terça-feira, 26 de março de 2013

ÁGUA, FARTURA E ALEGRIA

O Rio Acre atingiu nesta manhã o nível de 15,04m de profundidade. Está a mais de um metro acima da cota de transbordamento.

Cerca de 200 homens atuam em sete bairros atingidos, com apoio de 50 homens do Exército, que disponibilizou 10 caminhões e 10 barcos.

O Parque de Exposições já abriga 192 famílias ou 792 pessoas, sendo que outras 45 famílias foram levadas para casas de parentes.

- As famílias abrigadas no Parque de Exposições recebem atendimento em saúde, alimentação e participam de atividades lúdicas - diz o governo do Acre.


Chegou a hora de rezar ou orar para que Deus derrame mais água nas cabeceiras e o "rio estranho, cheio de curvas e barrancos, um rio torto que não vê o mar", possa subir mais e mais.

Vejo em vários pontos da cidade placas da prefeitura de Rio Branco com uma mensagem bem bobinha:


- Esse cantinho faz a nossa cidade mais feliz.
 
A enchente do Rio Acre também faz a nossa cidade mais feliz. Então vale a pena centenas ou milhares daquelas plaquinhas a jusante e a montante do rio.

O poeta pede que o Rio Acre nos ensine viver, amar e considerá-lo. Não tem sido assim, mas quando o rio transborda, é visto como a principal opção de votos e lazer de milhares de pessoas.

Rio Branco e seu povo se divertem com o fenômeno da natureza, que não se repete todos os anos, infelizmente.


As famílias vão para a "orla", pescam, mergulham, saltam das pontes, fotografam. Quem pode desfila de canoa, lancha ou jet ski. Quem pode mais estaciona sua BMW e filosofa sobre a pobreza da cidade.

O prefeito e o governador decretam situação de emergência ou calamidade pública, Brasília envia mais verbas para o Acre e até o "meteorologista" Davi Friale se renova com prognósticos apocalípticos.

Funcionários públicos e homens do Exército passam a trabalhar e viram heróis. Usando coletes fosforescentes, os políticos deslizam sobre as águas em voadeiras e acenam para o povo. 
Todos nos tornamos altruístas e solidários.


Quem vive em condição miserável nos bairros afetados pelas enchentes passa a contar com novo abrigo, alimentação três vezes ao dia, roupa, cobertor, teatro, cinema, assistência social, pode fazer retirada antecipada do FGTS e ganha até kit de limpeza na hora de voltar para casa. 


Se Deus atendeu meu pedido e nos deu um papa argentino, aguardemos a fartura das águas. Deus misericordioso, que a tudo governa, a Vós imploro mais chuvas nas cabeceiras para que a fartura e a alegria durante as enchentes do Rio Acre nunca tenham fim.

Para reforçar o apelo, vale uma simpatia: misture uma porção de sal com farinha e espalhe no quintal. Mas não exagere na dose para evitar um novo dilúvio.

4 comentários:

João Maurício da Rosa disse...

E as mães lançam na correnteza uma vela acesa sobre um píres para localizar o corpo dos filhos que mergulharam da ponte metálica e não voltaram à tona.

Jose Antonio disse...

ótima crônica.

Samara Lira disse...

muito bom...
pena que muitos que brincam nessas águas, esquecem do perigo que correm ao pular da ponde em meio a grande correnteza...

Samara Lira disse...

Muito bom....