sexta-feira, 18 de maio de 2012

O REI DO BUTÃO E O REI DO ACRE

POR PAULO WADT

Em 1972, em resposta a críticas que afirmavam que a economia do seu país crescia miseravelmente, o rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, teve uma idéia para solucionar o problema: promoveu a criação do termo Felicidade Interna Bruta (FIB), em contrapartida ao Produto Interno Bruto (PIB).

Quarenta anos depois, agora em 2012, o rei do Acre parece que também encontrou a resposta para o problema da falta de crescimento econômico do Estado: está propondo a criação de um novo indicador que possa substituir o PIB (veja links nos jornais O Rio Branco, Página 20 ou Brasil Local).

Não sabemos como será o nome do novo indicador. Mas poderia ser Produto do Planeta Sustentável, Produto do Planeta Feliz, Produto Interno Verde, ou mais provavelmente um nome com alto impacto em marketing político.

Com o novo índice de desenvolvimento econômico, social e ambiental, será possível demonstrar a convivência harmoniosa do povo acreano com a natureza (ou com as florestas, como preferimos por estes lados).

Fico imaginando o cenário: água encanada e tratada não seria mais necessário, pois isto somente serve para aumentar o fluxo de capitais. Melhor é que cada um vá buscar água no igarapé mais próximo. E já aproveitariam, para no caminho fazerem suas necessidades pessoais, pois é melhor deixar estas coisas se decompondo naturalmente no meio ambiente do que jogar em uma rede de esgotos. E o dinheiro que sumiu no ralo para resolver o problema do saneamento básico na cidade de Rio Branco já não seria problema, porque nem ralo haveria.

Mesmo que demore ter que ir buscar a água no balde, não haveria importância, já que a maioria da população que está desempregada, agora teria o que fazer para passar o dia. Afinal, o emprego somente serve para aumentar o fluxo de capitais, o que também é insustentável.

O problema da distribuição de renda poderia até não ser bem resolvido de forma definitiva, porque ainda haveriam os altos salários dos cargos comissionados e dos secretários, porque alguém teria que fazer o sacrifício para gerir esta sociedade feliz. Mas tirando estes, não haveria nem mesmo renda para ser distribuída. Portanto, outro problema resolvido.

E quanto a questão da alimentação? Não seria mais necessário trazer os alimentos de Rondônia, como o arroz, o feijão, o leite e os ovos que consumimos e todo o restante que vem de fora. Tudo alimento insustentável. Vivendo da floresta, poderíamos caçar e termos uma alimentação mais saudável com suculentos jabutis, papagaios e macacos, misturado com a farinha de Cruzeiro do Sul, este último, um mal necessário. Mas também não queremos a perfeição. Ou queremos?

E ainda seria possível economizar recursos do Estado com a saúde pública e as filas nos hospitais e postos de saúde, pois a floresta nos proveria com suas ervas medicinais e suas curas milagrosas.

Seríamos melhores que todos os demais estados do país. E ainda poderíamos exportar para o resto do mundo nosso conhecimento adquirido com a convivência harmoniosa entre o homem e a floresta.

Tudo isto porque este negócio de ter que fazer casas populares, pavimentar ruas e calçadas, fazer rede de esgoto e distribuição de água tratada, melhorar a qualidade da educação, melhorar os serviços de saúde pública, promover o aumento do emprego é tudo muito cansativo para o rei do Acre e sua corte.

É claro que nem todos seriam beneficiados. A corte do rei teria que se sacrificar vivendo um estilo de vida insustentável (com água tratada, esgoto, altos salários), mas tudo seria feito pelo bem da humanidade.

Ou não se acredita mais em contos de fada?

Paulo Wadt é engenheiro agrônomo, doutor em ciências, pesquisador na Embrapa e professor nos Programas de Pós-graduação em Agronomia (UFAC), em Biodiversidade e Biotecnologia (Bionorte/UFAM) e em Ciência, Inovação e Tecnologia para a Amazônia (UFAC)

7 comentários:

Beneditino disse...

Paulo,

Parabéns pela crítica ácida, que mostra o lado não alienado da sociedade acriana. Só faltou comentar que esse modelo exemplar será exportado para o Brasil, para o planeta e, quiçá, para o Universo.

Igor Diore disse...

Dizer que esse debate atual sobre PIB é uma ideia do Jorge Viana, é querer dar muita importância ao Senador.
Desde 2009, por meio da Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, essa questão vem sendo intensamente discutida por um grupo de cientistas altamente qualificado na discussão de PIB.
No senado federal, o senador Cristóvam Buarque é a pessoa mais qualificada que vem instigando o debate.
...hihi...
por José Porfiro - professor de economia internacional da UFAC

Paulo Wadt disse...

Igor. Você tem razão em seu questionamento. Aqui mesmo na UFAC há pesquisas importantes sobre o desenvolvimento regional e inclusive orientei uma tese de mestrado com indicadores de sustentabilidade para a área rural (Márcia Avila, 2006). O artigo reproduzido de meu blog tem como finalidade criticar o uso político de indicadores como o PIB.

Altemar disse...

Ihhhhh,
O soneto era melhor.
Quanto ao Buarque é sempre bom lembrar o que ele disse quando os gringos disseram "temos que internacionalizar a Amazônia": "concordo desde que o petróleo tambem o seja".
De resto acho ele um resmungão .

Edson Amorim disse...

rsrsr, só vc mesmo Altino,para me fazer rir numa horas dessas e o Paulo Wadt, daria um economista...rsrs

Idésio disse...

A matéria O Rei do Butão e o Rei do Acre, do pesquisador da Embrapa Paulo Wadt, tem vício de origem, pois todo conteúdo se baseia na premissa de que para encontrar “a resposta para o problema da falta de crescimento econômico do Estado: (Jorge Viana) está propondo a criação de um novo indicador que possa substituir o PIB”, quando na verdade essa não é e nem foi a tese levantada. A idéia de um novo índice de desenvolvimento aventada pelo senador apenas procura resgatar a necessidade de incluir novos parâmetros que contemplem as dimensões econômica, social, cultural e ambiental de modo mais adequado. Em segundo lugar, que eu saiba não existe Rei no Acre. Existe o Senador Jorge Viana, ao qual o pesquisador refere-se no texto, mas com medo de citá-lo textualmente utiliza-se de pegadinhas de mau gosto, atitudes típicas de acrobatas das letras e covardes de plantão.
Idésio Franke (Pesquisador da Embrapa Acre)

Idésio disse...

A matéria O Rei do Butão e o Rei do Acre, do pesquisador da Embrapa Paulo Wadt, tem vício de origem, pois todo conteúdo se baseia na premissa de que para encontrar “a resposta para o problema da falta de crescimento econômico do Estado: (Jorge Viana) está propondo a criação de um novo indicador que possa substituir o PIB”, quando na verdade essa não é e nem foi a tese levantada. A idéia de um novo índice de desenvolvimento aventada pelo senador apenas procura resgatar a necessidade de incluir novos parâmetros que contemplem as dimensões econômica, social, cultural e ambiental de modo mais adequado. Em segundo lugar, que eu saiba não existe Rei no Acre. Existe o Senador Jorge Viana, ao qual o pesquisador refere-se no texto, mas com medo de citá-lo textualmente utiliza-se de pegadinhas de mau gosto, atitudes típicas de acrobatas das letras e covardes de plantão.
Idésio Franke (Pesquisador da Embrapa Acre)