quarta-feira, 30 de junho de 2010

SÃO COISAS DA VIDA

Gabriela Oliveira

Faço o que cotidianamente todo mundo faz: me embriago com a fumaça dos carros e volto pra casa com dores nas costas.

Normalmente, o suor que vai da ponta da testa aos pés, para no umbigo, deixa aquele cheiro de pus de espinha e volta a escorrer, a cueca fica amarelada, aquele "vuco-vuco" da virilha mancha e as vezes se mistura com o rastro de bosta que ficou da última cagada, resultado de um dia corrido que frequentemente você leva na boa.

No outro dia você veste a primeira meia que encontra, aquela que usou na semana passada e que não teve tempo de lavar, ruídas do tempo, mas confortáveis. Come um pedaço de pão mofado com café velho e se sente adormecido, anestesiado pelo tempo.

Os vizinhos dizem que você precisa de um emprego novo, de uma mulher que cuide da casa, mas você não quer nada disso, você quer continuar parado onde está, esperando que um dia a morte venha e te leve.

Enquanto isso, você vai vivendo como pode, sem muito querer, sem muito sentir. No fim do dia se põe a gargalhar sozinho enquanto bate uma. São coisas da vida.

Gabriela Oliveira, 19, é acreana e acadêmica de direito. Escreve no blog Minha Antena Parabólica.

FLORESTA ESTADUAL DO MOGNO

Índios protestam contra projeto madeireiro do apresentador Ratinho


Índios e ribeirinhos de sete aldeias da etnia yawanawá ameaçam fechar a partir desta quinta-feira (1) a BR-364, que liga a capital Rio Branco ao interior do Acre, em protesto contra a relação do governo estadual com a empresa Radan Administração e Participação Ltda., que tem como sócio majoritário o apresentador de TV Carlos Massa, o Ratinho.

A Radan obteve licenciamento para exploração madeireira em 150 mil hectares na Floresta Estadual do Mogno, na margem esquerda da BR-364. O plano de negócio é de conhecimento do governo estadual. O plano de manejo florestal já foi analisado e aprovado pelo governo federal. Está previsto a instalação de uma indústria de beneficiamento de madeira na região.

Duas organizações do povo yawanawá entregaram na semana passada uma carta ao governador Binho Marques (PT) na qual criticam duramente a relação do Estado com a empresa de Ratinho. De acordo com os índios, está chegando ao final o terceiro mandato da coligação Frente Popular do Acre e o governo pouco ou quase nada de significativo tem feito para ajudar concretamente as comunidades indígenas.

Leia mais no Blog da Amazônia.

terça-feira, 29 de junho de 2010

QUERO VER PROGRAMAS DE GOVERNO

Valterlúcio Bessa Campelo

Tenho defendido sempre que a candidatura ao governo deve ser sustentada por um programa de governo. É o "quê" da eleição. Para votar pra governador não basta saber em quem, é preciso saber no "quê". Com os candidatos conhecidos (Tião Viana e Tião Bocalom), é necessário agora que também sejam conhecidos seus programas de governo para o Acre.

O senador Tião Viana (PT) pretende suceder Binho Marques que por sua vez sucedeu Jorge Viana, irmão do Tião e pertencente ao mesmo partido e mesma coligação. Poderia apenas dizer que seu programa é o que está sendo implementado há 12 anos, que vai dar continuidade e estamos conversados. Mas tem que dizer. Se, por acaso, pretende inovar, reciclar, remodelar a florestania, a campanha eleitoral é a melhor oportunidade para que isto seja bem explicado. Se pretende romper com tudo que está ai, idem.

O Tião Bocalom (PSDB) pretende ser governador com um discurso que vai contra a "florestania", o projeto que vem sendo implantado nos últimos 12 anos. Faz isso com base em um arsenal de críticas e acusações. Muitas delas, certamente, válidas. Mas não basta. Ele mais que o outro Tião tem a obrigação de mostrar o que pretende fazer. Não é razoável pedir o voto do eleitor apenas dizendo que está ruim, que pode melhorar etc. Tem que dizer o que vai pôr no lugar daquilo que considera nocivo. Mudança é apenas slogan de campanha.

Quero, portanto, sugerir aos candidatos ao governo do Acre que exponham seus programas de governo, se os tem, na internet, lembrando que 35% dos domicílios urbanos possuem pelo menos um computador no Brasil. Enumero algumas vantagens.

1. Agiliza a comunicação com o eleitorado.
2. Provoca o debate nas famílias, vizinhança e grupos de eleitores.
3. Proporciona o feedeback (as pessoas podem dar o retorno).
4. Alimenta o próprio programa com idéias vindas da população.
5. Facilita a comparação entre programas.
6. Identifica o candidato com suas propostas.
7. Orienta e baliza os programas eleitorais de rádio e TV.

Além disso, se pode firmar compromissos que podem ser, depois, monitorados pela sociedade. Colocar um programa de governo na internet é facílimo. Desde que se tenha um, é claro.

Valterlúcio Bessa Campelo é agrônomo.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

CAI PRESIDENTE DA FUNDHACRE

Direção remove paredes de vidro porque temperatura ambiente "baixa" para 30ºC quando sistema de refrigeração é acionado


Após a publicação neste blog do vídeo "A sucursal do inferno", na quinta-feira (22), o governador Binho Marques (PT) fez remanejamento na equipe dele em mais uma tentativa de melhorar o atendimento na Fundação Hospital do Acre (Fundhacre).

A enfermeira Lúcia Carlos foi afastada da presidência da Fundhacre, que passa a ser dirigida pelo secretário adjunto de Saúde Sérgio Roberto. Lúcia Carlos, que tentava resolver vários problemas na Fundhacre, permanece como secretária adjunta de Saúde.


Esse é apenas mais um exemplo da ingerência do governo, que perde tempo e dinheiro com propagandas fantasiosas e esquece de conferir a qualidade de seus serviços na ponta ou deixa de ver e estar próximo da população, esquecendo os seus reais problemas.

O governador ficou contrariado com as imagens do vídeo mostrando a população sendo atendida sob muito calor porque o sistema de refrigeração jamais funcionou.

O secretário de Obras Eduardo Vieira foi convocado a comparecer à Fundhacre e conseguiu ativar o precário sistema de refrigeração. Porém, a temperatura ambiente "baixou" para apenas 30ºC.

O secretario Sérgio Roberto determinou que a parede de vidro do salão de atendimento fosse removida para circulação do ar e instalou mais ventiladores até que o sistema de refrigeração sirva.

O prédio da Fundhacre é uma construção bizarra do governo Flaviano Melo (PMDB) e continua sendo mina inesgotável para gestores e empreiteiras de má fé.

Na verdade o governador Binho Marques até ensaiou enfrentar a corrupção e o caos do setor, mas as amarras políticas têm impedido grandes resultados.

Nos últimos 12 anos, durante os três governos do PT, sucessivas obras de construção e reforma pouco serviram para melhorar a qualidade do atendimento da população.

Após tanto tempo, o setor de saúde pública no Acre continua longe da promessa de que teria qualidade de primeiro mundo.

domingo, 27 de junho de 2010

TE MANDO UM PASSARINHO

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


Na região do Rio Negro, no Amazonas, as mulheres acordam bem cedinho e vão pra roça buscar mandioca pra fazer o beiju nosso de cada dia. No caminho, às vezes, encontram um boêmio que está voltando da farra, requebrando seu rabo comprido, peludo e enfeitado. É o quatipuru, um mamífero roedor, primo-irmão do caxinguelê, que passa a noite toda na esbórnia. Ele tem hábitos noturnos. Gosta das baladas da náite.

Depois de cada noitada de orgia, o quatipuru, cansado, passa o dia inteirinho dormindo. Por isso, ficou com fama de dorminhoco, a tal ponto que quando morre uma pessoa, logo que o corpo apodrece, a alma do dito cujo, que vai dormir o sono eterno, sobe ao céu em forma de quatipuru. Ele é, indiscutivelmente, o dono do sono. Era a ele que as mulheres da Amazônia se dirigiam, quando embalavam seus filhos na rede, cantando uma canção de ninar em nheengatu – a língua geral dos amazonenses – na qual pediam:

“Acutipuru ipurú nerupecê / Cimitanga-miri uquerê uaruma.”

A tradução ao português dessa canção de ninar foi feita pelo cônego Francisco Bernardino de Souza, que em 1873 publicou um livro com a letra, mas não nos deixou nenhuma partitura com a representação da música. As mães que embalavam seus filhos pediam mais ou menos isso:

“Acutipuru, me empresta o teu sono, que eu quero fazer meu filho dormir.”

Pára-tudo

Escrevo sobre o quatipuru, porque na hora do jogo Brasil x Portugal fiquei falando sobre ele, mas meu pensamento estava na África do Sul. É que naquele momento, eu dava uma conferência na Biblioteca Nacional de Bogotá, contando histórias sobre o quatipuru, passarinhos, borboletas e outros bichos. Podes crer, bicho! Não vi o jogo.

Na hora do jogo, eu conversava num enorme auditório com cerca de 800 bibliotecários e bibliotecárias provenientes de todas as regiões da Colômbia, que participavam do II Congresso Nacional de Bibliotecas. O evento foi encerrado na sexta-feira com meu papo sobre o livro “Te mandei um passarinho”, que ainda não foi publicado, e que recolhe textos e ilustrações de índios de mais de 30 etnias. Os autores são, portanto, somente índios escritores e artistas plásticos, mas quem organizou o livro fomos nós, apaixonados por essa literatura: Nietta Monte, Ira Maciel, Nubia Melhem e eu.

O título do livro nós pedimos emprestado a José Vieira Couto de Magalhães, um mineiro rico, filho de fazendeiros, que foi presidente da Província do Pará (1864-1865), onde aprendeu a falar o Nheengatu, língua ainda amplamente disseminada naquela época por toda a Amazônia. Escreveu “O Selvagem”, que foi traduzido e editado em várias línguas: francês, inglês, alemão e italiano.

Couto de Magalhães recolheu a literatura oral indígena na Amazônia e no Mato Grosso. Um dia, viajando pelo rio a bordo de uma embarcação a vapor, ele descansava no passadiço e ficou ouvindo a conversa dos tripulantes do barco. Entre eles havia um índio Kadiwéu, apelidado de “Pára-tudo”, que era um puta contador de histórias.

- Foi esta a primeira vez que minha atenção foi despertada para os mitos nacionais, escreveu Couto de Magalhães, que aprendeu o Nheengatu só para poder entender essas histórias. Depois, no Tocantins, encontrou o cacique Anambé, que lhe contou o mito de Ceiuci – “uma espécie de fada indígena, uma velha gulosa que vivia perseguida pela fome”. Registrou ainda uma canção recolhida no Pará em 1865, quando ainda era cantada com muita frequência. Trata-se de um texto bilíngue português-nheengatu, no qual ambas línguas convivem sem o predomínio de uma sobre a outra.

“Te mandei um passarinho / Patuá miri pupé / pintandinho de amarelo / iporanga ne iaué.”

Na época, como no Amazonas todo mundo falava português e nheengatu, todo mundo entendia a letra. Mas agora nós estamos apresentando o livro para neo-leitores, pessoas recém-alfabetizadas em programas de Educação de Jovens e Adultos, que não conhecem a língua geral. Portanto, nesse contexto, numa publicação destinada a circular no Brasil, era necessário traduzir ao português os versos escritos em nheengatu, o que fizemos recorrendo à versão de autoria não identificada, que ficou assim:

“Te mandei um passarinho / dentro de uma gaiolinha / pintadinho de amarelo / e bonito como você.”

Gaiola ou cesto?

O tradutor anônimo, que usou “gaiolinha” como equivalente a “patuá mirim”, parece ter entendido que a forma mais apropriada de presentear alguém com um passarinho era aprisioná-lo dentro de uma gaiola para evitar sua fuga. Afinal, a cultura regional urbana naturalizou a gaiola como o lugar de pássaros que vivem em espaços domésticos.

No entanto, não é o que os índios guarani pensam e praticam. Essa tradução, submetida a um teste de recepção com professores bilíngues guarani do Curso de Formação Docente de vários estados do Sul e Sudeste do Brasil, que são meus alunos, causou entre eles uma visível sensação de desconforto. A discussão se deu em torno do verso “dentro de uma gaiolinha”, particularmente com relação à palavra “gaiolinha”. A reação foi unânime. Eles rejeitaram essa tradução.

Um professor guarani sintetizou o pensamento de todos:

- Está errado. O que é que os leitores vão pensar de nós? Que somos malvados e aprisionamos pássaros? Nós não fazemos isso.

O grupo analisou o texto, viu que se tratava de uma “tradução”, entendeu que o original está escrito em Língua Geral da Amazônia, cuja base é o tupinambá antigo – língua aparentada ao guarani - mas propôs outra palavra para traduzir essa expressão:

– Por que não colocamos o passarinho numa cestinha?

Aceitamos a proposta. Colocamos o passarinho na cestinha, embora conscientes de que o guarani é outra língua, diferente do nheengatu, e de que os índios proponentes desconhecem a região amazônica, lugar de produção dos versos. Conferimos no Stradelli, um italiano que fez um dicionário Português x Nheengatu, Nheengatu x Português (1929) e ele confirma que “patauá” significa efetivamente “cestinha”. A versão final do livro proposto ao MEC foi, então, modificada, e ficou assim:

“Te mandei um passarinho / dentro de uma cestinha / pintadinho de amarelo e bonito como você.”

O responsável pela coleta, Couto de Magalhães, maravilhado com as histórias “originais e belas” dos índios, fala delas como um “verdadeiro colar de pedras finas, tanto pelo espírito e animação do enredo, como pelo laconismo, sobriedade das cenas e clareza”. Ele não hesita em situá-las dentro do quadro da literatura universal, dizendo que elas estão no mesmo nível que as fábulas de Esopo, Fedro e La Fontaine.

Os moradores de Soure, no Pará, também ficaram maravilhados. Fomos lá, em 2008, fazer um teste de recepção do livro, a convite da minha amiga, a pajé Zeneida Lima, que organiza a Jornada Cultural da Ilha do Marajó. Apresentei os versos em nheengatu coletados por dois naturalistas alemães Spix e Martius, em março de 1820, no rio Urariuá, afluente do Madeira, que dizem:

“Nitio xá potar cunhang/ Setuma sacai wáa/ Curumú ce mama-mamane/ Baia sacai majaué/ Nitio xá potar cunhang/ Sakiva-açu/ Curumú monto-montoque/ Tiririca-tyva majaué.

Os participantes da Jornada Cultural se divertiram com a tradução ao português:

“Não gosto de mulher / de perna muito fina / Porque pode me enroscar / como cobra viperina. Não gosto de mulher / de cabelo alongado / Porque pode me cortar / como tiririca no roçado.”

Um negão, porém, protestou:

- Desculpa, professor, com todo respeito, mas comigo não tem disso não. Traço mulher de perna fina, de perna grossa, de cabelo alongado e até careca. Esse cara que fez essa poesia devia ser boiola.

É isso aí, leitor. Tentei dar o meu recado aos colombianos. Parece que gostaram de ouvir essas histórias, porque queriam comprar o livro até hoje não editado pelo MEC. De qualquer forma, daqui de um hotel em Bogotá, de onde escrevo esse artigo, te mando também um passarinho, dentro de uma cestinha, esperando que a seleção brasileira, no próximo jogo, consiga enfiar vários gols na cestinha do time adversário.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

sábado, 26 de junho de 2010

ROLAR A PEDRA

POR JUAREZ NOGUEIRA

Altino, meu caro, esse texto surgiu de provocação de amigo meu que disse que estou muito radical. Eu que ando numa preguiça dos diabos, mas por escolha feliz estou a ler Nilton Bonder, o livro “Fronteiras da Inteligência”, dele extraí, radical, texto sobre o “senso de prioridade”. Explicandinho assim: a ordem modifica a essência. Tratei logo de mandar ao amigo, como resposta. E aqui o reproduzo, na minha inútil tarefa de rolar pedra. Eu, que não estou like a rolling stone, sugiro a você e a quem mais tiver paciência ler ao som de Bob Dylan, “Things have changed”, foi o que fiz, “The next sixty seconds could be like an eternity”, tanranranran, “Things have changed”…
(…)
I'm not that eager to make a mistake
People are crazy and times are strange
I'm locked in tight, I'm out of range
I used to care but – things have changed.

(Não estou afim de cometer um erro
As pessoas estão loucas e os tempos estão estranhos
Estou ensimesmado, fora de alcance
Antes eu me importava, mas agora as coisas mudaram.)

O que Nilton conta do senso de prioridade é isso:
“Certa vez, um mestre trouxe um balde de metal e preencheu-o até em cima com pedras grandes. Perguntou a seus discípulos: “Está cheio?” Responderam que sim.

Imediatamente, tomou pedras menores e as despejou sobre o balde. Pouco a pouco as pedras encontraram lugar nos vazios entre as pedras maiores e se acomodaram no balde. O mestre tornou a perguntar: “Está cheio?”
Os discípulos responderam que sim.

O mestre tomou desta vez uma vasilha que continha areia e a despejou por sobre o balde. A areia foi gradualmente ocupando os espaços entre as pedras maiores e as menores, de forma que também se assentou.
Novamente tornou a perguntar: “Está cheio?” Responderam, dessa vez, seguros de que estava.

O mestre buscou um jarro com água e o despejou por sobre o balde. A água rapidamente encontrou seu caminho nos interstícios de pedras e areia.
Agora, sim, estava definitivamente cheio.

Perguntou, então, aos discípulos, qual era a lição que se poderia depreender daquela demonstração.

Um discípulo disse que o ensinamento visava mostrar que sempre se pode encontrar mais espaço e que se deve estar atento para essas oportunidades.
O mestre discordou e disse: “A grande lição é que se não colocamos as pedras grandes primeiro, as menores depois, a areia em seguida, e por último a água, não é possível que caiba tudo no balde. Se fizéssemos ao inverso, colocando água primeiro, não haveria espaço para nada, especialmente para as pedras grandes.”

A água representa a fisicalidade, a matéria que envolve tudo, até mesmo nosso sopro divino. A areia é a afetividade que permeia nossa existência; as pedras pequenas, o intelecto que edifica e ergue estruturas complexas. As pedras grandes são as pedras fundamentais da reverência. Se não as colocamos em primeiro lugar, nunca haverá espaço para elas. Nosso “balde” só pode conter tudo, se priorizamos a reverência.

Entendemos isso com mais facilidade quando substituímos reverência por ética. Sem uma motivação ética que seja um primeiro movimento, uma intenção inicial, não se consegue incluí-la posteriormente.
Há prioridades que não podem ser precedidas por nada.”

OK, na prioridade das coisas, se não houve lugar para a ética antes, ela não caberá depois. Não priorizada, fica utopos, sem lugar. Está, aí, um sentido radical: do que provém da raiz, intrínseco, profundo, da essência ética. É o que constitui a base, é pedra fundamental da ação humana ampliada no dever de consciência. Ou deveria, deveria ser. Mas, “Things have changed”… tanranranran...

Em termos políticos, então, ressinto (e isso é o que explica o radical que ganhei): o que falta é ser menos leniente com a falta de ética. Falta ser radical mesmo, intolerante mesmo. Fundamentalista no sentido de priorizar o que é fundamento, fundamental: a “pedra”, mor da ética. OK, é bíblico e não sou eu o síndico: não atirar pedra quem tem pecado. [“Things have changed”… tanranranran, “If the Bible is right the world will explode”… tanranranran, “Things have changed”...] Mas nada impede de “dar pedradas, nas urnas” para tirar de circulação político corrupto. Literalmente. Com o ato humano de teclar, ampliado no dever de consciência. Mais eficaz que jogar ovo, tomate, cocô. E isso é ética. Também é bíblico: assentar a casa sobre rocha. A pedra grande. Primeiro. E sempre.

Eu cá não acredito – e a isso me recuso, que estamos condenados pelos “deuses”, para sempre, ao trabalho de Sísifo. Sísifo, mito grego, é aquele que enganou o deus do inferno, aprisionou a morte e driblou seu destino. Por isso foi condenado ao trabalho inútil e desesperançado de empurrar, sem descanso, uma enorme pedra até o alto de uma montanha, de onde ela rolaria encosta abaixo. E ter que recomeçar essa tarefa, monótona e interminável, moto contínuo da existência. A condenação, o inferno de Sísifo – vou reler, aqui – como a situação do indivíduo que não priorizou a reverência e não apenas como a trágica condenação de quem se empenha em algo que a nada leva. A reverência, no caso, é a ética. Sem colocá-la primeiro, estaremos presos ao cíclico, repetitivo esforço desse infortúnio de rolar a rotina de anos, de séculos, sem a esperança de algo mudar. Nada mais trágico e absurdo. O escritor Albert Camus, num ensaio sobre o mito de Sísifo, lembra que o absurdo exige revolta.

A pedra de Sísifo, na atualidade, tem outros nomes, outros pesos, outras implicações. Em alguns casos, é inútil, realmente, o trabalho de soerguê-la. Melhor, então, deixar rolar ladeira abaixo. Em outros, não. Basta que cada Sísifo assuma seu dever humano, contingente. Sem perder a esperança de que, se cada um rolar a pedra grande, e colocá-la primeiro na prioridade das coisas, poderá comover até os deuses. Comovê-los e fazer jus a uma revisão dessa lei, desse castigo de justiça tão duvidosa, sem variação, sem renovação.

Então, eu disse isso ao meu amigo, esse é o nosso trabalho como Sísifos eleitores, humanos. Cada um que se encarregue de uma pedra grande. Soerga. Ponha na sua frente, em primeiro. E empurre. Na construção de novo destino. Sem descanso. Porque os deuses sabem que Sísifo, mortal, por isso mesmo tem a liberdade de escolha e foi astuto o bastante para driblar seu destino. Se persiste como mito é porque persiste em seu castigo para nos ensinar a redenção humana: estamos condenados à liberdade. Então seria possível conceber um sentido para a pedra de Sísifo, para além do esforço fútil ou absurdo, o qual se torna, enfim, consciente. E você, já escolheu a pedra que pretende rolar daqui por diante?

“I'm not that eager to make a mistake”
tanranranran…
“Things have changed.”

Um abraço

Juarez Nogueira é professor e escritor mineiro em Divinópolis (MG), autor do "Manual de Sobrevivência na Redação" e "O Menino Alquimista".

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O HOMEM DOS DENTES DE OURO

José Augusto Fontes


Era o Barbosa, dono da banca de bombons, chicletes, cigarros e afins. Uma banca de madeira, altura de metro e meio, pernas fortes, dono feliz. Era funda e larga, a maior ali do centro da cidade. A tampa da banca tinha prateleiras que serviam para colocar os cigarros e fósforos à mostra, encaixados e seguros por várias tiras de elástico, na horizontal. Dentro, a banca agasalhava bombons, chicletes, jujubas, pentes Flamengo, canetas Bic, lâminas Gillette, desodorante Avanço e até alguns Tex. Havia um pequeno espanador e um isqueiro amarrado num barbante. Situava-se em frente ao Cine Acre, funcionava todos os dias e tinha caderno de fiados.

O Antônio Barbosa era um tipo sisudo, meio caboclo, cabelos lisos que ele vivia puxando pra trás com o pente de osso que trazia no bolso esquerdo da camisa de botões, aberta pela metade. As sandálias Havaianas eram constantes. O dinheiro, ele tirava e colocava num bolso faca, da calça de tergal. Vivia manuseando o dinheiro, conferindo, acariciando, ao tempo em que enchia os olhos grandes, meio esverdeados. O Barbosa ficava muito tempo sério, dando a impressão que aquilo era para espantar os fiados. Não ria baixo nem breve. Alguma vez, dava uma gargalhada única, nervosa e demorada. Aí, a meninada via bem os grandes dentes de ouro, um símbolo de posses. Barbosa era o dono da banca, uma senhora banca, dona do pedaço.

Eram grandes dentes de ouro, talvez implantados pelo Alberico, que tinha um consultório de madeira ali em frente ao Seu Lunga, ao lado do Alfredinho. O Barbosa morava na Estação Experimental, entrando pelo cajueiro, pertinho da Cantina Rex. Ia e vinha numa bicicleta Monark vermelha, enfeitada com grandes retrovisores, franjas de plástico, protetor de lama, luminosos nos pedais e uma grande sela do Botafogo, que ele dava o brilho pelos lados, nos intervalos em que lustrava os cabelos com brilhantina. Bicicleta, dentes de ouro, quase nenhuma concorrência, o Barbosa progredia a olhos vistos. De quando em vez, havia uma morena cheirando a Seiva de Alfazema sentada no tamborete do Barbosa. Será que era Colônia Regina? Ele estava gastador. Dava-se ao luxo já, de liberar uns novos fiados, até em cigarros. Trouxe um parente para ajudar a despachar. Demorava-se conversando com o "fiscal", um comissário que vivia nos barrando na porta do Cine Acre. Adotou mais de um caderno para os fiados. Continuava sem vontade de estudar, sua vida era a banca, o comércio, as posses. Se desse, entraria para a Associação Comercial.

O Barbosa integrava a paisagem e tudo o que ele queria era estar ali. Estava entendido com o dono do Cine e deveria estar com o coletor. Ali era passagem para colégios, as folhas de papel com pauta e as canetas saíam bem. Todo dia tinha filme, tinha o pessoal da praça. Nessa época, a cidade era bem pequena, o leite era entregue de manhã, em vasilhames de vidro e não era pasteurizado. As melhores balas eram Kids, trazidas pelo Octahydes, que veio de São Paulo. Havia hora certa para comprar carne bovina, senão, só no outro dia. Nada de supermercados nem de grandes papelarias. Havia A Normalista, na Praça da Bandeira. Depois, surgiu a Acadêmica. O melhor pão era ali pertinho, no Raimundo da Horta, onde também tinha o bolo de macaxeira da Dona Chiquinha, iguaria incomparável. Banca de respeito, só a do Barbosa. Vamos pra frente.

Passava a filha do coronel, passavam as normalistas, as madames, e o tempo corria, pela frente do Barbosa. Os ônibus foram mudando, os carros foram aumentando, os interesses foram modificando. Não havia mais a Pernambucanas. A televisão chegou tirando as pessoas das praças. Surgiam lojas grandes, chamadas supermercados, como o Beira-Rio e o Dois Oceanos. Rio Branco foi esticando, novos costumes, o Poder Público reclamava da passagem na calçada. Barbosa conheceu essas coisas, viu as mudanças, tudo passava ali. O papel almaço não era mais procurado e os bombons começaram a ficar mais tempo na banca. Uma senhora banca, que começava a sair do centro, a tomar rumo. O Barbosa conheceu o poder do comércio.

Quem precisava de jujubas? O Cine Acre fechou! No outro cine, se não passava "Dio come te amo", era filme erótico. A Escola Normal virou Complexo Escolar. O Barbosa já não mostrava os dentes. As moças com cheiro de Leite de Rosas não eram mais vistas nas proximidades da banca, que quando funcionava, fechava cedo. O Barbosa resolveu mudar para a Estação Experimental, perto do cajueiro, onde o progresso não era tão visível. Ali venderia bebidas e colocaria umas mesas de sinuca, alugadas. Compraria cachaça em caixas, do novo atacadista que chegou do sul. Venderia cigarro, até a retalho.

Durou pouco. O Barbosa vendeu muitas doses de pinga, tomou umas, engoliu outras tantas. Não via resultado e as esperanças se desfaziam. Dissipavam, como a fumaça dos cigarros, a retalho e nebulosa. O lucro ia todo para o atacadista, para o homem do aluguel. O Barbosa desgostou-se, danou-se, teria entregue a sorte à bebida, se já não tivesse arriscado no carteado. A sorte foi, mas poderia voltar, num novo tempo. Barbosa conheceu essas coisas. Coisas do mundo, da vida. Da última vez que perguntei por ele, ninguém se lembrava dos dentes de ouro.

José Augusto Fontes é cronista, poeta e juiz de direito acreano

quinta-feira, 24 de junho de 2010

SÃO JOÃO


São João era menino
Só vivia nas campinas
Pastorando as suas ovelhas
Pregando as santas doutrinas

Pregando as santas doutrinas
O amor ele empregou
Atrás dele veio Jesus
Toda verdade afirmou

Toda verdade afirmou
Gravou no coração
Ambos foram batizados
No Rio de Jordão

No Rio de Jordão
Ambos estiveram em pé
Um é filho de Maria
O outro é filho de Isabel

Jesus estava vestido
Com sua roupa cor de cana
Dando viva ao Pai Eterno
Viva a Senhora Santana
(Raimundo Irineu Serra, no hinário "O Cruzeiro")



Por causa do tradicional festejo de São João, o governador do Acre Binho Marques (PT) e o secretário de Comunicação Aníbal Diniz visitaram dona Peregrina Gomes Serra, dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo. Trata-se do único centro deixado pelo esposo dela, Raimundo Irineu Serra (1892-1971), fundador da doutrina do daime.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

FRAGMENTO DE ESPERANÇA

Marilza de Melo Foucher

O paradoxo da história das grandes nações consideradas desenvolvidas era de se sentir com a missão coletiva de reconstruir um mundo que eles destruíram com as guerras fratricidas. Entretanto, essa missão não ajudou as nações ditas desenvolvidas a forjar um mundo mais solidário. Pelo fato de que fizeram dos conhecimentos científicos e tecnológicos uma potente arma comercial e passaram a açambarcar o poder econômico, impondo às regiões por eles consideradas “atrasadas” ou “subdesenvolvidas” um modelo ocidental de desenvolvimento puramente econômico. A economia torna-se tão determinante que as ideologias do século XIX e XX vão compartilhar da mesma base cultural do liberalismo econômico, a natureza e o ser humano serão tratados como fator de produção, os bens fundamentais como a terra, o ar, a água, as florestas e a vida não terão valor ecológico.


Ao longo dos séculos, o capitalismo se expandiu exportando um tipo de desenvolvimento que vai degradar e esgotar os recursos naturais, destruir relações sociais, sem levar em conta a especificidade cultural e dinâmica locais dos chamados países subdesenvolvidos. As desigualdades sociais, o aumento da pobreza, as diferenças de renda entre os países, a degradação dos ecossistemas rurais e urbanos, passam a ser indicadores do fracasso das políticas chamadas desenvolvimentistas.

Em vez de criar uma cooperação baseada na solidariedade entre os povos, na autonomia para escolher seu próprio desenvolvimento, as grandes potências impõem suas próprias regras. O poder econômico vai subordinar os direitos sociais e políticos ao direito comercial, a vida privada se transforma em mercadoria e o ser vivo será patenteado. Os países ricos irão continuar a pagar licenças para poluir. Tudo virou possível! O constato é que nem tudo é possível.

O mea-culpa das grandes potências

Hoje a realidade em que se encontra nosso planeta Terra é a prova que o desenvolvimento econômico ultrapassou seus próprios limites. Ele se torna globalmente inadaptado e se transforma numa ameaça ao meio ambiente, aumentando a desertificação e provocando a fome de milhares de seres humanos.

A Organização das Nações Unidas, o principal organismo criado com o intuito de assegurar a paz mundial e reestruturar o mundo através da cooperação internacional, teria também como missão resolver pacificamente os problemas de ordem econômica, social, cultural e humanitária. Apesar de mais de 500 reuniões de cúpula de presidentes e primeiros-ministros, inúmeras convenções internacionais, as instâncias ligadas à ONU não conseguiram até hoje mudar as regras da globalização excludente.

O espaço de decisão das Nações Unidas, restrito às grandes potências, vai se transformar em uma excelente tribuna para os atores globais assumirem a defesa do novo conceito de desenvolvimento sustentável. Desta vez a economia deveria se conciliar com o social e com o meio ambiente.

Confrontados às catástrofes econômicas e ecológicas e diante do aumento constante da adesão da opinião publica internacional à questão ambiental, os protagonistas do crescimento econômico sustentável, reconvertidos em ecologistas, irão apresentar um novo receituário e definir um aparentemente novo paradigma de desenvolvimento! Nasce assim a ilusão da sustentabilidade do desenvolvimento coroada de boa vontade política. Mas, concretamente, o que as grandes potências fazem para sair do campo puramente economicista do desenvolvimento? Por que os países que lideram a governança mundial não levam em conta a dívida financeira e a dívida ecológica que eles fizeram proliferar nos países do Sul? Deixo esta reflexão para o leitor.

Perspectiva de uma governabilidade com desenvolvimento territorial integrado e solidário para o Brasil. Desafio possível?

A questão do desenvolvimento sustentável, que tanto rendeu artigos e projetos, é repleta de contradições. Muitos se apropriaram dela, mas não pararam para refletir sobre estas contradições para poder agir com conseqüência e reinventar uma nova prática para mudar a realidade em que se vive. Como construir projetos duráveis de desenvolvimento?

Em primeiro lugar, quando se elabora um programa, um plano, prioriza-se os projetos e atividades que serão executados ao longo dos anos. Daí faz-se necessário que todos os projetos e atividades sejam pensados, elaborados e implantados de modo global e articulado. Articulados entre a esfera federal, estadual e municipal, assim como, articulados setorialmente e com um acompanhamento coordenado entre as três esferas do poder. Desta forma evita-se a visão setorial do desenvolvimento. Por exemplo, a cultura, o meio ambiente, a economia devem ser tratadas conjuntamente.

Seria como imaginar o funcionamento de um ecossistema. Nos ecossistemas, tudo interage, tem efeitos e causas. A mesma coisa é a intervenção humana no campo de desenvolvimento, as questões locais não se dissociam de questões globais, elas estão interconectadas. Em um espaço geográfico, não existe somente bens e circulação de mercadorias, existe os atores, cidadãos com pleno exercício da cidadania, e existe o meio natural. Os cidadãos e suas comunidades não são somente consumidores dentro da rede de mercados e de serviços públicos. Cada cidadão deve ser responsável pela preservação da natureza, assim como pelo bom funcionamento do Estado. Quando exigimos nossos direitos devemos também pensar que temos deveres diante da república brasileira.

Como organizar um novo modo de desenvolvimento em um espaço territorial sem tocar na malha do poder?

O desenvolvimento territorial integrado e sustentável exige uma democracia participativa. A democracia representativa será reforçada com a participação da sociedade civil organizada. Cabe aos atores locais de desenvolvimento (comunidades autogestionárias, entidades cooperativas e associativas, empresas, universidades, centro de pesquisas, movimentos sociais e entidades estatais e para-estatais) a responsabilidade de ativar os canais de diálogos e de controle social junto aos Governos (municipal estadual e federal).

Para viabilizar essa forma política inovadora de governabilidade, o ideal seria capacitar lideranças sociais e políticas, altos funcionários e dirigentes para se educar para o exercício do poder. Tendo em vista que a sociedade brasileira foi, durante séculos, caracterizada como uma estrutura autoritária de poder, os governantes bloquearam a participação e criação de direitos. Daí a exigência de mudar nossa relação com o poder, e um programa de educação para o exercício do poder pode ser propício para criar as bases para uma nova governabilidade.

A burocracia brasileira nunca foi uma forma de organização no sentido de “agilizar” o funcionamento da máquina estatal. Ao contrário, ela instala uma forma de poder altamente hierarquizado, com uma cadeia de comando, quem está no nível superior detém os conhecimentos; estes conhecimentos devem permanecer desconhecidos para seus subordinados, que também têm seus subalternos. Privados de conhecimentos, eles não inovam e nem fazem uso de criatividade, eles foram contratados para obedecer às ordens dos escalões superiores. Assim se caracterizou o poder dos altos funcionários públicos, na lógica de que quem detém o saber, detém o poder.

Quanto mais ignorante é o povo, mais fácil será manipulá-lo. O poder burocrático exercido pela hierarquia é dificilmente assimilado com o poder democratizado, no qual o cidadão funcionário age em função da igualdade dos direitos e se torna um defensor do bom funcionamento da máquina estatal e de uma empresa com finalidade pública. Esta concepção de burocracia, infelizmente, vai também se instalar em alguns partidos políticos.

O poder na história política do Brasil vai ser praticado como uma forma de tutela e de favor, sem mediações políticas e sociais. O governante é sempre aquele que detém o poder, o saber sobre a lei e sobre o social, privando os governados dos conhecimentos, criando-se assim uma relação clientelista e de favor. O uso abusivo da máquina pública levou à falência o Estado Brasileiro e, hoje, o desafio é restaurar um verdadeiro Estado democrático e cidadão compatível com o modo de desenvolvimento territorial integrado com sustentabilidade ambiental, social, política, cultural, e econômica. Nesse sentido, o modo inovador de desenvolvimento, dentro de uma visão integrada da realidade, exige mudança de atitude, mudança no modo de fazer política. Exige um sistema de educação compatível com este desafio.

Apesar dos avanços que tivemos nessa última década com os dois mandatos do governo Lula, a caminhada para mudanças estruturais é longa... Infelizmente algumas correntes da esquerda brasileira ainda não se deram conta de que é impossível separar a ecologia do modo de desenvolvimento. Ainda existe no meio dos cargos eletivos a predominância do pensamento economicista do desenvolvimento. Basta escutar os discursos da maioria dos governadores, a dificuldade que eles têm de planejamento a curto, médio e longo prazo, dentro de uma visão mais integrada do desenvolvimento em um espaço territorial.

O período de eleições é sempre um momento propício para somar forças e exigir dos candidatos um compromisso com o bem-estar das novas gerações e com o futuro de nosso planeta Terra. Devemos nos mobilizar para que o Brasil seja protagonista de outro modo de desenvolvimento que diminua as desigualdades ainda presentes nas regiões brasileiras, conciliando crescimento econômico com respeito aos ecossistemas. A proteção social e ambiental é inseparável. Devemos nos mobilizar para que o combate que o presidente Lula assumiu contra a pobreza continue. Devemos nos mobilizar também para que o Estado continue no seu papel regulador, a fim de garantir a qualidade nos serviços públicos principalmente na área de educação e na saúde.

Estaria Dilma, candidata de Lula, disposta a enfrentar esse desafio? Não vamos deixar a ecologia política nas mãos dos conservadores, de naturalistas iluminados, que na certa, utilizarão a questão ambiental como pretexto para ganhar as eleições. Devemos batalhar para que essa outra concepção de desenvolvimento territorial integrado seja abraçada e defendida por Dilma ou por quem for eleito. Agora que o Brasil é respeitado como grande nação na cena internacional, e convidado à mesa de negociações dos organismos multilaterais, ele deve dar exemplo de que outro desenvolvimento é possível.

Marilza de Melo Foucher é doutora em Economia e especialista em desenvolvimento territorial integrado e solidário.

O artigo foi publicado originalmente em Le Monde Diplomatique. Quando a autora enviou para ser reproduzido neste blog, perguntei se poderia apresentá-la como acreana. Marilza, que mora na França, respondeu assim:

- Pode! Só o Mário Diogo, com 97 anos, não aceita que Boca do Acre seja anexado ao Acre, mas eu digo sempre pro meu velho que fazemos parte dessa história. A história do Acre começa na Boca do Acre. Eu me sinto profundamente acreana, minha mãe nasceu em Sena Madureira e afinal sou bisneta de Joao Gabriel de Carvalho e Mello. Eu brinco com meu velho primo Thiago de Mello que sou uma acreana, pois nasci na Boca do Rio Acre.

terça-feira, 22 de junho de 2010

FUNDAÇÃO HOSPITAL DO ACRE


Para realizar cadastro e obter cartão, passei duas horas e meia desta terça-feira (22) numa fila da Fundação Hospital do Acre (Fundhacre).

Posso afirmar que estive na sucursal do inferno.


Além da longa espera e da falta de pessoal para atendimento, centenas de pessoas (crianças, mulheres e idosos) padecem nas filas com o calor de um ambiente que jamais foi climatizado.

Faz 34ºC na cidade, mas nos salões da Fundhacre a sensação térmica é superior a 50ºC.

Visto de fora, o salão principal é uma beleza, com aquela sua imensa parede curva de vidro - um material usado para captação de luz e calor em construções de países de clima temperado.


Lá dentro, apenas dois dos três ventiladores funcionavam, o que contraria regras elementares de saúde, como aquela de que todo ambiente deve ser arejado ou ventilado.

Enquanto permaneci lá, mais de 300 pessoas se abanavam na tentativa de minimizar o calor dantesco de um ambiente que faz qualquer pessoa saudável sair doente.

- O sistema de refrigeração do ambiente nunca funcionou. Agora está é bom porque instalaram esses ventiladores - disse uma funcionária.

O governador Binho Marques (PT) e o Ministério Público do Acre têm conhecimento dessa realidade? Ou ambos estão sendo omissos ao permitir que se formem filas imensas e um ambiente tão insalubre numa unidade de saúde pública?

A TRIBO DOS ESCRITORES INDÍGENAS

José Ribamar Bessa Freire

Quem eram aqueles trinta e três índios e índias que nessa terça-feira, em plena Copa do Mundo, dia do jogo do Brasil contra a Coréia do Norte, desciam as ladeiras de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, caminhando sobre os paralelepípedos e os trilhos do bonde? Todos vestiam camisa verde-amarela, o que levou os moradores do bairro a acharem, galvãobuenamente, que se tratava de torcida étnica organizada que ia ver a partida no telão da praça. Mas não era.

Embora todos torçam, com maior ou menor paixão, pela seleção brasileira, naquele momento o jogo era outro. Na realidade, aqueles índios e índias, representantes de trinta etnias, saídos de diversos recantos do Brasil, iam para a abertura do 12º Salão do Livro para Crianças e Jovens, que aconteceu no Rio de 15 a 18 de junho. Estavam hospedados em Santa Tereza e a camisa verde-amarela que trajavam era uma espécie de uniforme da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ).

Eles e elas fazem parte de uma nova tribo que está surgindo no Brasil – a tribo dos escritores indígenas, cuja importância pode ser avaliada com uma simples consulta ao Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas publicado pelo NEARIN – Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas. São centenas de livros bem ilustrados, com histórias maravilhosas. Quando entrou em contato com algumas delas, na década de 1920, o escritor Raul Bopp registrou assim seu encantamento:

- Foi uma revelação. Eu não havia lido nada mais delicioso. Era um idioma novo. A linguagem tinha, às vezes, uma grandiosidade bíblica. No seu mundo, as árvores falavam. O sol andava de um lado para outro. Os filhos do trovão levavam, de vez em quando, o verão para o outro lado do rio.

Os ossos do som

Quem quis saborear essas histórias, não viu a Sérvia derrotar a Alemanha, nessa sexta-feira, na Copa do Mundo. Na hora do jogo, os escritores indígenas encontraram com um público seleto de leitores, num auditório do Centro de Ação da Cidadania, na zona portuária do Rio. Era a abertura do 7º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, organizado dentro do 12º Salão do Livro pelo Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI). O tema era “Palavra da Cidade, Palavra da Floresta – Literatura Indígena em Contexto Urbano”.

Compareceram escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, líderes e educadores indígenas que estão se destacando no cenário literário nacional. Estavam lá, entre outros, Manoel Moura, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Marcos Terena, Cristino Wapichana, Ely Macuxi, Olívio Jekupé, Vilmara Baré, Edson Kayapó, Darlene Taukane, Rosi Whaikon, que animaram rodas de conversa e mesas-redondas em torno das memórias da floresta, da escola indígena, do uso da escrita e da língua portuguesa.

- Primeiro, nós pensamos. Só depois é que falamos ou escrevemos. A palavra, que carrega sabedoria, organiza o pensamento, por isso tem muito poder, muita força. A palavra cura mágoa, tristeza, saudade, raiva e, se duvidar, até dor de cabeça. A palavra do índio, o primeiro narrador desse país, tem que ser ouvida. É palavra boa, que ameniza, que conforta, diferente das palavras sujas – como a de alguns políticos.

Dessa forma, Manoel Fernandes Moura abriu a mesa da tarde – A Escrita e a História. Líder histórico do movimento indígena, o tukano Manoel Moura está cada dia mais sábio, com o verbo sempre em brasa. Grande narrador, sua fala deixa claro que o livro não é um caixão que guarda o cadáver da letra morta, como se a letra fosse o osso do som. Ele defende não uma “escrita funerária”, mas uma escrita viva, livre como um pássaro voando, que devolve a palavra ao universo da oralidade.

Durante o almoço, numa mesa com Marcos Terena, Ely Macuxi e Daniel Munduruku, lembrei da importância para a literatura indígena dos tupinólogos do século XIX, que recolheram narrativas em língua Nheengatu. Trocamos figurinhas. Foi, então que Moura nos contou algumas histórias do jabuti, atualizando as versões de Couto de Magalhães. A voz modulada era interrompida por risinhos sacanas do narrador. Vamos lá.

Maquiavel de casco

O Jabuti foi beber água no rio e encontrou o Jacaré de boca aberta que lhe disse:

- Eu vou te comer.

- Por que tanta maldade, seu Jacaré?

- Por que estou com fome e sou mais forte.

- Sua fome, eu respeito. Mas duvido que seja mais forte – desafiou o Jabuti, propondo um ‘cabo-de-guerra’ para decidir seu destino. Ele, Jabuti, puxaria a ponta de um cipó da terra firme, enquanto o Jacaré puxaria de dentro d’água a outra ponta. Quem conseguisse arrastar o outro ganhava. Assim, ou ficava livre ou seria comido.

O Jacaré riu da pretensão e topou. “O otário se ferrou” – pensou, saboreando antecipadamente o sarapatel que iria comer. O Jabuti foi buscar o cipó no meio do mato, onde encontrou a Onça que veio com o mesmo papo: eu vou te comer, estou com fome, sou mais forte, tenho o Gilmar Mendes que é meu e o boi não lambe. E o Jabuti: não é assim não dona Onça, tem que provar, o Ayres Brito está vivo. Aí, propôs um ‘cabo-de-guerra’. A Onça aceitou. Ele, Jabuti, puxava o cipó do rio. A Onça, da terra.

O Jabuti deixou, então, uma ponta do cipó com a Onça, em terra firme. Levou a outra para o Jacaré na água e escafedeu-se, saindo de fininho, deixando os dois brigando. Moral da história: quando teus inimigos são mais fortes do que tu, joga um contra o outro, em vez de bater de frente contra eles.

Se ouvisse a versão do Manoel Moura, Maquiavel se deliciaria. Couto de Magalhães concluiu que através dessas narrativas os índios da Amazônia ensinam profundas lições de vida. Para ele, a literatura indígena reflete alto grau de civilização, porque só um povo altamente civilizado mostra que a inteligência vence a força: um animal feio, fraco, lento, como o jabuti, ganha do jacaré, da onça, da anta, do veado.

Moura contou ainda a história do jabuti com a anta, mas não tenho mais espaço para reproduzi-la aqui. Essa história mostra que o caminho para se conseguir justiça é ter paciência, saber esperar; a inteligência vence a truculência; a força do direito vale mais do que o direito da força.

Rapaz, esse Moura é mesmo danado! Pois não é que ele curou minha dor de cabeça! Deixo aqui para ele e para todos os escritores indígenas – os jabutis da literatura brasileira – os votos de sucesso nessa cruzada civilizatória.

P.S.: Nesse domingo, na hora do jogo do Brasil, estarei dentro de um avião, levando as histórias indígenas para um congresso em Bogotá, convidado pela Biblioteca Nacional da Colômbia.

P.S.: José Saramago, que nos deixou, foi também, ao seu modo, um jabuti da língua portuguesa, porque sua escrita está emprenhada de sabedoria oral.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

sábado, 19 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O FENÔMENO DO FUTEBOL

José Augusto Fontes

Quem sabe explicar a fascinação pelo futebol, quem sabe dimensionar a magia das Copas do Mundo, quem sabe compreender a inigualável conspiração, sempre renovada? Você expressou opinião, escalou sua seleção, venceu a discussão? Gritou, calou, sentiu a sensação, dançou? Você é o dono da bola, é mais um que tem razão? Você e eu estamos na reserva do time da multidão, mas não importa, nem exporta, agora não é hora disso, todos somos da melhor agremiação. Será ilusão?


Não perca a concentração. O time de todos nós está no centro. Bateu asas do círculo central, viajamos juntos, saímos do campo visível, dominamos a lua no peito, trocamos passes com o inexplicável, a felicidade total é agora, ou era, enquanto a bola corre, corria de todo jeito. Enquanto esperanças voavam, enquanto o pensamento transbordava o limite da visão, batendo às portas do mundo, chutamos os lances dessa magia incomparável, indescritível, vista em retratos que ninguém para de revelar, que não conseguimos deixar de ver, de lembrar, de emoldurar. Nosso jogo parece não parar de marcar, como o fenômeno do futebol, com gols por baixo do lençol. Na cama ou no gramado, queremos dar nosso recado.

Você também está tabelando com os sonhos e driblando a emoção? Sabe explicar em detalhes cada jogada, cada gol (perdido e feito), cada possibilidade? Você também gritou esse grito colorido que voou continentes e mares, e aterrissou numa terra azulada e verde, com homens uniformizados de amarelo esverdeado? Somos da mesma nação, somos impertinentes, mas de tão valentes, vamos agorinha dar firulas em mais esta competição. Mas, e o Brasil, vai só trocar figuras ou vai garantir o feriadão? Somos torcedores que conseguem dar vida à melhor fantasia, mesmo tendo uma realidade exclusiva, já vivida, vencida, nunca esquecida. É que sempre precisamos renovar, reconquistar. Ser penta arrebenta, ser hexa não basta! Em instantes de Copa do Mundo, tudo o que foi ganho é lembrado, repetido, junto com um escondido jeito de achar pouco. Junto com um festejado anseio de querer de novo, e mais, na certeza geral do merecimento absoluto.

Nessa quase certeza, até o torcedor que escreve também delira, quando descreve a encenação e confere a escalação. Dentro desse merecimento, também abraça o momento, desfila os olhos, comemora as cores, toma a multidão, com todos os amores, profetiza que será outra vez campeão. Vai vencer o tempo, vai eternizar a alegria. O texto transpira uma nova jogada, enquanto o jogo da vida recria a mesma partida. Parece certo na bola de cristal que virá um passe de efeito, e vamos todos ganhar de qualquer jeito, com gols a torto e a direito, o nosso bem vai ganhar do mal alheio.

Essa goleada era o que você precisava para ficar realizado, extasiado, esquecido de outras coisas, nem sempre alegres? Dentre muitos países do futebol, no meio de um grupo maior que o das Nações Unidas, você é da turma campeã, acima de todas? Você é do país do Rei, daquele e deste, você é quase do time? Todos queremos ser! Temos bola de meia, bola de pano e bola de papel. Todas elas correm pelo nosso céu, todas elas driblam o sonho que vai tirar o véu das redes e penetrar a trave, sem perder a breve ternura, para selar o acaso do compromisso, e quase por isso, fazer desse jogo uma aventura sublime, pois precisamos de algo que nos ilumine. Todos precisamos da bola de gude que nos ilude.

Que venham jogos e dias, que aconteçam e passem, num passe de gritos, num suspiro, isso tudo passando do silêncio, do roteiro. Que fiquem registros, prazer e dor, que fiquem os abraços, há títulos para buscar, há outros gritos para gritar. Ou não é bem assim? Queremos este título! Temos outros, mas não este. E precisamos da folia. Somos referência, história e realidade, no meio desses campos todos, no meio da ilusão em impedimento, que de tamanha, é quase única. Que fique a fantasia!

Ilusão esquecida no coração, driblada dia-a-dia, quando empurramos pra dentro o grito de gol, quando nos damos a mão e botamos pra correr alguma derrota. Ou quando invadimos a grande área e caímos na marca do pênalti, sem apito, já quase lá, e no fim, só temos o mesmo sonho para abraçar. Então, botamos pra fora o que há para desabafar, pois esta é a hora possível, já que antes, nosso pequeno ser era totalmente invisível, e depois, não sabemos o que vai acontecer. Não sabemos, mas torcemos. Aliás, é claro que sabemos. Mas é agora que somos gigantes. Nosso grito de gol nos eleva e carrega qualquer dor para bem adiante.

Você também quer ganhar? Ganhar é querer coletivo! Vem da raça, do talento inventado, da garra bem ensaiada, sentada na arquibancada da vida ou passeando pelas laterais esquecidas, mas na mesma torcida. Vem da malícia manhosa e da ginga espalhafatosa, dos espaços e conceitos gerais e de alguma dor espremida. Essa torcida nasce da vontade de vencer, para deixar pra lá tudo que há para perder. O mesmo querer leva galeras, amassos e quimeras, numa necessidade antes tímida, de se meter a ganhar, na vida como no jogo, com algum lance enfeitado, meio dissimulado, quase inesperado, quase sem defeitos, qualquer adversário superado, todo querer renovado.

Embates e disfarces, a torcida quer gritar! O ingresso é caro e o lance que parecia claro está indefinido. Dentro de nós há um time que espera vencer, que espera para vencer, enquanto finge não perder o sentido. A vitória vem de dentro, lá da fantasia. E assim, ganhar ou perder, enquanto tudo passa, é apenas festejar o fenômeno. É apenas torcer, ou se deixar levar, enquanto o grande jogo nos deixar viver alguma alegria.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito acreano

PRESENTE DE SÃO JOÃO


O governador do Acre, Binho Marques (PT), autorizou a instalação de uma torre do programa Floresta Digital para atender os moradores do bairro Raimundo Irineu Serra, distante oito quilômetros em linha reta do centro de Rio Branco.

O diretor estadual de Tecnologia da Informação e Comunicação, Aldecir Paz D’Avila Júnior, obteve de dona Peregrina Gomes Serra, dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, autorização para instalar a torre em sua propriedade, localizada no ponto mais elevado da cidade.

O Florestal Digital é o programa do governo do Acre para universalização do acesso livre e gratuito à internet. O serviço estava sendo reivindicado pelos moradores do Irineu Serra desde que o programa foi lançado porque as operadoras de telefonia não oferecem banda larga para o bairro sob a alegação de que o mesmo é muito distante - quatro quilômetros da central telefônica mais próxima.

A torre do Floresta Digital, com 25 metros de altura, permitirá que as residências com antena direcional, num raio de 500 metros, possam fazer captação e transmissão de dados nos sistemas de internet wireless.

- Ela estará em operação em no máximo 10 dias. O trabalho para erguê-la começa ainda nesta sexta-feira - afirmou o diretor
de Tecnologia da Informação e Comunicação.

O programa de inclusão digital é uma das iniciativas mais marcantes da gestão do governo Binho Marques e vem sendo ajustado para melhorar a cobertura em Rio Branco e no interior do Estado.

A sua falha mais grave até aqui foi de comunicação e marketing, quando se criou a falsa expectativa de que bastava dispor de um computador para ter acesso gratuito à internet em qualquer rincão do Acre.


Aldecir Paz D’Avila Júnior visitou a fogueira que já foi montada pela irmandade do centro original da doutrina do daime para a noite de 23 para 24 de junho, quando é realizado o festejo de São João.

Clique aqui para obter mais informações sobre o Floresta Digital.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

DEU CERTO


O entulho jogado na estrada do bairro Irineu Serra (veja) pelo motorista de caminhão de uma empresa que lida com entulho já foi removido pela própria empresa.

O secretário de Meio Ambiente de Rio Branco, Arthur Leite, informa que o proprietário já pagou a primeira de três parcelas da multa de R$ 2,5 mil.

O empresário disse ter identificado o motorista responsável pelo desatino e demonstrou contrariedade porque sua empresa dispõe de espaço licenciado para processar entulho.

O empresário pretende cobrar do motorista o valor da multa. Agora vem o processo criminal a pedido da promotoria de justiça.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

ESTÁ PERFEITO ASSIM



O blog sempre serve. No dia 31 de maio, no post "Manda corrigir, Binho", mostrou várias falhas numa placa de sinalização instalada no centro histórico de Rio Branco. Ela já foi devidamente removida. Tanta coisa mudaria no Acre para melhor se a imprensa não se limitasse a bajular o poder.

PMDB DESCARTA PINTO


O diretório regional do PMDB descartou a pré-candidatura do vereador Rodrigo Pinto ao governo do Acre e decidiu se aliar ao candidato Tião Bocalom (PSDB). Embora a presidenciável Dilma Rousseff (PT) tenha Michel Temer (PMDB) como vice, no Acre os dois partidos são adversários históricos.

A decisão do PMDB é uma tentativa de salvar o mandato do deputado Flaviano Melo, presidente do diretório regional. Ex-governador e ex-senador, Melo se viu isolado desde que lançou Pinto como pré-candidato ao governo há mais de dois anos.

Clique aqui para ler mais no portal Terra.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ENTULHO EMPRESARIAL

A empresa coleta entulho e vem despejá-lo numa área de proteção ambiental, na Estrada Raimundo Irineu Serra. O jeito é torcer para que haja alguma ação da Secretaria de Meio Ambiente de Rio Branco e da promotoria de justiça.

ARCO E FLECHA

Marina Silva (letra) - Sérgio Souto (música)


Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.

Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.

Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.

Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MARINA SILVA

"Não é só a força do dinheiro que vence uma eleição"

Sem mencionar seus oponentes, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), a candidata do PV à presidência da República, Marina Silva, disse em entrevista exclusiva ao Terra, que não é só a força do dinheiro e das estruturas que podem vencer uma eleição.

"Hoje, as pessoas estão tratando a política como se alguém já tivesse decidido e que o povo siga apenas um roteiro. Não, o roteiro está sendo escrito pelo próprio povo", afirmou.

Veja no portal Terra a entrevista com Marina Silva, que será a primeira presidenciável sabatinada nesta segunda-feira (14), a partir das 22h, no programa Roda Viva, da TV Cultura.

domingo, 13 de junho de 2010

BONS DIAS EM BRASÍLIA


Jornalista Cláudio Leal e o poeta Thiago de Mello

"Coletiva de imprensa" com Lucas Ferraz, Carol Pires, Thiago de Mello, Fabiano Lana, Luciana Menezes, Rubens Valente e Cláudio Leal

Thiago de Mello e o boneco de Marina Silva

Protegido por Carol Pires e Andréia Sadi

O CARRASCO DA FLORESTA

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


- O deputado Aldo Rebelo me agrediu, bateu no meu corpo com um porrete, rasgou minha camisa, tentou me eliminar a mando da senadora Kátia Abreu! Há testemunhas. Estou registrando a queixa. Ele vai pagar caro por essa agressão, vai perder a eleição.

Quem fez essa denúncia grave, em entrevista exclusiva à coluna Taquiprati do Diário do Amazonas, foi o jurista Curupira Ramos, sentado sobre um jabuti que lhe servia de banco, em sua casa no meio do mato, com as pernas cruzadas, os pés virados para trás, o cabelo vermelho, os dentes verdes, as orelhas enormes e o corpo tão peludo quanto o do seu sobrinho Tony Ramos (a genética é impressionante, não falha nunca!).

Taquiprati (TQPT) - Doutor Curupira, o senhor existe de verdade?

Curupira (C) - Lógico! Se eu não existisse, não poderia ser agredido. Essa pergunta é impertinente, você deve fazê-la ao Aldo Rebelo. Aliás, minha existência é reconhecida pelo projeto de lei federal nº 2.762 que cria o Dia do Saci - o único que Aldo apresentou em 2003, como líder do governo. Ora, se até o meu primo, que tem uma perna só…

TQPT - Desculpe, Excelência, é que dizem que vós sois uma invenção do homem.

C - (arregalando os olhos negros) E daí? O Código Penal também é uma invenção do homem para organizar a sociedade! Só porque foi inventado não têm vida? Claro que tem! Aliás, existe justamente porque foi criado. As pessoas acreditam no Código Penal e pautam seu comportamento em função dele. Tudo aquilo que o ser humano cria, passa a existir. A alegria e a tristeza também não têm forma física, mas existem porque a gente pensa nelas. Os homens pensam em mim. Sou pensado, logo existo.

TQPT - O que é que Vossa Excelência faz, afinal, na vida?

C - Sou legislador e, ao mesmo tempo, guardião da mata. Crio leis de proteção ao meio ambiente. Defendo a vida e a floresta. Protejo as árvores, os animais, os rios da ação predatória e burra. O fundamento filosófico de nossa legislação é que a natureza existe para todos nós, devemos retirar dela exclusivamente aquilo que é necessário para nossa sobrevivência. Devemos repor o que tiramos. Se não for assim, a espécie humana desaparece. Por isso, criei um código que, como a Constituição dos EUA, não é escrito, são leis que fazem parte do direito consuetudinário. Castigo e puno os predadores que cometem crime ambiental.

TQPT - Punir como? O Meritíssimo tem poder de polícia? Pode exemplificar?

C - Perfeitamente! Minhas leis são codificadas em narrativas. O código escrito tem artigos e parágrafos. O código oral tem histórias e exemplos. Quem entendeu isso muito bem foi Couto de Magalhães, um advogado mineiro. Quando ele assumiu a presidência do Pará, em 1865, compilou a legislação oral, recolhendo centenas de histórias na língua nheengatu, contadas por índios e cabocos. Numa delas, um caçador índio mata uma veada recém-parida. Quando chega perto do corpo inerte, descobre que é o cadáver de sua própria mãe. Esse encantamento foi obra de Anhanga. Essa é a pena para quem não respeita o período de procriação e amamentação dos animais: mata a própria mãe. Os povos da floresta acreditam nisso como os povos urbanos crêem no Código Penal. E é porque acreditam que preservaram a diversidade da vida.

TQPT - Mas o deputado Aldo Rebelo não sabia disso tudo, quando nessa quarta-feira, 9 de junho, na Comissão Especial da Câmara, terminou a leitura do seu parecer para mudar o Código florestal brasileiro?

C - Não quero ofender, mas aqui pra nós, muito em off, o Aldo é meio obtuso, bronco, parece que comeu coquinho de tucumã. Seu parecer de 270 páginas demonstra profunda ignorância sobre a história e a as culturas amazônicas. Afirma que “índios e caboclos, depois de lutar contra o meio inóspito, ainda vivem como viviam seus antepassados há centenas ou milhares de anos, dominados pelas forças da natureza, perambulando nus ou seminus, abrigados em choças insalubres”… (pg.21) Quá-qua-ra-qua-quá! Nenhum pesquisador no mundo assina embaixo de tal bobagem.

TQPT - Doutor Curupira, o meritíssimo já encontrou com o Aldo lá na floresta? Porque se ele fala tanto, é porque deve ter andado por lá.

C - O Aldo é um urbanóide, nunca colocou o pé na floresta. Por isso, acha que a mata é hostil. É hostil lá pra ele e pras negas dele, não para os povos que fizeram da floresta sua morada. Aldo fala em ‘choças insalubres’, mas o arquiteto Severiano Porto elogia a construção de malocas, confessa que aprendeu arquitetura com os índios. Aldo desconsidera mudanças e revoluções ocorridas nas sociedades amazônicas, registradas pelos arqueólogos. Ignora a arte, a música, a literatura, os conhecimentos na área de botânica, zoologia, astronomia, medicina, produzidos pelos índios. Nem suspeita que os índios criaram um código florestal oral. Ele afirma que “a conquista da Amazônia se deu com a expedição de Pedro Teixeira (1637-1639)”, como se a história começasse com os portugueses. Ignora que a Amazônia foi ‘conquistada’ pelos índios, que 5.000 a.C já desenvolviam agricultura sofisticada, com a domesticação da mandioca e de outras plantas.

TQPT - Embora desconheça a floresta, Aldo diz que leu dezenas de livros sobre o tema…

C - Conversa fiada! Não leu, meu filho! O Aldo não lê nem o programa do PCdoB! Certifique-se você mesmo lendo o relatório que ele aprontou. Aprontou mesmo. A proposta do Aldo ignora os estudos feitos pelas universidades e centros de pesquisa. E ainda por cima se assessora mal. Em vez de chamar quem manja do assunto, foi procurar uma advogada, a Samanta Piñeda, que é consultora jurídica da bancada ruralista. Pagou R$ 10 mil com dinheiro nosso pra ela escrever aquela lengalenga enfadonha.

TQPT - Não entendo. O que é que o deputado ganha com isso?

C - Ganha a simpatia e o apoio dos ruralistas, do agronegócio. De acordo com a página na internet da ONG Transparência, a campanha de Aldo para as eleições de 2006 recebeu R$ 300 mil da Caemi-Mineração e Metalúrgica, R$ 50 mil da Bolsa de Mercadorias e Futuros, R$ 50 mil da Votorantim Celulose e Papel e por ai vai.

TQPT - Em que consiste, afinal, o projeto do deputado?

C - O projetodesmonta toda a legislação que protege a floresta: suspende multas de crimes ambientais, anistia desmatadores, reduz as áreas de preservação permanente (APPs) permitindo a realização de atividades econômicas dentro delas, dispensa a reserva legal em propriedades menores, incentiva a exploração de várzeas e topos de morro, dá autonomia para cada Estado legislar sobre meio ambiente, permite que os municípios passem a autorizar o desmatamento. É claramente um pedido de penico aos ruralistas, não está preocupado com os interesses nacionais, mas com interesses particulares de quem quer o lucro imediato.

TQPT - Se for aprovado, o projeto do Aldo prejudica todo mundo, até mesmo os descendentes dos ruralistas.

C - É o que estou dizendo há alguns milênios. Lembra o que aconteceu em Santa Catarina? Lá, o Governo reduziu as margens de mata ciliar ao longo dos rios e todo mundo viu a tragédia ocasionada pelas últimas chuvas. Se o projeto for aprovado, vai provocar impactos ambientais irreversíveis e a emissão de 25 bilhões a 31 bilhões de toneladas de gás carbônico só na Amazônia, segundo os especialistas. É preciso protestar. No Rio de Janeiro, nessa semana, já houve uma primeira manifestação de rua, com a participação de duzentos ativistas e lideranças de organizações ambientalistas. Nos outros países existem também curupiras. Eles vão boicotar o produto brasileiro em decorrência do desmatamento que o Código vai permitir.

TQPT - Excelência, me diga, o Aldo não é deputado do PCdoB, um partido que sempre defendeu, em tese, os fracos, a floresta…

C - (dando um assovio agudo e assustador) - Meu filho, o relatório do Aldo é uma afronta à sociedade e ao patrimônio ambiental do Brasil. Com isso, Aldo fere a respeitabilidade da bancada de um partido histórico nas lutas populares. Vai tirar votos de mulheres maravilhosas do PCdoB: Vanessa Graziottin (AM), Perpétua (AC), Jandira Feghalli (RJ), Alice Portugal (BA), Jô Moraes (MG), Manuela (RS). Aldo está se comportando como um agente infiltrado da bancada ruralista no PCdoB. Ele já passou para o outro lado, falta apenas formalizar sua filiação ao DEM (vixe, vixe!), onde é o lugar das idéias interesseiras que ele defende. Aldo Rebelo é o anti-curupira, o carrasco da floresta.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

Foto: Curupira representado pelo ator Erick Krominski em ensaio fotográfico do Estúdio Wayne

sábado, 12 de junho de 2010

A CONQUISTA DOS SONHOS

José Augusto Fontes

Há uma primavera diferente nas coisas e nas pessoas, um verde ainda não bem verde amarelou e passeia pelos olhos de tudo, por onde quer que tudo vá. Um sentimento cheio de gente tomou conta da vida, criou o agradável fato de estarem todos falando a mesma língua e fez essa gente colorida se abraçar. Quase nada faz isso acontecer, mas agora é tempo de torcer, é preciso juntar as ilusões. A fantasia entra em campo, nosso time tem ritmo único, nosso enredo é vencer. Nada possibilita essa profusão de abraços, essa linearidade de idioma, num compartilhar de ideal, como faz o futebol, a cada quatro anos.

O futebol cria a festa, freia a vida, muda os horários, dita os comportamentos, supera todos os outros motivos para sorrir e festejar, é idéia para projetar vitórias, do campo para a vida, da vida para o sonho, um sonho de sete guerras, sete canastras, vários ases que dão asas aos gritos, aos soluços, o futebol está na vida, na fé e no sonho, o gol libera o momento, a vitória garante o novo dia, o título assegura a eternidade. Outro qualquer fazer é para depois do grande feriado que se instala nos corações, que como tudo e todos, também quase param, não batem, no momento que em driblam a vida e gritam gol, que felicidade!

Um gol a mais que o adversário, um ponto a mais que o concorrente, a sorte dominada no peito, a habilidade riscada na grama, a sensação recebida pela janela da tela, quem é ela, é a Copa do Mundo, a rainha que traz o título que a majestade da bola confere aos herdeiros do rei, súditos, valetes e damas, confere a tudo que habita estas terras do futebol, da ginga, e a todos que ostentam a hegemonia mundial desse esporte cujo nome se confunde com Brasil, campeão de alegorias e de títulos, coisa que até ontem bastava, mas agora precisa ser mais, e de novo, outra vez, precisa alimentar o espetáculo, precisa levantar taças.

Nada é como o Brasil. Torcidas cantando aos quarenta do segundo tempo, achando bom perder de pouco, comemorando derrota aceitável, isso é coisa para os outros. Só os outros acham que estar numa copa os possibilita ganhá-la. Copas são para o Brasil, os outros ilustram, compõem tabelas. Até que são bons, mas ganhar é outra coisa, as faixas têm dono, o futebol pertence a essa nação que só entende o que é vencer. Há uma galera de sonhos, há coisas da vida que o futebol resolve. Agora, interessa crer, viver e acontecer, nesse jogo de sete tempos, com onze cartas, para bater com ouro e ganhar o seis das copas.

Todas as ruas entram em campo, as favelas e praças, prédios e casinhas, os campos e cidades, matas e vilarejos, gente guardada ou apresentada, até quem não se vê está vendo. Um novo gol foi visto. Enquanto a bola viajava, carregava uma imensa devoção, que a empurrava, e depois cegava tudo, dizia tudo, num grande grito, cheio de vozes, mas único, um gol a mais que o adversário, um ponto a mais que o concorrente, há alguma sorte para a nossa incomparável habilidade? Nem sempre, mas se ela estiver impedida, vamos escalar a raça, vamos aumentar o quarteto dos ventos para onze, vamos ganhar e comemorar!

A primavera que passeia pelos olhos de tudo quer transformar o futebol em carnaval, criar o feriado e abraçar o resultado, nossa artilharia de sorrisos quer embalar as redes de outra estação. Há quatro anos o carinho vem trocando passes curtos com a explosão, mas não bota pra dentro, de lá pra cá não houve copa. Outras competições preencheram os adereços, o confete foi acumulando, e agora, todos os blocos querem passar, a multidão de delírios quer desfilar por toda a alma, quer dar-se ao mundo. Uma galera de sonhos precisa gritar com a realidade, na mesma língua, no mesmo abraço, num grito cheio de vozes. E único.

O movimento cheio de gente tomou conta da vida, que rola pelas tabelas. Um grande sentimento entrou em campo, há prazer em beijar o gol, em abraçar o título, também quero possuir a deusa vestida de vitória. Tudo enche a área perigosa da emoção, a vida é mais passageira, contada em minutos. A meta guardada por ilusões foi penetrada durante o grito do gol, que botou a fé para dentro. Tudo cegou, só se avista a necessidade uniformizada de ganhar, que passa dos limites da vontade, penitência (penalidade) máxima, naquele verde ainda não bem verde que amarelou e tomou conta de tudo, por onde quer que tudo vá.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito no Acre