, liderados por Wilson Pinheiro, que foi assassinado na sede do sindicato, um casarão de madeira ao lado de uma pracinha deserta, quase um terreno baldio. Brasileia era movimentada pelo comércio com a cidade boliviana de Cobija, que se avistava do outro lado do rio com seus prédios de alvenaria em antigas ruas calçadas com pedras trazidas das montanhas. Do lado de cá, paralela ao rio, a rua do comércio de Brasileia era adornada com árvores podadas de fícus-benjamin, em cuja sombra parávamos para tomar raspadilha ou picolé, nos intervalos das reuniões.

Muitas vezes alertamos o governo brasileiro: antes de pavimentar a estrada que leva ao Oceano Pacífico, era necessário proteger a floresta, demarcar as terras indígenas, diminuir as desigualdades sociais, pois a miséria e a violência certamente aumentariam com a exposição de uma sociedade frágil aos tráficos intensos de uma fronteira aberta. Não fomos ouvidos. Depois de Wilson, foram mortos vários companheiros, até Chico Mendes. Disseram que éramos contra o progresso, a produção agrícola, a carne farta e barata, os produtos importados que tirariam a Amazônia do atraso.

Assim, a outrora pacata Brasileia e suas vizinhas, a boliviana Cobija e a brasileira Epitaciolândia, assim como Xapuri, Assis Brasil, Plácido de Castro e todas as pequenas cidades do interior e da fronteira, transformaram-se em pontos de aglutinação do êxodo rural. Suas periferias inchavam e desinchavam a cada ano, com as famílias expulsas a ferro e fogo dos seringais, que ali paravam algum tempo antes de rumarem para a capital, Rio Branco, em que formariam novas e precárias periferias. Muito antes de chegar, o Haiti já estava aqui.

No início deste século, alguma coisa melhorou. A chegada de antigos companheiros de Chico Mendes ao governo do Acre e do Brasil diminuiu, por alguns anos, o ritmo da devastação e as desigualdades sociais. Os problemas permanecem e são muitos, mas há ao menos uma estrutura básica em que os serviços do Estado podem alcançar a população. Um alojamento precário e três refeições por dia o governo do Acre pode dar aos haitianos que atravessam a fronteira, algum atendimento à saúde e o transporte dos que conseguem se legalizar para que alcancem o mercado de trabalho em Porto Velho, Manaus ou Cuiabá.

Já se passaram dois anos desde que os primeiros imigrantes haitianos chegaram ao Acre. Mais de 4 mil deles passaram por ali e hoje estão espalhados pelo Brasil. O atendimento foi feito quase todo pelo governo do Estado, pois a ajuda do governo federal foi pouca e insuficiente, tanto no repasse de recursos quanto na articulação institucional. Nessa semana, a situação agravou-se a ponto de o governador Tião Viana decretar estado de emergência social e o senador Jorge Viana clamar publicamente pela atenção dos ministros e demais autoridades nacionais.

Finalmente, foi formada uma equipe interministerial e uma força-tarefa para acolher, atender, regularizar e encaminhar os imigrantes. Não é tão difícil para o Brasil. Mil ou 2 mil pessoas é um número pequeno se comparado ao volume total da migração entre o Brasil e os Estados Unidos ou a Europa. Temos 50 mil brasileiros ali mesmo ao lado do Acre, na Bolívia. Mais de 200 mil brasileiros vivem no Paraguai. E quantos milhares de bolivianos e paraguaios vivem em São Paulo?

Ajuda e 'ajuda'

O Brasil é um país aberto, com sua história pontuada por grandes imigrações e um antigo trabalho institucional com o trânsito de populações. Pode ajudar os haitianos, começando por fornecer apoio efetivo ao Estado do Acre e a seu povo, que é hospitaleiro, mas tem muitas limitações. Brasileia tem pouco mais de 20 mil habitantes. Seus equipamentos não suportam uma demanda tão grande e imediata.

Mas a ajuda que o País pode dar vai muito além do acolhimento aos imigrantes. Ela deve distinguir-se da "ajuda" internacional que vemos diariamente no noticiário, especialmente dirigida aos países africanos. Uma comitiva de governantes e empresários de um país economicamente emergente visita uma região mergulhada em crise social, oferece pequenas dádivas destinadas mais a manter do que superar a pobreza e aproveita para fazer bons negócios. A antiga expansão colonial disfarçada de solidariedade.

A ajuda real deve partir da realidade sociocultural local, com a internalização de conhecimento e tecnologia, reforço à educação, respeito e estímulo à autonomia, investimentos com retorno para a população local em médio e longo prazo. Não deve ser uma forma de competição para ampliar áreas de influência, mas deve reforçar as negociações multilaterais e os compromissos estratégicos da agenda mundial para vencer os desafios do século.

Um imperativo ético foi construído, nos últimos séculos, e se expressa na noção de humanidade. Vivíamos separados em povos isolados, Estados nacionais beligerantes, economias em competição, identidades culturais marcadas por um espírito defensivo e com necessidade de autoafirmação. A humanidade não se sentia inteira. Tudo está mudando rapidamente, com a interdependência econômica, a comunicação instantânea, as trocas e misturas multiculturais. Até mesmo as guerras e revoluções do século 20 levaram a uma emergência da humanidade, transbordando os limites dos Estados nacionais. Cada povo ou nação pode agora compreender-se como parte de um todo, cada pessoa pode sentir-se humana ao mesmo tempo que brasileira ou japonesa, asiática ou europeia. Realizam-se os versos de John Donne: "Nenhum homem é uma ilha".

É como humanidade, não apenas como Estados ou sociedades, que enfrentamos hoje nosso maior desafio: a mudança no clima do planeta em que vivemos. Ninguém está isento; até mesmo as poucas comunidades indígenas isoladas nos confins da floresta amazônica sofrem os efeitos da grande mudança. E não adianta construir torres, castelos, bolhas, qualquer tipo de abrigo ou defesa tecnológica. Foram encontrados no litoral dos Estados Unidos objetos e até motocicletas arrastados pelo tsunami desde o Japão. A água da chuva na Argentina vem, em nuvens, dos rios afluentes do Amazonas. A poluição da China sopra no vento do Saara. A Terra não tem fronteiras.

Eis o Haiti. Seus imigrantes são refugiados ambientais, como as populações que fogem da seca, das enchentes ou do gelo, em todos os continentes. Chegam ao Brasil pela Amazônia, justamente ao Acre, que quase todos os anos tem de abrigar milhares de famílias desalojadas de suas casas pelas enchentes dos rios. Talvez tenham que encontrar emprego no Nordeste, cujo povo pede socorro numa seca que, de tão longa, já se torna permanente. Ou no Sul castigado pelas geadas.

A responsabilidade é nossa. E também do Peru, da Bolívia, Equador, Panamá, de todos os países em que passam os haitianos em seu roteiro de fuga. A diplomacia brasileira precisa ajudar a liderar um esforço internacional pela solidariedade e pela garantia dos direitos humanos desses imigrantes.

Não há mais "eles", agora somos todos "nós". Haitianos.

Marina Silva é ex-senadora pelo Acre e ex-ministra do Meio Ambiente