sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CHEIO ATÉ A TAMPA

Marina Silva

Tenho tentado ajudar familiares e conterrâneos numa situação dramática que hoje vou ver de perto: a enchente do rio Acre, que já alcançou quase a marca histórica de 1997. Agora, com mais pessoas atingidas, devido ao crescimento urbano sem planejamento.

Entre as pessoas afetadas estão membros da minha família. Meu pai, com 80 anos, como a maioria das pessoas de sua idade, recusa-se a sair de casa, cuja palafita mandou aumentar para que ficasse acima da marca alcançada pela água em 1997. Vizinhos, como dona Antônia e dona Alzira, e minha irmã Doia, que também moram em casas altas, permanecem no local. Minha irmã comprou uma canoa e, com meu sobrinho Eudes, dedica-se ao trabalho de ajudar os desabrigados.

Consigo imaginar a aflição das milhares de famílias no Acre e em vários outros Estados, que olham para o céu indagando quando vai parar de chover ou quando chegarão os recursos prometidos. No caso do Acre, nem tanto: o esforço do governo estadual e das prefeituras, com a ajuda do governo federal, criou uma estrutura para abrigar com segurança e socorrer com rapidez.

Admirável tem sido a mobilização da sociedade e do intenso voluntariado. Os órgãos públicos teriam muita dificuldade para acolher todos.

Na Amazônia, temos uma dádiva, que é a floresta. Em Rio Branco, a situação é mais grave justamente porque é o trecho onde o rio Acre perdeu a maior parte de sua mata ciliar e a subida das águas não tem contenção. Ainda assim, é mais lenta que em outras regiões. Na planície, a água se espalha mata adentro. Em regiões de relevo mais acidentado, sua rapidez e sua força provocam tragédias irreparáveis.

Mas há outro fator adicional, expresso numa palavra muito usada para descrever as melhores práticas de sustentabilidade: resiliência. Essa espécie de teimosia faz com que as pessoas inventem novos modos de conviver com a natureza em mudança e lhes dá capacidade de resistir, adaptar-se e, se necessário, mudar. No caso dos acreanos, sua base é o amor pelo rio que inunda as casas mas que provê os recursos essenciais à vida.

Ao brasileiro não falta solidariedade, nem amor à natureza e resiliência para suportar seus rigores. O Estado e seus dirigentes poderiam aprender essas lições, para distribuir com justiça os recursos e promover adaptações necessárias a este novo tempo de extremos.

Hoje abraçarei meu velho teimoso e, caso o rio tenha subido, tentarei convencê-lo a ir para a minha casa, onde o igarapé São Francisco chega perto, mas não entra.

PS: Campanha Acre Solidário (doações para os atingidos), Banco do Brasil, ag. 0071-X, conta-corrente 100.000-4, CNPJ 14.346.589/0001-99.

Marina Silva escreve às sextas-feiras na Folha de S. Paulo

8 comentários:

Valterlucio Bessa Campelo disse...

Quer dizer que faltou planejamento mas tem uma estrutura boa para abrigar com segurança? Quer dizer que o pessoal está com água no pescoço por causa do amor pelo rio? Sinceramente. A Marina não merece uma imagem no altar?

Eduardo disse...

1- Quer dizer que em Rio Branco o problema é maior porque justamente aqui o rio perdeu a maior parte de sua mata ciliar? Mas que papo furado! Perdeu sim, mas nas nascentes própria e de seus tributários. Por isso seca demais no verão. E quem contém água é barranco, margens, não árvores (mas que coisa óbvia!);
2- “...amor pelo rio que inunda as casas mas que provê os recursos essenciais à vida...”. Amor pelo rio? Recursos essenciais à vida? Que recursos? O único peixe que dá no rio Acre é piranambu, porque se alimenta de dejetos. Uma hiena das águas. Esqueceu o sabor, ex-senadora/ministra/seringueira/ribeirinha (não necessariamente nessa ordem...)?;
3- A ilustre conterrânea não disse a que veio até hoje, embora tenha criado em torno de sua figura, assim como outro embuste chamado Chico Mendes, uma aura de defensora mítica do meio ambiente. Só para inglês ver. O seringueiro quer escola, TV, hospital, shopping...etc. Com razão. Ninguém suporta aquela vida no seringal a não ser que seja obrigado pelas leis da sobrevivência. Ela própria não ficou no seu Shangri-La;
4- O ex-premiê espanhol Zapatero continua atual, como quando o fez com o chefe de uma republiqueta de quando em vez imitada pelo Brasil (aliás, da mesma corriola da ex-ministra e outros engodos): Marina, por que não te calas?

A.H. disse...

Prezado Eduardo, aqui vão algumas correções para você:
1 - Mata ciliar "segura" sim água. Explico. Onde há floresta, o solo é mais poroso e drena mais água (ela infiltra no solo), impedindo que toda a água corra para o leito do rio. Além disso, as raízes das árvores captam água da chuva para conduzi-la à própria árvore, favorecendo sua sobrevivência. Assim, na equação, sobra menos água para a enchente, obviamente. No verão, porém, a equação inverte, considerando que a transpiração das folhas ajuda a umedecer o ar e atenuar o clima seco. Ou seja, são as árvores que propiciam equilíbrio ao microclima.
2 - O autor da frase a que você faz referência não é o Zapatero, mas sim o rei Juan Carlos.

Jonas Amado Araújo disse...

Marina, Marina...

Na verdade dá sim para conter ao menos um pouquinho dessa água... fazendo tu beber ela pra ocupar o espaço vazio na boca e deixar de falar tanta besteira.

Pelamordedeus....

. disse...

Ela tem casa aqui no Acre, depois falam do NAbor, Flaviano e MArcio, pensei que esta senhora tinha ido embora de vez do Acre, e no dado o prazer de não a termos mas conosco nesta terra de gente que trabalha e gosta do progresso. Marina vai iludir o povo do centro sul, posto que sua conversinha de ong estrangeira e entreguista aqui nao funciona

Diogo disse...

A ex senadora que nasceu no seringal bagaço que já foi petista ideológica andou perdendo sua identidade ao longo dos tempos , deve ser o meio que ela andou vivendo, dizem que o meio transforma o indivíduo. A sociedade, hoje, é convencionada por modismos que invadem o cotidiano das pessoas, influenciando e ditando regras e modelos de comportamento que muitas vezes não condizem com a realidade do indivíduo, obrigando-o a aderir a um estilo ou posicionamento qualquer que objetive aceitação pelo grupo social ao qual pertence ou queira pertencer. Isso acontece independente de personalidade, pois, a coerção capitalista impera e rege as tribos existentes. Os grupos cobram padrões e o indivíduo reage. Aderir a todos os modismos trata-se também de praticidade, afinal, objetiva-se a aceitação; em contrapartida, a alienação a todos estes preceitos seria o mesmo que condenar-se à exclusão e ter que enfrentar uma batalha psicológica, pois ser “o diferente” dos demais gera estranhamento e as pessoas não estão preparadas para manter-se seguras diante de críticas e rejeições. Diante da facilidade de acesso a informações, o papel da mídia é, com certeza, incisivo no comportamento social e ideológico do indivíduo, divulgando a “cultura do ter e do descartável” de forma avassaladora e irresponsável; criando e impondo tendências e exterminando a individualidade a cada modismo pré-estabelecido para um curto intervalo de tempo, onde, na maioria das vezes, estão muito distantes dos verdadeiros anseios do ser humano. A idéia de uma imagem a ser seguida, tida como padrão de comportamento é cada vez mais explorada e as pessoas passam a necessitar de representações ditadas por outros, como forma de obter algum referencial para sua existência. Os conceitos são facilmente modificados e o modelo a ser seguido acaba sempre por valorizar o igual.

Albuquerque disse...

Marina se suas críticas fossem um pouco antes da 'babação' que tanto fazia aos vianas vc estaria melhor conceituada na sua terra natal.

Terra Náuas disse...

Nossa quanto odio! Me parece bem razoavel e plausivel que a detruiçao da natureza aumeta a gravidade das enchentes. Q as florestas retenham o solo, e etc. Isto nao eh a Marina simplesmente q esta dizendo isto se estuda em geografia no ensino medio. Ou os colegas esqueceram as aulas, ou preferem esquece-la para defender um positivismo progressista pra la de atrasado