terça-feira, 30 de dezembro de 2008

MAIS UM DIA

Antonio Alves

Decidi dar por encerrado o ano e começar logo outro. Aqui, no íntimo, os dias já mudaram. Terão mudado, talvez, nas boas horas que passei na Terra, curando as bicheiras do Rapaz -aquele cachorro vadio- e olhando o açude encher depois de cada chuva. Já disseram que sou lento, talvez dê certo começar antes.

Também decidi não me preocupar. Um sonho me avisou. Passei muito tempo com medo de não ser suficientemente engraçadinho e diplomático, preocupado em não ferir as susceptibilidades de alguém. Bom, às vezes posso não estar inspirado e dizer palavras inadequadas, mas o importante é que sejam sinceras e o resto se ajeita. De minha parte, também tenho engolido muito sapo e até agora nem morri por isso.

E já não ligo se trezentos me amam e quatrocentos me odeiam, e nem uns nem outros pensam por um minuto no que digo. Resolvi não sofrer, só isso. Palavra é semente que o vento leva e ninguém sabe onde vai brotar. Muito aprendo com as samaúmas.

De todo modo, não é bom a gente ficar se oferecendo. O melhor mesmo é ir passando, cumprimentando a todo mundo com um toque na aba, parando e tirando o chapéu quando encontra padre ou moça bonita. A vida é uma estrada, dizem, e ninguém sabe o que tem lá na frente. Tem gente que se convida ou fica reclamando por não ser convidado. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada e tenho perna é pra andar.

Não gosto de muita festa, mas também não sou de chorar desgraça. A essa altura da vida, já conheço minhas manias e mantenho algumas preferências. Não troco aquele livro velho, lido e relido e trelido, por certas novidades muito apresentadas e de pouco proveito. Não uso enfeite -nem corrente, nem anel- e o melhor relógio é o tempo. Gosto do tabaco preto, não muito velho e ainda molhento, o café forte e amargo, mas tomo de qualquer jeito. O que me dá gastura e desimpaciência é ver gente falando da vida alheia, não é bom pra minha saúde e procuro sair de perto. Tem gente que fala mal até de si mesmo, é uma doença triste.

Os tempos são difíceis, mas são os que temos. Vez em quando tenho que pegar o pau pra me defender ou a algum inocente, mas não saio correndo atrás. Passa um ano, depois outro, a lança vai virando bastão e vou ficando mais retirado até que um dia só me vê quem procura. Mas demora, não é pra esse ano ainda não. Esse que, aliás, tou começando mais cedo porque tenho muita coisa pra fazer.

Estou por aqui.

O poeta e cronista Antonio Alves escreve no blog O Espírito da Coisa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sabe Antonio Alves,

Pensando em vc. escrevendo esse "texto reflexivo" fico imaginado quantas vezes vc. parou e olhou pro céu para dedilhar mais uma linha, e quantos textos desses vc. deve ter guardado em seu "arquivo morto" da mente, ou mesmo em meio aos papeis amarelados que guardamos durante anos, só para depois nós mesmos nos deliciarmos com a nossa van filosofia.

No ponto de Onibus refletimos como as pessoas correm de um lado para o outro sem saber onde ir...no trãnsito com o cotovelo na janela do carro, olhamos as pessoas apressadas, xingando o condutor do lado, da frente, e de trás.

Mais se todos nós experimentassemos o real, que são digamos o simples...o açude como vc. citou, as folhas molhadass, o canto dos pássaros, o sorriso de alguém de desejando um bom dia, um café amorgo ou doce, um fim de semana no campo, um beijo na boca...

Um ar bem respirado, um espreguiçar bem demorado...hummm, tem muitas coisas boas pra se fazer nesse terra meu amado...

Feliz vida pra vcs.