terça-feira, 30 de novembro de 2010

UM NETO DE HISTÓRIAS FANTÁSTICAS

TIÃO VIANA ASSUME GOVERNO COM SÍSMICA


A posse do governador eleito do Acre, Tião Viana (PT), principal defensor da exploração de petróleo e gás no Estado, praticamente coincidirá com o início dos estudos que vão definir se existe ou não os dois produtos em solo acreano.

O senador Tião Viana garantiu emenda parlamentar de R$ 75 milhões para que a Agencia Nacional do Petróleo (ANP) realizasse prospecção de petróleo e gás no Acre. Para Viana, cuja principal promessa de campanha ao governo foi a industrialização, a possibilidade de existir petróleo no Estado “é uma base a mais para o desenvolvimento sócioambiental”.

Porém, representantes de organizações e povos indígenas, associações de seringueiros e agricultores, sindicatos de trabalhadores rurais de organizações da sociedade civil têm alertado que a política da ANP contraria as conclusões do Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre.

Elas argumentam que a exploração de petróleo também contraria as políticas defendidas há 12 anos pelos governos do PT no Estado, voltadas à valorização do ativo florestal e à definição de mecanismos de pagamento por serviços ambientais, com planos para a redução das emissões de gases de efeito estufa, a provisão de recursos hídricos e a conservação da biodiversidade.

Além de indicar se existe petróleo e gás, a fase sísmica, ou seja, de perfurações profundas, poderá indicar a partir do próximo ano a qualidade e a quantidade exata no Acre.

Na semana passada, a ANP recebeu a proposta de menor preço apresentada pela Georadar na licitação para a realização de estudos geofísicos na Bacia do Acre. O levantamento prevê a aquisição de 1.017 km de linhas sísmicas 2D, incluindo uma pequena área da Bacia do Solimões, no Amazonas.

O valor apresentado pela Georadar, de R$ 52 milhões, foi 37% menor que a proposta do consórcio Stratageo/Atech/Gobkin, de R$ 83 milhões; e 43% menor que a proposta da Geokinetics, de R$ 92 milhões.

A ANP está analisando o recurso de um dos licitantes, que considera o valor apresentado incompatível com o serviço proposto. A expectativa é de que agência decida sobre o recurso na próxima semana.

No Amazonas, o levantamento prevê a aquisição de 1.515 km de linhas 2D e um estudo magneto telúrico para a visualização de rochas abaixo das camadas vulcânicas, presente em grande quantidade na região.

O potencial de estudos na Bacia do Acre foi limitado pela existência de uma quantidade maior de unidades de conservação e áreas indígenas.

Os estudos geofísicos na bacia sedimentar do Acre, com a aquisição dos 1.017 mil km de linhas 2D e estudo magneto telúrico, “para a visualização de rochas abaixo das camadas vulcânicas”, isto é, atividades de exploração sísmica, no Vale do Juruá acreano, foi duramente criticada por organizações e personalidades do movimento ambientalista.

Todas as etapas de prospecção já concluídas no Acre foram realizadas sem qualquer consulta e sem que os seus resultados tenham sido divulgados à sociedade.

A preocupação é que a nova atividade, bem como a possível exploração de petróleo e gás na região, possa trazer graves impactos socioambientais para os territórios dos povos indígenas e populações tradicionais.

CRIANÇAS COM ALTO ÍNDICE DE DESNUTRIÇÃO

Valor encontrado em Jordão (AC) é alarmante quando comparado com a média do Brasil

POR JULIANA CRUZ
Agência USP de Notícias

A desnutrição infantil no município de Jordão, no Acre, atinge níveis próximos aos estimados para a África Subsaariana.  Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP buscou os fatores associados, na cidade, à desnutrição e constatou que a ascendência indígena de boa parte da população, a estatura baixa das mães, não estar com as vacinas em dia e o histórico de introdução de leite de vaca antes de 30 dias de vida são os principais fatores que se relacionam ao desenvolvimento da doença.

A pesquisa analisou 478 crianças de até 5 anos de idade da zona urbana e da zona rural.  Após fazer as medições de peso e altura, foi constatado que 35,8% delas apresentaram déficit de crescimento, principal indicador da desnutrição.  O valor encontrado é alarmante, principalmente quando comparado com a média do Brasil, de 7%.  “Até em comparação com a média da região norte, de 14,8%, o valor é muito alto.  É como se tivéssemos uma realidade africana em plena Floresta Amazônica, mostrando que a riqueza natural lá encontrada não consegue superar as condições sociais que influenciam na determinação desse problema”, pondera o enfermeiro Thiago Santos de Araújo, autor do estudo.

Crianças com ascendência indígena da área rural foram as que apresentaram maior índice de desnutrição, de quase 60%, e o risco de déficit de crescimento se mostrou duas vezes maior.  “Apesar de não podermos descartar a influência de fatores genéticos, as diferenças observadas no crescimento de crianças com ascendência indígena podem ser melhor explicadas pela pior inserção social desse grupo, que as expõe a uma menor escolaridade, renda e acesso a saneamento básico”, explica Araújo.  A altura das mães também é um fator associado à desnutrição.  Os filhos de mulheres com menos de 146,4 cm apresentaram risco três vezes maior de terem o crescimento comprometido.

Segundo Araújo, o crescimento da criança revela características marcantes da falta de nutrientes já sofrida e possibilita diagnosticar a desnutrição crônica, na qual o organismo, pela baixa quantidade de energia ou pelo desvio de energia para o combate a sucessivos episódios de doenças, não consegue multiplicar as células e tecidos na quantidade adequada.  “Analisamos a altura porque o peso é mais instável, já que uma alimentação inadequada por um curto período de tempo ou um episódio mórbido que modifique momentaneamente o apetite da criança já altera seu valor, revelando apenas um quadro agudo de desnutrição”, explica.

Reverter o quadro da doença e fazer com que a criança volte ao padrão de crescimento normal para a idade é possível até os dois anos de vida.  De dois a cinco anos, a criança volta a crescer num ritmo desejável desde que se restabeleçam as condições ideais para o crescimento, mas já não atinge a estatura padrão que deveria caso não tivesse sofrido a carência de nutrientes.  Além disso, a desnutrição acarreta problemas futuros, como o aumento no risco de desenvolvimento de obesidade e outras doenças crônicas, em virtude da relação existente entre o estado nutricional durante os primeiros anos de vida e o desenvolvimento desses distúrbios na idade adulta.

O município Jordão possui 6.539 mil habitantes (IBGE 2008) dos quais 33% possuem ascendência indígena.  Em 2000, seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) era de 0,475, o penúltimo do Brasil.  O sistema de saúde é composto por uma Unidade Mista, que oferece atenção básica e internações para doenças que não sejam graves, e um pólo de saúde indígena.  O atendimento à população rural é itinerante.  A escolha do município para realização do estudo se deu, além dessas características, em virtude da publicação das estimativas de prevalência e risco de desnutrição realizadas pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da USP, sob a coordenação da professora Maria Helena de Aquino Benício.  Em 2000, Jordão foi apontado como o município com maior risco de desnutrição do país (44,6%) e as altas estimativas se confirmaram, já que a cidade ainda apresenta alta prevalência de desnutrição.

A dieta da população é predominantemente à base de arroz, farinha, peixe, mandioca, milho e amendoim.  “Há pouca variabilidade e eles vivem do que produzem”, observa Araújo.  Segundo ele, mais investimentos e ações básicas de saúde, como campanhas de vacinação e de incentivo ao aleitamento materno, são medidas eficazes na prevenção e no controle da desnutrição infantil na cidade, cuja situação é encontrada também em outros municípios.  “ A desnutrição infantil persiste como um problema de saúde pública no Brasil, especialmente nos municípios do interior da Amazônia, e o estudo chama a atenção para o fato de que medidas podem reverter a situação”, conclui.

O mestrado, intitulado Desnutrição infantil em Jordão, Estado do Acre, Amazônia Ocidental Brasileira, foi orientado pela professora Marly Augusto Cardoso, do Departamento de Nutrição da FSP.  Foram utilizados dados provenientes de um projeto maior intitulado Situação Nutricional no Município do Jordão coordenado pelo professor Pascoal Torres Muniz da Universidade Federal do Acre (UFAC).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ACRE: DADOS DO CENSO 2010

Poucas mulheres e gente demais nas cidades

População do Acre: 732.793 habitantes. Era de 557.526 habitantes no censo realizado em 2000.

Um dado preocupante: temos 367.864 homens e apenas 364.929 mulheres.

Rio Branco, a capital, com 335.796 habitantes, é a cidade que concentra mais mulheres (51,34%).

Bujari, com 8.474 habitantes, é o município com menos mulheres (46,19%).

No "governo da floresta", a população urbana do Acre é de 532.080 habitantes (72,61%), enquanto a população rural é de apenas 200.713 habitantes (27,39%).

Porto Acre, com 14.806 habitantes, concentra a maior população na zona rural (86,80%).

Em Rio Branco, 91,85% dos habitantes moram na zona urbana. Apenas 8,15% na zona rural.
 
Santa Rosa do Purus, um dos municípios mais pobres do País, com 4.612 habitantes, é o que possui a menor população.

Clique aqui para saber mais.

JOÃO DONATO NO TEATRÃO

Gênio da raça acreana, o músico João Donato abre nesta segunda-feira (29) a Semana Varadouro, em Rio Branco. Estará no Teatro Plácido de Castro acompanhado de Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria) e Ricardo Pontes (sopros). A partir das 20 horas. Ingresso: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia)

SEM MEDO



Deputado Fernando Melo (PT-AC) esteve reunido com o presidente da OAB-AC, Florindo Poersch. Melo ouviu de Poersch (foto) uma análise curta sobre as eleições no Estado:

- Elas serviram para mostrar que os políticos e o eleitorado do Acre já não temem mais aos Vianas.

domingo, 28 de novembro de 2010

A RESPOSTA DE MARINA A LULA


O presidente Lula disse na quarta-feira (24), em Brasília, que uma das razões pelas quais a senadora Marina Silva (PV-AC) foi candidata a presidente é porque tinha convicção de que não se elegeria senadora pelo Acre.

- Obviamente que a fala dita dessa forma fica mais parecendo um discurso de palanque eleitoral e, agora, já passou a campanha. Acho que agora é hora de todo mundo descer do palanque. Ele inclusive foi vitorioso, teve a eleição da candidata dele. Eu prefiro não entrar nesse jogo de que tudo é eleitoral até porque as eleições já passaram - respondeu a senadora, em Rio Branco.

Marina Silva disse que a melhor resposta a Lula foi dada em comentário neste blog pelo jornalista Antonio Alves:

- Pra dizer que a Marina não seria reeleita para o Senado é preciso não conhecer os acreanos. Pra dizer que foi esse o motivo dela ter se candidatado a presidente é preciso não conhecer a Marina. Pra dizer isso conhecendo a Marina e os acreanos, é preciso ser... deixa pra lá.

NÓS PERDEMOS

Moisés Diniz

Toda a imprensa brasileira, todos os analistas, os políticos de modo geral, os padres e os pastores, os milionários, a sempre assustada classe média e os pobres de todas as favelas.

Todos aplaudem a ação vigorosa e mortal das Polícias do Rio de Janeiro e das Forças Armadas contra a bandidagem dos morros. Quem seria "doido" de ficar contra a ação para prender esses criminosos que estavam aterrorizando a bela cidade do Rio, sede da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016?

Eu também sou a favor da ação, só não fico no time daqueles perversos brasileiros que defendem a morte dos bandidos e aplaudem de pé o "Tropa de Elite". Eu defendo prisão perpétua para esses bandidos de alto grau e seus crimes hediondos. Assassinato não. Minha alma não permite.

Eu também concordo com a ação do Estado brasileiro, mas lamento que o Brasil tenha permitido chegar a isso. Lamento que a miséria humana tenha chegado a tão elevado patamar, num país rico e gigantesco em terra, água e biodiversidade.

As elites falharam. As elites do Brasil pecaram e nenhum confessionário curará as suas feridas. Elas acumularam riqueza demais. A concentração de renda chegou a limites absurdos.

Tem gente demais passando fome, tem jovens demais disponíveis para viver do tráfico de drogas, tem prostituição demais. Tem político omisso demais, magistrados, jornalistas, líderes populares. Todos nós temos culpa.

Nós perdemos. Nós perdemos para nós mesmos. Não vencemos os bandidos, derrotamos o Brasil, derrotamos a nossa honestidade e capacidade política, nossas energias de cinco séculos. Fracassamos.

Perdemos para a bandidagem que se tornou referência dos pobres dos morros, no lugar dos líderes da esquerda, dos líderes populares, que só querem saber de superávit primário e commodities para exportação.

A esquerda deixou de enfrentar as elites, aliou-se a ela e não distribuiu renda com a energia que deveria ter feito. A reforma agrária, inacreditável, mesmo sendo uma bandeira capitalista, continua como se estivéssemos na metade do século passado.

Os mortos dos morros do Rio são brasileiros que a elite os transformou em bandidos. Nessa hora tem gente, em inúmeras mansões, bebendo whisky e comemorando indiretamente as mortes.

Nós perdemos a capacidade de amar os pobres das favelas do Rio, de São Paulo, da Amazônia, porque aqui também têm pobres, jovens discriminados com o potencial mortífero de se tornar um bandido do porte daqueles do Rio.

Eu não quero levar para o túmulo essa culpa. Eu quero mudar, ser menos egoísta e mais fraterno, ouvir mais as pessoas e menos o poder do qual faço parte.

Quero voltar a viver como um ser humano normal, que seja capaz de chorar e de pedir perdão. E, acima de tudo, de mudar meus procedimentos políticos, para que eles sejam mais democráticos, mais livres, mais honestos e mais populares.

Quero lutar para que as minhas filhas não tenham também que dizer, no futuro, que elas também foram derrotadas na sua honestidade e no seu humanismo. Que elas também não precisem dizer:

Nós perdemos.

Moisés Diniz é autor do livro o "Santo de Deus" e deputado estadual do PCdoB do Acre

sábado, 27 de novembro de 2010

CONDUTOR DE VEÍCULO É CONTRIBUINTE

José Augusto Fontes

Segunda-feira, dia 22 de novembro de 2010, pouco depois das onze da manhã, temperatura de 37° C no centro de Rio Branco-Acre, precisamente na avenida Getúlio Vargas (e em alguns de seus cruzamentos), os veículos (exceto motocicletas ziguezagueando) simplesmente não andam. Há uma fila de veículos desde o Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CERB), que vai até a ponte metálica, impedindo o tráfego. Também não há onde parar, porque não há espaços para estacionar, nem mesmo pagando. Pouco antes eu havia tentado, em vão, pagar para estacionar, ao lado do edifício Santos. Eu havia passado antes, com muita demora e paciência de Jó, para tentar ir ao Banco do Brasil (agência centro, perto do Palácio). Passar por ali, de muito complicado, ficou depois impraticável. E nós, os condutores, sabemos que isso ocorre com frequência.

Eu havia, minutos antes, tentado ir em outra agência do Banco do Brasil, aquela na Marechal Deodoro, na frente da Galeria 5. Também em vão. Apesar do trânsito ruim, fui me aproximando, para parar nas proximidades da agência, mas me deparei com uns quatro policiais de trânsito, todos imponentes, multando alguns carros que estavam parados, logo aonde eu pretendia estacionar. Ali, da loja Patrick, até a agência mencionada, há um bom espaço que poderia ser usado pelas pessoas que procuram aquele local de atendimento e de interesse coletivo (os servidores públicos recebem seus salários através do BB, os aposentados, pensionistas etc; tributos, documentos , tarifas e contas públicas, são pagos em agências bancárias, dentre outros vários serviços e transações). Portanto, ninguém vai ali para passear. Mas não se pode parar, como acontece em quase todo o centro da nossa urbe. Porém, não há ações visíveis criando espaços públicos para as pessoas estacionarem seus carros e praticarem atos de interesse coletivo. E mesmo sem haver destinação desses locais, pelos gestores do trânsito, a gente nota (o que é notório independe de maiores comprovações) muitas ações para multar, proibir e sancionar. E nota, com clareza solar, que nosso trânsito não anda bem.

É necessário agir e criar espaços para as pessoas transitarem com maior praticidade e segurança, sem medos ou aperreios, e também para que estacionem, pois no centro da cidade são encontrados serviços essenciais. Ali estão instaladas repartições públicas e ali são buscados interesses e obrigações, escolas, necessidades e atendimentos relevantes para a população, na qual estão incluídos os condutores de veículos automotores. É preciso entender que os condutores não são infratores ou marginais em face da lei! Condutores não são pessoas a punir, apenas porque punir é mais fácil. A ideia não deve ser ‘multar’, mas prevenir e educar. Co ntudo, para tanto, é preciso viabilizar. A cada carro adquirido, corresponde um imposto cobrado, que se repete todo ano, junto com outros adicionais. Logo, o condutor não é um infrator, mas um contribuinte, que paga impostos para usufruir do serviço.

Multar e proibir não são missão essencial do policiamento de trânsito! O gerenciamento do sistema deve atuar para planejar melhores condições de tráfego e para proporcionar acesso a estacionamentos.  E atuar para planejar, educar e prevenir. É mais barato do que pagar por tantas placas, agentes, semáforos, sinalizações, radares e afins. É claro que nós, os condutores, não ignoramos que os radares arrecadam. Mas esse ponto de partida está em marcha ré e deve ser repensado. Ou melhor, deve ser invertido, para atuar em prol do condutor, e não, para multá-lo.

Aqui mesmo, em Rio Branco, são umas vinte sinalizações de trânsito (semáforo, alguns deles onde nem existe cruzamento e radar), na avenida Ceará, desde as imediações da Habitasa até as proximidades da FIRB/FAAO. Vinte, repito. Ora, a avenida Ceará é uma via bem larga e estrutural na cidade, mas não se consegue andar com agilidade nela! Então, o que foi ali privilegiado? No centro da nossa cidade, dentre outras diversas instituições, existem, por exemplo, várias escolas (públicas e privadas). Ouvi de vários pais reclamação sobre falta de locais para parar ou estacionar e apanhar ou deixar filhos nas escolas. A minha filha mais nova estudou no Colégio Brasileiro e eu mesmo vivi tal situação, até decidir mudá-la de escola, pois não havia como parar o carro e andar poucos metros para levá-la ou apanhá-la no referido estabelecimento de ensino (que fica quase em frente ao Colégio Acreano), simplesmente por não haver onde parar. Sem contar que fui multado em frente da escola infantil Menino Jesus, mesmo havendo ali uma placa permissiva (para pais de alunos, nessa circunstância de motivação escolar). Sentiu o drama?

Os condutores querem, apenas, poder usar as vias públicas sem problemas, para satisfazer necessidades diárias ou o lazer, sem a ameaça constante das multas. Afinal, quem é que sustenta o sistema de trânsito brasileiro? De onde vem sua arrecadação? Falando em arrecadação, naquele mesmo dia (22/11/2010), o Brasil suplantou um trilhão e cem bilhões de reais de arrecadação de tributos, no ano andante. Dentre estes, está o IPVA. Pronto, descobrimos onde está o sustentáculo do sistema que, ao invés de viabilizar para nós, condutores, o uso dos nossos veículos e a consecução das nossas necessidades diárias no contexto urbano, está trilhando o cam inho transverso das proibições, sanções e multas.

É o condutor (e cidadão) quem banca o sistema de trânsito, pagando um IPVA caríssimo! Então, esse mesmo sistema, deve ao condutor o seu sustento. Por isso mesmo, em prol do condutor, precisa adotar políticas públicas para viabilizar o uso dos veículos, com boas vias e com locais de acesso para estacionar. É simples. Ninguém dirige para o sem-fim ou fica dentro dos carros eternamente. Há um destino nos trajetos, aonde se vai chegar e estacionar. Ninguém quer chegar e não ter aonde parar. Ou, se conseguir parar, ser multado. Todos querem o sistema de trânsito funcionando bem. Do contrário, qual a razão lógica para a exigência do pagamento do IPVA , se o sistema não funciona adequadamente? Isso sem contar diversas outras taxas, tarifas e serviços adicionais, todos bem cobrados. Até o seguro é obrigatório!

Fica o registro, para que todos nós possamos repensar e até apresentar ideias, pois apenas criticar não vai solucionar a questão. Sobre isto, pode ser que uma limitação de trânsito para caminhões, carros maiores e mais pesados, entre seis e vinte e duas horas, no centro, possa ajudar (isto já é feito em várias cidades). Assim como os carros que abastecem o comércio com reposição de estoque, tenham horário certo para realizar suas tarefas. Também uma boa delimitação sobre parada de carro-forte. Eles vivem no meio das ruas, se valendo de um parcial permissivo contido no Código de Trânsito. Mas a proteção do dinheiro de seus clientes não é s uperior ao interesse público pela circulação desimpedida, livre e desembaraçada de pessoas. Outra sugestão é a adoção de locais específicos para motocicletas, o que pode ajudar a disciplinar o uso das áreas comuns. Por fim, já que o IPVA é exigido do condutor, por que ele tem que ser tão maltratado ou mal atendido nos interesses básicos? Por que ele é tão visado com multas, proibições e sanções, se ele é quem sustenta o sistema e quer apenas usufruir de boas condições de trânsito? Essa é uma boa primeira marcha para o ato de repensar.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito acreano

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

CONVERSA COM LULA

Transcrição textual de minha participação na entrevista do presidente Lula com blogueiros nesta quarta-feira (24), no Palácio do Planalto. A transcrição completa da entrevista está disponível em formato "doc". Clique aqui para download.



Altino Machado: Presidente, bom dia. Eu sou do Acre, que é um colégio eleitoral pequeno, o senhor conhece muito bem. E embora tenha pouco mais de 470 mil eleitores, o Acre, grosso modo, é um ícone para o PT, como é São Paulo para o PSDB. O José Serra venceu nos 21 dos 22 municípios do Acre. Jorge Viana não se tornou o senador mais votado, proporcionalmente, do país, perdeu na capital. Tião Viana foi eleito muito apertado, é...
 

Presidente: Marina teve (incompreensível) e teve só 3% dos votos.
 

Altino Machado: É. Então, esse... Por que o senhor não é “o cara” no Acre? Embora, embora tenha sido dito assim, o Tião Viana disse: “O povo do Acre foi injusto com o Lula”. O Aníbal Diniz, que vai assumir a cadeira dele no Senado, disse: “Nós temos que entender a hostilidade do eleitor acreano contra Lula e contra Dilma”, não é? Como é que o senhor interpreta tudo isso? Como é que... esse caso do Acre?
 

Presidente: Espera aí, eu quero te agradecer por essa pergunta, porque é uma coisa que eu trago desde a minha primeira eleição para Presidente, é uma coisa... Eu perdi para o Alckmin lá.

Altino Machado: Sim, no primeiro turno.

Presidente: No primeiro turno, eu ganhei no segundo. E eu tenho... eu visito o Acre desde 1979, ou seja, por causa do Acre eu fui condenado a três anos e nove meses de cadeia. Não cumpri a pena porque... por causa da morte do assassino no comício.

Altino Machado: Eu estava lá naquele comício que o senhor fez e foi, em seguida, para Brasiléia.
 

Presidente: Essa semana eu encontrei com o Jorge em um jantar da Câmara Brasil-França, eu falei: “Jorge, eu preciso sentar com você, porque eu preciso entender o que está acontecendo no Acre”. Veja, eu tenho a convicção de que se pegar... O Fernando Henrique Cardoso foi até um bom presidente, na relação com o Acre.
 

Altino Machado: Sim.
 

Presidente: Mas eu tenho a convicção de que se pegar tudo o que foi feito no governo Fernando Henrique Cardoso, governo Itamar, governo Collor, governo Sarney, se somar tudo não dá a metade do dinheiro que eu pus no estado do Acre para fazer as coisas. Inclusive, vocês vão ter o prazer de ver, no Acre, os cinco rios do Acre todos com ponte estaiada, que foi uma briga para a gente poder convencer o financiamento daquelas pontes, por causa que um paulista ou um cara de Brasília não tem noção da dificuldade do que é fazer uma obra no estado do Acre, que não tem pedra, é preciso trazer pedra de outros estados, pedra importada de outros estados, às vezes demora 40 dias para chegar, se não chover demora quatro meses, ou seja, é um dilema para fazer as coisas no Acre. E durante a campanha eu estava preocupado. Eu dizia para o Tião Viana e para o Jorge: “Olhem, eu gostaria de estudar profundamente o Acre, como é que funciona a cabeça do companheiro do Acre”. Sobretudo porque já havia um sinal muito forte de que mesmo o companheiro Jorge Viana sendo a liderança que é, o Binho sendo o quadro que é, tendo a prefeitura da capital e tendo o Tião Viana. Eu nunca vi ninguém trabalhar tanto como o Tião Viana. O Tião Viana saía daqui na quinta-feira, chegava lá, ia para todas as cidades. O PT governa 12 dos 22 municípios, tem mais cinco aliados e perdeu em quase todos, ou seja, é inexplicável. Eu acho que precisa um estudo sociológico sobre o Acre, ou o que os companheiros erraram na política do Acre. Tem erro, tem erro. Eu não ouso dizer aqui o erro antes de fazer... Mas daqui a uns seis meses, quando eu for ao Acre, sem ser presidente, eu me comprometo a te dar uma entrevista dizendo o que eu acho que aconteceu no Acre.
 

Altino Machado: Obrigado.
 

Presidente: Eu não quero ser grosseiro e fazer um julgamento precipitado. Mas certamente, certamente nós erramos no Acre por presunção. Não sei se você sabe, na minha opinião uma das razões pelas quais a Marina foi candidata a presidente é porque ela tinha convicção de que não se elegeria senadora pelo Acre, como aconteceu, de fato, uma votação pequena. Então, eu quero, eu quero aprender o que aconteceu no Acre, não apenas com a campanha majoritária, mas com os companheiros lá. Ou seja, o Jorge Viana quase que não se elege, o Tião Viana foi 50,04%, quando a gente imaginava que ele ia ter 80%, 90%. Então, certamente não é erro do povo. Posso te garantir o seguinte, eu quero começar dizendo o seguinte: se tem uma coisa certa lá é o povo. É preciso que, ao invés de a gente ficar culpando o povo, a gente sente, faça uma reflexão [sobre] onde é que nós pisamos na bola no Acre, porque certamente o erro é nosso. Ninguém apanha tanto se acertou. Então, nós temos erros. É só a gente ter humildade, ter humildade e descobrir o que está acontecendo no Acre, porque eu tenho convicção, Altino, e você também, de que os Viana fizeram um bem para o Acre muito grande. Eu conheço o Acre desde 1979.
 

Altino Machado: Inegável.

Presidente: Eles transformaram aquilo em um estado. Rio Branco virou uma cidade bonita. Mas você percebe que não basta obra, não basta obra. Eu tenho na minha cabeça há muitos anos, o povo não vota numa pessoa porque ele fez uma ponte, porque ele fez uma rua, não. O povo vota se o resultado daquilo teve uma explicação política convincente para as pessoas. E eu acho que a política está mal trabalhada no Acre. Você está lembrado? Chico Mendes virou herói mundial, mas foi candidato a prefeito em Xapuri, teve 300 votos. Osmarino saiu na capa do New York Times muitas vezes; foi candidato a prefeito em Brasileia, acho que não teve nem 100 votos. Você percebe? Há uma rejeição a um determinado tipo de discurso, que nós precisamos discutir como enfrentar isso. Me comprometo daqui a seis meses, Altino, a ter uma conversa contigo...
 

Altino Machado: Uma entrevista exclusiva. Muito bem!

LULA: "OS VIANAS ERRARAM FEIO NO ACRE"

Íntegra da entrevista do presidente Lula aos blogueiros

Quando a entrevista de Lula com os blogueiros foi encerrada, o presidente e eu nos cumprimentamos e tiramos fotos abraçados.

Em seguida, Lula segurou meu braço. Na presença de outros blogueiros, disse:

- Altino, os Vianas erraram feio no Acre. Erraram porque se distanciaram do povo.

Durante a entrevista, minha pergunta foi focada no revés eleitoral enfrentado pelo PT no Acre. Queria saber por quê Lula não é "o cara" no Acre.


O presidente agradeceu pela pergunta e prometeu que me concederá entrevista para explicar melhor quando visitar o Acre daqui a seis meses.

A resposta de Lula foi uma das mais demoradas durante a histórica entrevista com blogueiros. Eis o principal trecho da resposta do presidente para tentar explicar o revés eleitoral no Acre:

- Tem erro na política do Acre. Certamente nós erramos por presunção. Na minha opinião, umas das razões pelas quais a Marina foi candidata a presidente é porque ela tinha convicção de que não se reelegeria senadora pelo Acre. Eu quero aprender o que aconteceu no Acre não apenas com a campanha majoritária, mas com os companheiros lá. O Jorge Viana quase que não se elege. O Tião Viana foi 54,04% quando a gente imaginava que ia ter 80% ou 90%. Certamente não é erro do povo. Se tem uma coisa certa lá é o povo. É preciso que, ao invés de ficar culpando o povo, a gente sente e faça uma reflexão onde é que nos pisamos na bola no Acre. Porque certamente o erro é nosso. Ninguém apanha tanto se acertou. Então nós temos erros. É só a gente ter humildade de descobrir o que está acontecendo no Acre. Eu tenho convicção, Altino, e você também, de que os Vianas fizeram um bem pro Acre. Eu conheço o Acre desde 1979. Eles transformaram aquilo num Estado. Rio Branco virou uma cidade bonita. Você percebe que não basta obras. O povo não vota numa pessoa porque fez uma ponte ou uma rua. Vota se o resultado daquilo teve uma explicação política convincente para as pessoas. Eu acho que a política está mal trabalhada no Acre.

BLOGUEIROS ENTREVISTAM LULA - AO VIVO

terça-feira, 23 de novembro de 2010

VIROU SACANAGEM, GENTE

Governo do Acre gastou R$ 184 mil com o "cantor nacional" Léo Magalhães

LULA NA PRIMEIRA ENTREVISTA À BLOGOSFERA

Presidente vai receber blogueiros no Palácio do Planalto

Pela primeira vez na história deste País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concederá entrevista a um grupo de blogueiros.

Na quarta-feira (24), a partir das 9 horas, no Palácio do Planalto, o evento será transmitido ao vivo pelo Blog do Planalto, pelos blogs participantes e por todos que tiverem interesse de fazê-lo.

Dez blogueiros já confirmaram participação na entrevista coletiva: Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Cloaca (Cloaca News), Eduardo Guimarães (Cidadania), Leandro Fortes (Brasilia Eu Vi), José Augusto Aguiar Duarte (Os Amigos do Presidente Lula), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna).

- Será uma entrevista coletiva, mas também é um momento de celebração da diversidade informativa. Ao abrir sua agenda à blogosfera o presidente demonstra estar atento às transformações que acontecem no espaço midiático e ao mesmo tempo atesta a importância dessa nova esfera pública da comunicação - assinala o jornalista Renato Rovai, um dos articuladores do evento.

Viajarei logo mais com os apetrechos necessários para participação e registro que o momento histórico exige. Vou para entrevistá-lo, mas se Lula perguntar sobre o Acre, prometo aos leitores que responderei a verdade, somente a verdade.

Como o público poderá participar da coletiva enviando perguntas pelo chat, gostaria de saber antecipadamente o que os leitores perguntariam a Lula.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

JOÃO DONATO CONTA E CANTA ONDE COMEÇOU

GOVERNO PAGA R$ 190 MIL POR BUNDA LELÊ



Perdemos a chave da bunda ou não existe Ministério Público ou Tribunal de Contas no Acre?


P.S.: Atenção leitores: existe, ainda, a contratação do desconhecido cantor Leo Magalhaães por R$ 184 mil. Clique aqui para conferir.

domingo, 21 de novembro de 2010

ILUMINAÇÃO NATALINA CUSTA R$ 567 MIL


Deu no Diário Oficial do Acre (leia) que o governo estadual pagou R$ 567 mil à empresa Etenge pela iluminação natalina de seis pontos no centro de Rio Branco - Parque da Maternidade, Mercado Velho, Memorial dos Autonomistas, Palácio Rio Branco, Palácio das Secretarias e gabinete do governador.

A maioria das ruas das cidades do Acre é desprovida de pavimentação e os esgotos correm a céu aberto. Além disso, a maioria das ruas não tem iluminação pública, embora para tal seja arrecadado mensalmente quase R$ 5,00 de cada consumidor de energia.

O privilégio da decoração natalina se restringe ao pequeno centro de Rio Branco. O interior do Acre não sabe o que é isso.

O Estado tem o pior e mais caro serviço de eletricidade do Brasil. Em Jordão, um dos municípios mais miseráveis do país, a população enfrenta duro racionamento de energia elétrica.

- Falta alimentos básicos na cidade. Açúcar, feijão, óleo de cozinha e outros produtos tem sido racionados junto com a energia – disse o prefeito petista Hilário Melo ao site AC 24 Horas.

Em janeiro de 2007, o governador Binho Marques (PT) anunciou durante a posse que o Acre seria "o melhor lugar para se viver na Amazônia até 2010".

Qual a resposta da consciência do governador ou da nossa, que não contaremos -como o governador contará ao deixar o cargo- com uma pensão vitalícia de R$ 22 mil?

Existe Ministério Público ou Tribunal de Contas no Acre?

ANTA VIRA ELEFANTE NA TELEVISÃO

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


A segunda-feira da índia Rosi Waikhon na periferia de Manaus foi um dia de cão. Escapou, por pouco, de ser apedrejada. Ao sair de casa, várias pessoas lhe atiraram na cara frases do tipo: “Ei, índia, você não é gente, índio mata o próprio filho, vocês deviam morrer”. Minha amiga há muito tempo, ela me confidenciou:

- Meu dia virou um terror, em todos esses anos, nunca tinha ouvido palavras tão pesadas e racistas”.

Quem humilhou Rosi estava indignado, porque no dia anterior havia presenciado o “assassinato” de crianças indígenas, cometido pelos próprios pais, que praticam o “infanticídio”, tudo isso exibido no programa Domingo Espetacular da TV Record. Felizmente, como nos filmes americanos, chega a cavalaria para salvar vidas ameaçadas por índios bárbaros. A missionária evangélica Márcia Suzuki, cavalgando a emissora do Edir Macedo –tololoc, tololoc– leva os bebês arrancados das garras dos “criminosos” para a chácara da igreja neopentecostal. Enfim, salvos.

As pessoas viram trechos do vídeo “Hakani” com o sepultamento de uma criança viva. A voz cavernosa de um narrador em off anuncia que se trata de prática generalizada: “A cada ano, centenas de crianças são enterradas vivas na Amazônia”. O xerife Henrique Afonso, deputado federal do PV do Acre, quer prender os “bandidos”. Faz projeto de lei que criminaliza o “infanticídio indígena”, invoca a Declaração Universal dos Direitos Humanos e apela ao papa Bento XVI para que “intervenha contra o crime nefando”.

Como tem gente boa no mundo, meu Deus! Mas sobrou para Rosi que viveu uma “segunda-feira espetacular”. Quase foi linchada. Não foi a única. Rosi é índia Waikhon –etnia conhecida também como Piratapuia. Mora na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), e está de passagem por Manaus. É educadora e líder da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. Escritora, participou de dois Encontros de Escritores Indígenas na UERJ. Ela faz um apelo:

- Gostaria de pedir aos senhores que não continuem usando o termo infanticídio indígena. Por favor, não aumentem o preconceito e o racismo contra nosso povo.

Xamãs e bruxos

Afinal, os índios cometem infanticídio? Essa é mesmo uma prática generalizada na Amazônia? Francisco Orellana, o primeiro europeu que cruzou o rio Amazonas dos Andes ao Atlântico, em 1540, viu coisas muito estranhas. A crônica da viagem –repleta de “domingos espetaculares”- conta que ele se deparou com elefantes em plena selva, comeu carne de peru, bebeu cerveja feita pelos índios e combateu as precursoras do infanticídio - mulheres guerreiras que matavam seus filhos homens. A Europa acreditou piamente em suas histórias.

Orellana, coitado, sentiu o mesmo problema do xerife Henrique e da cavaleira Suzuki: como descrever aquilo para o qual não tenho palavras? Orellana viu antas bebendo água no rio. Não existia esse animal na Europa, nem muito menos a palavra anta nos dicionários. Como dar conta dessa realidade desconhecida, nova e estranha? O bicho era grande? Era. Tinha tromba? Tinha. Então, ele sapecou: “vi elefantes”. Afinal, elefantes são grandes e tem tromba. O mesmo com as mulheres que combateu. Na Europa, mulheres não iam pra guerra. Então, Orellana recuperou o mito grego, que a Europa conhecia muito bem.

Esse processo de equivalência entre objetos conhecidos e objetos novos foi muito usado nos registros coloniais. Ele consiste em definir fatos representativos de uma cultura com símbolos de outra cultura. Mutum passa a ser peru, caxiri se transforma em cerveja, inambu vira perdiz e mulheres que trocam o fogão pelo arco-e-flecha são amazonas. Essa operação reduz e simplifica enormemente a diversidade e a riqueza cultural, porque o símbolo não consegue transmitir toda a sua carga de significado de uma cultura a outra.

Foi assim também com os pajés e xamãs, que não existiam na Europa e foram denominados de ‘feiticeiros’ pelos colonizadores, com conotações altamente negativas que o equivalente não tem. As consequências foram trágicas, porque se ninguém mata uma anta pra extrair marfim dela, feiticeiros e bruxos eram, no entanto, condenados à fogueira.

O infanticídio é crime punido por lei. Denominar de infanticídio uma prática cultural que desconhecemos e que nos choca não ajuda a entendê-la, oculta a anta e não revela o elefante, além de ser um convite para criminalizar os povos indígenas e condená-los à fogueira. Quando os antropólogos ou agentes de pastoral do CIMI chamaram a atenção para tal leviandade e para o erro em generalizar para todos os povos, a ONG Atini os acusou de defenderem o ‘infanticídio’ porque querem impedir a mudança cultural.

Os antropologos

Todos os antropólogos –todos– sabem que a cultura é dinâmica, isso faz parte do bê-á-bá da antropologia. Nenhum antropólogo –nenhum- se manifesta contrário a mudanças, até porque isso seria inútil. Ao contrário, o que os antropólogos estão dizendo, para horror do agronegócio interessado nas terras indígenas, é que índio não deixa de ser índio porque usa computador e celular. Mas a emissora do Edir Macedo grita espetacularmente contra os antropólogos, sem citar nomes:

“Há quem diga que a prática de matar crianças deficientes, gêmeas ou filhas de mães solteiras deve ser defendida para manter a cultura”.

Não cita o nome de um só antropólogo, nem o livro ou artigo de onde foi pescada tal “informação”, porque ela é falsa. Na realidade, o que se pretende é quebrar a parceria com os principais aliados dos índios na luta pela saúde, educação e demarcação da terra. A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), através da Comissão de Assuntos Indígenas, já havia publicado nota esclarecedora assinada por João Pacheco.

“O vídeo Hakani – diz a nota – não é um registro documental proveniente de uma aldeia indígena, mas o resultado de uma absurda encenação realizada por uma entidade fundamentalista norte-americana. Utilizado como base para uma campanha contra o infanticídio supostamente praticado pelos indígenas, tem também a finalidade de angariar recursos para as iniciativas (certamente mais “filantrópicas” do que filantrópicas) daqueles missionários”.

Diz ainda que a prática daquilo que estão chamando inapropriadamente de infanticídio entre os indígenas “são virtualmente inexistentes no Brasil atual”. Ali onde eram localizadamente praticadas estão deixando de existir com a assistência médica e a demarcação de terras, por decisão dos próprios índios, conforme esclarece Rosi:

-Sou indígena, meu povo também tinha essa prática, mas não precisou de ONG nenhuma intervir para mudarmos. Os gêmeos, trigêmeos e os deficientes indígenas da região em que vivo estão sobrevivendo sem intervenção de Ong. Por favor, não peçam dinheiro em nome do infanticídio indígena.

A nota da ABA reforça: “Por que substituir a mãe, o pai, os avós, as autoridades locais por uma regulação externa e arbitrária? As crianças indígenas não são órfãs. Bem ao contrário, estão melhor protegidas e cuidadas no âmbito de suas coletividades e por suas famílias. Uma intervenção indiscriminada, baseada em dados superficiais e análises simplórias, equivocadas e preconceituosas, não poderá contribuir para políticas públicas adequadas a estas populações”.

O abandono e morte de crianças indígenas com sofrimento, dor e tensão foi a resposta dada por algumas comunidades a um infortúnio ou desgraça que as acometia e que está sendo discutido e solucionado pelos próprios índios diante da nova situação em que vivem. Doía tanto quanto para Abrahão matar seu filho.

Então, ficamos combinados assim: uma anta é uma anta, um elefante é um elefante, a resposta dada por algumas comunidades tem tromba e é grande, mas não é elefante, e o Edir Macedo é….bom todo mundo sabe o que é Edir Macedo.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MPE-RO PEDE CASSAÇÃO DE IVO CASSOL

O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu ao Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia a abertura de investigação judicial contra o candidato eleito ao Senado Ivo Cassol (PP), o apóstolo Valdomiro Santiago e mais seis pessoas. O grupo é acusado de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.

Durante um show evangélico no município de Rolim de Moura (RO), segundo o MPE, teria ocorrido “explícita e autêntica propaganda eleitoral feita pelo líder religioso da Igreja Mundial do Poder de Deus”. O apóstolo Valdomiro Santiago solicitou ao público de mais de 10 mil pessoas que votassem naqueles candidatos, alegando que eram “obra de Deus” e seus amigos.

Os demais acusados são os suplentes de Cassol, Reditário Cassol e Odacir Soares, o atual governador João Aparecido Cahulla (PPS), que na época disputava a reeleição, e seu candidato a vice-governador, Tiziu Jidalias, além do então candidato a deputado federal Joarez Jardim (PP) e do então candidato a deputado estadual Ari Saraiva (PSDC).

Os acusados, caso sejam condenados pela Justiça Eleitoral, podem ficar inelegíveis por oito anos e terem seus registros ou diplomas cassados. A PRE também pede que o apóstolo Valdomiro Santiago seja multado em R$ 200 mil.

O MPE emitiu, no começo do período eleitoral, recomendação para que os religiosos em Rondônia não fizessem propaganda eleitoral para candidatos, alertando sobre as consequências do descumprimento. A Igreja Mundial do Poder de Deus foi uma das entidades que recebeu a recomendação.

O ato religioso comandado pelo Apósto Valdomiro Santiago, em setembro, chegou a ser transmitido ao vivo na televisão e internet. Na ocasião, a Promotoria Eleitoral de Rolim de Moura acompanhou o evento e constatou que houve “desvio de finalidade religiosa para promover os candidatos”.

Os promotores pediram à Justiça Eleitoral que determinasse o encerramento imediato do show e a apreensão dos equipamentos de som, mas o juiz não foi localizado e o evento prosseguiu. Os candidatos receberam uma benção coletiva do líder religioso.

- A atitude de abençoar os candidatos, fazendo referências claras a qualidade de agentes públicos e da estreita relação de amizade entre o líder religioso e os candidatos, é, indubitavelmente, fator de desequilíbrio na disputa eleitoral. Abusando da prerrogativa do ministério religioso, verdadeiro poder de autoridade, o pastor Valdomiro se empenhou fortemente na campanha eleitoral dos candidatos ali presentes - argumenta o MPE.

Segundo o procurador regional eleitoral, Heitor Soares, a situação foi grave porque “baseada no argumento da fé religiosa, da crença das pessoas, abusou-se do poder de autoridade religiosa e da própria liberdade religiosa, garantida constitucionalmente, em prol de candidatos, como se estes fossem - com a benção e as palavras de fé - representantes de Deus na Terra”.

Pará

No Pará,  Wladimir Costa (PMDB), candidato mais votado para a Câmara dos Deputados, pode ter registro cassado por compra de votos. O deputado reeleito é acusado pelo MPE de oferecer curso de informática com fins eleitoreiros em Itupiranga. Caso seja considerado culpado, poderá ficar impedido de tomar posse ou será cassado.

Costa foi o mais votado em Itupiranga, com 4.896 votos, o que representou 22,85% dos votos válidos no município. Segundo o MPE, os números revelam “o sucesso da empreitada ilícita”. Em todo o Estado, Costa teve um total de 236.514 votos.

A representação do MPE ao TRE ressalta que, para configurar-se compra de votos, não é necessário que haja pedido expresso de voto, bastando a evidência de que a vantagem foi oferecida para a obtenção da contrapartida.

O deputado responde no Supremo Tribunal Federal a três ações penais (415 e 474 e 528) - duas relacionadas a crimes contra a honra, além de dois inquéritos (2134 e 2915), por calúnia e difamação. Costa também responde uma denúncia de funcionários fantasmas em seu gabinete. Os salários seriam usados pelo próprio deputado e seu irmão, Wlaudecir.

CTI DENUNCIA 13ª MORTE NO VALE DO JAVARI

A equipe do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que atua na Terra Indígena do Vale do Javari (AM), na fronteira com o Peru, denunciou nesta quinta-feira (18) a ocorrência da 13ª morte em um mês na região, habitada por etnias mayoruna, marubo, matis e kanamari, além de etnias isoladas e de contato recente.

- Há inúmeras crianças com o já conhecido quadro de diarréia e vômito que vem se disseminando entre as famílias nos últimos anos, sem que nunca se investigue as verdadeiras causas desse sintoma, e muito menos se faça tratamentos eficientes que mantenham as crianças vivas - relata Pollyana Mendonça, do CTI.

A última vítima foi o jovem Makokoah Kanamary, da aldeia Estirão do Pedra, que morreu na noite de quarta-feira (17). Kanamary era aluno dos cursos do CTI e professor voluntário de sua comunidade.

O índio foi removido no começo da semana para Manaus porque apresentava um quadro de insuficiência renal. Como sempre acontece para as pessoas do Vale do Javari, segundo o CTI, não se sabe as causas exatas que o levaram a tal quadro, e os sintomas acabam sendo fatais.

- Há tempos todos sabemos que a situação de saúde no Vale do Javari é deplorável. E o hábito, para quem vê de fora, deve ser amigo da dormência e do esquecimento. Mas para os povos do Vale do Javari, não há maneira de pensar em quase nada quando as pessoas estão constantemente enfermas e os óbitos passam a fazer parte do cotidiano - afirma o CTI.

A organização atua no Vale do Javari desde 2002 com programa de educação na formação complementar de professores indígenas através de acompanhamentos pedagógico, mini-cursos e oficinas nas aldeias.

O CTI articula ações conjuntas com outras organizações que trabalham na defesa dos povos indígenas isolados e costuma oferecer suas experiência aos países vizinhos no reconhecimento de áreas para proteção desses povos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

POLÍTICA E ENGENHARIA


Você acredita na honestidade do governo estadual e dos engenheiros, arquitetos e empreiteiros quando executam obras como essas, nas duas entradas de um conjunto de habitação popular ainda vazio? Contrariam códigos de obra, postura, segurança e até de bom senso. E ainda chamam o eleitorado de irresponsável ou hostil quando são contrariados nas urnas. É uma pena que no Acre não haja fiscalização sequer do Ministério Público Estadual.


DOIS ANOS E CINCO MESES DEPOIS

Isto é democracia, Gilberto


Do marqueteiro pernambucano Gilberto Braga, da Cia. de Selva, a agência que detém as contas do governo do Acre e da prefeitura de Rio Branco:

- Quem quer plebiscito para mudança do fuso horário terá que passar mais 95 anos esperando. Foi esse o tempo que o horário passou errado. Isso é democracia.

Meu comment: Resigna-me saber que o marqueteiro vai embora do Acre na "hora" que a mamata acabar. E ela não vai demorar 95 anos.

A nota acima foi publicada neste blog no dia 25 de junho de 2008 (veja), após entrar em vigor a lei do senador Tião Viana (PT-AC) que mudou a hora legal do Acre. A noção de tempo, realidade e democracia do marqueteiro petista já estava perdida naquele ano. Braga e o deputado estadual Edvaldo Magalhães (PCdoB) são os mais cotados para a secretaria de Comunicação do governador eleito Tião Viana.

SENADO RESTABELECERÁ HORA LEGAL DO ACRE

Mudança é prevista para o dia 2 de janeiro de 2011

Falta apenas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) homologar o resultado do referendo sobre a hora legal do Acre para que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), assine um Ato Declaratório reintegrando o Estado, a partir do dia 2 de janeiro de 2011, à faixa de fuso horário de Greeenwich menos cinco horas, ou seja, de duas horas a menos em relação ao horário de Brasília.

No dia 31 de outubro, 56,87% dos eleitores do Acre rejeitaram em referendo a Lei nº 11.662, de 24 de abril de 2008, de autoria do senador Tião Viana (PT-AC), sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que extinguiu o quarto fuso horário brasileiro, de cinco horas a menos em relação ao horário de Greeenwich.

O movimento político para alterar o fuso horário começou após entrar em vigor a portaria 1.220/07, do Ministério da Justiça. A portaria determina que as emissoras de TV adaptem suas transmissões aos diferentes fusos horários vigentes no País em função da classificação indicativa dos programas

Lula e Viana alteraram o Decreto nº 2.784, de 18 de junho de 1913, da hora legal brasileira, a fim de modificar os fusos horários do Acre e de parte do Amazonas do fuso horário Greenwich “menos cinco horas” para o fuso horário Greenwich “menos quatro horas”, e da parte ocidental do Estado do Pará do fuso horário Greenwich “menos quatro horas” para o fuso horário Greenwich “menos três horas”.

O Acre foi agregado ao terceiro fuso, ao qual pertenciam originalmente apenas os Estado do Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Roraima. Porém, a lei que se sujeitou a referendo tinha uma abrangência maior do que a do referendo em si, pois incluiu municípios da parte ocidental do Pará na faixa de fuso horário “GMT -3″ e excluiu municípios do Amazonas da faixa “GMT -5″.

O resultado das urnas no referendo do Acre não afetará a aplicação do fuso horário nos Estados do Amazonas ou Pará, onde as populações dos municípios não foram consultadas sobre a mudança. Sarney vai declarar que as disposições da Lei nº 11.662/08 deixam de ter eficácia no que se refere ao Acre, mantendo-se o Amazonas integralmente na faixa “GMT -4″ e o Pará na faixa “GMT -3″.

A hora legal do Acre voltará a ser baseada no Decreto nº 2.784, de 18 de junho de 1913, assinado pelo presidente Hermes da Fonseca, conforme a alínea “d”: “o quarto fuso, caracterizado pela hora de Greenwich ‘menos cinco horas’, comprehenderá o territorio do Acre e os cedidos recentemente pela Bolivia, assim como a área a W da linha precedentemente descrita”.

- Ainda vou conversar com o presidente Sarney. Espero que o Ato Declaratório devolva a hora antiga do Acre logo no dia 1º e não no dia 2 de janeiro de 2011 - afirma o deputado Flaviano Melo (PMDB-AC), autor do Decreto Legislativo que resultou na realização do referendo sobre a hora legal do Acre.

Tão logo seja homologado o resultado do referendo pelo TSE, o presidente do Congresso Nacional vai expedir Ato Declaratório explicitando amplitude e partir do qual o referendo opera seus efeitos. Portanto, a Lei nº 11.662/08 deverá continuar aplicável ao Acre somente até o dia 1º de janeiro de 2011.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ATO DECLARATÓRIO DA HORA LEGAL DO ACRE

O senador Tião Viana (PT-AC), governador eleito do Acre, terá que atrasar o relógio em uma hora antes de tomar posse no dia 1º de janeiro de 2011.

Veja a conclusão do parecer da Advocacia-Geral do Senado Federal: "… o resultado do referendo já será fixo e imutável a partir de sua homologação pelo Tribunal Superior Eleitoral. Seus efeitos, inclusive, já poderiam operar. No entanto, em virtude da necessidade de deixar clara a modulação de seus efeitos, restringindo a perda de eficácia da norma ao Estado do Acre, parece-nos recomendável que o Presidente da Mesa do Congresso Nacional expeça Ato Declaratório com teor equivalente ao seguinte:


"Junte-se ao processo original", despachou o presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP).

FLOR DE MUNGUBA

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM PITACO SEM SER CHAMADA

Fátima Almeida

As eleições já passaram e agora vem o Natal e o Ano Novo. Brasileiro é assim, acreano é assim. De minha parte, aguardo as nomeações para saber o que vai mudar no time titular do governo do Acre. A parte a qual sou mais chegada, no coração, é a cultura. Estou otimista depois de algo que um passarinho me contou sobre uma movimentação nos bastidores para que Francis Mary Alves de Lima assuma a presidência da Fundação Elias Mansur.

Acredito que o próprio Elias Mansour, que já está do outro lado, ficará satisfeito porque nós costumávamos ir tomar cafezinho no final da tarde com ele, em seu gabinete, onde tínhamos entrada mais do que franca sem o menor protocolo. E quando não tínhamos o que fazer, após o  tradicional encontro na praça.

Além do mais, a Francis Mary é uma das dirigentes do PT que não subiu no salto, como se diz, não mudou o modo de tratar as pessoas, sem contar que é competente e que o Procon do Acre, o qual ela dirige, é um lugar onde somos tratados com amabilidade, eficiência e rapidez. Ela permanece em contato com as comunidades, trabalhando com afinco para estender o exercício da cidadania ao maior número de pessoas.

De mais a mais, a trajetória dela no meio artístico-cultural, é do conhecimento de todos, desde meados dos anos 70, como poeta, co-autora de peças teatrais, atriz e jornalista, sempre em defesa do meio ambiente, dos direitos imemoriais dos povos indígenas, da liberdade de pensamento e expressão. É do meio, conhece a todos e apresenta uma longa jornada.

Nada tenho contra o atual presidente, com quem nunca pude sequer conversar. Nas raras vezes em que tentei isso fui tratada de forma seca, curta e grossa, pela pessoa que ocupa o cargo de chefe de gabinete.

A primeira vez, quando estava tentando publicar o livro do Joseh Alexandre, do PT, da CUT, assassinado brutalmente, cujos poemas vieram às minhas mãos e cujo trabalho de organização da obra para publicação me consumiu as horas vagas por um par de meses. A segunda vez, quando, em cadeira de rodas, devido a uma fratura na perna, precisava saber das condições de acesso ao Teatro Plácido porque queria participar da audiência sobre a nova função do Casarão, em reforma, e queria, que petulância, um carro com motorista que me levasse e trouxesse para casa. A mesma, curta e seca, me mandou ligar para outro setor que por sua vez, não sabia nada a respeito. Bom, fiquei em casa olhando para o tempo, sem incomodar as pessoas mais próximas que estavam ocupadas.

Mesmo assim nunca deixei de colaborar com a Fundação Elas Mansour na qualidade de parecerista de patrimônio histórico, sempre que me convidaram. Nunca procurei privilégios, mas tenho várias pastas com recortes de jornais que atestam a minha participação do meio artístico de Rio Branco e que não é de se desprezar. Acredito que eu mereceria, por parte daquela senhora, chefe de gabinete, um mínimo de atenção.

Não tenho, em absoluto, a menor intenção de atuar na área de forma institucionalizada, nem mesmo de modo informal, mas gostaria de ser tratada com mais respeito à minha história de vida, porque queiram ou não, eu sou uma referência no meio cultural acreano e, por isso, fico contente com a possibilidade de que o novo gestor ou a gestora seja alguém com o perfil de Francis Mary. Ela é tranqüila, consciente, comprometida, com trânsito em todas as gerações, com boa memória e, sobretudo, uma boa amiga de todos nós, dos avessos e dos direitos. Ademais, é uma boa acreana, honesta, com horizonte bem aberto.

Fátima Almeida é historiadora

domingo, 14 de novembro de 2010

O CAFOFO DA RUA DA INSTALAÇÃO, EM MANAUS

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

Mulheres da alta sociedade amazonense -mães, esposas e filhas, inclusive menores de idade- posaram completamente nuas ou seminuas para o jovem ‘fotógrafo’ americano Walter Hunnewell, num estúdio improvisado situado em prédio antigo da Rua da Instalação, no centro da cidade de Manaus. Uma dessas sessões foi presenciada por seu colega, William James, garotão de porte atlético, de 23 anos, que confessou:

- Aparentemente refinadas, de qualquer modo não libertinas, as mulheres consentiram que se tomassem com elas as maiores liberdades e duas delas, sem muito problema, foram induzidas a se despir e posar nuas.

No momento em que terminava a sessão, o estúdio recebeu a visita de um conhecido deputado -não foi o Lupércio- que viu as roupas das meninas ainda espalhadas pelo chão. Também um engenheiro militar, o major João da Silva Coutinho, tomou conhecimento da existência de mais de 100 fotos com mulheres despidas de frente, de costa e de perfil, mas preferiu se calar. A Polícia registrou o fato, conforme ofício n˚ 787 expedido em 24 de outubro. O escândalo foi abafado. A imprensa não deu um pio.

Depois de todo esse tempo, esta coluna rompe o silêncio para não ser acusada de cumplicidade e omissão. Somos o primeiro a tocar no assunto. Não gosto de fofoca não, mas -como diz o outro- não sou baú nem cofre para guardar segredo. Por isso, me sinto na obrigação de passar adiante essa história apimentada. Vi as fotos e me pergunto como é que senhoras de boa família aceitaram exibir suas intimidades para um desconhecido que nem sequer é fotógrafo?

Fotógrafo de araque

Walter Hunneweel não é fotógrafo nem aqui nem na China. Antes de vir ao Brasil, nunca havia tirado uma foto. Não passa de um playboyzinho, filho de um milionário, que por causa disso foi aceito como voluntário em uma expedição científica chefiada pelo seu professor na Universidade de Harvard, Louis Agassiz, um suíço naturalizado americano, especializado em ictiologia, cujo objetivo declarado era coletar, nos rios e igarapés de Manaus, pacu, bodó, piranha e outras espécies novas.

Mas quem caiu na rede foi outro tipo de peixe. Em vez de pescar, “o Sr. Agassiz passa metade do dia trabalhando com seu amigo Sr. Hunnewell, tirando fotografias de habitantes locais” - registra o diário da expedição. Professor e discípulo armaram seu cacuri num velho prédio da Rua da Instalação, onde antes funcionava uma repartição pública. “O salão fotográfico era um ambiente carregado de aura erótica e, de modo significativo, destituído de qualquer conteúdo científico” - diz o pesquisador John Monteiro, nascido em Minnesota e atualmente professor da UNICAMP.

Na viagem de barco a Manaus, a máquina fotográfica quebrou e foi consertada em Santarém por um lambe-lambe mocorongo. “Hunneweel possuía um conhecimento técnico deficiente e um equipamento precário” e, em consequência, “as imagens são de baixa qualidade e de gosto duvidoso” e se situam “numa região incomoda entre a fotografia científica e erótica”, conforme avaliação de John Monteiro e de sua colega da USP, Maria Helena Machado, que analisaram as fotos.

Que Deus perdoe minha maledicência -trata-se apenas de uma coincidência- mas o fotógrafo de araque nasceu em Boston, a pátria da padrofilia, cujo arcebispo, Bernard Law, foi afastado e responde a mais de 450 processos judiciais, sob a acusação de ter encoberto abusos sexuais cometidos por padres católicos contra crianças. Qual foi o papo que esse gringo de Boston engrenou pra convencer nossas mulheres, inclusive menores de idade, a ficarem peladas? A Ciência. Tudo em nome da ciência.

Papo cabeça

A expedição percorreu o Brasil durante os anos 1865 e 1866, com o objetivo maior de provar que a teoria da evolução de Darwin era furada. Agassiz defendia o criacionismo e condenava ferozmente a mestiçagem a quem atribuía a responsabilidade pela “degeneração da raça humana”. Queria produzir documentos visuais sobre as origens étnicas e as variedades dos tipos mestiços. Para isso, fotografou no Rio e em Manaus tipos étnicos nus com o objetivo - segundo ele - de fazer comparações somáticas.

Havia ingenuidade nas mulheres que posaram nuas? Elas ficaram impressionadas com o prestígio dos "pesquisadores" que pertenciam à Universidade de Harvard? O estudante William James, que fez parte da expedição, dá interessante depoimento em seu diário íntimo:

“Eu fui, então, para o estabelecimento fotográfico e lá fui cautelosamente admitido por Hunneweel com suas mãos negras (manchadas no processo químico). Ao entrar na sala, encontrei o prof. (Agassiz) ocupado em persuadir 3 moças, às quais ele se referia como sendo índias puras, mas as quais eu percebi, como mais tarde se confirmou, terem sangue branco. Elas estavam muito bem vestidas em musselina branca, tinham joias e flores nos cabelos e exalavam um excelente perfume de priprioca”.

John Monteiro escreve que essa “operação estava sendo conduzida em segredo, o que destoava das afirmações do professor Agassiz a respeito da compilação de uma valiosa série de imagens científicas que serviriam de base para um estudo sério”. Foi no final da sessão que chegou o deputado Tavares Bastos, estudioso da região e autor do livro “O Vale do Amazonas”. Sujeito decente, o parlamentar se escandalizou com o que viu: “Ele me perguntou ironicamente se eu estava vinculado ao Bureau D’Anthropologie” - comenta William James.

John Monteiro acha -e nós concordamos- que é difícil acreditar que o fato não tenha causado algum tipo de mal-estar na sociedade manauara. Ele cita um ofício da Polícia de 24/10/1865, dando conta da chegada da expedição em Manaus. Um escândalo, logo abafado, pode ter brotado, o que talvez tenha contribuído para o desligamento de W. James da expedição. Escreve John Monteiro:

- A imprensa local manteve o silêncio em torno das atividades do “sábio Agassiz”, enquanto os outros participantes da expedição - inclusive o major João Martins da Silva Coutinho - não deixaram nada escrito sobre o estúdio fotográfico.

Dessa forma, foram apagadas as aventuras fotográficas desse desacreditado cientista, defensor de teorias racistas e pioneiro do apartheid. As fotos, conservadas em chapas de vidro, ficaram um século e meio perdidas num armário sem uso no sótão do Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Harvard. Muitas delas continuam inéditas. Outras foram publicadas agora em 2010, durante a 29ª. Bienal de São Paulo, num livro organizado por Maria Helena Machado e Sasha Huber, uma suíça de origem haitiana engajada na luta antiracista. Trata-se, agora, de uma luta pela memória.

Lugar de memória

Desacreditado como cientista por causa de suas equivocadas teorias, nem por isso Agassiz deixou de ser cultuado. Monumentos, montanhas, ruas, avenidas e praças em várias cidades do mundo levam hoje o seu nome. No Alpes suíços tem um pico chamado Agassiz; no Rio de Janeiro, na Floresta da Tijuca, tem a Pedra de Agassiz e as Furnas de Agassiz, além de uma praça Agassiz e uma rua Agassiz no subúrbio carioca. Em Belo Horizonte, no bairro Floresta, existe uma rua com esse nome. E por ai vai.

O historiador suíço Hans Fassler, autor de um livro sobre o envolvimento do seu país com a escravidão, achou intolerável a homenagem e criou a campanha “Desconstruindo Agassiz”, que briga para renomear o pico Agassiz com o nome de uma de suas vítimas, um escravo afroamericano chamado Renty. Hans e Sasha conheceram Helena Machado e John Monteiro num seminário internacional organizado na UNIRIO em agosto de 2009. Daí nasceu a idéia do livro que além dos quatro autores recebeu a contribuição dos pesquisadores Flávio Gomes, Suzana Milevska e Petri Saarikko.

Maria Helena percorreu os arquivos e museus da universidade, localizou e analisou o conjunto da documentação relativa à expedição de Agassiz que permite discutir uma série de questões estratégicas para a compreensão do Brasil na segunda metade do século XIX, tais como os interesses norte-americanos na Amazônia, a livre navegação pelo rio Amazonas, os projetos dos Estados Unidos de enviar a população afro-americana para povoar a região, a proibição do tráfico internacional de escravos e o debate sobre raça e ciência.


P.S.: Quem quiser saber mais, leia o livro de Maria Helena Machado e Sasha Huber (orgs) “Rastros e raças de Louis Agassiz: fotografia, corpo e ciência, ontem e hoje” São Paulo. Capacete. 2010. (Edição bilingue da 29ª. Bienal de São Paulo).

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti.

sábado, 13 de novembro de 2010

A PEDAGOGIA DO CASTIGO


Apaixonado, um garoto de 11 anos, filho da jornalista Surama Chaul, foi suspenso no Colégio Meta, em Rio Branco (AC), após "tatuar" na mão esquerda o "S" do nome de sua amada.

"Ah o amor, o que é o amor? Ainda mais o amor da primeira infância, das primeiras palpitações, da ansiedade de ver a pessoas amada. Me lembro até hoje do meu primeiro amor, quando eu tinha entre 10 e 12 anos. É aquela época em que a gente não sabe se brinca ou se paquera. A fase de descobertas gerais.

Pois é, hoje estou vivendo isso na pele dos meus filhos de 10 e 11 anos, na pele mesmo porque foi nela, mais precisamente na mão, que meu filho de 11 anos “tatuou” com a ponta de um lápis a letra S do nome de sua amada."

Clique aqui para ler o relato da mãe.

NO MEIO DO ASFALTO TINHA UMA ÁRVORE


Estimado Altino

Ontem (12/11), pela manhã, a caminho da Universidade Federal do Acre, encontrei uma centenária tora que caiu de um caminhão madeireiro. Estava no acostamento da BR-364, próximo à rotatória que permite acesso ao Conjunto Universitário.

Apesar de não possuir uma câmera que "só falta falar", igual à sua, fiz algumas fotografias que são suficientes para tornar evidente não a criminosa sangria de nossas florestas em nome do "desenvolvimento sustentável" do governo do Acre, posto que isso você e outros poucos têm feito há muito tempo, mas, a mais completa despreocupação com a segurança das pessoas que transitam nas rotas das carretas que usurpam as riquezas da Amazônia acreana para o além fronteira do mercado nacional e internacional.

Já é bastante trágico que o Ministério Público Estadual e, também, o Ministério Público Federal, não fiscalizem a pilhagem de nossas florestas, porém, não fiscalizar a falta de segurança a que estamos submetidos, com o sério risco de sermos esmagados por uma tora de madeira, isso já é demais.

Saudações, Gerson Albuquerque


Meu comentário

Estimado professor Gerson,

de dentro do carro, também fotografei na manhã de sexta-feira (12), próximo à Casa dos Cereais, um caminhão trôpego que atravessava a cidade com três imensas toras retiradas de nossas florestas. Usei o celular e não a câmera que "só falta falar".


Estava sem motivação para publicar a foto. Não é novidade, como disseram nesta semana as autoridades do governo estadual em relação ao tráfico de drogas exposto ao País por uma reportagem de TV.

Por que ainda resistimos em aderir ao quanto pior melhor?

Um abraço fraternal

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DIANA KRALL

CRICA DEIXA O PTB SEM AVISAR LEITORES

Deu na coluna de Luiz Carlos Moreira Jorge, o Crica, em A Gazeta, a mais lida no Acre, nesta sexta-feira (12):

"Só no pincel
Houve desfiliação ontem de toda a direção do PTB: deixaram a presidente Iolanda Lima só.

Nada a reivindicar
Ao bem da verdade, o PTB não tem força para reivindicar nenhum espaço no futuro governo, porque não conseguiu eleger um deputado estadual e ainda se fracionou em brigas internas."

Clique aqui e veja no site do PTB a lista dos ex-integrantes da Comissão Provisória do partido no Acre. Entre eles, o colunista Luiz Carlos Moreira Jorge, que faz o Blog do Crica.

Na verdade a comissão foi destituída pela direção nacional do PTB.

Sendo assim, Crica perde força como candidato a Secretário de Comunicação? Quem, em nome do PTB, a partir de agora vai negociar cargos com o governador eleito Tião Viana (PT)?

Resposta:

"Caro amigo Altino:

Posso lhe garantir que não estou entre os cortados pela direção nacional do PTB, onde nem militei, fui mais a convite de amigos. Se sair será por decisão pessoal. Quanto a ser secretário de Comunicação, já disse na minha coluna que não quero, não devo, não posso, pelas minhas posições que você  conhece de ter sido um crítico do governo e de muitos dos seus auxiliares. Nunca passou pela minha cabeça ocupar o cargo. Ademais, meu tempo de administração pública passou, tem que se buscar cara nova. Bem melhor para mim é continuar escrevendo livremente meu blog.

No mais, um abraço do amigo Luis Carlos Moreira Jorge"