segunda-feira, 31 de outubro de 2005

CENAS DOS IMPACTOS



Por Irving Foster Brown (*)

As imagens de duas cenas do satélite sino-brasileiro CBERS-2, dos dias 21 de agosto e 12 outubro, na regiao ao redor de Xapuri e Cobija-Brasiléia-Epitaciolândia, permitem visualizar os impactos de queimadas e incêndios florestais que alteraram as copas das florestas. Existem outros incêndios florestais que se espalham no sub-bosque e não são facilmente detectadas por imagens de satelite ou sobrevôos.

O impacto das queimadas e incêndios é impressionante e só nesta cena existem dezenas de milhares de florestas com copas alteradas. Os próximos passos desta pesquisa incluem a quantificacão deste impacto e priorizacão de àreas no campo para estudos detalhados.

Para estes próximos passos vai ser necessária a colaboracão de pesquisadores, técnicos e líderes comunitários em vários municípios.

O Leste do Acre cobre 40 mil Km2, equivalente ao Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras: um bom estudo vai demandar um investimento de gente e recursos para cobrir uma área tão grande e diversa.


As queimadas não foram restritas ao Acre. Nas imagens red 20051012 da cena 180-113, que estende de Porvenir a Chive, em Pando, na Bolivia, existem queimadas ao longo do Rio Manuripi que cobrem, individualmente, até mais que mil hactares.

Consequentemente, é importante pensar em colaboracão regional no nível do MAP (Madre de Dios-Acre-Pando). Um grupo de trabalho de pesquisa está se formando para este fim.


(*) Irving Foster Brown é Ph.D. em Geoquímica pela Northwestern University (Estados Unidos). Desenvolve estudos nas áreas de Dinâmica do Uso da Terra e Florestas, Gerenciamento e Educação relacionados a Recursos Naturais e Mudanças Globais. Atualmente, desenvolve suas pesquisas no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre.

EXPOSIÇÃO


A Caixa associou-se à Embaixada da Alemanha, ao Goethe-Zentrum Brasília e ao Instituto Goethe Rio para patrocinar a exposição “Além do Muro”, em Brasília, que traz a reunião de variada produção de artistas plásticos da extina República Democrática Alemã.

As obras pertencem ao colecionador acreano Francisco Chagas Freitas, que possui mais de mil de artistas que viviam confinados nos limites do Muro de Berlim.

Chagas Freitas, como encarregado do Setor Cultural da Embaixada do Brasil, teve a oportunidade de viver em Berlim Oriental, numa época em que a maioria dos habitantes do Oeste conheciam, na melhor hipótese, o “outro” lado do muro e da cortina de ferro em excursões diárias.

Sua grande paixão pela Arte levou-o a fazer contatos com artistas da então Alemanha Oriental. De maneira significativa, ele interessou-se por artistas não reconhecidos pelo regime político da época ou que até eram perseguidos e, por não terem condições de sobreviver apenas da Arte, eram obrigados a exercer outras atividades.

Chagas Freitas apoiou muitos deles, material e moralmente, e com muitos deles cultiva, até hoje, estreita amizade. No decorrer dos seus sete anos em Berlim Oriental, conseguiu montar uma coletânea extraordinária, bem diversa daquela arte que os alemães ocidentais supunham conhecer como arte da RDA.

A mostra apresenta obras de artistas que não integraram o “realismo socialista”, uma espécie de movimento estético oficial, mas constitui-se basicamente de criadores obstinados, apolíticos e autônomos.

Eles utilizavam da sua arte para comunicar um mundo próprio, sutil, onírico e abstrato, preocupado apenas com o homem e desvinculado das influências da burocracia e do atrelamento ideológico - uma produção que só agora se toma conhecimento de uma maneira mais ampla.


Chagas é o amigo que nunca esquece de visitar minha casa, para passar ao menos um dia na companhia de minha família quando vem ao Acre. Nasceu pobre, nas cabeceiras do Rio Muru, na distante Tarauacá, mas tem construído uma carreira honrada.

A "Exposição - Além do Muro" também poderia ser chamada de Além do Muru.


Comentário do Chagas Freitas:

"Amigo Altino,

Sensibilizado, agradeço pelo generoso espaço e atenção a mim dedicados no teu blog. Saiba que é uma honra viver este momento, tão especial em minha vida.

No próximo dia 9 de novembro, data da inauguração dessa exposição no Centro Cultural da Caixa Econômica, em Brasília, ocasião em que, também, serão comemorados os 16 anos da queda do Muro de Berlim, certamente me lembrarei de minhas humildes origens lá pelas barrancas do Rio Muru.

Nunca posso deixar de agradecer a Deus e a todos aqueles que têm me ajudado nessa caminha terrena.

Quem sabe um dia não terei a felicidade em apresentar esta exposição, aqui no Acre aos nossos irmãos acreanos?

Tanti auguri,

Chagas Freitas"

ALÉM DO MURO



Por Chagas Freitas

Em setembro de 1984, atravessei, pela primeira vez, já ao anoitecer, o temido Muro de Berlim. A sensação não foi de medo, mas de apreensão, ao ver que a passagem pelo Muro – a famosa “Check-Point Charlie – era protegida com ameaçadoras cercas de arame farpado.

Algum tempo depois, já familiarizado parcialmente com Berlim Oriental, iniciei os meus estudos da língua alemã, na parte ocidental da Cidade, em curso noturno, no Instituto Goethe. Assim fui criando coragem para descobrir a cidade de Berlim Oriental e pouco a pouco o mundo de suas artes.

Para minha felicidade, consegui alugar um apartamento na rua Leipziger, a partir da qual tinha fácil acesso às duas realidades, isto é, às duas Berlim, aos seus museus, óperas e teatros.

No tocante à arte moderna, via quase que só a arte oficialmente sancionada e protegida pelo Estado comunista, que era a da escola do Realismo Socialista, que não despertou, em mim, qualquer interesse.

Mas, certo dia, visitando a Galeria Rotunda, no Museu Antigo de Berlim Oriental, em companhia do artista brasileiro, meu amigo, Alex Flemming, descobri, quase escondida, uma linda paisagem do pintor Max Uhlig, que prontamente adquiri o que se constituiu na primeira obra do que viria a ser a minha futura coleção. Poucos dias após, na mesma galeria, comprei uma outra obra contemporânea alemã oriental, uma bela aquarela de Gerda Lepke.


Entusiasmado com a qualidade artística de minhas duas primeiras aquisições e à medida que ia aprofundando meus conhecimentos da língua alemã, meu entusiasmo e interesse por essa arte cresciam. Fui conhecendo outros artistas da Alemanha Oriental. Muitos deles me indicavam outros colegas, que passei a procurá-los, de modo que sempre que a sorte permitia, ia incorporando novas obras ao meu crescente acervo.


Depois de 7 anos na Alemanha, tinha já, inesperadamente, uma coleção surpreendentemente representativa do que melhor se produzia naquele país, em termos de arte contemporânea, nos anos de chumbo que antecederam a derrocada final do Muro de Berlim e, com ele, da ex-RDA.


Sou consciente da extraordinária oportunidade que me foi dada de descobrir essa arte então incompreendida e desprezada pelos meios oficiais alemães orientais num momento crucial da história alemã. Caso eu as tivesse descoberto poucos anos depois, já finda a RDA e reincorporada à Alemanha reunificada, não teria tido os meios para adquiri-las, tamanho o processo de valorização financeira e artística por que passaram essas obras.


Hoje, após tantos anos, ao ver expostas publicamente pela primeira vez tais obras num grande museu, logo aqui em Brasília, não poderia deixar de lembrar, com carinho daqueles caros amigos, que tanto me incentivaram para a formação desse acervo.


O primeiro deles foi o meu ex-chefe e mestre Embaixador Mário Calábria, que com sua paciência e conhecimento apurado tanto me ensinou sobre o fantástico mundo da arte alemã-oriental. Terei em relação a ele sempre uma eterna gratidão e grata lembrança.

O segundo é, sem dúvida, o meu querido amigo de todas as horas, Hans Lehmann*, que, infelizmente, nos deixou, prematuramente, em fevereiro deste ano e a quem postumamente dedico esta amostra.

Esta coleção é fruto da convivência com os bons amigos e das experiências inesquecíveis que tive na ex-RDA, sobretudo em Dresden, cidade à qual acorria em inúmeras visitas de fins de semana. Sei hoje que foram nos incontáveis passeios pelo Elba, por suas margens mágicas e poéticas que vivi, até agora, tão bons momentos de minha vida.

Agradeço à Caixa Econômica Federal, à Embaixada da Alemanha, ao Instituto Goethe do Rio de Janeiro, ao Goethe-Zentrum de Brasília e à Academia de Artes de Berlim e a todos que tornaram possível a realização dessa amostra, agora, no ano em que se comemoram os 15 anos da Reunificação alemã, e justamente na data da queda do Muro de Berlim, momento que vivi, pessoalmente, em toda a sua intensidade e emoção.

Termino essas palavras com a esperança de que o público brasiliense possa deixar-se tocar, assim como eu me deixei tocar há tantos anos, com essas obras maravilhosas. Elas provêm, é certo, de um país desaparecido, muitas vezes apontado como exemplo do fracasso, mas a força dessa arte demonstra que, a despeito de todas as dificuldades e da falta de liberdade, havia na RDA uma chama de criatividade, de força interior, que não se deixava calar.

*In Memorian (25/10/52 – 07/02/05)

ESCLARECIMENTO

A Angélica Paiva goza do livre-arbítrio para pensar, falar ou escrever o que bem entender a meu respeito - o leitor pode conferir a mensagem dela, enviada ao anônimo Astronauta de Mármore, que adicionei na nota abaixo, publicada aqui no sábado.

Mas a Angélica Paiva jamais vai, por exemplo, usar da liberdade que possui para me desonrar com a ilação de que fui flagrado pelas câmeras de vídeo furtando supermercado, de ter sido detido pela segurança e devolvido os objetos do furto à gerência do estabelecimento.

sábado, 29 de outubro de 2005

ASTRONAUTA DE MÁRMORE


Costumo reprisar um velho provérbio que ouço sempre de uma de minhas madrinhas: "eu sou eu e o boi não lambe, mas, se lamber, eu corto a língua".

Dois fatos me dão satisfação como jornalista: jamais respondi a processo judicial por conta do exercício profissional ou me vi forçado a me retratar em decorrência das tantas histórias que contei.

Digo isso porque todos aqui no Acre conhecem o blog Caverna da Lua de Saturno, do anônimo Astronauta de Mármore, que se declara arauto da liberdade de expressão e com quem eventualmente troquei mensagens amistosas.

Acessei o blog dele ontem e me deparei mais um vez com comentários ofensivos à minha honra, à honra do governador Jorge Viana e do secretário de Comunicação Aníbal Diniz.

Solicitei que os comentários fossem removidos, mas não fui atendido a tempo. Decidi então, com base nas regras de uso do
UOL, onde o blog está hospedado, denunciar os ataques torpes à minha honra.

Qualquer pessoa que se sinta ofendida por blogs hospedados no UOL pode exigir providências mediante o envio de uma mensagem. Basta clicar em "denuncia" ou "abuse" para tal.


- O conteúdo de cada blog é de única e exclusiva responsabilidade civil e penal do assinante e/ou visitante cadastrado cuja senha tenha sido usada para sua criação - afirma a primeira regra do provedor.

Os comentários, portanto, são de responsabilidade do assinante que usa o pseudônimo Astronauta de Mármore.

- Prezado Altino, informamos que seu caso foi encaminhado ao setor responsável, para que assim seja possível a devida análise - respondeu Renato Machado, do Atendimento Eletrônico do UOL.

Não foi a primeira vez que eu e outras tantas pessoas fomos vítimas de comentários anônimos deletérios no blog do Astronauta de Mármore. Hoje cedo, ele deletou os comentários e deixou a seguinte mensagem:

- Nos últimos dias, tive que viajar por algumas galáxias. Fiquei sem tempo de observar os comentários numa Caverna de ampla liberdade de expressão, mas que por isto, precisa de muita atenção e responsabilidade. Peço desculpas àqueles que foram atingidos pessoalmente com afirmações anônimas. Para dar um puxão de orelha geral, nos próximos dias, os comentários só serão habilitados após minha autorização. E repito convicto: "A maior ofensa à tirania é a luta pela liberdade"

No meu entendimento, a maior ofensa à liberdade é alguém se valer do expediente torpe do anonimato para ofender pessoas levianamente. O Astronauta de Mármore jamais havia controlado a ferramenta de comentários de seu blog.

Decidiu por isso apenas hoje, quando instalou um filtro, certamente após ter sido advertido por mim e, quem sabe, pelo atendimento do provedor UOL. O fez tarde.

Posso recorrer à Justiça para que determine ao UOL a identificação do assinante que responde pelo blog e dos autores dos comentários e até mover uma ação judicial contra os mesmos.

Por enquanto, não será necessário porque já sei quem é o Astronauta de Mármore, cujo blog, embora eu visite diariamente, não faz parte da lista de preferidos deste blog por causa da libertinagem reinante na seção de comentários.

Peço perdão aos leitores desse modesto blog para baixar o nível e poder adentrar na Caverna de Saturno durante a semana, durante a qual cometerei inconfidência com a publicação de uma seleção de mensagens trocadas por algumas "personalidades" acreanas com o Astronauta de Mármore.

Putz! Eu estava tão quietinho, preocupado com meio-ambiente e em interagir com meus amigos e amigas que prestigiam meu blog! O certo é que, a partir de agora, algumas pessoas vão se complicar na medida em que as mensagens forem sendo reveladas.

Agradeço a quem enviou as 335 mensagens, a quem asseguro o sigilo da fonte. Que o episódio sirva para deixar o Astronauta de Mármore esperto.

P.S.: Vou logo adiantar algumas mensagens, como a que foi enviada pela repórter Angélica Paiva, no dia 5 de julho de 2004. O texto dela é um "primor" e quisera a gente pudesse ler o que escreve e fala na TV. Leiam a historinha que ela inventa a meu respeito:

"Acho q sim.Em algum lugar ele tem q trabalhar...Altino é um cara complicado-ninguém nunca sabe o q pode vir dele.Adora se fazer de independente,mas tenho um amigo procurador da república q trabalhou em Manaus e me contou q na época em q o altino estava lá,recebia jiriquita do Amazonino-a procuradoria chegou ao nome do Altino através de uma investigação sobre o Amazonino.E aqui,uma vez ele foi tentar pressionar o Oreleir Cameli-então gov,numa coletiva e o cameli disse,e foi gravado p todos os meios de comunicação q o Altino era o único dos presentes q não poderia fazer aquele tipo de pergunta p q ttº ele como a familia dele,incluindo o pai já haviam sustentados p cameli.Soma-se a isso aquela outra história de no meio da campanha de reeleição do J.V o Altino ter saído do Pág.20 e ido p o jornal 'A Gazeta" q fazia oposição ao J.V,lembra?Chegou na gazeta prometendo contar tudo sobre o j.V e ficou menos de um mes,retornando p Pag 20.Não sei se foi colher ...Tbé, jáp´resenciei ele em viagens p interior em posições no mínimo humilhantes-J.V em alguns lugares e ele tirando mil fotos do gov e sentando sempre bem na frenete do gov p poder ser visto.Então acho bom ter cautela c ele!"

Mensagem do Astronauta para Angélica Paiva no dia 20 de agosto de 2004:

"Se tem uma pessoa que eu gostaria de dizer quem eu sou, é você....mas não me sinto seguro...termina vazando. rs rs rs.... Mas te prometo que será uma das primeiras se algum dia eu me identificar... rs rs até já pensei uma forma, mas não encontro segurança....
Faz o seguinte....você me conta o pior segredo seu.....rs rs rs.... que eu então conto só para você quem sou... Aí se vazar aí eu te entrego rs rs rs ...
Dá um abraço no Roger rs rs rs
Abrços do seu amigo Astronauta rs rs rs"

Mensagem do engenheiro Roberto Feres, enviada no dia 30 de junho de 2005:

"Oi Astro,
Fiquei um tanto preocupado com a especulação do Bob Vaz sobre a quebra de tua identidade. O espaço de resistência que vc proporciona, por mais contraditório que isso seja, é garantido pelo teu anonimato.
Uma coisa é nós mortais ficarmos especulando sobre vc ser o Altino, a Angélica, o Klemer ou o Binho (só pra ficar na letra A) e outra, muito diferente, é rastrearem tuas mensagens e chegarem até o teu computador. Não é tão dificil fazer isso e, por mais que eu ache que a inteligenzia de plantão seja de uma ignoranzia/incompetenzia só, não vale à pena ficar descuidando.
Creio que algumas pessoas podem te ajudar a se esconder, sem ter qualquer contato contigo.
Uma dica que te dou é não mandar mensagens pelo teu endereço eletrônico, principalmente utilizando o teu próprio micro. O caminho que a mensagem percorre fica gravado e é enviado com ela. É fácil para qualquer um saber em qual provedor vc estava ligado e qual a "porta" que o provedor te disponibilizava naquela hora. Daí é só pegar a informação e solicitar a identidade do usuário ao provedor. Eles não costumam contar prá qualquer um, mas vc também não está comprando briga com qualquer um...
Abra uma conta nova usando um micro de Cyber Café (onde não te solicitem cadastro) e passe a usá-la para enviar mensagens, também NUNCA usando o teu micro. Ou então, mande a mensagem a um terceiro que vc confie e peça que ele copie o texto numa nova mensagem para o destinatário.
Não pense que fiz algum curso sobre guerrilha. Isso é coisa dos dirceus da década de 70. Minha geração Geisel, Brasil, ame-o ou deixe-o! passou batida, infelizmente.
Forte abraço,
Roberto Feres."

Mensagem enviada para Astronauta pelo jornalista Józimo Martins, assessor do Tribunal de Justiça do Acre:

"Astro, acho missão impossível o PSDB cair nessa. Os tucanos estão com um olho nas denúncias e outro em 2006. Eles sabem que não está difícil retomar o Planalto. Assim como lá, aqui tb não está difícil. O que tá faltando aqui é juízo à oposição. Dê uns conselhos nessa turma, mas não dê conselhos iguais aos do Jorge Viana, senão entra água. rsrsrsrs
Mas Astro, quero falar do Segundafeira, um projeto ousado do Stélio e meu. Nós dois estamos sós na parada. Não tem grana. O pouco que entra é para a gráfica. A oposição ainda não acordou para perceber que o jornal pode ser mais útil a eles que a mim e ao Stélio, principalmente ano que vem, ano de eleição. As pessoas têm medo de ajudar, dar grana. Temem que o Jorge descubra. Não sei se vc tem visto as últimas edições. A gente peca muito em qualidade, projeto gráfico que não tem definido, publicidade e até erros imperdoáveis de português, tudo devido a pressa e falta de material mais investigativo. Não temos repórter e os colegas jornalistas, mesmo os que criticam o governo, não colaboram, temem ser perseguidos. Eu não posso cair em campo por causa do TJ, então fico na clandestinidade. rsrsrsrs O Stélio faz o que pode, já que dorme muito rsrsrsrs.
Gostaria de sua ajuda com pautas, sugestões ou até mesmo matérias com um nome bem original (astronauta, não, rsrsrsrs). Pensa aí uma maneira de ajudar nessa resistência. Só sei de uma coisa: o jornal pegou e pegou rápido. As pessoas procuram nas repartições, nas ruas, comentam. Os assessores do Jorge compram cedinho. Tá fazendo raiva a eles. Esse projeto não pode morrer.
Um abraço"

Outra mensagem do Józimo Martins para Astronauta de Mármore, no dia 23 de maio de 2005:

"Astro, o Stélio pediu que eu enviasse a vc esse texto publicado no Segundafeira. Caiu uma castanheira sobre o telefone dele e a internet foi pro pau. rsrsrsrsrs. Se for comentar na caverna, não cita meu nome, senão eu danço no DAS no TJ. rsrsrsrsrs. Sabe como é né? Eles tão doidospara me pegar porque eu tô com o Stélio no projeto do Segunda.
Um abraço".

Mensagem da jornalista Charlene Carvalho, da Tribuna, no dia 24 de maio:

"sempre tive um excelente conceito sobre você ( o astro) mesmo quando não concordava com o que pensavas. Confesso minha decepção. Essa publicação do segunda feira era desnecessária. Não por causa do Jorge Viana, das acusações contra ele, mas pelo que consta da Áurea. Não somos amigas confidentes. Confesso que tivemos problemas no passado, mas hoje convivemos bem. A Áurea não tem nada a ver com essa história. Ok, ela tá trabalhando no TJ. Eu tb tô. Ela está legalmente separada do Jorge e precisa continuar sua vida. Não estou defendendo o nepotismo, mas me levanto contra a agressão gratuita. "defender o leite das crianças"? É duro de engolir.
Continuo gostando de vc, mas como não sei ficar calada, e como não quero tb criar polêmico, comento contigo aqui pelo e-mail.
Um abraço
Charlene
Ah, o senhor Árvoro citou os carvalhos. Que sacanagem. Os carvalhos são tão bonzinhos. Duros na queda, é verdade, mas tuto bona gente.,
hehehehehehe
xau"

Outra mensagem de Charlene Carvalho, no dia 4 de maio de 2005:

"será que devo dizer o que penso, mesmo? E se tu for ele^?
hehehehehhee Eu gosto muito do Márcio [Bittar], ele é que deixou de gostar de mim. Nem faz mais com eu. Tudo por causa da política. É triste, sabia. O márcio é um cara muito legal, boa praça e tal, mas em matéria de arrogância dá de lavada no Jorge. Aliás eles são parecidíssimos na personalidade. Me dizes o que pensas sobre o assunto, depois te falo mais.


Charlene, no dia 6 de maio de 2005:

"Astro, concordo com você. O Márcio [Bittar] realmente precisa ouvir umas verdades. Eu já fiz isso durante muitos anos. Foram anos de briga, amizade, briga, amizade.
Disse-lhe muitas verdades, ouvi poucas, mas no fim das contas ele optou por um caminho diferente do meu e, embora eu sempre tenha respeitado os seus caminhos, ele não respeitou os meus.
Preferiu os novos amigos, o que acha que realmente são seus amigos (e acho até que são, quem sabe?). Nos distanciamos muito, enfim.
De minha parte sei que fiz o que estava ao meu alcance, disse o que pensava, mas ele não gostou e fez a opção de se distanciar. Uma opção que respeito, claro.
Não somos mais amigos. Mas isso não faz mal. Gosto muito dele e da Márcia, mas ele preferiu assim. Infelizmente quem anda com ele não fala a verdade nunca, você sabe.
Não te falo isso com amargura ou rancor, é apenas um desabafo. Também não me esquivei de tratar do assunto contigo temendo o CIV. Aliás, se tem alguém que não tem medo do CIV sou eu. E não digo com arrogância. Sei bem do que se trata. Como poucos por aqui, aliás. Eu sei o que vivo. Sei quantos amigos perdi no meio do caminho. Na verdade, me esquivo de tratar do assunto por ser muito doloroso e, principalmente, porque as pessoas não entendem bem isso agora. No futuro vão conhecer melhor. E aí, quem sabe, não terão saudades de Jorgim,? Sim pois não há quem tenha saudade do Flaviano? Já não esqueceram a censura da sua época no jornal? Não esqueceram como o Narciso tratava matéria de aliado e de inimigo?
Pois é,...
O tempo passa e eu já falei (escrevi) besteira demais.
Beijim
e carinhos meus.
Bom final de semana
E, feliz dia das mães."

Mensagem do jornalista Ezi Melo, editor do jornal O Rio Branco:

"E aí Astronauta?

Ando meio "aluado" esses dias, com esse manto negro e o fim das vozes no meu rádio, por isso não dei uma passada na caverna e esqueci de responder ao seu e-mail sobre aquele artigo da moça da FPA.
Gostaria muito de publicar seus artigos, já que não temos censura governamental em ORB, pórem temos uma linha de não usar pseudônimos. Cada um assina o que escreve, aqui, mesmo que "se lasque" depois. Mas vou pedir pro pessoal comentar sua poesia nas colunas.

Inté!

Ezí"

Mensagem do jornalista Roberto Vaz no dia 5 de julho de 2005:

"Astro, eu já passei daquela fase do tapinha nas costa e da falta de respeito. eu sempre tratei os caras com carinho eles só me deram empurrões. Eles não tem coragem de pedir para tirar nada e nem colocar (É VERDADE). O canibal é que mantém ainda um diálogo comigo. No ssa liberdade tem incomodado eles e só um cara metido a besta foi que veio tomar satisfação comigo. Eu só sei que bomamos e vc teve a oportunidade de falar muitas verdades. Ah, teve uma amiguinho de um blog que reclamou, que eu além de super valorizar, ainda não coloco nem o blog dele na lista
de boa leitura.

Astro, tem uma coisa que está me preocupando! Eu lendo o blog, vi um comentário do Silvano Rabelo. Ai mandei repercutir, mas ele, que é um cara muito sério, nega que tenha escrito o comentário. Verifica isso ai meu irmão, que ele não merece ser traído, pois é gente muito séria. Um cara e tanto que não concorda com a bandalheira toda, mas fica na dele.

Um abraço.
Liga de um orelhão para gente falar cara. Eu fico incomodado em ganhar um amigo e não poder dizer nem oi. Roberto Vaz"

Do senador Geraldo Mesquista Júnior, no dia 4 de abril de 2004:

"Prezado Astronauta,
Preparei o discurso anexo para proferir hoje, segundafeira, mas a sessão foi suspensa em razão da morte do Papa. Assim, ao vivo e a cores farei o discurso amanhã. Remeto o texto para seu conhecimento, autorizando a publicação, desde já, se lhe convir.

Um abraço,
Geraldo Mesquita Jr."

Do João Roberto Brana, no dia 31 de março, sendo "no sítio mais visto do Acre" o objeto da mensagem:

"Astro...pusemos uma nota sobre a entrevista do senador [Grealdo Mesquista Jr.] no sítio dos Melhores Leitores. É notícia.

Um abraço.

Ps. vou comentar na edição de domingo, 3, na minha coluneta a façanha do caverna."

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

AINDA SECA NA AMAZÔNIA


Por André Muggiati (*)

A seca na Amazônia já começa a esmaecer. Aqui no Amazonas já está chovendo e o nível dos rios já está subindo bem.

A mídia anuncia o final da seca com pequenas notas, se muito, ao contrário do estardalhaço que fez nas duas últimas semanas.


Entretanto, no oeste do Pará, a situação segue bastante grave, como demonstra a série de imagens feitas ontem e anteontem pelo fotógrafo Daniel Beltra, que o Greenpeace distribuiu hoje.

No mais, parece que mais uma vez a Amazônia segue seu ritmo midiático.

O inusitado e as imagens trágicas colocam a região no noticiário nacional e internacional. Depois, a história desaparece, de repente ou aos poucos, sem deixar as lições sobre o que se passou.


A possível relação entre a seca e as mudanças climáticas, bem como com o desmatamento, segue incompreendida pela imensa maioria do público.

No caso dessa seca, ainda fico imaginando os impactos que serão sentidos dentro de alguns meses, quando os lagos estiverem outra vez completamente cheios de água, mas não de peixes...

Para os que se interessarem, também escrevi um pequeno diário da viagem que fiz pelas áreas atingidas, no último fim-de-semana.

(*) André Muggiati é jornalista, assessor do Greenpeace Brasil na Amazônia

IGARAPÉ S. FRANCISCO



Altino,


Estou enviando uma foto da limpeza do Igarapé São Francisco. Na contabilidade de hoje, já estamos próximo da retirada de 300 tonelas de lixo, mas ainda estamos na área perto da ponte do bairro Placas.

Tão importante quanto a limpeza tem sido o trabalho com as escolas e postos de saúde do entorno, para o trabalho de educação ambiental. Neste ponto os alunos da escola João Aguiar estão ajudando bastante.

Destaco que o trabalho é realizado com apoio do Banco da Amazônia e recursos próprios da Prefeitura de Rio Branco - cerca de R$ 180 mil. A próxima etapa inclui o replantio de mata ciliar com espécies nativas nas áreas mais afetadas do igarápé.

Mais que a sujeira, o principal problema é a ocupação desordenada do São Francisco e dos afluentes.

O nosso próximo alvo é o Riozinho do Rola. A prefeitura planeja uma grande ação lá, no próximo ano, com as secretárias de Saúde, Educação, Agricultura e Meio Ambiente atuando conjuntamente para buscar com os moradores soluções e alternativas concretas.

Abraços

Arthur César Pinheiro Leite
Secretário Municipal de Meio Ambiente

Nota do blog: A cidade de Rio Branco teve sua formação histórica baseada na economia extrativita da borracha, tendo como seu principal meio de transporte o Rio Acre. Ele proporcionava alimentação, lazer, era (ainda é) a principal fonte de abastecimento de água da cidade. A expansão urbana desordenada de Rio Branco, onde vários bairros de todas as classes sociais são formados praticamente em cima da margem dos rios e igarapés, tem causado impactos ambientais, poluição da água, assoreamento e erosão. Ultimamente, vários desses bairros têm problemas com as constantes inundações causadas pelos rios e igarapés.

O ACRE É SEU


Poder interagir com velhos amigos e amealhar novas amizades se tornou mais prazeroso desde que esse modesto blog foi criado. Merecer a amizade e a inteligência da acreana Letícia Helena Mamed, 24, professora de teoria social na Universidade Estadual de Londrina, por exemplo, ficará na minha memória como uma das melhores lembranças desse diário virtual.

Pra começo de conversa, uma confissão: gostaria de ter o pensamento bem organizado e escrever com a mesma maestria dessa menina, que é fluente em português, inglês e francês, desenha e tem memória de elefante. Dia desses, durante encontro em São Paulo com outro acreano, o Mário Lima, professor de economia da PUC, ele não resistiu em querer saber:

- Quem é a Letícia Mamed, que de vez em quando participa de forma tão brilhante nos blogs do Acre?

- Durante a ECO-92, foi lançado um concurso nas escolas de primeiro grau de todo o Brasil. Era um concurso que selecionaria o melhor desenho de um aluno sobre a floresta e/ou a região amazônica. Ganhei em primeiro lugar. Ganhei prêmio em dinheiro, fui até a ECO e tive meu desenho publicado. Imagina, eu tinha uns 11 anos. Acho que o diferencial do desenho foi o fato de ter colocado o elemento humano e social. Quando se pensa em floresta, geralmente se pensa na flora e na fauna, mas se negligencia quem vive nela. Foi algo bem simples: cartolina e lápis de cor. Por isso acabei me interessando por história da arte. Então, eu leio tudo a respeito, conheço a metodologia, a técnica, as escolas. Mas não pinto. Podemos dizer que é um estudo teórico-metodológico - relata a professora.

Foi nessa época, com 11 ou 12 anos de idade, que Letícia Mamed procurou o jornalista Antonio Alves, então presidente da Fundação Municipal de Cultura, para entrevistá-lo como parte de um trabalho escolar sobre a doutrina do Santo Daime.

- Duvido até que o Toinho possa lembrar disso ainda, mas o modo inteligente e didático como tratou aquele grupo de crianças me cativou para sempre.

A primeira vez que li algo escrito por Letícia Mamed foi no blog O Espírito da Coisa, do Antonio Alves, onde ela apareceu e deixou nove comentários relativos ao PL das Florestas. O seu antigo entrevistado trouxe-os para a página principal e, logo abaixo, publicou suas respostas, não sem antes observar:

- O texto de Letícia Mamed, de evidente fundamentação marxista, me cutucou na alma. O marxismo é uma caixa fechada, de racionalidade extrema, sem contradições internas. É difícil dissecá-lo, analisá-lo, sem ser capturado pelo fascínio de sua lógica, de seu sistema de conceitos que se auto-sustentam, como uma doutrina religiosa. Em dado momento de minha vida, saí dele e, embora marcado por sua utopia socialista, a ele não mais retornei como sistema de pensamento. Ao longo do tempo, tornei-me cada vez mais rebelde e assistemático. Não posso, portanto, responder ao cutucão com outra lógica, pois não a tenho.

- Caro A. Alves, porque voltei a morar no Acre e, principalmente, porque o escolhi como meu objeto de estudo nos últimos anos, suas digressões sobre este lugar sempre me chamaram a atenção. Seu conhecimento empírico sobre nossa sociedade acreana tem me inspirado a pensar, a refletir sobre as devidas particularidades acreanas na sociedade global. Portanto, jamais pretendi expor ou impor uma determinada lógica de pensamento. Seria muito pretensioso tentar fazer isso, além do que não sou adepta a posturas dogmáticas. Minhas intenções se resumem a participar do debate e, quem sabe, contribuir para que ele avance. Se minha primeira intervenção já lhe cutucou profundamente e aos demais que leram meus comentários, penso que começamos bem nosso debate. Sigamos com ele - ela respondeu. Leia a resposta completa clicando aqui.

Letícia Mamed ganhou o título/prêmio de "láurea acadêmica" como melhor aluna do ano, concedido no dia da formatura. A média global no curso, incluindo trabalhos acadêmicos, publicações e tudo mais foi 9.7. Bem, na próxima semana, ela, que tem uma média de leitura de até 500 páginas por semana, terá em mãos os dois volumes de sua obra decorrente de anos de estudos.

- É uma publicação acadêmica, portanto, o título não é muito editorial, quem sabe eu possa alterá-lo depois da defesa do mestrado: "Amazônia Ocidental (1870-1970): o processo de incorporação do artesanato pela grande indústria na formação social do Acre".

Ela explica que o conceito de artesanato engloba todas as atividades de trabalho manual, como o corte-coleta e defumação do látex.

- A proposta inicial da minha pesquisa era dar conta do processo de modernização capitalista na Amazônia brasileira, tomando como caso empírico de análise o Acre. Assim, eu teria que dar conta de mais de 100 anos de história, desde o final do século XIX até hoje, 2005. Com minha pesquisa tive contato direto com a realidade social do Acre hoje. Não que não tivesse antes, mas agora o negócio se tornou conhecimento científico. Pra grande maioria, é simples me julgar como uma "pequena burguesa" (essa expressão é clássica sobre mim) brincando de trabalhar. Pode?

Dada a quantidade de material levantado e o tempo para que fizesse a publicação, Letícia revela que a tese de mestrado vai do final do século XIX até a década de 1970 e a tese de doutorado vai dar conta do período mais atual, até hoje, década de 2000.

- Fiz minha graduação na Universidade Estadual de Londrina, onde há um grupo de pesquisadores marxistas. Logo que me formei, entrei para a pós-graduação, que é um programa conveniado com o programa de pós da Unicamp, portanto, estou em Londrina concluindo meu mestrado. Caso continuasse aqui, logo em fevereiro de 2006 começaria o doutorado, mas lá na Unicamp mesmo.

Letícia Mamede volta para o Acre até o final do ano. Resolveu passar um tempo aqui porque está concorrendo a uma bolsa de estudos para doutorado na Sorbonne, França. Como o processo é longo, avalia que é melhor aguardar em casa.

Feliz aniversário, Letícia. O Acre é seu.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

OS BAIXINHOS


Todos esses homens que aparecem com a típica indumentária peruana são brasileiros - empresários, deputados, desembargadores, secretários, procuradores de justiça etc. O único que aparece de paletó é o presidente da região de Cusco Carlos Cuaresma Sanchez, no centro da foto, ladeado por dois baixinhos mais altos que ele: o governador Jorge Viana (à esquerda) e o empresário George Teixeira (à direita). Só faltou uma lhama no centro do salão.

NINE AGRADECE

Oi para todos!

Estou muito feliz em saber que existem tantas pessoas torcendo pela conquista do meu sonho!

Obrigada a todos os professores que me ajudaram em cada lugar que passei, os meus amigos e os que não conheço, aos que comentaram aqui no blog também, a família, e ao Altino por ter oferecido este espaço para que essas pessoas pudessem me dar este apoio!

Isso me faz ter mais força e vontade de chegar lá com muita confiaça e esperança!
Deus com certeza está olhando por todos que aqui estão colaborando! Obrigada! Não esperava tanto apoio, admito!

Agora é ensaiar muito e me preparar com muita garra. Quando eu estiver lá, tentarei representar o Brasil da melhor maneira possível, darei o meu máximo e, ao final, Deus permita alguma conquista. Conquista eu já tive e agradeço a cada dia a Deus, mas se Ele, lá em cima, permitir e achar que mereço, conseguirei!


Foi preciso muita luta para chegar até esse dia tão especial para mim, pois tive que "correr contra o tempo" para alcançar as meninas de meu nível e idade.

Bom, hoje estou aqui, muito feliz com as recompensas que Deus tem me dado durante esses quase cino anos no mundo do ballet.

Agradeço mais uma vez a todos e também a toda a imprensa que tem me apoiado. Agora fico com a esperança de conseguir chegar até New York, com a colaboração de alguma boa pessoa, já que minha família tem feito o impossível para que eu continue em busca deste sonho, que é a maior felicidade que encontrei em minha vida!

Beijos a todos!

Com carinho e gratificações!

Stephanine Ricciardi


Comentário de
Eliana Caminada:
"Conheci Nine Riccciardi Rocha há pouco tempo, o suficiente para saber de sua admissão à Escola do Bolshoi no Brasil, instituição, cujo nível de exigência para novos alunos é conhecido no universo da dança clássica, ver suas fotos e avaliar, de longe, seus atributos.

Mas o que mais me impressionou foi sua evidente vocação e determinação. Ela parece desconhecer barreiras e caminhar obstinadamente ao encontro do que considera seu destino.

Talvez lhe caiba, posteriormente, quem sabe, desempenhar um importante no seu Estado de origem, qual seja o de divulgar a arte que escolheu, tão profundamente erudita e paradoxalmente tão popular. E universal.

Agora veio a notícia: Nine habilitou-se a ser uma das representantes do Youth American Grand Prix. Gente, não é pouco.

Hoje, Nine, daqui do Rio de Janeiro, gostaríamos de lhe dizer: boa sorte, moça. E que você encontre nas autoridades do seu Estado, apoio, estímulo e recursos para chegar bem preparada à meta final.

Um grande abraço".

Eliana Caminada

DO JORNAL PESSOAL

Amazônia Norte e Sul: os seus muitos olhares
Por Lúcio Flávio Pinto


No início do mês mandei esta mensagem para a Rede de Jornalistas Ambientalistas, no meio de uma polêmica provocada pelo jornalista acreano Altino Machado. Pode ser de interesse também dos leitores.


Acho que todos nós, mais velhos ou mais novos, mais competentes ou menos competentes, do Sul ou do Norte, aprendemos que a polêmica é o sal da vida. Como profissionais do jornalismo ou simples leitores de jornais (ou acompanhantes da imprensa em geral), só sabemos de certos fatos e só temos acesso a certas informações quando as empresas jornalísticas brigam - entre si e contra aquele que costuma ser seu maior cliente, o governo (muitas vezes transformado em parceiro, patrão ou bwana). Quando eles brigam, e dependendo da forma como brigam, abrem seus baús, soltam farofa ou matéria mais deletéria diante do ventilador, e destilam seus venenos. Também costumam liberar conversas de bastidores e dados de algibeira, embora raramente com a generosidade que demandaria a necessidade nacional. Interrompem a drenagem antes do tempo. Informação é poder. Ainda e sempre, apesar dos googles.

Isto posto, o debate, a polêmica, a controvérsia sempre serão bem-vindos, mesmo quando resvalando um pouco pelo que, com ou sem razão, chamamos de baixaria - freqüentemente aplicando essa etiqueta ao que nos desagrada, ao que não queremos ver revelado.

Pode parecer que nós, nascidos na Amazônia, nos consideramos os detentores da chave do saber sobre a região. Por isso, rejeitamos os "do Sul". Não é verdade, ou não deve ser considerado como verdade. Mas o pé atrás existe e tem sua raiz, mesmo que não sua razão. A Folha do Norte, durante décadas o baluarte da imprensa na Amazônia, tinha uma seção permanente: "os que vencem no Sul". Só era vencedor quem vencesse no Sul. Quem não vencia era um fracassado. Alguns não venciam porque não iam ao nirvânico Sul.

Outros simplesmente não aceitavam que o Sul fosse a prova dos nove do sucesso. Achavam que o Sul só dava os louros aos que lhe servissem a interesses que, como regra, não coincidiam com os mais legítimos interesses do Norte. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra, claro. Há Norte e Norte. Sul e Sul.

O que devo dizer, para não torrar a paciência dos caridosos amigos, é que a Amazônia não escapará a um destino inglório por seus próprios meios. Necessita da solidariedade externa. Dificilmente a Amazônia deixaria de ser menos Amazônia a cada temporada de fogo & desmatamento, mesmo se não houvesse a tal da cobiça internacional, exposta e somatizada por Arthur Cezar Ferreira Reis (em 1958). Já bastaria a fúria desmatadora do capitão-do-mato, o bandeirante, predador de almas, dizimador de paisagens. A cunha estrangeira, porém, multiplica os efeitos dessa fúria, ainda mais porque, nos centros da inteligentsia do capital global, já há poucas dúvidas de que seremos, neste avançar da história, tão desmatadores quanto o homo agrícola em qualquer estágio anterior de sua "evolução" como tal pela face do planeta.

Se o capital internacional é a pedra de toque dessa alucinante frente desmatadora, só nos resta tentar voltar contra a espiral do dinheiro o contracanto do saber mundial. Claro que não existe ciência in abstracto. Mas é no âmbito do conhecimento que se tem o maior grau de autonomia relativa possível. O exemplo – felizmente revisto – do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, gerado no ventre da Unesco por Heloísa Alberto Torres e Paulo Carneiro, sob a tutela de seres humanos da envergadura de Thomas Huxley, devia nos advertir para as oportunidades que essa autonomia relativa proporciona à Amazônia. Sem uma ciência empenhando todos os seus anéis na Amazônia, em breve seremos um cerrado, uma savana, uma mata primária, reflorestamentos. Delenda biodiversidade. Perderemos o lugar único que ainda nos é reservado no espaço e viraremos nada mais do que tempo. Tempo desperdiçado.

Digo isso para dizer que a história da Amazônia deve imensamente a estrangeiros, como o padre português João Daniel, os cientistas ingleses Henry Bates e Wallace, e aos "do Sul", como Alexandre Rodrigues Ferreira e Ferreira Pena. E continuará a dever sempre e cada vez mais a gente da estirpe de José de Souza Martins, Aziz Ab'Saber, Orlando Valverde, etc.

Não só por não termos quadros humanos suficientes para dar conta do tamanho do desafio, como porque, sendo a mais tardia das regiões brasileiras e a mais persistentemente internacionalizada dentre elas, a Amazônia é uma questão mundial, queiramos ou não, sejamos os militares geopoliticamente obcecados pelo objetivo de "integrar para não entregar", sejamos os militantes do PC do B, numa Icária depravada de Albânia tropical, com suas muralhas de Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia).

Por mais que sejamos inteligentes, aplicados empiricistas, denodados observadores dos fenômenos endógenos, autênticos caboclos do saber, não daremos conta de entender a Amazônia, ordenando heuristicamente seus fatos numa interpretação que abranja suas raízes, que estão longe, e suas manifestações forâneas – em tronco e fustes – nos grandes projetos. No tamanho da minha insignificância, aplico todo meu empenho em interessar mais gente por esta terra, more em São Paulo ou Tóquio. Não quero uma dezena de bons jornalistas aqui, para ficar no meu minifúndio profissional. Quero centenas, quem sabe o milhar. Não só indo e vindo episodicamente. Ficando: na própria terra, sempre que possível; virtualmente, em estado de permanência. Na Amazônia, se aplica como luva a diretriz de que é a anatomia do homem que explica a anatomia do macaco, e não vice-versa. É a partir do mundo que olhamos melhor a Amazônia. Mas é só nela que a entendemos, absorvemos, amamos e transformamos. Por transformar entenda-se manter o que a natureza prodigiosamente gerou, ao invés de negar esse processo criador sem paralelo.

Comecei a trabalhar como profissional do jornalismo em 1966. Nesse ano Belém foi a sede da fundação do Banco da Amazônia e da Sudam, abre-alas da nova forma de ocupação econômica (e física) da região, e do Simpósio sobre a Biota Amazônica, que assinalava o centenário do Museu Goeldi (logo, já havia longeva vida inteligente nos trópicos infestados por mosquitos, que não são o monstro de Loch Ness). O desmatamento era de aproximadamente 0,8% da região, computando-se desde a primeira ação humana, que remonta a algo em torno de 10 mil anos (7 mil a 12 mil nos extremos da interpretação arqueológica). Hoje, estamos caminhando celeremente para 20%. Nenhum povo desmatou tanta floresta em tão pouco tempo em toda história da humanidade.

Exatamente no lugar que tem a maior e melhor floresta do planeta. Isto basta para fechar o capítulo.

Assim, caros amigos, a Amazônia é útero fecundo para todos que aqui quiserem aplicar sua vontade, seu saber, seu esforço, sua competência. Mas não subestimem a Amazônia. Nem seus aspectos maravilhosos nem os pavorosos.

Nem o paraíso nem o inferno. Nem a mitologia nem a realidade. A Amazônia não é para amadores, ainda que seus melhores profissionais sejam os que a amam. É impossível trabalhar na Amazônia sem se interessar por sua história, sem entrar nessa história. Ela oferece às pessoas sensíveis e inteligentes a oportunidade rara de fazer história. Ora, pois, não podemos ser apenas burocráticos reporteiros dos fatos, escrivães de pautas rotineiras.

Mas não podemos negligenciar o detalhe, abrindo os pulmões e irradiando incorreções. Temos que ser rigorosos, aplicados, disciplinados, inclementes na busca da informação, como se estivéssemos competindo com o New York Times e achando esses gringos uns pretensiosos, a nos exigir, em contrapartida, humildade sem sentimento de inferioridade.

Dois dos ministros da Fazenda que estiveram aqui, Delfim Neto e Mário Henrique Simonsen, eu os acompanhei (portanto, não é correto dizer que nenhum ministro da Fazenda deu o ar de sua graça na Amazônia, mesmo porque tinham que conferir o butim). Simonsen, pelo menos, era um humanista. Levava caixas de cerpinha, a preciosa cerveja local, para seus duetos, com gran finale. Delfim era a barbárie. Não lhe perdôo nunca uma frase bestialógica (embora antológica): na Amazônia, a hora é do bandido; depois que ele amansar a terra chegará o mocinho. Quando o mocinho chegar, pelo andar da carruagem, não haverá mais Amazônia à sua espera.

Se não temos fatos, não temos jornalismo. Não podemos jamais abstrair os fatos, ou renunciar à sua busca. Aprendi com Jack Anderson que nada resiste a uma boa investigação jornalística. Não há, porém, jornalismo investigativo. Há jornalismo. Sem adjetivo acompanhante. Jornalismo é sinônimo de investigação. Sempre. Não vamos aceitar embromação, como exigia o poeta Bertolt Brecht, num poema que devíamos colocar como tela do nosso computador. Se não abrirmos mão dos fatos como ponto de partida, alguma luz se fará e alguma esperança caberá nas utopias.

Desculpem o exagero. Tomo, como habeas corpus preventivo, o tamanho de nossa amada e ensangrecida Amazônia, grande para abrigar a todos nós e a todos os homens de boa vontade que a nós, aqui e aí, agora e daqui a pouco, se quiserem juntar nessa viagem. Uma viagem sem limites, por isso mesmo gloriosa.

Fonte: Jornal Pessoal, ANO XIX, Nº 355, 2ª QUINZENA DE OUTUBRO DE 2005

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

MAL-ESTAR NA GLOBALIZAÇÃO


Indicação para quem acompanha esse modesto blog: a leitura do livro "O Mal-Estar na Globalização" (Editora A Girafa - 1ª Edição - 2005 - 280 páginas – R$ 23,80), de autoria do jornalista, escritor e ensaísta Luciano Martins Costa. Não é demais afirmar que é uma obra imprescindível para quem se preocupa com processos de mudanças.

Lançado em agosto, o livro já é o mais vendido na categoria não-ficção nas livrarias FNAC, em São Paulo. Por conta da densidade da obra, o autor foi convidado a criar um curso de extensão em Liderança e Comunicação na São Paulo Business School.

O livro apresenta como paradigma a vulnerabilidade do sistema econômico, que se tornou clara após os atentados ocorridos nos EUA em 11 de setembro de 2001, e os escândalos das fraudes em algumas das maiores empresas do mundo. Ao lado disso, há também a depredação absurda da diversidade biológica do planeta.

A obra de Luciano Martins Costa é um apelo para que cada cidadão, cada agente econômico, social e político, assumam a responsabilidade de transformar a si mesmo e, em conseqüência, o sistema perverso e excludente que a globalização impôs ao mundo. Por outro lado, é uma leitura estimulante e inspiradora para a busca de novos conhecimentos e modos de pensar que nos tirem das intermináveis crises em que vivemos.

Recentemente, em São Paulo, mantive dois encontros com Luciano, cuja amizade cultivo desde 1985, quando ele esteve no Acre pela primeira vez, como repórter especial da Folha de S. Paulo, e escreveu a melhor reportagem sobre a doutrina do Santo Daime. Quando editor-executivo do Estadão, indicou meu nome para ser correspondente do jornal no Acre, em outubro de 1988.

É um profissional com larga experiência, um mestre. Formulou o projeto Estadão Multimídia e dirigiu a criação de um dos primeiros jornais on-line do Brasil. Foi o único jornalista brasileiro, entre dez profissionais de vários países, convidado pelo escritor vencedor do Prêmio Nobel Gabriel García Márquez a participar do projeto Jornal Ideal. Ministrou também conferências a convite da Knight Chair da Universidade do Texas. É o criador do método de ensino de redação "Escrita Sistêmica", aplicado em escolas estaduais de ensino médio no Estado de São Paulo.

Entre outros escritos, é autor do livro de contos "Histórias sem salvaguardas", do romance "As Razões do Lobo", e do ensaio "Escrever com criatividade".

Foi repórter especializado na investigação do crime organizado e do crime corporativo. Dedicado ao estudo da gestão como aluno de organizações como o Juran Institute, Fundação Dom Cabral, Amaná-Key e outras, é conferencista com experiência internacional, tendo também atuado como consultor de estratégia de comunicação para reposicionamento de empresas e gestão de crise.

A partir de novembro, Luciano Martins Costa vai colocar nas ruas uma revista mensal especializada em sustentabilidade nos negócios. Foi concebida por ele no âmbito da Fundação Getúlio Vargas e conta com mais duas sócias. Nos contratos de publicidade existe uma cláusula explicitando que a revista não admite interferência de patrocinadores em sua linha editorial por conta dos contratos.

Como “O Mal-Estar na Globalização” trata de modo denso sobre holismo, paradigmas de sustentabilidade e dos entraves de gestores em atingir a sustentabilidade e o compromisso social, julgo que seja realmente imprescindível a todos nós.

O professor de economia Mário Lima, da PUC de São Paulo, informa que está relendo a obra e promete nos enviar em breve uma resenha. Vai ser bom porque Mário Lima não é suspeito como eu para falar de um livro do Luciano Martins Costa.

CARTA ASHANINKA

Sabá Manchineri,

Nós Ashaninka da aldeia Apiwtxa, vimos através desta manifestar a você nossa opinião sobre o que está sendo circulado nos meios de comunicação nos últimos dias, principalmente quando fomos atingidos. Para você, isto parece simples, no entanto, para nós não isto é sério e estamos muito revoltados com seu comportamento desonesto.

Afirmamos que não temos problema com nenhum povo indígena e não-indígena, entidade ou qualquer pessoa, mesmo aquelas que não estão de acordo com nossos princípios, muito menos os Manchineri. Além de termos visitado povos diferentes, fomos bastante visitados recebendo inclusive Manchineri em nossa aldeia com todo respeito e atenção, inclusive sua pessoa quando trabalhava na Administração da FUNAI de Rio Branco.

Sabá, suas atitudes expressam revolta, ódio, desespero e não a segurança de líder verdadeiro que você diz ser. O texto com assinatura de Clarinda Lopez Tapuya, fala que o Francisco não é filho de Antonio Piyãko, se apropriou da cultura milenar do povo Ashaninka, não fala a língua Ashaninka. Todos nós da aldeia Apiwtxa sabemos e provamos que o Francisco pertence ao nosso povo disso não temos dúvida, fala a nossa língua, veste a nossa roupa tradicional, desde quando nasceu e é um dos líderes de nosso povo. Agora nós perguntamos: Onde você deixou a sua roupa, será que é a das fotos da página da COICA?

Você mexeu com nossa família seriamente colocando ao público uma mentira, tentando denegrir a imagem do nosso líder maior, o senhor Antonio Piyãko e sua esposa, que sequer sabe quem são vocês, quem são seus pais e onde moram. Agora você está lutando contra um representante de nosso povo, que por hora está ocupando cargo de secretário na Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Estado Acre.

Está muito claro, no ofício da OPIN onde consultam às organizações indígenas, que vocês estão defendendo interesses particulares e um deles é seu nome para secretário. Nós falamos que, se tivesse que te eleger, nós o elegeríamos para você voltar para sua aldeia e aprender com a realidade e os ensinamentos de seu povo. Isso porque achamos que lá você pode ter outro horizonte trabalhando para preencher o vazio que você está vivendo.

Nós povo Ashaninka, do Rio Amônia, temos a consciência de que um representante, seja de que povo for para representar um cargo que envolve vários povos, seja publico ou não, tem que estar bem preparado, sem preconceito entre os povos e deixar de lado os interesses particulares. Nós não brigamos com ninguém para ter um de nossos representantes Ashaninka na SEPI. Ele foi um dos candidatos apontados pelo movimento e aceitou o convite do governador, por isso está no cargo. Quando Francisco assumiu a secretaria nós já tínhamos nossos projetos todos em andamento, vários parceiros, muito bem reconhecidos e sem intermediários em nossos negócios.

Sabá, não estamos questionando o que você quer, pois este é seu direito, como é nosso de não aceitar. Porque, para nós, a sua liderança não é construtiva e nem superior a várias outras que temos neste Estado. Nossas lideranças moram em nossa comunidade. Não ficamos na cidade atrás de poder, nem falando que somos os melhores e nem nos oferecendo para ocupar cargos.
Sabá, pelo que conhecemos, você não tem cargo nenhum no movimento indígena do Acre e você não está autorizado a falar em nome do povo Ashaninka do Rio Amônia.

Nós nunca tivemos notícia de que você desenvolveu projetos em sua comunidade. Se tem não sabemos, nem mesmo com a capacidade e os cargos que ocupou em sua trajetória política. Os ensinamentos tradicionais de seu povo, tenho certeza que você já perdeu, pois um líder com que os tenha respeito a todos, confiança de todos, demonstra conhecimento, capacidade, transparência e honestidade, e não como você, que fica separando os seus.

Sabemos que na vida que você leva há muita desonestidade e faz qualquer coisa para se dar bem. Esses textos assinados por outras pessoas, que podem não ser seus e você não tem coragem de assumir. Para nós você é o responsável até que prove o contrário. Será que você aprendeu a falar várias línguas para se aproveitar dos próprios parentes? Quem será essa Tapuya para falar com tanta firmeza de quem é o Francisco e afirmar que o Sabá é o melhor?

Nós Ashaninka temos vergonha de dizer que somos os melhores, os sábios, e acredito que o seu povo também. Pawa não apóia arrogância, sobretudo dizer que é o filho do universo, pois isso pode fazer mal para sua própria pessoa. O que você tem que fazer é aceitar que o mundo dos povos indígenas já está bem avançado, que as comunidades não aceitam este tipo de imposição.
Sabá, não duvidamos de sua força e disposição. Se usada da melhor forma, pode ajudar muito seu povo e até outros povos.

Associação Ashaninka do Rio Amônia
Comunidade Apiwtxa

ACREANO EM NOVIORQUE

Por Evandro Ferreira (*)

Durante seis anos tive a oportunidade de viver em Nova York, EUA, realizando meus estudos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado). Foi uma experiência interessante poder viver por um breve período de tempo o "sonho americano". São tantas coisas que vi e que experimentei, boas e más lembranças.


Entre as boas, vi a solidariedade "fria" dos americanos, os verões ensolarados com o povo feliz nas ruas e parques, os desfiles freqüentes ao longo da 5th Avenida, a eficiência da polícia, corpo de bombeiros, o respeito às regras básicas de convivência. Por muitos anos não tive a oportunidades de ver alguém tentando dar o famoso jeitinho brasileiro para levar vantagem.

Entre as piores estão os invernos que passei em NY. Saído dos trópicos, era estranho ter que usar "sem trégua" roupas de frio, iniciando com as blusas de manga longa ou as capas (iguais as que a gente usa no Acre durante as friagens) a partir de meados de setembro. Entre dezembro e fevereiro, sair de casa só com capas grossas e, durante certos dias e semanas, com luvas, gorros e protetores de orelha. O frio só aliviava em meados de abril.

Para não ser injusto com o inverno nova-iorquino, temos que excluir o período de natal. Conheço muito poucas cidades pelo mundo afora, mas acho que natal como em NY não tem igual. A maioria de vocês já viu pela televisão. Ao vivo é mil vezes mais emocionante. Você vai para Manhatan e sente verdadeiramente o espírito natalino lhe empurrando lojas a dentro para comprar qualquer coisa. É impressionante. Milhares de turistas, todos comprando e fotografando, parando em frente a vitrines meticulosamente preparadas. Na 5th Avenida, entre a rua 42 e a 34 mal dá para andar nas largas calçadas.

Uma das coisas que nunca entendi durante o inverno nova-iorquino, é o fato que a população de NY, não importa a origem, fica extremamente deprimida e mal fala. Quando fala, o faz de tal forma que te deixa mal. Os novaiorquinos tem a fama de mal humorados nos EUA. Imaginem vocês um brasileiro, vindo de uma terra onde todo mundo fala demais, se toca demais e se beija socialmente a toda hora, ter que viver em meio a "mudos invernais". É duro, você também fica deprimido. Aliás, sendo um lugar tão diverso, com gente de todo o mundo, a cidade é o último lugar para se visitar, se alguém planeja "conhecer" os EUA.

Fauna humana
Para conhecer o povo de Nova Yorque, a melhor coisa a fazer é andar de metrô. Se algum dia você tiver a oportunidade de visitar a cidade, sugiro fazer um trajeto que fiz muitas vezes: pegar a linha D do metrô no Bronx (Bedford Park) e ir até o Village, nas proximidades da NYU. A "fauna humana" se inicia no Bronx com uma maioria de negros e latinos. Os negros são a maioria até a estação 125, no Harlem.

A partir daí o trem só vai parar no American Museum of Natural History, no coração do Upper West Side, onde o aluguel de um apartamento com 3 quartos nas proximidades pode custar mais de U$5 mil/mês. Inicia o domínio dos brancos americanos, as mulheres e cavalheiros com roupas e acessórios caríssimos. Até a estação da rua 34 é um entra e sai de gente bem vestida, indo e vindo para o trabalho. Dai para a frente, a fauna humana começa a mudar novamente.

Aparecem alguns orientais, indianos e paquistaneses. Os negros e latinos praticamente desapareceram. Quanto mais o trêm avança em direção ao Village, mais brancos "alternativos" ocupam espaço no trem. A partir do Village aparecem os imigrantes judeus e europeus orientais, que são a maioria no final da linha, em Coney Island no Brooklyn.

O racismo é outra marca que está em todo lugar e que me trás más lembranças. Tudo se inicia ainda dentro do avião, quando você tem que preencher o folheto da imigração. Nele você tem que se "classificar" racialmente. Nós, brasileiros, somos considerados hispânicos. Não tem alternativa no formulário. Você pode ser galego dos olhos azuis ou brasileiro filho de japoneses imigrantes. Não tem jeito. Você é hispânico. Lembro de um colega do Rio Grando do Sul que chegou no balcão da imigração e tentava explicar que ele era brasileiro, mas gaúcho. Não era hispânico.

Não sei por que os americanos dão tanto valor à raça. Talvez por que os brancos queiram deixar claro para você quem você realmente é. Branco, só se for puro. Nem mesmo os brancos da europa oriental são considerados brancos, são eslavos. Branco de verdade só se for inglês, alemão, holandês, francês. Italiano não é branco, é latino por causa da língua.

Depois que você desembarca e tenta levar a vida normal de um residente temporário, tendo que lidar com a burocracia, a coisa só piora. Até para abrir conta em banco você tem que deixar claro sua raça. Até o meu último dia, como estudante, tive que conviver a contragosto com a "pecha" de hispânico e não brasileiro. Não que eu seja branco, aliás nunca fui identificado "a olho" por futuros colegas ou estranhos como brasileiro. Para quem me via a primeira vez eu era um indiano sem tirar nem por nada. As pessoas só tinham a certeza que eu não era dessa raça quando eu falava. Não dava para imitar o sotaque carregado dos indianos.

Segregação
A última má lembrança que carrego de NY aconteceu no dia em que fui depositar as cópias da minha tese de Doutorado na CUNY (City University of New York), que fica na 5th Avenida, em frente ao Empire State Building, um lugar extremamente agradável de se ir. Havia um formulário a ser preenchido. E lá estava, mais uma vez, a pergunta que eu tanto odiava: Marque qual raça melhor se aplica para você. Para mim, acreano, brasileiro, latino americano, só tinha uma opção: hispanic.

Não dava nem para colocar outra por que não havia espaço. Criei coragem e perguntei para a educada senhora de meia idade - loira de olhos azuis - que me atendia: "Porque que tenho que fazer isso?" Ela olhou para mim, como que entendendo o meu drama e disse:

- Esta pesquisa é para o seu bem. Precisamos saber quem você realmente é, de onde veio. Além disso, a lei exige, ela apenas quer dar oportunidade igual para todos.

Saí de lá pouco convencido com a explicação que ouvi. Fora do prédio, parei na calçada para admirar o Empire State e observar as pessoas passando. Comecei a caminhar lentamente e cheguei à conclusão que ela estava certa. O único problema é que ela era branca. Se eu estivesse sido atendido por um negro ou hispânico, teria me sentido mais confortável e compreendido de imediato a mensagem por trás da explicação. Teria encarado a classificação racial como "a união que faz a força" e não "a segregação que divide para a manutenção do status quo".

(*) Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e do Herbário do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, além de dono do
blog Ambiente Acreano

COCAÍNA E MADEIRA


Muito oportuna a viagem do governador Jorge Viana ao Peru liderando uma caravana de prospeção de negócios, integrada por 70 políticos e empresários.

São necessários realmente esforços para diversificar a pauta de exportação até agora desenhada para se intensificar quando for concluída a Estrada do Pacífico.

Temos muita madeira e os bolivianos e peruanos muita cocaína.

Outros governadores fracassaram ao percorrerem o mesmo roteiro com suas caravanas plenas de diversão e promessas.

Participei de uma delas, liderada pelo aventureiro Zamir Teixeira, que se apresentava como "senador suplente" e foi ovacionado nas ruas de Arequipa e Mollendo.

- A política no Acre não é mais para amadores - sentenciou Zamir Teixeira quando chegou ao Acre. Esse foi seu único prognóstico acertado.

"La pedrada de Piedrafita":
Altino, li teu post de hoje sobre a madeira e a coca. Achei bem semelhante ao meu argumento, em Pucallpa, em julho do ano passado, para contestar a necessidade de construção da estrada Pucallpa-Cruzeiro. Hoje, quais seriam os principais produtos de exportação do Acre e do Ucayalli? Deste último, pasta base de coca. O nosso, madeira extraída ilegalmente pelos próprios peruanos, que portanto nada deixam para as populações locais ou para os cofres públicos. Meu argumento gerou um certo mal-estar nos brios nacionalistas peruanos e um grande incômodo em relação à minha pessoa. A polêmica foi parar no jornal lá de Pucallpa, sob o título "La pedrada de Piedrafita". Só para você dar uma risada, envio, anexa, essa nota, publicada, se não me engano, numa separata do jornal Regional, de Pucallpa.


Abração,
Marcelo Piedrafita Iglesias
Rio de Janeiro - RJ

Eis a nota:

"Marcelo Piedrafita, da Comissão Pró-Índio do Acre e membro do Museu Nacional do Rio de Janeiro, logo ao dissertar sobre o tema Corredor Ecológico da Amazônia Ocidental", a título pessoal, segundo ele, perguntou para que Ucayali quer uma estrada até o Estado do Acre.

Os presentes na reunião de trabalho sobre a conservação da biodiversidade fronteiriça, no momento que Piedrafita fazia uma série de interrogações, sobre para quê uma estrada, uns mostraram cara de vergonha, outros queriam responder e poucos realmente compreendiam a que se referia com suas perguntas.

Em dado momento, energicamente disse que a estrada era impossível, argumentando que não havia razão alguma porque Peru só poderia exportar droga e de seu país poderia vir a Ucayali madeira extraída ilegalmente.

O que dirão agora as autoridades e a própria população ucayalina frente a esta posição deste profissional uruguaio-brasileiro?"

terça-feira, 25 de outubro de 2005

ACABOU!


Altino:

Se quiser, pode publicar este texto de despedida da Artionka, filha do Capi, indignada com a cassação do pai e também da mãe, que se despedem hoje do Congresso Nacional. Os dois são vítimas de armação vergonhosa do PMDB do Amapá com apoio dos caciques do partido em Brasília.

Sugiro que publique com o título: ACABOU! Estou enviando uma foto da Artionka com o pai, o agora ex-senador João Alberto Capiberibe. A mãe, deputada federal Janete Capiberibe, está sendo substituida por Jurandil Juarez (PMDB), politico de folha corrida sujérrima. Eles venceram em pleno governo Lula.

Elson Martins - jornalista em Rio Branco (AC)


Caros amigos,


Acho que agora finalmente acabou, pelo menos para o meu pai. Hoje à tarde, a plenária do Senado protagonizou uma sessão histórica. Os senadores presentes, quase por unanimidade, apelaram ao presidente do Senado Renan Calheiros que permitisse a Capiberibe o amplo direito à defesa.

Das 14h30 às 20h30, senadores de todos os partidos políticos se revezaram na tribuna argumentando em defesa da Constituição, citando a história de vida dos meus pais e o trabalho e seriedade deles em suas atuações no Congresso. Foi a maior homenagem que meu pai poderia receber.

Os discursos não tinham um tom corporativista, os argumentos eram em favor de um Estado de direito, mas movidos pela figura de retidão e competência com que Capiberibe é visto por seus pares.

Porém, os argumentos e apelos dos 24 senadores nada adiantaram frente a um presidente do Senado comprometido com outros valores, que não vale a pena mencionar aqui.

Amanhã o Senado vai dar posse a Gilvan Borges (PMDB), ex-senador que já teve a honra de ganhar o prêmio "pinico de ouro" por sua atuação no Senado na defesa de Luis Estevão, dos cartolas da CBF e por achar e declarar que tem o direito de contratar como assessoras parlamentares sua mãe, porque o "pariu", e sua mulher, porque "dorme" com ele.

Devo desabafar que estou de certa forma aliviada, porque o tormento da morte lenta acabou. O processo da minha mãe na Câmara continua tramitando. Lá, lhe foi assegurado o direito à ampla defesa.

Caso queiram assistir o que se passou hoje no Senado, a TV Senado reprisa a plenária, a partir das 21h30, imagino que a discussão deva começar cerca de 22h15 e o discurso final do meu pai como senador deve ir ao ar por volta 3 horas da manhã.

Muito obrigada a todos aqueles a quem venho incomodando desde o começo desse processo e que sempre prestaram sua solidariedade.

Um abraço,

Artionka

AMAZÔNIA


Durante viagem de cinco dias, acompanhado de ativistas do Greenpeace, o fotógrafo Daniel Beltra fez novas imagens chocantes da seca que atinge o Amazonas.

- Nós subimos o rio Madeira e descemos o Purus. Nas cabeceiras, a situação já melhorou. Em Tefé, no Solimões, a água já está subindo, mas o lago está seco, seco, seco. Na cheia a cota atingiu 14,64m, mas neste ano, com a seca, marcou 1,10m - afirma o jornalista André Muggiati, assessor do Greeepeace na Amazônia.


A forte seca que afeta a Amazônia pode ser o aviso que o País e o mundo precisavam para enfrentar de vez as causas que podem condenar a maior floresta tropical do planeta ao desastre: o desmatamento descontrolado e o aquecimento global. Estaríamos já às portas de um triste futuro ou trata-se de um fenômeno conjuntural?

Ativistas do Greenpeace têm visitado e documentado algumas das áreas mais afetadas pela seca no estado do Amazonas. A visão é dramática: grandes rios, lagos e várzeas atingiram seu nível mais baixo em muitas décadas e, agora, não passam de pequenos córregos de lama.

Veja a seguir um balsa encalhada no Solimões há dois meses, o canal de um lago repleto de peixes mortos...

Essas fotos foram distribuídas hoje ao mundo pelo Greenpeace. Desnecessário legendá-las.

IMPRESSIONANTE


Estou impressionado com o recorde de comentários decorrentes da nota publicada neste blog na sexta-feira a respeito da bailarina Nine Ricciardi Rocha, 19, que foi aprovada numa seletiva em São Paulo para concorrer no Youth American Grand Prix, em Nova Iorque, com os 300 melhores jovens alunos de ballet do mundo.

Amigos e amigas da bailarina acreana, que começou a dançar tarde, aos 15 anos, têm enviado mensagens de diversas partes do mundo se solidarizando com a luta dela em busca de patrocínio para seguir carreira.

Estou impressionado, ainda, com os erros contidos na reportagem publicada hoje no jornal A Gazeta, assinada pela editora Silvânia Pinheiro. O título "Pedra rara no ballet", convenhamos, é de gosto questionável, mas o pior mesmo é afirmar que "Stephanine Ricciard Rocha conquista o título de uma das melhores dançarinas do mundo". Essa Gazeta...

Continuo torcendo para que a Fundação de Cultura do Governo do Acre ou alguma das empresas que prosperam com a exploração das riquezas da região se sensibilizem com a história da obstinada Nine Ricciardi Rocha. A família dela já recebeu sinal do casal Tião Viana (senador) e Marlúcia Cândido (arquiteta), disposto a colaborar e a convencer mais pessoas a fazerem o mesmo.

Comentário do Anísio Rocha, pai da Nine:
"Ainda em agradecimento, quero dar meu testemunho de quanto é importante a realização de um sonho. Minha "Moça" Stephanine está começando a realizar o seu. Como pai, me vejo há 25 anos atrás, quando morava em Cruzeiro do Sul, jogando futebol pelos clubes Cruzeiro e depois Náuas. Tinha um sonho de jogar futebol na capital, Rio Branco. Os clubes Rio Branco, Juventus e Vasco da Gama foram jogar algumas vezes por lá, joguei contra os mesmos, aquilo me realizava, era o máximo para mim, Altino! Coloquei na cabeça que um dia meus pais teriam de deixar ou ir comigo para Rio Branco jogar futebol. Não comentava com ninguém este sonho, guardei até surgir a grande oportunidade. Ela surgiu quando o Vasco foi jogar lá, em 1973. No jogo, chamei atenção de seu presidente e técnico, me convidaram para jogar no clube, pedi que falassem com meus pais, acertamos tudo, fui para a capital jogar futebol, mas, sem esquecer os estudos. Realizei meu sonho, amigo Altino, minha filha quer conseguir o seu. Iniciou quando chegou a comentar conosco, que um dia sairia de Rio Branco para se tornar uma bailarina profissional. Foi um choque para nós. Entendemos e passamos a compreender que este era seu sonho e tínhamos que torná-lo realidade. Assim como eu tive o meu, agora chegava a sua vez. Então Altino, é isso. A vida é um vai e volta constante!! Mais uma vez, em meu nome e de Marystela, agradeço pelo incentivo que prestas a minha Stephanine, ela saberá honrar da melhor forma. Anísio".

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

SANHAÇU-AZUL


Há três anos, quando a casa ficou pronta, eles invadiram a varanda em busca de um ponto seguro para construir ninhos. Fracassaram durantes vários dias, pois o vento derrubava minúsculos galhos secos, fios de algodão, ramos, recortes de folhas secas de bananeira e capim.

Mas a confluência de duas vigas de cumaru-ferro, no beiral em frente à porta da cozinha, se mostrou suficientemente firme para abrigá-los. Seis gerações já nasceram, bateram asas e voaram do mesmo ninho.

Servimo-lhes banana e mamão durante o período de estiagem, quando se divertem com suas cantorias nos pés de mangueira e de laranjeira. Agora, com as primeiras chuvas, começa um novo ciclo de reprodução.

Acendi a luz fluorescente dos fundos da casa, aproximei a máquina e seu olhar se revelou manso.

Logo dois filhotes vão nascer e piar bastante enquanto estiverem sendo alimentados pelos pais. Vão começar a bater asas e se prepararem para o primeiro vôo rumo à mangueira ou laranjeira.

E vão voltar outras vezes para se multiplicarem no conforto e segurança daquele ninho. Será que são os pais que voltam sempre para o mesmo ninho? Ou são os filhotes após alguma comunicação dos pais?

O importante é que os sanhaçus-da-Amazônia (Thraupis episcopus) invadam, cantem, reproduzam e voem livres quando bem entenderem lá no fundo, no cantinho direito de nossa casa.

CASA TXAI

CENA ACREANA


Os antropólogos Terri Vale de Aquino e Malu Ochoa, o governador Jorge Viana e o presidente da Fundação Cultural Francisco Gregório durante a "solenidade" de assinatura de um convênio que envolve o governo do Acre, a Comissão Pró-Índio e a Casa Txai - Centro de Documentação Cultural dos Povos Indígenas.

Terri Aquino e Gregório dividiram o conforto de uma rede artesanal, de algodão, confeccionada pelos índios kaxinawá. A Casa Txai, que está aberta ao público para pesquisa, abriga o acervo de 30 anos de trabalho do antropólogo Terri Aquino.

Quer saber quem é o Txai Terri Aquino? Clique aqui.

domingo, 23 de outubro de 2005

JANELA PARA O PASSADO



Texto: Alceu Ranzi
Fotos: Sérgio Vale

Meu curso superior foi geografia. Um dos muitos ensinamentos da Geografia Física é o estudo das paisagens. Entre outras paixões, sou um apaixonado pelas paisagens. Um dos meus choques no Acre, no início da década de 1970, foi a falta de locais elevados para observar a paisagem amazônica. Sentia opressão pela ausência de espaços com horizonte. Sentia falta dos campos abertos e das coxilhas do Rio Grande do Sul.

Para compensar, em todas as viagens aéreas, comuns na Amazônia, a janela do avião era o meu lugar favorito. Em mais de 30 anos sobrevoando a Amazônia Ocidental, no tempo em que não havia vôos noturnos, a janela do avião foi o meu observatório: árvores, florestas, lagos, rios, igarapés. Só depois pude entender o significado das "cicratizes" na monotonia da floresta.

Letra de palmeiras em forma de U, lagos de meandro distante dos rios, cores diferentes de vegetação formando linhas, sugerindo o leito de um rio e manchas de campo no meio da floresta. Acompanhei do alto a abertura das estradas e a transformação da paisagem de floresta para campos de criação de gado.

Há pouco tempo, em uma dessas viagens, a surpresa! Observei desenhos geométricos de grandes dimensões, escavados no solo, em áreas de campos artificiais. Quadrados, círculos, hexágonos, octógonos, círculos dentro de quadrados, quadrados dentro de círculos, linhas únicas, linhas paralelas....

Questões foram formuladas e ainda não respondidas. Quem? Quando? E qual a razão de um povo construir os agora denominados geoglifos?

Estas figuras passaram a ser observadas depois do corte raso e queima da floresta para a formação de pastagens. A floresta dando lugar ao capim africano e ao gado indiano. Não sou arqueólogo, mas um geógrafo, observador de paisagem, que passou boa parte de sua vida acadêmica estudando os fósseis encontrados nas barrancas dos rios do Acre.

Tanto do estudo dos fósseis de animais pastadores, quanto das inferências sobre a construção dos geoglifos, surge uma resposta: a floresta nem sempre esteve presente no Acre. E o Acre, historicamente, foi totalmente recoberto de floresta.

São dois momentos. O tempo da extinção da megafauna dos animais pastadores, conhecidos apenas pelos restos fósseis, algo como 10 mil anos. E o tempo dos construtores dos geoglifos, algo aproximado de mil anos.

Os fósseis nos dizem que em muitos intervalos de tempo, até 10 mil anos passados, o Acre comportava animais pastadores, mastodontes, preguiças gigantes, toxodontes (extintos), lhamas e vicugnas sobreviventes nos Andes. O Acre então era uma grande savana ou com grandes espaços de savana e clima mais seco e mais frio.

Os geoglifos, por outra parte, nos dizem que há mais ou menos mil anos passados, habitou no Acre um povo hábil, com conhecimento de geometria, capaz de construir fantásticas obras de engenharia, cujos vestígios na paisagem são os geoglifos espalhados pelas atuais fazendas do Acre.

Na época dos construtores dos geoglifos, o Acre passava por mais um tempo de savanas. Parece improvável construir os geoglifos no meio da floresta. Seria praticamente inviável enfrentar os troncos e as raízes dos gigantes botânicos da Amazônia.

Estudar os animais extintos, especialmente os geoglifos, pode ser um caminho para entender as alterações climáticas acreanas. Depois da seca e das queimadas de 2005, falar em savanização do Acre soa mais plausível do que há alguns anos, quando as únicas luzes para o passado eram as friagens, os fósseis e os geoglifos.

A datação das árvores que estão sendo derrubadas e serradas no Acre, indicam uma idade de aproximadamente 800 anos. Será que estamos derrubando as árvores que se instalaram com a floresta que substituiu a savana depois da construção dos geoglifos?

A nova paisagem do Acre continua dominada pela floresta, mas nota-se também os campos de capim plantado. Nos campos, os fantasmas esqueléticos das castanheiras em pé. Observando os campos com atenção, além das tropas de gado nelore, vemos os geoglifos, uma luz para entender o passado pré-histórico do Acre.

Quando o vôo é diurno, continuo a escolher a janela para o passado.

Nota do blog: Acordei hoje com saudade do meu amigo Alceu Ranzi, a quem logo enviei uma mensagem solicitando que se mantivesse como ativo colaborador desse blog.
Ranzi é doutor em Wildlife Ecology pela Universidade da Flórida, professor associado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina e no Programa de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais da Universidade Federal do Acre. Ele atendeu meu pedido enviando esse belo artigo e fotos inéditas dos geoglifos feitas por outro amigo nosso, o Sérgio Vale. Além dos geoglifos, as fotos revelam linhas e caminhos. O geogligo, com círculo duplo e praça interna na foto acima, está localizado na propriedade do "seu" Chiquinho, na BR-317. Quem quiser saber mais a respeito de Alceu Ranzi e dos geoglifos deve clicar aqui. Clique sobre as fotos para visualizá-las melhor.

FAZENDA QUINAUÁ


Círculo com linhas paralelas na fazenda Quinauá, na BR-364

FAZENDA BAIXA VERDE


Quadrado parcialmente destruido, na fazenda Baixa Verde, na BR- 317

FAZENDA ATLÂNTICA


Conjunto geométrico na Fazenda Atlântica, na BR-364