quarta-feira, 30 de abril de 2008

CUIDADO COM A "VACINA DO SAPO"

Cientista alerta que uso indevido de bioativos
das
Phyllomedusas podem causar mais mortes

Alerta de Leonardo de Azevedo Calderon, doutor em biologia molecular e professor de bioquímica do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza do Campus Floresta da Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul (AC), em decorrência do caso de um homem que morreu em Pindamonhagaba (SP), após receber aplicação da "vacina do sapo":


"Um problema sério que não está sendo tratado é o desconhecimento dos efeitos fisiológicos adversos promovidos pela mistura de bioativos presentes no veneno da Phyllomedusa bicolor (kambô) em pessoas com comprometimento hepático, cardíaco e/ou neurológico, entre outras patologias. Não se sabe nada a respeito dos efeitos que a aplicação do kambô pode provocar em pessoas que possuem dezenas de patologias relacionadas aos órgãos e tecidos alvo de suas moléculas bioativas.

A ausência de estudos nestas áreas, principalmente motivada pela dificuldade de obtenção de licença por parte de órgãos ligados ao Ministério do Meio Ambiente, está diretamente ligada a atual ignorância quanto as "contra-indicações" desta prática, e será responsável por mais acidentes por ocorrer.

Adicionalmente pode ter havido um erro na aplicação do veneno. Existem três espécies de Phyllomedusas no Acre (origem da prática do Kambô) que são muito semelhantes entre si, sendo identificadas apenas por herpetólogos - a Phyllomedusa bicolor (kambô), a Phyllomedusa tarsius e a Phyllomedusa vaillantii.

A composição do veneno das duas últimas ainda são praticamente desconhecidas pela ciência, quanto mais seus efeitos fisiológicos. Caso tenha sido aplicado o veneno de uma das duas ultimas no lugar da bicolor, os efeitos fisiológicos podem ter sido muito mais fortes do que os observados no ritual do Kambô".

O professor Leonardo Calderon aprofundará a questão em artigo para o blog, na sexta-feira. Existe gente ganhando muito dinheiro com a aplicação da secreção do sapo até em clínicas do país. Alguns chegam a associar a substância à ingestão de ayahuasca.

PETECÃO


Deputado Sérgio Petecão, pré-candidato a prefeito de Rio Branco pelo PMN, devora com o filho pão com linguiça no mercado de São Paulo. Alguém sabe o destino daquele bolo apreendido recentemente pela Polícia Federal, por ordem do juiz Marcelo Coelho, durante a festa de aniversário do PMN? Essa e outras só acontecem no Acre.

PRA LEMBRAR DO SERDA


Essa merece esforço para tentar resumir uma longa história: a presidente do Tribunal de Justiça do Acre, desembargadora Izaura Maia, inaugura hoje, às 15 horas, o novo Parque Gráfico do Judiciário, onde foi investido quase R$ 1 milhão em maquinário.

O parque gráfico começou em 1993, com a publicação da primeira edição do Diário de Justiça, quando as máquinas pertencentes ao antigo Serviço de Divulgação do Estado do Acre (Serda) e parte da equipe de servidores do órgão foram cedidos pelo governo estadual ao Tribunal de Justiça.

O Serda foi extinto pelo então governador Edmundo Pinto como um acerto de contas, decorrente de gastos durante a campanha eleitoral, com dois sócios informais dele - os empresários do setor grátifo Ely Assem de Carvalho, ex-funcionário do próprio Serda, e Luis Carlos Pietschmman, que virou chefe do Gabinete Civil do Acre.

As máquinas do Serda, adquiridas durante a gestão do governador Francisco Wanderley Dantas, em 1970, foram jogadas num depósito no Distrito Industrial e posteriormente, a pedido, doadas ao Judiciário.

Bem, a partir da efêmera gestão de Edmundo Pinto, o Diário Oficial do Acre passou a ser impresso na gráfica de Ely Assem de Carvalho e assim continua até hoje. Os demais serviços passaram a ser dirigidos para a gráfica de Pietschmman, que estava no mesmo hotel onde o então governador foi assinado em São Paulo, em maio de 92.


Como é praxe para a maioria dos governadores acreanos, Edmundo Pinto se tornou dono de um jornal, A Tribuna, fundado por Ely Assem de Carvalho, mas jamais apareceu no contrato social da empresa. Ambos compraram com dinheiro público, claro, uma máquina com capacidade de imprimir 70 mil jornais por hora, embora A Tribuna circule, em média, com 300 exemplares.

O velho maquinário e os abnegados servidores do antigo Serda ainda hoje servem ao Tribunal de Justiça, que se vale deles todos os dias para a divulgação de sua jurisprudência, por meio de publicações diversas, periódicas ou não.

O Diário da Justiça é distribuído gratuitamente e está acessível na web. Enquanto isso, a firma E. A. Carvalho (tendo como preposto a CJ A. Chagas) continua faturando com a impressão, venda de assinaturas e de anúncios no Diário Oficial do Estado, que nunca esteve acessível na web, embora a exigência constasse no edital de "licitação".

Mas agora já são outros 500 de um acordo com os governadores petistas, que envolve, entre outras mumunhas, o cabresto que o jornal ostenta. O governador Binho Marques estava decidido a mudar isso, mas foi impedido pelo sistema político que o elegeu. Senadores, deputados e ex-governador preferem tirar uma casquinha do viés corrupto instituído por Edmundo Pinto.


Parabéns aos funcionários do antigo Serda e aos desembargadores, que compreenderam, ao menos nesse caso, que é necessário separar o público do privado.

METAMORFOSE AMBULANTE

Narciso Mendes

O presidente Lula já disse que prefere ser uma metamorfose ambulante a ter opinião formada sobre tudo. Que assim fosse, conquanto fosse para corrigir velhos vícios e não para cometer novos e gravíssimos erros, afinal de contas, qualquer mudança pressupõe-se para melhor.

De qualquer maneira, há que fazermos justiça ao PT, porquanto foi o último partido a cair na mesmice, a nivelar-se por baixo. O que não faz o poder, seja pela vontade de conquistá-lo, seja pela obcecação para não perdê-lo.

Em 2004, quando tentava sua reeleição na disputa pela prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy recebeu o apoio de Paulo Maluf e com ele posou para uma fotografia que logo a seguir foi utilizada para compor sua propaganda eleitoral.

Mais recentemente, ou mais precisamente, com vista às eleições deste ano, o PT e a própria Marta Suplicy fizeram o possível e o impossível para se coligar com o PMDB de Orestes Quércia. Maluf e Quércia, para os petistas e os tucanos, sempre foram a expressão máxima da depravação política nacional.

Na luta interna que travam dentro do PSDB, José Serra e Aécio Neves não param de, político-partidariamente, contribuir com seus maus exemplos. Como o que é bom para um é sempre ruim para o outro, em São Paulo o pré-candidato tucano, Geraldo Alckmin, é mal visto por Serra, e por sua vez é o preferido de Aécio, o mesmo Aécio que em nome de sua coerência partidária apoia Gerldo Alckmim em São Paulo, enquanto nas suas Minas Gerais, fez das tripas coração para que o candidato a prefeito de Belo Horizonte saísse de uma coligação entre o PSDB e o PT.

Em sendo as eleições municipais a mais visível preliminar para a eleição dos governadores e do presidente da República, por essas e outras, já dá para se prever como será a disputa de 2010. Decerto uma certeza: cada vez mais os mais espertos e não os partidos serão beneficiados na eleição presidencial.

Serra trabalha para eleger o Democrata Kassabi, ainda que em detrimento do seu correligionário Geraldo Alckmim. E mais que isto: se der Marta Suplicy, uma possibilidade mais que real, ela naturalmente virará candidata e se constituirá numa forte candidata nas eleições de 2010.

Se o vencedor for Geraldo Alckmin, perde o PT, perde Serra e ganha Aécio. Para o PMDB.

O empresário Narciso Mendes, dono da TV e do jornal Rio Branco, escreve neste blog às quartas-feiras.

terça-feira, 29 de abril de 2008

JORGE E TIÃO


Do Dim para o blog do Edvaldo Magalhães.

OS VERDADEIROS INIMIGOS DA AMAZÔNIA

Luciano Martins Costa

A constante preocupação de parte da população brasileira com a presença de estrangeiros na Amazônia, manifestada regularmente em cadeias de mensagens que circulam na internet – a maioria delas viajando nas mais absurdas teorias da conspiração – está inspirando o afoito ministro da Defesa, Nelson Jobim, a produzir uma perigosa peça de legislação. O novo Estatuto do Estrangeiro, que se encontra em gestação sob os cuidados de um comitê que inclui também representantes do Ministério da Justiça, pode nascer com as melhores intenções e, no final, se revelar um instrumento de cerceamento de atividades importantes para muitos interesses nacionais.

O tema Amazônia, que vinha inspirando reportagens e publicações especiais como a revista do Estadão, os cadernos temáticos do jornal Valor Econômico, da revista Época e outros, por conta dos controversos números sobre o desmatamento, deriva agora para a área da segurança nacional, fonte de velhos traumas para a democracia brasileira.

E aqui é que mora o perigo. A recente declaração pública do general Augusto Heleno Pereira, comandante militar da Amazônia, sobre a vulnerabilidade de nossas fronteiras ao norte e noroeste, e sua manifestação contrária à criação de reservas indígenas em áreas contínuas de grande extensão, atiçou os ânimos de conhecidas figuras alcoviteiras da política, que se sentem desconfortáveis sob o regime democrático [ver "A farda que seduz a imprensa"].

Clique aqui para ler o artigo completo no Observatório da Imprensa.

DOIS FILHOS DE DICO


Do Cartunista Braga.

AYAHUASCA: PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Perpétua Almeida

A Amazônia Brasileira tem particularidades que só entende com mais precisão quem nela mora ou quem, como muitos, resolvem adotá-la em seu coração. Dizem os mais antigos que aqueles que entram na floresta, que se banham nos igarapés ou ouvem o som dos pássaros da mata não se esquecem jamais. Nisso eu acredito.

Nessa vasta diversidade cultural, que é influenciada pelos costumes indígenas e pelas crenças trazidas pelos que chegaram para morar na Amazônia, nasce uma religião tipicamente brasileira. Falo do daime, ayahuasca, chá, vegetal. Dentre outras, são estes os nomes dados à união de duas plantas oriundas da floresta que num processo de infusão das folhas da Psychotria Viridis - rainha ou chacrona (um arbusto) e da Banisteriopsis Caapi - mariri ou jagube (um cipó) surge um chá que é usado em rituais culturais e religiosos. Temos ainda que considerar o uso milenar pelos indígenas nos seus rituais específicos, que vêm dos povos pré-colombianos da América do Sul. Mas é no contexto urbano, há cerca de 40 anos, que a expansão chegou a diversas cidades brasileiras e até no exterior.

O Conselho Nacional Anti-Drogas, publicou em novembro de 2006 um relatório produzido por um grupo interdisciplinar onde se fizeram presentes representantes das três linhas originárias: O Alto Santo - criado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e aqui não abro um parêntese, mas meu coração para registrar o profundo respeito e carinho pela Madrinha Peregrina; a Barquinha - pelo Mestre Daniel Pereira Mattos, através do qual manifesto também a grande consideração por Francisco Araújo; e o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal pelo Mestre José Gabriel da Costa, segmento com o qual tenho profundas ligações emocionais através dos meus padrinhos de batismo Sr. Gaim e dona Amaríades que pertencem a União do Vegetal, e, que foram fundamentais no meu processo de construção como ser humano ensinando-me através de seu exemplo a convivência pacífica, democrática e engrandecedora com outras religiões. Destas três linhas, a União do Vegetal se origina em Rondônia e as demais no Acre.

O relatório, de um órgão ligado diretamente à Presidência da República, reitera a liberdade do uso religioso da ayahuasca, considerando a inviolabilidade de consciência e de crença, além da garantia de proteção do Estado às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, com base na Constituição Federal. Aponta ainda que a liberdade religiosa e o poder familiar devem servir à paz social, à qual se submete a autonomia individual.

Há ainda os que confundem a bebida com droga, por conta das reações percebidas por cada pessoa. Pesquisas científicas nas modalidades da farmacologia, pscicologia, antropologia, direito, química, dentre outras áreas acadêmicas, apontam para a comprovação que o governo brasileiro já publicou: o chá não é droga.

Os adeptos desse sincretismo religioso somam milhares e milhares de famílias. Ligados umbilicalmente à preservação da natureza, porque dela precisam para o plantio do cipó e da folha, esses cidadãos contribuem para a busca de uma sociedade mais justa e pacífica, com respeito à legislação nacional.
Na Amazônia, com mais intensidade no sul do estado do Amazonas, nos estados do Acre e Rondônia o uso em rituais religiosos é comum e conhecido na sociedade. Faz parte da cultura, da vivência de homens e mulheres que convivem com a floresta.

No início de 2007 fizemos uma primeira reunião com um grupo de pessoas, com a proposta de garantir que o uso religioso do chá fosse reconhecido como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Estudamos, pesquisamos, pedimos auxílio. Não tivemos pressa, mas também não esmorecemos. Preferimos não dar publicidade na mídia, porque essa não é uma bandeira política, é uma questão de reconhecimento e reflexão. Coloquei meu mandato à disposição e estamos chegando a um momento importante. Conseguimos excelentes contribuições de vários intelectuais, entre eles, Jair Facundes, Toinho Alves, Edson Lodi e do historiador Marcus Vinícius e toda a equipe da Fundação Garibaldi Brasil.

A atual legislação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional prevê que o reconhecimento deve ser dado à uma prática, uma representação social, à conhecimentos e técnicas que as comunidades ou grupos reconhecem como parte integrante da cultura, que seja transmitido de geração em geração e tenha sua interação com a natureza. Chegamos a conclusões e começamos a dar os encaminhamentos.

Estávamos marcando uma ida para Brasília, para fazermos no Ministério da Cultura, no IPHAN e no Congresso Nacional um grande ato. Mas os mistérios e as oportunidades se apresentam, como se orquestradas por um Grande Maestro. Nada mais importante e sublime que a simplicidade da nossa terra, dos nossos ares. Chegou a oportunidade.

O ministro Giberto Gil vem no Acre amanhã. Além de cumprir uma importante agenda com o nosso governador Binho Marques, conseguimos um espaço pra que ele receba um documento assinado pelos representantes das três linhas originárias. Um documento simples, sem pretensões acadêmicas, mas que traz no seu seio algo sublime e bonito de se ver: que o governo brasileiro reconheça essa cultura, essa manifestação religiosa que tem na sua matriz a floresta amazônica.

Perpétua Almeida (PC do B) é deputado pelo PC do B. Ela e entidades entregarão ao ministro Gilberto Gil, em solenidade no Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, um documento que solicita o reconhecimento pelo governo brasileiro. O artigo está republicado no site do Ministério da Cultura.

ABERRAÇÃO NA FLORESTANIA

Do blog do deputado Luiz Calixto (PDT) na Semana do Índio:


"Ao contratar uma empresa de engenharia para construir um kupixawa numa aldeia o governo está contribuindo com a cultura indígena?

Como estou perguntando a opinião dos outros, vou dar a minha:

Este tipo de “ajuda”, por mais simpática que seja e renda os votos esperados, atua no sentido de acelerar o processo de destruição da cultura indígena.

Mais acertado seria dar os recursos para que eles mesmos fizessem.
Isso faz com que uma história milenar seja substituída pelos traços de um arquiteto.

É o mesmo que distribuir telas de serigrafia aos caxinauás para que eles reproduzam suas artes ou um maquiador para pintar seus rostos.

Levantar um “kupixawa” no canal da maternidade é completamente diferente de construir um dentro de uma aldeia.

Esse tipo de investimento não é próprio de um governo que diz preservar os valores das culturas tradicionais.

Há várias outras maneiras do governo atuar dentro das aldeias visando à perpetuação da vida e da cultura dos povos indígenas.

Não deixá-los morrer por falta de assistência à saude é uma delas".

Clique aqui para acessar o Blog do Calixto.

A PONTA DO ICEBERG

Fátima Almeida

Desde o Renascimento que o relógio e demais instrumentos de medição foram o suporte da tendência geral à racionalização do tempo e do espaço. Sem eles a ciência moderna não teria acontecido e nem a revolução industrial. Desde então a ciência esteve a serviço de uma classe que se apropria pela força dos recursos humanos e ambientais de vastos territórios. E de Estados autoritários como a China, que está destruindo o Tibet, com o consentimento de todos os malditos que lideram a economia de mercado no mundo.

O caráter excludente do sistema produz sempre marginalização e desemprego em progressão geométrica que leva à cocaína e derivados, ao álcool, do uísque à cachaça, à violência que atinge a todas as classes como num conto de Alan Poe. Sendo que o império da mídia, pra completar, veio abolir as fronteiras naturais do dia e da noite. São 24 horas no ar. Trabalha-se mais, vive-se menos.

Daí, o estresse generalizado. A síndrome do pânico é uma reação da sensibilidade a essa impossibilidade geral de viver em paz e segurança. A internet deixa nos pais a inquietação latente de não ter mais controle sobre as aquisições intelectuais e morais feitas por seus filhos; as TVs abertas e fechadas constituem o único canal de comunicação para as pessoas, em separado, destruindo as possibilidades de convivência e as realizações coletivas fora da lógica de mercado.

Pessoas viraram ilhas. As propagandas impelem ao consumismo para a queima de combustíveis, sendo que ninguém vai a lugar nenhum, numa ridícula imitação do estilo norte-americano patrocinada pela mídia. E um governo que muda as regras do jogo a toda hora, totalmente avesso à democracia grega, onde as leis eram preservadas a todo custo devido à convicção de que não é possível alterar e mudar dispositivos legais sem mais nem menos sem incorrer no risco de gerar uma instabilidade geral. Perde-se a saúde coletiva que deveria ser a razão de existir de todo Estado.

A mudança de fuso horário é apenas a ponta do iceberg. O progresso manifesto nas realizações científico-tecnológicas, como um Titanic, imponente, grandioso, empolgante, leva a todos para o fundo mesmo porque todos desejam estar nele, todos almejam ficar plugados às cenas da TV que é o seu paraíso. Não fosse assim, senado nenhum teria poder para mudar fuso horário.

Pelo menos nós aqui no Acre temos os mais belos Out-doors que já se viu, com imagens dos nossos indígenas em sua existência absorta a essa aceleração enlouquecida do tempo. Fotografias belíssimas, contraponto à toda essa loucura que invadiu o nosso velho Acre. Quanto ao grupo de teatro 4° Fuso, do Jorge Carlos, agora virou de fato, peça de Museu.

Fátima Almeida é historiadora.

TOINHO ESTÁ NA TERRA

E a imprensa mais irrealista que os reis

O cronista Antonio Alves mora em sítio de estrada de barro, não dispõe de luz elétrica ou de água encanada em casa, mas ficou surpreso ao ler, nos diários Página 20, A Tribuna e A Gazeta que hoje ele está em Londres como representante do governador Binho Marques (PT), palestrando sobre educação num evento organizado pela ONG do príncipe Charles.


- Como quero viver mais 500 anos, espero que os jornais noticiem logo a minha morte - disse o assessor do governador.

Baseado numa fonte oculta e murmurante, este blog já havia adiantado na semana passada que era quase nula a possibilidade de Binho Marques e Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, confirmarem presença na residência oficial do príncipe Charles e de Camila Parker-Bowles. E eles realmente evitaram Londres.

- Ambos não estão encantados nem com o Charles nem com a Camila - disse a fonte.

Bem, se é verdade o que dizem os jornais, o senador Tião Viana e o ex-governador Jorge Viana são os únicos acreanos em Londres. Veja qual é, segundo o fantasioso redator da coluna Bom Dia, o programa de Toinho na cidade.

- O jornalista Antônio Alves, que foi a Londres representando o governador Binho Marques, deve abordar a questão da melhoria da educação a favor dos povos da floresta, que, educados, poderiam assumir uma postura ainda mais consistente para defender a sua preservação.

P.S.: Leonildo Rosas, da coluna Poronga, acertou ao noticiar que apenas Tião Viana e Jorge Viana estão em Londres. Sem Marina Silva, convenhamos, serão mais dois na multidão de convidados da realeza. E, sem conferir, a imprensa acreana costuma publicar qualquer coisa enviada pelos assessores de imprensa dos irmão Viana. Dá nisso.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

MAIS CAPIM

Altonio Alves

Toda essa confusão horária nos tirou a atenção do assunto mais importante dos últimos tempos, que foi tratado pelo Meirelles em expressivo artigo publicado no blog do Altino [leia]e no site da Biblioteca da Floresta (que, aliás, está ótimo, editado pelo Élson Martins e pelo Marcos Afonso). A devastação na “amazonía” peruana é, para o Brasil e particularmente o Acre, uma sujeira na água que vamos beber. Mas o Brasil não liga e o Acre está muito ocupado adiantando o relógio.

Quando digo que a política é uma merda, tem gente que se ofende. Mas vejam só: nenhum detentor de cargo político importante pode exigir do Peru a punição dos assassinos de Julio Agapito, isso seria meter-se nos assuntos internos de outro país, um erro político gravíssimo. É, mas levar “empresários” brasileiros pra passear no Peru, ou trazer os de lá para cá, é uma ação meritória que promove o “intercâmbio” e a “integração”.

Nos anos 70, lá na França, onde ainda havia gente com mania de pensar, Giles Deleuze e Felix Guatari criaram uma expressão interessantíssima: “modo capitalístico de produção da subjetividade”. Acho que descreve bem o que acontece com algumas pessoas que conheço. O capitalismo padroniza a mente. Agora estamos obrigados a provar que se pode ganhar dinheiro com a floresta, caso contrário seremos teremos que concordar com os argumentos capitalistas para derrubá-la. Biodiversidade? Ou dá dinheiro ou vamos apelar para a monocultura. Índios? São pouco produtivos... E por aí vamos. Melhor dizendo: por aí vão –porque eu me recuso- os criadores do velho consenso econômico que constrói o mundo e a estrutura mental ajustada a ele.

E agora, pra piorar as coisas, alguns milicos neuróticos, saudosos da ditadura, fazem banzeiro nas águas da imprensa com seu nacionalismo de fancaria e dizem que para garantir a soberania nacional temos que tomar a terra dos índios e entregá-la aos fazendeiros. Mais uma vez nossas lideranças políticas concordam –senão com a forma, certamente com o “conteúdo”- e já se apressam em aprovar rigores contra as perigosíssimas ONGs que atuam na Amazônia.

Francamente, pensei que algumas dessas besteiras já tivessem sido superadas em velhos debates nos anos 80 do século passado. Mas a subjetividade capitalística se recompõe, é uma praga. Pelos hábitos, pelos sonhos de consumo, pelos confortos urbanos, pelas alianças políticas, pelo medo de perder o emprego, por todos os buracos do corpo essa erva daninha cresce e penetra.

O jeito é comprar outro terçado.

O jornalista Antonio Alves escreve no blog O Espírito da Coisa.

domingo, 27 de abril de 2008

SINTO VERGONHA

Antonio Alves

Alguns de nós, que um dia se auto-denominaram "socialistas", ainda se lembram do tempo em que os empresários eram chamados de "patrões" e considerados uns exploradores que enriqueciam com o suor dos trabalhadores.

Hoje eles são chamados de "empreendedores", mui dignos representantes do "setor produtivo" (alguém que faz parte de um setor improdutivo, levante a mão) e considerados benfeitores da humanidade porque "geram emprego" para nosso pobre e necessitado povo.

O neo-liberalismo não triunfou no mundo externo, mas nas mentes e corações de ex-socialistas que venderam a alma pelas moedas do pragmatismo. Sei como é. Também não sou mais "socialista" ou coisa parecida.

Mas não jogo fora a criança com a água suja. E os outrora bravos companheiros que hoje viraram puxa-sacos de patrão não precisam sentir vergonha, eu sinto por eles.


Comentário de Antonio Alves para o post "Neo-amigo da florestania".


SENTIR VERGONHA É RESISTIR!

Caro Toinho Alves,

Quando uma bobagem é dita (especialmente quando essa bobagem agride nossa história) você tem todo o direito de protestar. E, muitas vezes, sentir vergonha é uma forma de protesto.

A opinião do pecuarista Assuero Veronez sobre a floresta como ativo de baixíssimo valor não vai conseguir sair dos currais. Vamos respeitá-la como opinião, mas não deixaremos de combatê-la.

Assuero Veronez utiliza uma verdade transitória (a utilização da floresta como prostíbulo) para defender a atividade que a contrapõe: pecuária, soja, cana, algodão...

Aqui no Acre devemos defender a pecuária que se verticaliza, que se mantêm e se desenvolve sem derrubar nenhuma árvore. Quem se movimentar na direção da floresta, destruindo-a, sofrerá a nossa oposição.

Todavia, precisamos rapidamente encontrar o caminho da preservação real, pois apenas defender a floresta em pé é contribuir indiretamente para a sua destruição.

Explico: é preciso encontrar formas emergenciais de utilização das riquezas da floresta, preservando-a. Do contrário, será vitoriosa a argumentação que defende a sua substituição.

Conte comigo para lutar contra essas idéias atrasadas que vicejam nos currais.

Um abraço,

Moisés Diniz

O deputado Muniz (PC do B) é líder do governo na Assembléia Legilsativa do Acre. Meu comentário: Assuero Veronez defende a exploração de petróleo e gás, a derrubada da floresta, a expansão da pecuária, a mudança do fuso horário e tudo de ruim quanto o leitor possa imaginar. A verve de falastrão é antiga, assim como a do amigo dele, João Branco, com quem idealizou a instalação da UDR no Acre, no final dos anos 80, para atacar Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. Quem diria que os petistas o elegeriam como interlocutor e aliado de causas nada nobres. Veronez é uma dos mais destacados membros do virtual Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Acre, presidido por Jorge Viana. Desse jeito vamos virar cinza.

NEO-AMIGO DA FLORESTANIA

Vejam as declarações de Assuero Veronez à Folha de S. Paulo. Ele é tratado no Acre pelos petistas do "governo da floresta" como aliado da florestania, além de ser um dos articuladores do Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Acre, presidido pelo ex-governador Jorge Viana.



"Floresta é um ativo de baixíssimo valor econômico", afirma ruralista; Ministério do Meio Ambiente diz que afirmação é inaceitável e irresponsável

"Presidente da comissão de meio ambiente da principal entidade sindical ruralista, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), Assuero Veronez diz que o avanço da pecuária na Amazônia e a derrubada de madeira é uma resposta do setor ao "baixíssimo" valor econômico da floresta.

"A floresta é um ativo de baixíssimo valor econômico e, de outro lado, há uma atividade econômica que dá retorno e dá renda. Você não pode desconsiderar que a pecuária é uma atividade econômica rentável. A Amazônia tem uma vocação extraordinária para a pecuária."

Segundo Veronez, não há relação entre desmatamento e pecuária com a violência no campo. "Acho que não dá para fazer essa relação direta. Os casos de violência estão em todas as atividades econômicas numa região onde falta Estado. Se a pecuária é a principal atividade naquela região, estatisticamente tem que ocorrer alguma coisa com relação a essa atividade. Não consigo estabelecer uma conexão direta", diz.

Confrontado com a afirmação de Veronez sobre o valor da floresta, o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, contra-atacou. "Não há justificativa para agir de forma ilegal, com violência, com desagregação social, cultural e ambiental. Esse argumento é inaceitável."

Para a CNA, o governo tem se preocupado apenas em "constranger" e "intimidar" os produtores da região amazônica, sem encontrar soluções para a demanda de crescimento local, como a situação das famílias levadas para lá pelo próprio governo, nos anos 70 e 80.

De acordo com Capobianco, a correlação entre desmatamento e a violência no campo é "absolutamente direta". Sobre os ataques da CNA ao governo, ele diz: "Sempre que você não tem como justificar um ato, primeiro você culpa alguém, quase sempre o governo", afirma".

Comentário enviado ao blog por Mário José de Lima, professor de economia da PUC-SP:

"Assuero Veronez tem como característica pessoal apresentar seus pontos de vista a partir de idéias econômicas. É sempre possível chegar a alguma teoria a cada vez que ele fala.

Dia desses, ele falava de uma relação negativa entre “desenvolvimento econômico e floresta”. Quanto maior o nível de desenvolvimento econômico das nações menor a dimensão das florestas e vice versa. Assim dito, caberia ao Brasil avançar na destruição floresta, na desflorestação, para avançar no combate a miséria – segundo ele.

Hoje, mais uma afirmação de Veronez cheia de sabedoria econômica: "A floresta é um ativo de baixíssimo valor econômico e, de outro lado, há uma atividade econômica que dá retorno e dá renda. Você não pode desconsiderar que a pecuária é uma atividade econômica rentável. A Amazônia tem uma vocação extraordinária para a pecuária."

Nesta fala, o empresário repete uma idéia do pensamento econômico liberal sobre a alocação eficiente dos recursos. A ação empresarial, na busca do melhor uso dos fatores, ou seja, aquele capaz de render o lucro mais elevado ou o máximo de lucro, é resultado da consideração do custo de oportunidade, ou alternativas de emprego dos recursos. Até aí, podem dizer os liberais, ele está coberto de razão e assim deve proceder.

Acontece que as tais afirmações se apóiam numa idéia de custos econômicos que não incorpora os custos não contabilizados pelas atividades econômicas. É uma posição que desconsidera, usando linguagem técnica, as externalidades da produção. Estas podem ser positivas e negativas e, mesmo segundo a visão liberal, podem criar um viés nos sinais emitidos pelos preços e gerar níveis produtivos e preços fora do ponto de maior eficiência. Portanto, mesmo na consideração do pensamento que ele assumes para construir sua fala, fica no meio do caminho, manipulando a teoria para alcançar o resultado que ele quer.

Ainda mais. A afirmação do senhor Veronez está na contra mão, até mesmo, dos apologistas do sistema capitalista de produção, é dizer, está na contra mão dos teóricos do pensamento econômico burguês, os quais reconhecem que, para atender a ameaça ambiental, é necessário internalizar esses custos até agora desconsiderados. É necessário incorporar aos custos de produção os custos sociais, os custos sobre a sociedade, e aqueles sobre o meio ambiente. Este é um caminho que exige a consideração dos efeitos de desmatar sobre as populações regionais, sobre o planeta, sobre a vida regional.

Há uma nova racionalidade sendo imposta à ação de produzir contra a qual se opõe – ou, simplesmente, ignora - o senhor Veronez: uma racionalidade que incorpore o cuidado com o meio ambiente; uma racionalidade que incorpore a ética na ação de produzir, enfim, uma racionalidade que considere as condições de reprodutibilidade da espécie humana.

Desde um ponto de vista mais racional – racionalidade vista em consideração sobre a vida do homem – exige a consideração dos danos sobre o planeta. Mas, se tomamos a perspectiva correta de uma ética que não se limite aos interesses da classe dominante, implica considerações sobre as relações sociais produzidas pelo regime capitalista de produção. Isso implica avançar no sentido das idéias socialistas algo que, certamente, horroriza o senhor Veronez.

Quanto a isso, ele deverá afirmar, como liberal empedernido que deve ser, que age como indivíduo, deixando para cada outro indivíduo a resposta capaz de construir para si próprio o melhor dos resultados. Assim, cada um agindo em função dos seus interesses levará a construção do melhor social. Não é, realmente, que acreditem nisso. O que, efetivamente, querem é nos fazer acreditar nisso e, assim, aceitemos como naturais os resultados danosos da ação capitalista sobre os homens e sobre o planeta. Assim acreditando, faremos da pobreza um resultado das nossas ações como indivíduo. Esquecemos nossa posição de classe e o desmatamento ficará fora disso – como fica fora da afirmação pela qual iniciamos.

Enquanto nos mantemos presos numa posição omissa e passiva, frente às idéias disseminadas pelos liberais – os quais esquecem que o mundo atual em crise é resultados de suas ações e do seu predomínio social e político -, eles se sentem tão a vontade que até mudam o fuso horário apenas para compatibilizar os horários dos seus negócios que estariam, segundo eles, integrados numa globalização dos mercados. E por que tomam tais atitudes à revelia do povo? Pelo predomínio que constroem a partir de estruturas de coerção a partir das quais assumem o controle sobre nossas vidas. Enquanto estruturas postas a partir das nossas ações são, portanto, passíveis de superação, também, pela nossa ação".

sábado, 26 de abril de 2008

JORGE AINDA DEFENDE A FLORESTA


O ex-governador Jorge Viana reafirmou para uma platéia de acadêmicos, anteontem, em Rio Branco, suas convicções de uso racional da floresta como meio de preservá-la.

Centenas de pessoas assistiram com atenção ele discorrer sobre o conceito da sustentabilidade e a preemente necessidade de solução ao desafio de usar a floresta com sabedoria.


O engenheiro florestal governou o Acre por oito anos. Preside o Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Acre e o conselho de administração da Helibras.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O SAPO DA HORA

Voces vão engolir o bicho, custe o que custar?


Eu não engulo o sapo da hora. Veja o que escreveram ontem e hoje sobre a mudança do fuso horário do Acre, que será uma hora a menos em relação a Brasília. O projeto de lei do senador Tião Viana foi sancionado ontem pelo presidente Lula e entrará em vigor dentro de 60 dias.

Evandro Ferreira, pesquisador do Inpa, do Blog Ambiente Acreano:

"O anúncio da medida foi feito "ao vivo" pelo senador Tião Viana (PT-AC), autor do projeto, direto de Brasília, durante o telejornal noturno da TV Acre, a afiliada da TV Globo no Acre.

Como no passado, mudança não teve o aval da população. Foi interessante ouvir o Senador afirmar, durante a entrevista, que seu projeto "corrige" um autoritarismo histórico, que foi o fato de a população não ter sido ouvida quando do estabelecimento do fuso horário do Acre, em 1913.

A sanção de ontem do projeto do Senador em nada muda o panorama pois a alteração do fuso horário patrocinada pelo senador também foi feita sem que nenhum acreano tivesse o direito de opinar contra ou favoravelmente.

Uma diferença, entretanto, salta aos olhos no processo de aprovação do projeto que criou o sistema de fusos horários no Brasil em 1913 e o do Senador, que o modificou 95 anos depois.

Enquanto o primeiro foi aprovado diante de uma necessidade verdadeira de organizar a situação caótica em que o país vivia pela falta de um sistema de fuso horário, tendo sido votado e sancionado sem maiores pressões políticas ou populares, a aprovação do projeto do senador Tião Viana foi manchada pela forte suspeita de barganha política movida pelo forte lobby das principais empresas de comunicação do país, que fazem campanha ostensiva contra a entrada em vigor da Portaria 1.220/2008".

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Moisés Diniz (PC do B), líder do governo estadual na Assembléia Legistativa do Acre, que iniciou o debate sobre a mudança do fuso horário:

"O fuso de quatro horas nos aproximará de nossa originalidade. Quem já dormiu e trabalhou na floresta sabe que os habitantes de lá acordam e dormem cedo. A madrugada é sua companheira.

Ganharemos uma hora de manhã mais amena e teremos uma hora a mais no final do dia, antes de ‘escurecer’, para que possamos ler um livro a mais na praça, caminhar, sorrir, brincar com os filhos, um sorvete, um aperto de mãos.

O Acre urbano tem apenas quatro décadas. Éramos, há mais de dez mil anos, uma poderosa federação de povos, a dançar sob a luz da lua, a pele de onça dos tambores, o mariri, a caiçuma, a ayahuasca.

Depois veio o europeu, o nordestino. Foram seis décadas de seringal, de rio limpo e ensolarado, de exploração humana também. Pobres seringueiros e ricos patrões. Mas, só os últimos viviam nas cidades, preocupados com o fuso, o relógio.

A massa de trabalhadores extrativistas vivia na floresta, no isolamento mortífero das colocações. Acordava cedo, na madrugada trabalhava como se já tivesse o sol.

O fuso de quatro horas vai levar o ponteiro do relógio para perto da nossa história, das nossas origens. Quanto mais próximos da madrugada mais sintonia entre nós e o sol, nosso modo de vida na floresta, todos os nossos ancestrais.

Nós vamos ficar do lado do sol. E não consideraremos que ficarão na sombra aqueles que discordam do nosso ponto de vista. Todos eles fizeram o Acre se tornar mais vibrante, elástico e tolerante nesse debate, com o seu ponto de vista, a sua argumentação".

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Mário José de Lima, acreano, professor de economia na PUC-SP:

"Estamos diante de uma decisão que explora aspectos ligados ao metabolismo dos seres vivos, na medida em que, uma grande variedade deles, entre os quais os humanos, usam a noite para recomposição das forças do corpo. Vale aqui, uma curiosidade: os colibris, um ser que despende quantidades incríveis de energia para realizar seus vôos, chegam, mesmo, a alcançar estados letárgicos durante a noite.

Evidentemente, que há, aí, forças sociais indicando este caminho, afinal, trata-se de uma fase adiantada do desenvolvimento do regime capitalista de produção. De um lado, o sistema adequa-se à organização dos sistemas produtivos, permite uma forma adequada ao aproveitamento da força de trabalho a custos mais baixos (cabe lembrar, os custos com iluminação, possibilidades de quebras de equipamentos, uma vez que há comprovação na redução do desempenho dos operadores, etc).

Por outro lado, é uma determinação de horários que se afirma pelo próprio crescimento da força política da classe trabalhadora, dado que garante o período de descanso na fase mais adequado a isso. Ou seja, o aproveitamento do período noturno para o descanso é resultado da própria evolução dos seres vivos".

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OS KAXINAWÁ DE FELIZARDO


A tese de doutorado "Os "Kaxinawá de Felizardo": "correrias", trabalho e "civilização" no Alto Juruá", do antropólogo Marcelo Manuel Piedrafita Iglesias, é o documento mais instigante que li nos últimos anos sobre o Acre. Foi apresentada em fevereiro ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Destacado colaborador deste blog, Marcelo Piedrafita teve seu trabalho aprovado com louvor ao obter o título de doutor em antropologia social.
Trata-se de uma alentada pesquisa, que se torna imprescindível para quem queira conhecer a verdadeira história do Acre. O texto da tese, com 481 páginas, é ilustrado por mapas e fotos inéditas.

A foto acima, por exemplo, é de Felizardo Avelino de Cerqueira, aos 40 anos de idade. Foi obtida pelo antropólogo do álbum da familia Cerqueira. No verso da foto, lê-se: "Offereço à Irmã e Amiga Gersina. Cruzeiro do Sul, 30-10-1926. Felizardo Cerqueira".

Ele nasceu em Vila Pedra Branca, no Ceará, a 29 de outubro de 1886. Com pouco mais de 17 anos, em março de 1904, acompanhado de uma turma de conterrâneos, deixou a cidade natal com destino ao Amazonas, passou por Belém e Manaus e desembarcou na confluência dos rios Envira e Juruá.

Naquele ano, trabalhou como seringueiro no rio Acuraua e na safra seguinte, de 1905, já como freguês de Ângelo Ferreira da Silva, começou a cortar seringa numa colocação de margem próximo ao sítio Lupuna, dividindo sua barraca com o seringueiro Francisco Gomes.

Em agosto de 1905, o ataque de cinco índios à sua colocação - seu companheiro em fuga foi alvejado por uma flecha, seus pertences foram roubados e sua casa incendiada - desencadearia uma seqüência de eventos que daria início, segundo Felizardo, à sua carreira como "catequista de índios".

No barracão, para onde Francisco foi trazido e salvo pelo tratamento prestado por Ângelo Ferreira, a imediata reação dos demais fregueses foi planejar uma "correria" - matança organizada de índios. Após refletir, dado o "risco de ser responsabilizado pela defesa que constitui dos índios", Felizardo proporia experimentar se era capaz de "entrar em contato" com os "selvagens". Sua reação, culminando com a ousada proposta, é assim justificada num relatório inédito que deixou sobre os anos vividos no Acre.

- Eu, que por diversas vezes, vi chegarem grupos de peruanos e brasileiros, trazendo consigo índias e meninos e contarem que lá ficaram inúmeros índios mortos, não me sentia bem com tremenda cena desumana. Sentia dentro de mim, não sei o que, uma compaixão pelos pobres dos prisioneiros das selvas que foram criados com tanta liberdade e em dado momento fugir de súbito da sua felicidade que outrora gozavam, para se ver prisioneiros e cativos de seus algozes, que sem compaixão jogavam-lhes nos mais brutais trabalhos.

Felizardo tinha por hábito marcar suas iniciais (FC) no braço de homens, mulheres e crianças por ele "amansados". Assim aconteceu com parte dos Kaxinawá e com outros índios que, enquanto Felizardo esteve em Revisão, ali chegaram, "pegos" em rondas da "polícia de fronteira" ou por circunstâncias de suas trajetórias pessoais.


Nesta foto, captada pelo antropólogo Terri Vale de Aquino na Terra Indígena Kaxinawá, aparece o braço do velho Regino Pereira, com a marca FC, de Felizardo Cerqueira. Uma única menção a essa prática é feita por Felizardo em seu relatório:

- Eu tinha o hábito de marcar todos os índios com as letras FC e o número de ordem que fosse amansando.

Marcelo Piedrafita revela que Felizardo dá indicações em seu relatório de que os Kaxinawá foram o grupo junto ao qual suas ações de "catequese" obtiveram resultados mais consolidados - apesar de reconhecer que "em caso algum me foi tão difícil a catequese quanto esta tribu". Ao contabilizar os resultados de seu trabalho como "catequista de índios", Felizardo diria:

- Todos os índios que foram mansos por mim, que são superior a três mil, deixei-os na mais perfeita "Liberdade". Não há prova concludente que desminta esta verdade".

Mas o antropólogo Marcelo Piedrafita observa:

- Na carta enviada ao deputado federal José Guiomard Santos em 1955, em que solicitava seu apoio junto ao governo federal para a obtenção de uma pensão, Felizardo, diferentemente, especifica ter "catequizado" "para mais de trezentos índios". Este número, cabe ressaltar, coincide com o total aproximado dos Kaxinawá que com ele permanecera após a diáspora no rio Envira, o acompanhara na mudança ao alto rio Tarauacá e com ele se estabeleceu e trabalhou no seringal Revisão.

Leia um trecho da tese de Marcelo Piedrafita. Os Kaxinawá acreditavam que Felizardo era possuidor de "poderes mágicos", que permitiam-lhe esconder-se sem deixar rastro, passar sem ser notado e não ser alvejado por armas de fogo, atributos que davam confiança aos Kaxinawá ao se engajarem com ele nas atividades da "polícia de fronteira". Clique em Um homem de "oração forte".

CLIQUE NAS FOTOS ABAIXO


Alto Rio Juruá - índios da tribo Poyanáwas, localizados na Vila Rondon, no rio Môa, em 1913




Alto Rio Juruá - índios da tribo Poyanáwa, localizados na Vila Rondon, no rio Môa, depois receber roupas, chapéus e brindes - 1913


Alto Rio Juruá - índios das tribos arara e poianáwa, reunidos em Cruzeiro do Sul - 1913. À direita, vêem-se, os coronéis Manoel Absolon Moreira e Mâncio Agostinho Rodrigues de Lima, respectivamente, "delegados de índios" dos rios Amoacas e Moa.


Alto Rio Juruá - índios da tribo arara reunidos em Cruzeiro do Sul - 1913


Alto Rio Juruá - índios das tribos jamináwa e amuáca, no rio Amoáca - 1913


Felizardo vivia com os índios kaxinawá em Revisão, no alto rio Jordão


O capitão-tenente Sadock e índios kaxinawá


Índios kaxinawá em Transwaal, no rio Jordão, afluente do rio Tarauacá, 1924

Índias no seringal Revisão

quinta-feira, 24 de abril de 2008

AVISA LÁ

Sou eleitor do senador Tião Viana (PT) e vou continuar sendo porque não vejo no horizonte gente melhor.

Mas todos sabem que não sou dado a bajulações e costumo preservar a minha liberdade de expressão. Trata-se de um direito meu que todos têm que respeitar, gostem ou não.

Todos sabem, ainda, que o nosso senador Tião Viana tem como referência e inspiração na política o ex-senador ACM.


- Antônio Carlos Magalhães foi um político que ensinou o Brasil a importância de se fazer política a partir da divergência - disse Tião Viana na semana passada ao homenagear a memória do ex-senador, ex-ministro e ex-governador baiano.

Como acredito que o acreano assimilou a lição de seu mestre político baiano, não vou deixar de divergir em troca de omissão ou bajulação fugaz, tão típicas da mídia e da política deste Acre de meu Deus.

Toninho Malvadeza não me metia medo. Nem Hildebrando Pascoal. Muito menos Tião Viana.

Bobo aquele que é incapaz de perceber que o debate a respeito da mudança do fuso horário do Acre foi mais uma contribuição dos blogs acreanos ao arejamento do ambiente democrático.

Creio que ninguém gostou do silêncio do governador Binho Marques (PT), que não soltou publicamente um pio sequer, contra ou favor, quando muitos sabem que ele era contra a mudança.

É por isso que não subo na vida. Do contrário, já seria ao menos suplente de qualquer coisa. Avisa lá.

A GLOBO VENCEU

Horário do Acre, Amazonas e Pará muda em 60 dias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou hoje, sem vetos, o projeto de lei que altera o fuso horário no país. Com as mudanças, o Acre e parte do Amazonas, que tem duas horas de atraso em relação ao Distrito Federal, passarão a ter uma hora de diferença, e todo o Pará terá horário igual ao da capital federal. A lei entra em vigor em 60 dias.

A Rede Globo comemorou através de sua afiliada, a TV Acre, que abriu espaço em seu telejornal para um demorado comentário ao vivo do senador Tião Viana, autor do projeto, a partir de Brasília.

O projeto serve basicamente aos interesses da TV Globo, que está sendo
obrigada a respeitar a Portaria 1.220/2007 do Ministério da Justiça (classificação indicativa da programação). A mudança significará redução de custos para a emissora.

O senador usou o prestígio dele para apressar a sanção presidencial, especialmente porque era crescente as manifestações em defesa de quea mudança fosse decidida democraticamente pela população a ser afetada. A lei será publicada amanhã no Diário Oficial da União.

É o "presente" da política para o próximo S. João.

MORTE APÓS APLICAÇÃO DE KAMBÔ

Homem morre após dose de veneno do sapo

A polícia de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, investiga a morte de um homem de 52 anos que teria ocorrido em decorrência da aplicação de uma substância que contém veneno de sapo. De acordo com o delegado do 1º Distrito Policial da cidade, Vicente Lagioto, no último sábado, Ademir Tavares foi com o filho, Luis Gustavo Tavares, 25 anos, em um curandeiro, que teria passado a substância. Os dois e mais quatro pessoas receberam a aplicação, mas só Tavares sofreu reação adversa.

- O filho dele disse que a substância se chama kambo e tem veneno de sapo entre as substâncias. É um espécie de santo daime. Depois da aplicação, a pessoa vomita e tem uma sensação de relaxamento - disse o delegado.

De acordo com Lagioto, o curandeiro Jorge Roberto de Oliveira Rodrigues, 40 anos, também é empresário do setor de transportes.

- Ele será ouvido amanhã acompanhado do advogado. Ainda aguardamos os resultados dos exames, mas ele pode ser indiciado, caso seja confirmada a morte em decorrência da substância - disse.

Em depoimento, o filho de Tavares afirmou que o "kambo" foi aplicado no braço, como um emplasto, segundo informações da polícia.

O delegado ouviu o galo cantar e não sabe onde e chega a comparar kambo com daime. Daime é daime e kambo é o nome do sapo. Em comum apenas os fanáticos que comercializam as duas substâncias e põem em risco a vida de gente desavisada. A notícia está no portal Terra. O kambô realmente pode envenar e até matar quando aplicado incorretamente por gente despreparada. Leia mais sobre a "vacina do sapo" neste blog. Clique aqui.

DEFENDA O ACRE E SEU POVO

Apele ao governo federal contra a lei
que poderá mudar "nosso" fuso horário


À exemplo do que já fizeram o economista Mário Lima e o botânico Evandro Ferreira, enviei carta à ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, contra a mudança do fuso horário do Acre. Copiei, colei e enviei para o e-mail casacivil@planalto.gov.br a carta escrita pelo botânico, acrescida de meus dados pessoais.


A síntesa dela é o apelo para que a ministra interceda junto ao presidente Lula para que não sancione o Projeto de Lei (SCD 00305 2006), aprovado no Senado no dia 9 de abril, até que a população a ser afetada decida democraticamente pela mudança.

Leia e também envie a carta:


Rio Branco-Acre, 24 de abril de 2008

Ilustríssima Sra.
Dilma Vana Roussef
Ministra Chefe da Casa Civil


Prezada Ministra,

O Senado Federal enviou a V.Sa., mediante Ofício SF nº 528 de 17/04/08, o Projeto de Lei (SCD 00305 2006), aprovado no Senado em 09/04, para ser sancionado pelo Exmo. Sr. Presidente da República.

Este projeto diz respeito a alteração do fuso horário na região orte do país.

Se sancionado, o Acre e o oeste do Amazonas deverão ficar a -1 hora em relação a Brasília (antes eram -2h), enquanto que o oeste do Pará deverá se igualar ao horário de Brasília (antes era -1h).

Estamos apelando a V.Sa. para que olhe com carinho o problema que poderá ser causado aos moradores do Acre e oeste do Amazonas caso o Presidente sancione o referido projeto sem considerar as peculiaridades destas regiões.

Em anexo envio uma foto tomada à 4h48 da manhã na cidade de Rio Branco (AC). Veja que neste horário ainda é noite pois por aqui o sol nasce apenas por volta das 5h30 da manhã.



Portanto, se o projeto em epígrafe for sancionado, esse vai ser o panorama de nossa cidade por volta das 6 horas da manhã, a hora em que, no Acre, a maioria das crianças, trabalhadores e donas de casa se preparam para começar um novo dia de aulas e trabalho. Alguns começam antes, quando a luz do sol surge no horizonte.

Portanto, a mudança do fuso horário acreano vai trazer sérios inconvenientes para a população, que passará a iniciar suas atividades ainda no escuro. Entre os incoveniente, pode-se citar questões relacionadas ao aumento no consumo de energia elétrica e de segurança dos trabalhadores e, principalmente, trabalhadoras que passarão a enfrentar a escuridão no caminho para o trabalho.

Veja Ministra, a maioria dos que serão afetados negativamente com a mudança do fuso horário é de pessoas humildes, que caminham, usam bicletas ou transporte público para chegar na escola ou local de trabalho. São também essas pessoas que, provavelmente, serão sacrificadas por um possível aumento no valor da conta de energia elétrica.

Os empresários, bancos, donos de estabelecimentos comerciais e de emissoras de TV que estão sendo obrigados a respeitar a Portaria 1.220/2007 do Ministério da Justiça (classificação indicativa da programação) são, aparentemente, os únicos beneficiários da mudança do fuso horário acreano, pois suas transações comerciais e seus gastos decorrentes da diferença atual de 2 horas em relação a Brasília vão diminuir sensivelmente com a mudança do fuso horário local.

Gostaríamos que o Presidente, antes de sancionar a referida Lei, soubesse que muitas pessoas no Acre e Amazonas são contra a mudança do fuso horário pelos motivos expostos acima. Por outro lado, existem outras que são a favor. Estamos diante de um impasse que envolve matéria de relevante interesse público.

Portanto, o melhor que o Presidente poderia fazer para não ser injusto, seria propor ao Senado que os habitantes das regiões afetadas tivessem o direito de decidir a mudança do fuso horário mediante a realização de uma consulta pública.

Só a consulta pública poderia resolver de forma democrática este impasse, evitando que o Presidente da República tenha que fazer a mudança mediante Decreto, que neste caso, parece ser a mais inaquada das opções disponíveis.

Desta forma, apelamos a V.Sa. que interceda junto ao Presidente Lula para que não sancione, por agora, a referida Lei até que a população a ser afetada decida democraticamente pela mudança.

Exma. Ministra, esperamos sinceramente que V.Sa. possa ter a oportunidade de levar estas informações ao Presidente Lula antes dele sancionar a Lei de mudança do nosso fuso horário do Acre e oeste do Amazonas.

Temos plena convicção que ele, com toda a certeza, agirá com o espírito de justiça e democracia que lhe são peculiares e que tem demonstrado ao longo de toda a sua trajetória nas horas em que precisou tomar decisões de grande alcance social.

Com os meus cumprimentos,

Altino Machado
Endereço: Rua XXXXX, XXX, Bairro XXXXXXXX
Rio Branco-Acre, CEP 69.XXX-XXX
RG XXX.XXXX SSP-AC

SONOLENTOS EM "DIAS" ESCUROS

Mário Lima

Caro Altino, como o blog do deputado Moisés Diniz não aceita comentários que tenho enviado, segue o último que tentei incluir num post dele. Sendo possível, post no seu blog. Abraço.

Caro deputado Moisés Diniz

inspirado no seu exemplo, quando solicitou que as pessoas olhassem o mapa, resolvi pedir-lhe, também, que leia a coluna Gazetinhas, do jornal A Gazeta, edição de terça feira (o blog do Altino Machado publicou essa e outras passagens das Gazetinhas sobre o assunto fuso horário). Recomendo a leitura, particularmente, da passagem seguinte:

"Deu o exemplo das crianças da Vila Califórnia, que segue o horário de Rondônia, as quais em certa época do ano acordam ainda no escuro e vão para a escola de lanterna."

Assim, caro deputado, entendendo serem os comunistas defensores das causas dos trabalhadores, como ativistas que lutam pelo bem-estar do povo, da classe trabalhadora mundial, acredito que o senhor compreenderá que em nada contribui para o bem-estar das famílias acordar no escuro e se por a caminho da escola e do trabalho.

Não há como negar que, se adotado, esse horário apenas retirará das famílias, principalmente das familias dos trabalhadores, uma hora de sono restaurador, dado que sono nos horários de melhor condições de temperatura.

Leia o trecho e não esqueça de olhar a fotogafia exibida pelo Evandro Ferreira para a compreender a situação que cercará o horário das seis horas da manhã, quando a lei da mudança for sancionada (a foto a que me refiro está publicado tanto no blog do Evandro, como no blog do Altino Machado).

Caro deputado Diniz, nós que integramos o movimento socialista, nós que estamos lado a lado na luta pela emancipação, temos o motivo essencial para estarmos, também, lado a lado, nessa questão do fuso horário. Ou seja, temos o motivo para sermos contra a tal mudança.

Mais um detalhe: olhando o mapa, seguindo a sua recomendação, vemos que a quase totalidade do território acreano está incluída no fuso horário corresponde a Greenwich menos 5 horas. Logo, mudar significa, sem margem para dúvidas, estabelecer um horário que nos fará iniciar o "dia" no escuro e sonolentos. Pronto, olhei (de novo!) o mapa.

Mário Lima é professor de economia na PUC - São Paulo

CARTA DE AMOR AO ACRE

Veronica Barbosa


Gostaria de ter o poder da ubiqüidade para conversar com cada brasileiro e contar para cada um, individualmente, com o sorriso que vai nos lábios e na alma, típico dos acreanos - que o Acre de fato existe, ao contrário do que eventualmente é alardeado em vários ambientes no país.


Tive a sorte de fazer esta constatação por ocasião da inauguração da primeira fábrica de preservativos masculinos com látex de seringal nativo no mundo, em Xapuri, há cerca de duas semanas. Acompanhada de um fotógrafo e amigo britânico, passei 10 dias entre Rio Branco, Xapuri e recantos da “vida seringueira”, em minha primeira visita ao Norte do país.

Falo em “vida seringueira” porque não me refiro ao seringueiro nem ao seringal, mas à harmoniosa integração entre os dois que este projeto veio recuperar. Para quem não sabe, a figura do seringueiro quase desapareceu com o declínio da atividade extrativista voltada para a produção de borracha na região ao longo de décadas, em decorrência da competição da produção em larga escala em outros continentes, da competição (desleal e descontrolada) com a atividade pecuária na região a partir da década de 70, e do desenvolvimento da borracha sintética, além da ausência de políticas públicas que garantissem a preservação da floresta.


Reativar e reorganizar a atividade extrativista, dentro de uma lógica de desenvolvimento econômico sustentável (que inclui o desenvolvimento industrial do próprio Estado), respaldada por políticas públicas em níveis estadual e federal, envolvendo esferas como meio-ambiente, saúde e ciência e tecnologia, foi tarefa complexa e meticulosa, que exigiu competências técnicas e uma orquestração política sem par no país. Por várias razões, projeto legítimo e audacioso como este só poderia ter se concretizado nesse Estado de cuja existência, lamentavelmente, ainda se duvida.

Porque foi no Acre que se cunhou a palavra florestania. O neologismo, que soa como jargão técnico ou mantra de ecologista, está de fato, na boca dos acreanos e de quem lá vive, da capital Rio Branco às colocações de seringueiros nos recônditos igarapés. Segundo a definição do jornalista acreano Antônio Alves, “a florestania é a tentativa de chamar a atenção para o fato de que a humanidade não é o centro, mas sim parte integrante e dependente da natureza”.


Considerando-se a freqüência e propriedade com que é pronunciada, a palavra cuja autoria é atribuída equivocadamente ao ex-governador Jorge Viana já provou que não veio apenas enriquecer a língua portuguesa, mas conferir um sentido holístico à relação entre o homem e a floresta, desvinculando-a da visão utilitarista predominante.

Porque foi no Acre que se consolidou, através da figura de Chico Mendes e do seu inegável legado ambientalista, a noção de que de nada importa a promoção do valor econômico sem o valor social agregado. Esta noção reflete-se nas palavras de José Maria Barbosa de Aquino, presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros, ao comentar o mérito do novo empreendimento de Xapuri.

- A tecnologia tem que estar a serviço do pequeno, sem intermediários.


Porque no Acre pode-se observar hoje um fenômeno raro no Brasil, de harmonização das políticas em níveis estadual e federal, calcada em um grupo politico que combina idealismo a um forte senso de pragmatismo. Esta sinergia ideológica (emblematizada pela Frante Popular do Acre) se traduz, por exemplo, em políticas de estímulo ao “neo-extrativismo” no Estado. Ao contrário do modelo de extrativismo em vigor até a década de 70, que não valorizava o seringueiro e se mostrou inviável, este novo modelo tem como desafio mostrar a viabilidade econômica da floresta, para benefício direto do extrativista.

Porque no Acre existe um Secretário Estadual de Floresta que vai até a floresta. O engenheiro florestal Carlos "Resende" Ovídio Duarte vai aos igarapés para falar a cada seringueiro sobre as técnicas de manejo florestal e sobre as potencialidades da atividade econômica florestal comprometida com a sustentabilidade, por meio de programas de treinamento estruturados em todo o Estado, oportunidade que aproveita para aprender os desafios reais do dia-a-dia.

Porque no Acre tem gente com conhecimento técnico e capacidade de articulação necessários para melhor difundir o valor econômico da floresta, desmistificando a idéia de que para preservar é preciso deixá-la intacta, inexplorada.


- Enquanto não for compreendido e difundido o valor da floresta como commodity, através do melhor conhecimento de todas as suas potencialidades de exploração econômica sustentável, será muito difícil preservá-la - afirma o secretário.

Para a exploração economicamente viável da floresta, sem colocar em risco o meio-ambiente, o secretário ressalta que também é necessário tempo e investimento em pesquisa e produção de conhecimento.

- Não se chegou ao nível tecnológico de desenvolvimento da atividade agropecuária no país sem que muito investimento tenha sido feito - assinala Resende.

Porque o Acre produziu figuras políticas cujas histórias de vida falam por si, como a senadora Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, ex-vereadora e ex-deputada estadual, filha de seringueiro, alfabetizada aos 18 anos de idade. E por muitas outras razões.


O último número da edição especial brasileira do Le Monde Diplomatique traz a preocupação com a Amazônia em sua matéria de capa: “Agir enquanto é Tempo”. Um artigo assinado pela ONG Fase mostra na mesma edição como é complexo o desafio da preservação da maior floresta do mundo, aponta os equívocos dos grandes projetos econômicos para a região amazônica que não se quer repetir, e os passos a seguir.


Fica a impressão: enquanto o Brasil não tomar conhecimento da existência do Acre e não propagar para o próprio país as experiências e lições tiradas dali, vai ser muito difícil mostrar para o mundo que tem a mínima competência necessária para cuidar da Amazônia.

Não se sabe ainda quando a fábrica de preservativos de Xapuri obterá a licença da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para poder efetivamente fornecer camisinhas para distribuição nacional pelo Ministério da Saúde. Já se sabe que alguns seringueiros no Estado contam com até 300 cabeças de gado dentro de reserva extrativista. Mas no mundo imperfeito com mais tons de cinza do que preto e branco, nada disso pode abafar o sopro de esperança que estes 10 dias no Acre me proporcionaram.


Veronica Barbosa é jornalista e fotógrafa carioca. Enviou o artigo com observação a seguir: "Fiquei muito apaixonada pelo Acre, então me dê um desconto". É mais uma pessoa a se encantar com essa terra positivamente estranha. Tá dado o desconto, Veronica. Grato pela colaboração.

ACORDA, TIÃO VIANA

O senador Tião Viana poderia ignorar a campanha que Evandro Ferreira e eu temos feito contra a mudança do fuso horário do Acre. Mas deveria considerar a sensatez do dono do jornal A Gazeta e de seus leitores. Veja o que Sílvio Martinello escreveu hoje na coluna Gazetinhas:

"Leitor Narciso Soares Neto manda e-mail, primeiro, para ainda celebrar a retumbante vitória do Fogão sobre o Nense.


Depois, para manifestar sua contrariedade à mudança no fuso horário do Acre.

Dizendo-se também eleitor do senador Tião Viana, observa que além dos inconvenientes técnicos que a mudança traria, o Acre perde um pouco do seu charme.

Diz que com as duas horas de diferença com relação à Brasília, o Acre, enjoado, tem o mesmo horário de Nova Iorque e outras metrópoles do Primeiro Mundo.

Taí. Pelo que se vem observando, as opiniões estão bastante divididas sobre a mudança do fuso.

Quem sabe não seria mesmo o caso de se fazer um plebiscito".

quarta-feira, 23 de abril de 2008

DO ACRE PARA O MUNDO


Uma fonte oculta e murmurante deste blog disse que é quase nula a possibilidade de o governador Binho Marques e da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, confirmarem presença na residência oficial do príncipe Charles e de Camila Parker-Bowles, nos dias 29 e 30, para reuniões sobre defesa da Amazônia e mudanças climáticas.

- Ambos não estão encantados nem com o Charles nem com a Camila - disse.

Do Acre, até agora apenas o ex-governador Jorge Viana e o senador Tião Viana confirmaram presença. O líder indígena acreano Joaquim Tashka Yawanawa, por exemplo, recusou o convite para estar com o nobre casal.

Tashka e a mulher dele, Laura Soriano, preferiram viajar hoje para participar, no plenário da ONU, em Nova Iorque, de um evento paralelo ao Fórum Permanente dos Povos Indígenas, onde será exibido o documentário da visita do ator norte-americano Joaquim Phoenix, denominado "Joaquim Phoenix e Yawanawa".

O casal participará do evento como coadjuvantes do documentário de 15 minutos, da produtora independente 4real, que foi exibido pela MTV do Canadá e National Geographich.

O documentário está voltado para o público jovem, como forma de inspirá-lo a participar de projetos que acontecem localmente, mas que podem ter um impacto global.

O internauta pode clicar aqui para acompanhar algumas das imagens do documentário e outras produções do 4real.

O documentário "Joaquim Phoenix e Yawanawa" será exibido na plenária da ONU no dia 28 de abril. Ao mesmo tempo serão exibidas as fotos do fotógrafo Michael Miller, que acompanhou Phoenix na viagem o Acre. Miller é um fotográfo das estrelas Hollywood. O trabalho dele pode ser apreciado no site Mullerphoto.

Tashka e Laura vão falar sobre o documentário juntamente com Phoenix e o apresentador de televisão Sol Guy. Após a apresentação na ONU, Tashka e Laura seguem para uma turnê no Canadá, nas cidades de Montreal e Ontário.

ATÉ LEITOR DA GAZETA É CONTRA

A pedido de um leitor do blog, reproduzo nota do jornalista Sílvio Martinello, na coluna Gazetinhas, do diário A Gazeta:

"O telefone toca. É um dos 36 da coluninha dizendo que leu e concordou com os argumentos do professor Mário Lima contra a mudança do fuso horário.

Nada contra o senador Tião Viana, disse que é um dos seus eleitores, mas acha que o senador foi mal assessorado ao propor a mudança.

Deu o exemplo das crianças da Vila Califórnia, que segue o horário de Rondônia, as quais em certa época do ano acordam ainda no escuro e vão para a escola de lanterna".

PERSEGUIÇÃO VERSUS FAVORECIMENTO

Narciso Mendes

Sérgio Petecão foi presidente da Assembléia Legislativa do Acre por oito anos consecutivos, fato que se constituiu numa das maiores ilegalidades e imoralidades que aquele poder foi capaz de patrocinar. À luz da independência dos poderes, o governador de então, Jorge Viana, nada teve a ver com tamanha violência, entretanto, sob a ótica da política partidária, isto só foi possível pela ação e omissão da própria Frente Popular do Acre (FPA), afinal de contas, amplamente majoritária naquela casa parlamentar, a coligação governista elegeria o presidente que melhor conviesse aos seus interesses.

Beneficiário direto de tão equivocada decisão política, Sérgio Petecão foi eleito presidente da Assempara o biênio 1998/2000, reeleito para o biênio 2000/2002, re-reeleito para o biênio 2002/2004 e por fim, re-re-reeleito para o biênio 2006. Ao longo de todo o tempo em que presidiu aquele poder, Sérgio Petecão sempre foi o primeiro a levar sua voz em defesa FPA ou do próprio governo Jorge Viana quando um ou outro (ou ambos) era acusado de fazer perseguição política.

Hoje, ao vê-lo se dizer vítima de perseguição política, cumpre-me perguntá-lo: favorecimento e perseguição, politicamente falando-se, não são as duas faces de uma mesma moeda? Para responder a esta pergunta simplesmente lanço mão de um velho adágio popular: “quem come do meu pirão fica sujeito ao meu cinturão”, ou numa linguagem mais elevada: “uma ameaça a um é uma afronta a todos”.

Quando a FPA fê-lo tetra presidente da Assembléia e de lambuja ainda permitiu que ele indicasse gestores públicos para ocupar destacadas funções na máquina do Estado e os referidos órgãos serem transformados, a seu bel prazer, em comitês a serviço de suas candidatura, a FPA era boazinha, democrática, honesta, não perseguidora, enfim, um exemplo de dignidade política. Hoje, por não ter cedido as suas ambições pessoais e políticas, a dita cuja virou uma máquina de produzir maldades.

Em síntese: se a FPA o aceitasse como candidato a prefeito de Rio Branco ou se o governador Binho Marques houvesse aceitado a indicação de sua irmã para Secretária de Ação Social do governo do Estado do Acre será que Sérgio Petecão estaria dizendo que estava sendo vítima de perseguição política?
Particularmente, acho que não.

O empresário Narciso Mendes, dono da TV e do jornal Rio Branco, escreve neste blog às quartas-feiras.

O RETRATO DE UM PODER SEM LIMITES

Venício A. de Lima

Não creio, todavia, que o poder dos radiodifusores jamais tenha se manifestado de forma mais contundente e acintosa do que na recente aprovação do projeto do senador Tião Viana (PT-AC), apenas quatro dias após a entrada em vigor da Portaria 1.220/07 determinando que as emissoras de TV adaptem suas transmissões aos diferentes fusos horários do país em função da Classificação Indicativa. Note-se que, por pressão dos radiodifusores, houve cinco adiamentos da data para a entrada em vigor da portaria no período de 9 meses.

Quando se convenceram que não seria mais possível alterar a própria portaria, os radiodifusores passaram a trabalhar pela aprovação do projeto que muda os fusos horários.

O projeto de lei, apresentado em 2006, foi aprovado no Senado no início de 2007 e encaminhado à Câmara dos Deputados. Durante a tramitação na Câmara houve forte pressão da Abert, expressa pela deputada Rebecca Garcia (PP-AM), vinculada à TV Rio Negro Ltda. (afiliada da Rede Bandeirantes), que defendia a existência de um único fuso horário em todo o país. Foi da deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA) – esposa do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), ambos vinculados à Rede Brasil Amazônia de Televisão Ltda. (RBA, afiliada da Rede Bandeirantes) – a alteração determinando que o estado do Pará tenha somente um fuso horário (hoje tem dois). Com essa modificação o projeto voltou para o Senado, onde foi novamente aprovado.

A jornalista Laura Mattos, em matéria publicada na Folha de S.Paulo ("Lobby das TVs está por trás da mudança", , 15/4) relata que "o lobby [das emissoras de TV] era tão claro que, na segunda passada [7/4], quando a obrigatoriedade de respeito aos fusos entrou em vigor, a Record, questionada pela Folha sobre quais alterações faria, disse aguardar `a tramitação do projeto de lei que iguala o fuso horário do Acre ao do Amazonas´".

Vale ainda registrar que um dos argumentos que têm sido usado pelos defensores da mudança do fuso horário no Congresso – e, de forma velada, pelos próprios radiodifusores – é que a Portaria 1.220/07 impediria a população do Norte de assistir ao vivo os jogos de futebol realizados no Sul do país. Obviamente esse argumento é falso porque a classificação indicativa do futebol é livre e não impede, portanto, sua transmissão ao vivo.

Interesse privado vs. interesse público

O projeto de lei que altera os fusos horários ainda terá que ser sancionado pelo presidente da República, o que o líder do governo no Senado garante acontecerá nos próximos dias.

Será que o interesse dos radiodifusores privados sempre coincide com o interesse público e, portanto, não há qualquer problema que prevaleça?

Será que é assim mesmo que funciona nas democracias: os grupos que reúnem mais força política devem sempre decidir o rumo das políticas públicas?

Ou será que a anedota "no Brasil, a televisão não é uma concessão do Estado, o Estado que é uma concessão da televisão" tem um fundo de verdade?

Ou será que o interesse público, mais uma vez, deixará de ser atendido para que prevaleçam os interesses privados dos radiodifusores, concessionários do serviço público de rádio e televisão?

Leia na íntegra o artigo de Venício A. de Lima no Observatório da Imprensa.