segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DIVERSIDADE RELIGIOSA NO ACRE


Uma proposta curricular de ensino religioso nas escolas públicas foi apresentada nesta segunda-feira (21) ao governo do Acre, em Rio Branco, durante a abertura da I Conferência Estadual da Diversidade Religiosa.

A conferência tem como objetivo revelar a identidade de cada um dos principais grupos religiosos presentes no Acre e lutar para que a escola pública seja espaço democrático e pluralista contra todo o tipo de preconceito, discriminação e de fundamentalismo mesmo religioso.

Promovido pelo Instituto Ecumênico Fé e Política e a Secretaria Estadual de Educação, a abertura do evento foi marcada por orações do bispo do Acre, Joaquim Pertiñez, e da Mãe Raimundinha, que dirige um centro de umbanda.

O governador em exercício César Messias e os secretários de educação Daniel Zen (estadual) e Márcio Batista (municipal) também participaram da abertura da conferência. Zen afirmou que a proposta curricular para o ensino religioso possivelmente será adotada a partir do próximo ano.

A proposta do Instituto Ecumênico Fé e Política, no formato de uma cartilha, oferece a professores e lideranças religiosas informações para capacitá-los para o diálogo inter-religioso na sociedade pluralista, além de estimular a cooperação entre as diversas denominações e expressões de fé.

- Nosso objetivo é a construção da paz, da cidadania, da democracia e do respeito aos direitos humanos - afirmou o ex-padre e ex-deputado do PCdoB, Manoel Pacífico, que dirige o Instituto Ecumênico Fé e Política, uma entidade de direito privado, suprapartidária, comprometida com a justiça social e o respeito à diversidade cultural e religiosa.

A cartilha sobre diversidade religiosa no Acre é resultado de quase seis anos de encontros, inicialmente de representantes católicos e evangélicos, ampliados há mais de quatro anos com representantes espíritas, daimistas e de religiões de matriz africana.

A exemplo dos demais Estados brasileiros, o Acre possuía uma população de maioria católica, mas assistiu nos últimos anos o crescimento rápido da população protestante, estimada no País em 25% pelo IBGE.

De acordo com o Instituto Ecumênico Fé e Política, os dois fatores tem importância nas relações inter-religiosas na sociedade, particularmente dentro das escolas, uma vez que no Estado há também outros grupos expressivos, adeptos de outras tradições espirituais como daimistas, espíritas, e os seguidores de cultos de matriz africana, como o candomblé e a umbanda.

Sem espaço para doutrinar

A proposta também menciona a história de outras tradições espirituais presentes na Amazônia, como a indígena, islâmica, budista, bahai e seicho-no-ye.

Os participantes da conferência assinalam que o reconhecimento da diversidade religiosa impõe-se de forma absoluta, em função de uma série de fatores de ordem histórica de desinformação, de preconceitos e até de ordem cultural e religiosa.

Na avaliação deles, o desconhecimento generalizado entre os diversos grupos religiosos presentes no Acre, favorece algumas atitudes fundamentalistas de grupos majoritários sobre outros considerados de menor expressão.

- É necessário ouvir os diversos grupos que compõem este universo religioso no Estado, que nos revelem sua história e sua própria identidade. Esses relatos tem, portanto, muito de história e também, de forma diferenciada, a identidade de cada denominação - afirma o documento.

Católico, o governador em exercício César Messias destacou o trabalho social e religioso das igrejas evangélicas no Acre. Messias manifestou apoio à proposta de ensino religioso e aproveitou a ocasião para revelar que costuma participar de rituais com o uso de ayahuasca ou daime, como é mais conhecida uma bebida que provoca mirações, feita a partir de um cipó e de uma folha.

- Eu me sinto muito bem quando participo dos cultos da Assembléia de Deus ou quando me reúno com jovens da igreja Batista. Mas também me sinto muito bem quando tomo daime. Ninguém pode afirmar que o daime é uma droga. Só sabe o que é o daime quem toma o daime - afirmou o governador.

O secretário de educação de Rio Branco, Márcio Batista, foi o primeiro a defender que a cartilha intitulada “Muitos são os caminhos de Deus” seja incorporada pelo Conselho Estadual de Educação como proposta curricular para o ensino religioso nas escolas públicas do Acre.

- O pensamento religioso não é único e a escola não pode ser espaço para doutrinar ou catequizar - afirmou Batista.

4 comentários:

padilha disse...

Antes de qualquer coisa, é preciso derrubar o conceito de "evangélicas" aplicado a algumas Igrejas. Se tomarmos ao pé da letra, toda e qualquer religião que se diz cristã, tem forçosamente que ser "evangélica" já que não há narrativa da vida de Jesus fora dos Evangelhos. Mas como posso, ao mesmo tento, chamar de evangèlicos os seguidores da Igreja Internacional da Graça, os Testemunhas de Jeová, os Luteranos e os católicos (romanos ou não)?

Assim como as coligações se formam em torno de um projeto político, as igrejas ditas "Evangélicas" se agrupam em torno desta denominação pela mesma razão - construir um projeto de poder.

Deve- se chamar nominalmente as Igrejas: Igrejas Católica, Batista, Batista da Fé, Batista Renovada, Assembléia de Deus... caso contrário, o projeto que se propõe "respeitar" e dialogar com o diferente, torna-se equivocado já na gestação enunca será um projeto que realmente respeite e dialogue. È só ver o que faz a chamada bancada evangélica. Se isso for respeito, sinceramente não sei o que seria preconceito.

Lindomar Padilha

Fátima Almeida disse...

bom seria se os professores de ensino religioso fossem formados em ciências sociais, com complementação pedagógica, claro. Sendo pessoas muito apaixonadas por essa ou aquela religião sem o "distanciamento brechtiano" vai ficar tudo como está. Todo professor professa tudo, mas faz outra coisa em sala de aula.

Janu Schwab disse...

Les evangeliquès vão deixar? Duvideodáto!

Beneditino disse...

Igreja e Estado juntos! Absurdo! O Estado é laico e não deveria haver ensino religioso em escola pública alguma.