quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"NÃO DÁ MAIS PRA ESPERAR CALADO"

Sertanista critica operações da PF e Força Nacional de Segurança na fronteira Brasil-Peru


POR JOSÉ CARLOS DOS REIS MEIRELLES
Direto da Frente de Proteção Etnoambiental Xinane, na fronteira Brasil-Peru

Senhores,

Em toda a minha vida profissional de 40 anos de trabalho com os índios, isolados ou não, sempre soube a hora de calar, de respeitar hierarquia.

Soube também protestar a meu modo, quando necessário, a meu modo, jeito e responsabilidade. Pois agora é a hora de gritar, e alto! Embora isso signifique, como já aconteceu quando fui demitido da Funai, na criação da SBI que protestava contra o regime militar da época, a favor dos índios.

Lá vou eu, depois de velho, de novo.

A Frente Etnoambiental do Rio Envira, no Acre, como todos sabem, foi tomada por uma força paramilitar estrangeira, composta de traficantes e provavelmente acompanhados de índios recém contatados do Peru.

A Polícia Federal veio à nossa base, pensava eu, de acordo com plano que junto com ela fizemos em Rio Branco, de duas equipes, uma acima da base e outra abaixo, pousadas de helicóptero a distancia não audível dos invasores da base, que viriam por terra, na esperança de prendê-los.

O plano não foi executado. Sobrevoaram a base antes disso, de helicóptero, espantaram os caras. Uma equipe pousou na Aldeia Simpatia e subiu o rio. Foi resgatada antes de chegar na base. Outra pousou na base.

Nossos mateiros seguiram um rastro e entregaram o Sr. Joaquim Fadista, português que anteriormente foi preso aqui mesmo e deportado para o Peru, apesar se ser procurado por tráfico internacional de drogas, inclusive no Brasil. Voltou e foi preso de novo.

Satisfeita, a Polícia Federal abandonou a base, como se a missão estivesse toda realizada. Uma pequena equipe, Sr. Carlos Travassos, coordenador da CGIIRC/FUNAI, Artur Meirelles coordenador da Frente, Francisco de Assis (Chicão, mateiro), Francisco Alves de Castro ( Marreta, mateiro) e  José Carlos Meirelles ( Governo do Estado do Acre), por decisão unânime, resolveram vir para a base, que era de novo abandonada.

A Polícia Federal lacrou a base. No outro dia que chegamos estava tudo arrombado de novo. Os peruanos continuavam aqui. Vimos vestígios de menos de 15 minutos.

Veio de Rio Branco o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Acre. Foram feitas pequenas incursões. Encontramos acampamentos, mochila dos peruanos com pedaço de flecha dos isolados dentro. O Bope vai e vem a Força Nacional, sem ordem de se afastar a 500 metros da base.

Nestes dias de Força Nacional, sempre se escuta tiros em locais próximos à base, à noite, com características de arma de bala e não de cartucho.

Esta noite mesmo, foram ouvidos três disparos, de um lado e de outro do rio. A Força Nacional está esperando o Exército, que deveria aqui chegar no dia seguinte à invasão da Base, ocorrida há quase um mês.

E ninguém ainda se dispô a bater realmente estas matas e desvendar o que realmente estas pessoas, que continuam aqui, fazem e querem. Não temos acesso ao depoimento do português. Parece que é propriedade da Polícia Federal.

Há tempos, desde 2007, temos alertado sobre a exploração ilegal de madeira, do outro lado da fronteira, em reserva de isolados no Peru, a reserva Murunahua.

Agora, tudo leva crer que além de madeireiros, temos traficantes de drogas. E pelo andar da carruagem, como se diz aqui pelas matas, parece que estão botando roçados. Ou seja, não tem a mínima intenção de ir embora. Afinal, ninguém os perturba. Nós da Funai, do governo do Acre e os mateiros, que ganharam um presente da Funai: foram dispensados, mas estão aqui por opção. O risco é por nossa conta, somos pagos ou não pra isso.

Os índios isolados da região, verdadeiros donos desse pedaço de Amazônia, não tem nada com isso. E serão eles, com certeza, mais uma vez que pagarão o maior preço pela invasão de suas terras por um grupo  de traficantes e sabe-se lá mais que personagens.

Não dá mais pra esperar calado. Não vou mandar abraço pra ninguém. Meu coração está apertado. Quando sinto essa sensação, dificilmente erro.

José Carlos dos Reis Meirelles é sertanista

7 comentários:

blogdoxura disse...

Sr. José Carlos, é triste ver como os nossos políticos tratam da integridade de nosso querido Brasil. Talves o Exercito não tenha tido autorização para atuar, para não aborrecer os cumpanheiros Peruanos. Lhe desejo muita Sorte...

Carlos disse...

Minha nossa, a situação tá feia mesmo. É assim que nossa sociedade trata dos problemas, superficialmente e empurrando com a barriga. Digno de Brasil! Em pleno ano de 2011, até quando vamos testemunhar esses absurdos?? Espero que as pessoas que estão comprometidas nesta causa não desistam, desejo muita força, porque vcs são o que resta de dignidade nesse Brasilzão de tolos, de corruptos, onde a principal característica da população é a passividade, deixam tudo acontecer e depois ainda se acham no direito de cobrar solução. Absurdo!

Julio Pinto disse...

Amigo Meireles, infelizmente sua nobre causa e dever (como servidor publico) não da voto!!! Não sei nem o que falar!!! Que Deus te proteja e dê juizo aos nossos governantes!

Marcel Marques disse...

É triste pensar que uma companhia do E.B. resolveria a situação. Isso é pura falta de interesse, de vontade, negligência e má fé mesmo do Governo Federal, espero que a Dilma esteja preparada para ser marcada na história como a presidente que nada fez, enquanto os últimos índios isolados do mundo eram erradicados.

Fátima Almeida disse...

Meireles, é uma lástima que você esteja sozinho. A coisa está muito preta. Eu já tinha dito que a transoceânica corresponde ao périplo de Magalhães dos tempos do descobrimento. Com ela fechou-se o círculo do poder dessa máfia poderosíssima que é tão mais eficiente quanto menos a gente a vê e é como a rede da internet está por toda parte. Como ocorre na África, a América Latina tem governos que nunca primaram por idoneidade. Essa coisa de paramilitares sempre foi o modo deles fazerem faxina, eliminarem nativos que estão no meio do caminho. Em 200O um holandês já alertava sobre tudo isso que você está vivendo, num artigo da Nacional Geográfica. Que a transoceânica iria ser o fim. Aqui estão todos mudos, IMAC, Assembléia Legislativa, Ong's, organizações indígenas e indigenistas, Partido Verde sempre focado nas negociações em vésperas de eleições, partidos de "esquerda" em geral, a Universidade. Não estão nem aí. Os arredios estão se defendo com flechas contra paramilitares? E os governos do Brasil e do Peru não estão fazendo nada? A não ser atos espetaculares de um teatro que não convence a ninguém? Acho melhor você cair fora daí. Assassinaram Chico Mendes e hoje as carretas estão trafegando na BR de minuto a minuto transportando toras imensas e a população lambendo sorvete na sombra da estátua dele em uma praçinha. O Governo está focado na exportação de carne e madeira. Caia fora daí. Os traficantes já colocaram até roçado? Caia fora daí.

silene disse...

Sai daí, Meireles!

Marcelo Santos disse...

Meirelles, companheiro. Não estou fisicamente com você aí na base, se estivesse por perto, com certeza gostaria de prestar minha solidariedade pessoal. Mas como você mesmo enfatizou, o que resolve é a agilização dos procedimentos das autoridades. Desde o Itamarati, como os comandos do Exército e da PF, que deveriam sair do pedestal e aceitar as sugestões de quem conhece muito bem a área, melhor do que ninguém do planeta. Sei que você está atento a tudo e se virando pra todo lado atrás de apoio e resultados. Se você achar que posso ser útil, de qualquer forma, estou à sua inteira disposição. Por enquanto só o que posso fazer é disponibilizar suas informações para o máximo de pessoas possíveis. Abraços e força para todos que estão com você nessa crise.